Não, nem tudo vai ficar bem…

Face a esta inesperada pandemia, todos nós de um modo ou outro, estamos a sofrer com as alterações a que ela nos obriga. A adaptação ás situações adversas é uma capacidade que uns terão mais do que outros, mas é sempre difícil entender e aceitar os efeitos destes tempos conturbados nas nossas vidas.

As alterações de quotidiano impostas pela pandemia vão desde a inibição total ou parcial da expressão emocional, as dificuldades em manter o ritmo e as rotinas escolares e laborais, as limitações  nas tarefas do dia-a-dia que implicam contacto com outras pessoas, entre muitas outras que cada um poderá particularizar, consoante a sua experiência. Estas alterações obrigam a uma adaptação cognitiva, emocional e comportamental. Temos que pensar sistematicamente onde é que tocámos, que temos que desinfetar ou lavar as mãos, que temos que usar a máscara em quase todos os contextos e situações, com tudo o que o seu uso implica, quer a nível do desconforto, quer a nível da imagem ou do que falta dela.

Onde está a expressão facial tão reveladora e tão necessária de ser lida pelos outros? Onde fica o sorriso acolhedor de alguém a quem nos dirigimos e que em tantos casos é tão necessário e tranquilizador? E o medo? O medo que em algumas pessoas era já uma constante por sofrerem de algum tipo de perturbação de ansiedade e que perante a atual realidade tomou proporções tais que se tornou incapacitante da sua funcionalidade? Enfim, damos por nós a termos medo da própria sombra, a não podermos beijar os nossos filhos quando queremos ou a abraçar os nossos pais, para quem em alguns caos, a idade provecta os impede de entender tamanho afastamento.

O impacto que estas e muitas outras mudanças tem nas nossas vidas não pode ser ignorado. Para algumas pessoas que têm maior flexibilidade mental, maiores recursos socio-emocionais e instrumentais, a adaptação será mais fácil. Podem lidar com as mudanças com humor, embora preocupados, com resiliência e tolerância e com todo o cuidado recomendável. Podem substituir o contacto físico pelo contacto virtual com menor impacto nas suas emoções, podem substituir alguns comportamentos de maior risco, por outros nos quais encontrem igualmente algum prazer e  semelhante eficácia. Mas muitas pessoas não estão a conseguir lidar de forma adaptativa com esta situação pandémica. O isolamento torna-se terrível de suportar, a distância dos que lhes são queridos, inultrapassável, a máscara e os desinfetantes, insuportáveis e a simples existência torna-se difícil de tolerar.

Nunca a saúde mental foi tão posta à prova. Se a venda de antidepressivos e tranquilizantes era já preocupante no período pré-pandemia, hoje o problema assume outras proporções. O acesso aos médicos é para algumas pessoas mais difícil e o acompanhamento e ajustamento da medicação psiquiátrica torna-se mais difícil, com o consequente impacto negativo na vida de cada indivíduo. Por outro lado, parece haver uma tendência para a automedicação, muito evidente em grupos nas redes sociais. Os pedidos de ajuda psicológica ou psiquiátrica são cada vez mais notórios mas os recursos financeiros que permitem o acesso a essa ajuda, são cada vez mais escassos.

Em Portugal, a saúde mental tem vindo a ser ao longo dos tempos o “parente pobre” da medicina. A parte do Orçamento Geral do Estado que cabe anualmente a essa fatia da saúde, é sempre insuficiente e isso torna-se evidente, por exemplo, na oferta de apoio psicológico da rede pública, que revela ser pouco eficaz por falta de recursos técnicos (e tantos técnicos que há cheios de vontade de trabalhar!). E os privados, embora a sua consciência social possa favorecer o acompanhamento de algumas pessoas a “baixo custo”, não conseguem chegar a todos. A pandemia terá um efeito indiscutivelmente importante e negativo na economia mundial mas terá um impacto igualmente devastador, ao nível da saúde mental das populações.

Resta-me assim concluir contradizendo os que repetidamente afirmam que “vai ficar tudo bem”. Pois eu acho que não vai. Muitos já sofreram por terem sido infetados com o vírus e lidam hoje com as suas sequelas, outros porque viram sofrer, ou até morrer, os seus familiares ou amigos. Muitos perderam ou vão perder o emprego, a casa, as economias… Outros sim, vão conseguir passar “por entre os pingos da chuva” e não ser infetados, manterão os seus meios de subsistência, e talvez pouca coisa mude nas suas vidas No entanto, todos sentiremos de uma forma ou de outra os efeitos nefastos do medo, da insegurança e do mal-estar que esta “nuvem negra” que paira sob as nossas cabeças nos provoca e que não nos deixa sermos mais felizes. E não, nem tudo vai ficar bem…

Sugestão de leitura: https://www.ces.uc.pt/ficheiros2/sites/osiris/files/Rafael_Pecanha_Coronavi%CC%81rus%20e%20a%20denu%CC%81ncia%20das%20desigualdades_11_abril_2020.pdf

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