Perturbação de movimentos estereotipados

A perturbação de movimentos estereotipados caracteriza-se por comportamentos motores repetitivos, não atribuíveis a efeitos fisiológicos de uma substância ou condição neurológica, aparentemente dirigidos sem propósito, que interferem com as atividades sociais, académicas ou outras, e que pode resultar em lesões do próprio indivíduo.

A perturbação de movimentos estereotipados pode incluir comportamentos como sacudir ou agitar as mãos, balançar o corpo, bater com a cabeça, bater a si próprio ou até mesmo morder-se, podendo resultar ou não em comportamentos autolesivos, consoante a gravidade do caso. Consideram-se autolesivos todos os comportamentos que podem resultar em lesões se não forem tomadas medidas preventivas. Deverá especificar-se se estes comportamentos estão associados a alguma condição médica ou genética conhecida, perturbação do neurodesenvolvimento ou fator ambiental (ex. exposição intrauterina ao álcool). A gravidade desta perturbação pode ser ligeira, se os sintomas são facilmente suprimidos por distração ou estímulos sensoriais, ou moderada, se os sintomas requerem medidas protetoras e modificação explícita do comportamento.

A principal característica da perturbação do movimento estereotipado é o comportamento repetitivo estereotipado, aparentemente impulsivo e sem propósito nem função adaptativa óbvia. Estes movimentos podem ou não responder a esforços para os parar. Nas crianças com desenvolvimento típico, os movimentos podem cessar quando lhes é direcionada atenção ou quando a criança é distraída de os desempenhar. Nas crianças com perturbação do neurodesenvolvimento, os comportamentos por norma respondem menos a esses esforços. Noutros casos, os indivíduos podem apresentar comportamentos de autocontrolo e autorrestrição, como por exemplo, sentarem-se em cima das mãos ou prenderem os braços com a roupa.

Em cada caso, o repertório comportamental é variável, sendo que cada indivíduo apresenta um comportamento “personalizado”, ou seja, e por exemplo em movimentos não autolesivos, o balancear o corpo pode incluir concomitantemente um movimento de passar os dedos sobre o rosto, ou, o agitar dos braços ao mesmo tempo que balança a cabeça. Em comportamentos estereotipados autolesivos podemos encontrar indivíduos que esbofeteiam a face, pressionam os olhos ou mordem as mãos, sendo estes exemplo de apenas alguns dos comportamentos possíveis. Estes podem ocorrer várias vezes durante um dia e podem demorar apenas alguns segundos como muitos minutos. Em termos de frequência, esta pode verificar-se entre muitas ocorrências num único dia ou pode acontecer com intervalos de tempo de vários dias ou semanas entre episódios. O comportamento pode variar consoante o contexto e pode ocorrer quando o indivíduo está ocupado com outras atividades mas também quando está cansado, nervoso ou excitado. Embora aparentemente sem objetivo este movimentos estereotipados podem reduzir a ansiedade em resposta a fatores de stresse externos.

Em termos de prevalência, os movimentos estereotipados simples podem ser comuns em crianças pequenas com desenvolvimento dito normal, ao contrário dos complexos que são muito mais raros. Entre cerca de 4 a 16% dos indivíduos com perturbação do desenvolvimento intelectual manifestam estereotipias e lesões autoinfligidas, sendo maior o risco em indivíduos com incapacidade intelectual grave. Por norma, estes movimentos estereotipados têm o seu início nos primeiros 3 anos de vida, sendo que os mais simples são comuns e podem estar relacionados com a aquisição do domínio motor. Em crianças que desenvolvem estereotipias motoras complexas, a grande maioria exibe sintomas antes dos 2 anos e na maior parte das crianças com desenvolvimento típico, estes movimentos acabam por desaparecer com o tempo. As estereotipias motoras complexas podem ter o seu início na infância ou no período de desenvolvimento mais tardio. Nos indivíduos com incapacidade intelectual os movimentos estereotipados autolesivos podem persistir durante anos embora a sua tipologia possa mudar.

No que se refere aos fatores de risco para a perturbação de movimentos estereotipados, podemos destacar os ambientais e os genéticos ou fisiológicos. No que diz respeito aos primeiros, o isolamento social pode constituir-se como fator de risco para a autoestimulação, que pode progredir para movimentos estereotipados com comportamento autolesivo repetitivo. Do mesmo modo o stresse ambiental pode desencadear este tipo de comportamentos. A ansiedade e o medo podem modificar o estado fisiológico, resultando no aumento da frequência dos comportamentos estereotipados. Em termos fisiológicos e genéticos, o baixo funcionamento intelectual parece estar ligado a um maior risco para estes comportamentos ocorrerem e também a uma menor resposta à intervenção. Os indivíduos com incapacidade intelectual moderada a grave/profunda apresentam mais frequentemente estes movimentos estereotipados, em virtude de uma síndrome particular como por exemplo a Síndrome de Rett, de um ambiente com estimulação insuficiente ou também por estarem associados a síndromes neurogenéticas. Os movimentos estereotipados podem ainda resultar de uma condição médica dolorosa.

Num caso de desenvolvimento normal os movimentos estereotipados simples, podem como já foi referido, ocorrer na primeira infância, tendendo a desaparecer com a idade. As estereotipias complexas são muito menos comuns e são em regra suprimidas por distração ou estimulação sensorial, sendo que as rotinas diárias raramente são afetadas e de um modo geral, estes movimentos estereotipados não causam angustia à criança. Já nos casos de perturbação do espectro do autismo estes comportamentos podem ser um sintoma e devem ser considerados. Na perturbação de tiques as estereotipias habitualmente surgem em idade precoce (antes dos 3 anos) e antes dos tiques, que se começam a manifestar por norma entre os 5 e os 7 anos. Comparativamente aos tiques as estereotipias tendem a ser mais fixas, rítmicas e prolongadas em duração. Os tiques são tipicamente breves, rápidos, aleatórios e flutuantes.

A perturbação dos movimentos estereotipados distingue-se também da perturbação obsessivo-compulsiva (POC) uma vez que não estão presentes as obsessões mas também pela natureza dos comportamentos repetitivos. Na POC o sujeito sente-se levado a fazer os comportamentos repetitivos em resposta a uma obsessão. A perturbação dos movimentos estereotipados pode ocorrer como um diagnóstico primário ou secundário a outra perturbação. Quando ocorre com outra condição médica, ambas devem ser consideradas e avaliadas. Perante uma criança que apresente estereotipias, o clínico deverá despistar a existência de défice sensorial (nomeadamente visual), avaliar o desenvolvimento cognitivo e as interações sociais (reciprocidade das mesmas). No adolescente e adulto, o aparecimento de estereotipias deverá fazer evocar o diagnóstico de perturbações do foro psicótico. Quanto à intervenção terapêutica nas estereotipias, esta deverá incluir a desestigmatização das manifestações comportamentais, o apoio psicológico e se necessário a medicação com neuroléptico.

Fonte: Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais – Quinta Edição (DSM-V). American Psychiatric Association.

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