A criança que tem medo do escuro

O medo do escuro na hora de deitar é uma queixa relativamente comum nas crianças entre os 2 e os 8 anos de idade. O modo como os pais e cuidadores lidam com esse medo da criança poderá afetar o comportamento da criança, a sua capacidade de adormecer e a qualidade do seu sono. Compreenda porque é que as crianças têm medo do escuro e será meio caminho andado para as ajudar!

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Uma das principais causas do aparecimento do medo do escuro tem a ver com a extrema capacidade imaginativa das crianças mais pequenas. Na escuridão a mente da criança foca-se no mundo imaginário que lhe oferece imagens que ela por vezes não consegue controlar. Sem a clareza da luz, no escuro a criança perde a perceção do que a rodeia e pode ser levada a imaginar seres bizarros que a assustam. Ao invés do universo familiar que a faz sentir-se segura, a mente da criança fica à mercê do seu mundo interior, a sua imaginação, os seus pensamentos, que podem evocar imagens mentais assustadoras. Conforme o seu estado emocional, as representações mentais que lhe ocorrem podem não ser muito tranquilizadoras e provocar na criança uma ansiedade difícil de controlar. As crianças absorvem tudo o que as rodeia, a um ritmo muito rápido, e em virtude disso a sua capacidade de imaginação é enorme e promotora da capacidade criativa para idealizar coisas novas e assustadoras.

A par da capacidade criativa e de imaginação, também o mundo emocional da criança está em desenvolvimento e aos poucos ela vai vivenciando emoções negativas como a culpa, a insegurança ou a vergonha. Sentir-se insegura no escuro, ou ter de ficar num espaço com a luz apagada pode ser sinónimo de que a criança sente culpa, medo ou vergonha de algo. Em função daquilo que são as suas inquietações e as suas vivências emocionais, a criança tende a deformar as formas que consegue distinguir na penumbra, ou as suas representações mentais, de modo a identificar nelas elementos ansiogénios e perturbadores da sua serenidade. Um casaco pendurado num cabide ou numa porta pode assumir a forma de um monstro ou de um fantasma. Uma criança ansiosa pode ter tendência para projetar naquilo que vê ou que imagina, os seus maiores receios.

 As crianças em idades mais precoces estão ainda a aprender a traçar uma linha de separação entre a realidade e a fantasia. Para elas, a possibilidade de terem um “monstro” debaixo da sua cama parece não ser algo impossível. Então o que fazer perante uma situação em que a criança apresenta medo do escuro e por isso tem reações como o choro, a recusa em ir deitar, a recusa em ficar sozinha ou em ficar de luz apagada? Em primeiro lugar deve ouvir-se a criança em relação áquilo que são os seus medos e as suas preocupações, levando em consideração que ela é uma criança e que por isso poderá não ter desenvolvido ainda mecanismos para lidar com aquilo que a assusta. É muito importante que se seja empático e compreensivo. Deve ainda permitir-se à criança que ela expresse os seus sentimentos e ajudá-la a identificar as suas emoções.

Outro aspeto importante é estimular a criança à utilização dos outros sentido que não a visão. Ouvir uma música familiar, deitar-se com o objeto macio que ela possa reconhecer pelo tacto no escuro ou até impregna-lo com o perfume da sua mãe, para que ela possa associar o aroma que sente à segurança que a mãe lhe proporciona. Uma ténue luz de presença pode também ajudar. Por um lado não é suficientemente estimulante para perturbar o seu sono e por outro lado permite-lhe observar o ambiente envolvente, tal como ele se apresenta, sem dar espaço a uma imaginação que pode levar a imagens assustadoras.

Procure promover momentos felizes e tranquilos durante algum tempo antes de deitar a criança (30 minutos) e evite que ela fique exposta a conteúdos televisivos agressivos ou a jogos eletrónicos muito estimulantes. Contar uma história antes de adormecer pode ser um excelente momento para fortalecer o laço afetivo com a criança. Por outro lado estabelece um ritual indutor do sono, uma vez que pode promover imagens mentais agradáveis para afastar o medo e a emocionalidade negativa. Adequar o contexto da criança áquilo que são as suas necessidades perante uma situação de medo, desconforto e ansiedade, poderá facilitar a sua tranquilidade, sossego e promover um sono de qualidade. É também muito importante, elogiar sempre cada progresso da criança. Salientar a sua coragem e parabeniza-la pelas pequenas conquistas no caminho que vai trilhando para a autonomia e para o desenvolvimento saudável.

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