Desenvolvimento psicomotor: entre o “normal” e o “anormal”

Desenvolvimento psicomotor

A normalidade do desenvolvimento psicomotor é definida pelos limites da idade em que a criança faz as suas diversas aquisições e pela qualidade das mesmas.

Podemos considerar normal ou normativo um desenvolvimento psicomotor em que a criança adquire as suas competências dentro da idade determinada, mas também pela adequação da sua funcionalidade. Porém, a definição de normalidade ou de anomalia não é determinante, isto é, não há um limite ou uma fronteira bem definida da idade normativa de aquisição dessas mesmas competências. O que é normal ou não, situa-se num contínuo, e, se corresponde àquilo que acontece habitualmente, no que diz respeito ao neurodesenvolvimento não é diferente. Assim, como exemplo, em termos de aquisições e de competências, a aquisição da marcha ocorre em média por volta dos 15 meses, sendo também normal que aconteça entre os 9 e os 18. Deste modo, e uma vez que esta definição se baseia em observações nas quais se verifica que os bebés começam a andar até aos 18 meses, passando este limite, habitualmente observam-se outras alterações do desenvolvimento psicomotor, como por exemplo o atraso do desenvolvimento da fala.

Desenvolvimento infantilPodemos ter com base nos estudos estatísticos, uma noção relativamente clara da normalidade e da variação em que se fazem as aquisições do desenvolvimento psicomotor, dos sinais de alarme e daquilo que se pode considerar anormal. As aquisições psicomotoras são fortemente influenciadas pela estimulação e pelas experiências de vida que são, ou não são, oferecidas às crianças. Assim, o papel da família e dos cuidadores é fundamental para que as referidas aquisições ocorram dentro da idade esperada. Voltando ao início da marcha, uma criança pode adquiri-la dentro da idade considerada normal, porém, o modo como o faz pode ser de tal modo peculiar que provoque uma alteração da funcionalidade. Neste caso, estaremos perante uma alteração qualitativa do desenvolvimento. Nas Perturbações do Espectro do Autismo de Alto Funcionamento, as alterações da linguagem são outro exemplo de alterações qualitativas do desenvolvimento psicomotor. Nestas crianças a linguagem pode até ser correta e bem articulada mas os conteúdos podem ser desadequados, dificultando a comunicação e as interações sociais, perturbando assim a sua funcionalidade.

Desenvolvimento psicomotorQuando a distância em relação à norma é grande, é mais fácil avaliar a situação, mas quando as crianças apresentam competências no limiar do que é considerado normal, torna-se difícil definir normalidade de forma categórica. Nestes casos é necessário classificar de forma dimensional determinado padrão de desenvolvimento, em convencional ou não convencional. Esta classificação deverá ser feita não apenas pela presença ou ausência de uma determinada capacidade, mas principalmente pelo seu impacto no funcionamento da criança, ou mais rigorosamente, se essa alteração do desenvolvimento implica ou não o recurso a medidas de apoio de algum tipo.

Desenvolvimento infantilPara se definir a normalidade, a avaliação das crianças tem que levar em linha de conta a avaliação das diversas áreas do desenvolvimento psicomotor e a avaliação das sequências ou etapas do desenvolvimento. Podemos dividir as áreas do desenvolvimento psicomotor infantil em motricidade grosseira e fina, linguagem e cognição verbal, cognição não-verbal (visão e perceção), socialização, comportamento adaptativo (autonomia) e atenção. O desenvolvimento psicomotor infantil faz-se sistematicamente por etapas determinadas e invariáveis. Na motricidade grosseira, o desenvolvimento faz-se sempre numa progressão céfalo-caudal, ou seja, o bebé começa por segurar a cabeça, depois utilizar as mãos, os pés, sentar-se, deslocar-se (ex. gatinhar), pôr-se de pé, andar e por fim correr. O desenvolvimento motor também se faz numa sequência de movimento global para particular, isto é, de movimentos generalizados e pouco precisos, que envolvem todo o corpo, para movimentos especializados, unilaterais e finos, orientados com lateralidade e precisão e com crescente complexidade, ao longo do desenvolvimento.

A normalidade do desenvolvimento psicomotorNo que diz respeito ao desenvolvimento da linguagem existe um desfasamento de tempo entre aquilo que a criança compreende e a sua expressão verbal. As crianças pequenas conseguem entender muito mais do que aquilo que conseguem expressar. Seja qual for a sua língua nativa, todas as crianças têm o mesmo tipo de vocalizações, no entanto, a partir dos 6 meses começam a utilizar sons específicos da sua língua. A aprendizagem da leitura e da escrita é considerada a elaboração mais fina da linguagem. Esta evolui em paralelo nos seus diversos componentes, tais como a articulação, o vocabulário, o significado, a gramática e a pragmática. Também em relação à linguagem se pode fazer uma apreciação quantitativa ou qualitativa das competências da criança. Na articulação sabe-se que no início a criança comete muitos erros, o que faz com que a linguagem só se torne mais compreensível por volta dos 3 anos e sem erros de articulação apenas aos 5 anos. As outras dimensões da fala e da linguagem, como a utilização dos nomes, a construção das frases e a conjugação dos verbos, são progressivamente adquiridas e desenvolvidas à medida que a criança cresce. Também na evolução da pragmática, a criança, ao ultrapassar etapas vai evoluindo na socialização e vai adequando o seu discurso e vocabulário aos pares com quem interage e aos acontecimentos e situações em que se encontra.

Desenvolvimento psicomotorTodas as crianças deverão poder beneficiar de um acompanhamento médico nas consultas de saúde infantil, com o objetivo, entre outros, de rastrear possíveis perturbações do neurodesenvolvimento, de modo a que seja possível referenciar para outras especialidades, de forma precoce, sempre que alguma anomalia é detetada. Esta referenciação precoce visa a intervenção, o mais cedo possível, para que a criança possa desenvolver da melhor forma as suas competências, aproveitando os benefícios de o fazer numa fase inicial. A intervenção poderá passar por diversas especialidades, consoante as dificuldades observadas na criança, podendo passar pela fisioterapia, terapia da fala ou psicologia, entre outras. Esta intervenção deverá ser específica para o perfil funcional da criança, com a finalidade de potenciar o seu funcionamento e maximizar as suas capacidades, no sentido da promoção da autonomia.

 

 

 

Fontes:

Gillberg., Harrington, R., Steinhausen, H.C. (2006). A Clinician’s Handbook of Child and Adolescent Psychiatry. Cambridge: Cambridge University Press.

Snowling, M, J., Stackhouse, J. (2006). A Practitioner’s Handbook of Dyslexia Speech and Language.2nd ed. London: Whurr Publishers.

 

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