Crianças e violência: riscos e consequências

Crianças e a violênciaA violência infantil apresenta-se como um factor de risco para o desenvolvimento de problemas emocionais e de comportamento, podendo ter como consequência o desajuste escolar, familiar e/ou social.

A violência é um problema social e pode estar presente na vida das nossas crianças de formas distintas. Os abusos físicos como bater, empurrar ou abanar as crianças são uma prática ainda muito comum em muitas famílias. Do mesmo modo, o abuso verbal como gritar, ameaçar, ridicularizar, humilhar ou intimidar é muitas vezes a forma de tentar corrigir comportamentos desadequados da criança ou de os punir. O abuso sexual, definido como qualquer contacto ou interação com a criança para estímulo ou gratificação sexual do adulto, é outra realidade mais frequente do que se poderia pensar. De um modo diferente, a negligência é outra forma de violência contra a criança. Não atender às suas necessidades básicas (alimentação, abrigo, assistência médica) ou necessidades emocionais (segurança, confiança, carinho) é uma forma de violência contra as crianças, que pode ser tão grave como qualquer outra. Torna-se dramático o facto de que muitas vezes os agressores das crianças são os seus próprios pais ou cuidadores, precisamente aqueles em quem a criança deveria poder confiar e ter como porto de abrigo.

Crianças agredidasAs crianças, fantásticos seres em desenvolvimento, estão em aprendizagem constante, e, como tal, também aprendem com a violência. Aprendem por observação e por imitação das pessoas que as rodeiam, através das suas brincadeiras e aprendem com as suas experiências pessoais – boas ou más. Os primeiros anos de vida constituem um período crucial para o desenvolvimento. Ocorrem no corpo e no cérebro mudanças significativas que permitem que as crianças experienciem novas situações, que, por sua vez, vão também influenciar o modo, mais ou menos funcional como o corpo e o cérebro se vão desenvolver. O cérebro tem também áreas específicas para determinadas aprendizagens, desenvolvendo-se de modo sequencial. Uma das últimas áreas do cérebro a desenvolver-se é a responsável pelo pensamento abstrato e pela capacidade de planeamento, sendo a última a área responsável pelo controlo das emoções, o sistema límbico, cuja completa maturidade acontece já em idade adulta (cerca dos 24 anos). Nos primeiros anos o cérebro desenvolve-se com maior rapidez e as experiências, ou a falta delas vão ativar ou desativar as diferentes áreas cerebrais. É nesta fase que as crianças desenvolvem a capacidade de terem sentimentos, de começarem a compreender o que acontece nas suas vidas, de se relacionarem, de comunicarem e de confiarem.

Fatores de risco para a violênciaSão vários os fatores de risco para a violência infantil. Os fatores individuais têm a ver com o temperamento, genética, possíveis perturbações do Neurodesenvolvimento e com fatores como a exposição ao álcool ou outras drogas. Os fatores de risco familiares referem-se a estilos e práticas educativas parentais, ambiente familiar (ex. pais com psicopatologia ou toxicodependentes). Os fatores de risco comunitários relacionam-se com o ambiente do bairro, o acesso a armas ou o isolamento social e a falta de serviços sociais, por exemplo. São ainda de referir os fatores de risco sociais, como a pobreza, o racismo, a descriminação ou a violência nos meios de comunicação social.

AgressãoAs crianças podem ser vítimas de violência, quando são elas o objeto de agressão ou de atos violentos. Podem ser testemunhas, quando assistem a atos violentos cometidos por outros, ou agressoras se são elas próprias que cometem esses atos. Em qualquer um dos casos as crianças ao experienciarem situações de violência, aprendem com o que vêm. Aprendem que podem resolver os seus problemas recorrendo à agressão. Existem dois tipos de agressão, a instrumental e a relacional. A agressão instrumental corresponde à utilização da força física ou ameaça para a obtenção de algo. A agressão relacional prende-se com a utilização de palavras ou gestos utilizados no sentido de prejudicar, dominar ou magoar alguém. O comportamento agressivo muda com a idade e conforme o género. A partir dos 2-3 nos começa a notar-se diferença entre os sexos, os rapazes utilizam tendencialmente mais vezes a violência física/instrumental e meninas usam mais frequentemente a violência verbal/relacional.

AgressãoAs consequências da exposição das crianças a violência são várias. Podem ser a nível físico, como o caso dos hematomas, arranhões, fraturas ou, no limite, a incapacidade ou a morte. Por vezes, na idade adulta, pessoas que foram exposta à violência em crianças, podem desenvolver problemas cardíacos, pulmonares ou do fígado, assim como poderão revelar maior propensão para o abuso de substâncias como o álcool ou outras drogas. Ao nível emocional ou psicológico, as crianças expostas à violência têm um maior risco de depressão, problemas de ansiedade, dificuldades de sono e problemas alimentares. Estas crianças podem perder a confiança naqueles em quem deveriam poder confiar e amar, o que pode conduzir a sentimentos de rejeição e abandono. Podem passar a percecionar o mundo como perigoso e assustador, tornando-se elas próprias violentas, podendo ainda mais tarde, na adolescência, desenvolver comportamentos de delinquência e consumos desadequados. As consequências para o desenvolvimento também não são menos importantes. Nos primeiros anos a violência pode alterar o normal desenvolvimento do cérebro das crianças. Viver a infância num ambiente de constante stresse devido à exposição à violência, faz libertar sustâncias químicas no cérebro que comprometem o saudável desenvolvimento das células neuronais, interferindo de forma negativa no funcionamento das diferentes áreas cerebrais.

Educar sem violênciaA grande plasticidade e recetividade do cérebro da criança pode mudar a sua estrutura para se adaptar ás diversas situações, quer sejam positivas ou negativas. Crianças diferentes têm mecanismos de adaptação diferentes. Umas podem tornar-se agressivas e desenvolver ataques de ansiedade/pânico e comportamentos de oposição e outras podem isolar-se, desligar-se, alhear-se e deixando de ter contacto com o mundo externo. As crianças expostas ao stresse podem desenvolver Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA) e impulsividade, e serem menos capazes de lidar com as exigências familiares, escolares e sociais. Nem todas as crianças expostas à violência desenvolvem sintomas ou comportamentos negativos. As características da criança, estilo parental, a frequência das situações traumáticas e a existência de mecanismos de mediação podem reduzir o risco de consequências. A maleabilidade do cérebro permite o tratamento ou cura se houver a possibilidade de oferecer à criança um ambiente de segurança, tranquilidade, previsibilidade e afeto.

Fonte:

https://www.apa.org/act/

 

 

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