O sono na adolescência: Especificidades

Sono na adolescência

Há uma diferenciação entre o sono das crianças mais novas e o sono dos adolescentes, tanto no que diz respeito à sua duração em termos de número de horas por noite, quer em termos da sua própria estrutura (Carskadon, 2010; Giannotti & Cortesi, 2010).

As crianças mais novas tendem a dormir um maior número de horas enquanto os adolescentes tendem a adiar progressivamente a hora de deitar, resultando num declínio da duração do sono, acabando estes por dormirem muitas vezes menos do que seria aconselhável. Vários estudos referem, que à medida que caminham da infância para a adolescência também as preferências dos jovens em relação à hora do dia para desenvolverem actividades vão mudando, ou seja, as crianças mais pequenas preferem as manhãs para as suas actividades e os adolescentes mostram uma tendência para horários mais tardios (Andrade et al., 1993; Carskadon, Vieira, & Acebo).

É também na adolescência que se verifica um aumento do desejo de independência, a assunção de novos papéis sociais, o aumento da pressão dos pares, das responsabilidades académicas e das possibilidades de actividades extra-curriculares, mas também a diminuição do controlo parental.

Sono dificuldadesAs influências psicossociais e a evolução dos sistemas bio-reguladores que controlam o sono parecem limitar a capacidade dos adolescentes para fazerem os ajustes adequados a um horário escolar tradicionalmente matutino.

Factores como estímulos ambientais (ver televisão, jogos de vídeo e a utilização do computador ou do telemóvel) podem manter os jovens acordados até muito tarde, e levar à alteração dos padrões do sono, nomeadamente ao atraso da hora de dormir. Adolescentes com televisão no quarto, tendem a ir dormir mais tarde, a apresentar um período de latência para adormecer mais alargado e a dormir menos horas do que aqueles que não têm televisão no quarto (Shochat, Flint-Bretler & Tzischinsky, 2010). Também os jovens que passam mais tempo à noite a utilizar dispositivos electrónicos, se deitam significativamente mais tarde durante a semana e durante o fim-de-semana, levantam-se mais tarde em dias de semana e relatam níveis mais elevados de cansaço (Van den Bulk, 2004).

No entanto, o atraso na hora de dormir pode também ser justificado por alterações fisiológicas, que correspondem a mudanças de maturação e que se iniciam na puberdade (Jenni & Carskadon, 2004). Os ritmos circadianos mudam devido e a alterações neurológicas e hormonais como por exemplo a secreção de melatonina, que passa a ter o seu pico de libertação mais tardio, levando ao atraso da sensação de sono no adolescente. Parece haver alguma evidência de que estas mudanças podem ter um papel mais relevante nas alterações dos padrões do sono do que os factores psicossociais (Carskadon, Vieira, & Acebo, 1993).

Problemas de sonoA privação do sono parece ter lugar de destaque no quotidiano dos adolescentes. Num estudo de 1998 com adolescentes americanos, Wolfson e Carskadon referem que apenas 15% dos adolescentes relataram dormir oito horas e meia ou mais, em dias de semana e 26% dos participantes referiram dormir habitualmente apenas seis horas e meia ou menos, em dias de escola. Segundo os mesmos autores, os adolescentes deveriam dormir cerca de nove horas por noite, no entanto o que se verifica, por algumas das razões já apontadas, é uma diminuição das horas de sono durante a semana e um aumento ao fim-de-semana. Também Noland, Price, Dake e Telljohann (2009), numa investigação sobre os comportamentos de sono dos adolescentes, concluíram que 91,9% dos jovens referiam dormir menos de nove horas em dias de escola e destes, 10% referiam dormir menos de seis horas, reportando estes últimos, níveis de stresse mais elevados. Em Portugal, um estudo conduzido por Paiva, Gaspar e Matos (2015), com adolescentes com idades compreendidas entre os 12 e os 19 anos, aponta para uma prevalência de 18,9% de privação do sono. Neste grupo a prevalência de queixas de saúde foi maior, comparativamente aos restantes participantes, especialmente dores nos ombros e pescoço, fadiga e tonturas.

Sono na adolescênciaDurante a adolescência a discrepância entre o sono dos dias de semana e a do fim-de- semana tende a aumentar acentuadamente (Carskadon, 1990; Moseley & Gradisar, 2009). Durante a semana, os horários escolares obrigam a acordar mais cedo, reduzindo o tempo na cama e as horas de sono, porém, a necessidade de sono não diminui no decorrer da adolescência (Mesquita & Reymão, 2007). Assim, o tempo insuficiente de sono em dias de semana tende a ser compensado sobretudo nas manhãs do fim-de-semana. Prolongar o sono ao fim-de-semana pode reflectir um processo de “recuperação” que os jovens utilizam para compensar o défice acumulado de sono em dias de semana (Crowley & Carskadon, 2010; Matos, Gaspar, Tomé & Paiva, 2015).

Durante a última década, a sonolência diurna excessiva entre crianças e adolescentes tem sido identificada como uma preocupação social. A evidência empírica indica que crianças e adolescentes experienciam uma significativa sonolência diurna como resultado de um sono inadequado ou perturbado. Os efeitos específicos da sonolência em domínios funcionais nestes grupos etários são ainda pouco estudados mas os dados existentes sugerem que estes indivíduos revelam vulnerabilidades nos domínios comportamental, estado de humor e desempenho (Fallone, Owens & Deane, 2002) assim como mostram ter maior dificuldade em controlar as emoções e um risco de acidentes aumentado (Spilsbury, Drotar, Rosen. & Redline, 2007).

Dificuldades de sono do adolescenteIndependentemente das mudanças no que diz respeito aos horários do sono, na adolescência, a sonolência diurna parece estar também relacionada com mudanças na maturação do cérebro. Antes da puberdade, ao aumento do número e do volume das sinapses, segue-se uma extensa perda, a poda sináptica, sendo um período de reconfiguração cerebral (Machado, 2015). O processo de reorganização das conexões neuronais parece fazer diminuir os níveis de excitação do despertar, ou seja, a atividade cerebral ao acordar diminui de intensidade, permitindo que surja a sonolência diurna (Campbell et al., 2007).

Um estudo de Andrade et al (1993) indica que 60% dos adolescentes referem sentir sonolência diurna, principalmente entre as 8 e as 10 horas da manhã e as 14 e as 16 horas da tarde, nos dias de aulas. A sonolência matinal em dias de aulas ocorre, neste caso, num período em que normalmente estes jovens referem estar a dormir aos fins-de-semana.

Os resultados de uma outra investigação feita com estudantes portugueses, sugerem que um número significativo de adolescentes dorme menos do que as oito ou nove horas aconselháveis, ou seja, 44,5% relatam dormir sete horas ou menos em dias de semana e em contrapartida, cerca de 68,8% dos jovens referem dormir nove ou mais horas ao fim-de-semana (Matos et al., 2015). Este fenómeno deve-se também à diminuição do controlo parental, pois uma das áreas em que o adolescente adquire autonomia é na decisão sobre a hora de deitar (Carskadon, 2011).

À medida que as crianças vão crescendo, e entram na adolescência, o modo como os pais exercem a sua influência sobre eles muda e o controlo parental, no que diz respeito aos horários de deitar, tende a diminuir também. Um estudo de Wolfson & Carskadon (1998) com jovens entre os 13 e os 19 anos revela que apenas 5% dos adolescentes mais velhos têm o horário de deitar em dias de semana, estabelecido pelos pais.

Sono adolescenteTambém o despertar, na adolescência tem a sua especificidade. A duração do sono tende a mudar, e não só o adormecer se torna tendencialmente mais tardio, como a mesmo ocorre com o acordar (Carskadon, 1999). Os jovens com autonomia para ficarem acordados até tarde acabam por dormir menos e de necessitar de intervenção externa para despertar, quando precisam de se levantar cedo (Carskadon, 2011).

Assim, as principais características do sono dos adolescentes incluem deitar mais tarde, padrões de sono irregular, períodos de sono insuficiente e sonolência diurna.

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