A psicologia diferencial e os seus antecedentes

A psicologia diferencial é o campo da psicologia que estuda as diferenças individuais e as diferenças inter grupos, em variáveis psicológicas. Existem três grandes domínios de investigação em psicologia diferencial: as diferenças individuais, as variedades das diferenças psicológicas inter grupos e a explicação das diferenças psicológicas.

A psicologia diferencial nasce de um conjunto de antecedentes, inerentes tanto a outros campos científicos como a um contexto social específico. No que diz respeito aos antecedentes históricos, podemos referir a filosofia, a astronomia, a psicofísica, a psicologia científica, a biologia e a estatística. A filosofia teve uma influência direta e foram vários os filósofos e as escolas de pensamento que contribuíram para o surgimento da psicologia diferencial: Platão, Aristóteles e Hipócrates, entre outros. De um modo geral, os principais contributos da filosofia têm a ver com a constatação das diferenças individuais, com as tentativas de explicar e/ou classificar essas diferenças, mas também com a polémica que se instalou entre o Inatismo de Platão e o Empirismo de Locke.

No que diz respeito à influência da astronomia, o seu contributo deveu-se principalmente à verificação das diferenças individuais na observação de acontecimentos astronómicos. Foi neste contexto que, pela primeira vez, relativamente a tempos de observação de indivíduos diferentes, Bessel demonstrou que era possível avaliar objetivamente variáveis psicológicas e diferenças individuais. Já a psicofísica, por intervenção de Weber e Fechner pretendeu determinar os limiares e chegar a leis respeitantes aos limiares de deteção de estímulos e aos limiares diferenciais. Embora tivessem fornecido contributos metodológicos importantes, não consideravam as diferenças individuais, defendendo que estas eram erros de medida ou de avaliação que tinham de ser corrigidos. Assim, considera-se que a psicofísica é antecedente da Psicologia Diferencial pela importância que terá dado à medida. Contudo, trata-se de um antecedente indireto, pois não deu importância às diferenças individuais em si mesmas.

No século XIX, a preocupação da psicologia era encontrar leis gerais para se igualar às ciências exatas, e deste modo, as diferenças individuais vêm dificultar o cumprimento desse objetivo. Os primeiros psicólogos tinham como objeto de estudo a experiência imediata, a consciência. O método era a introspeção e o objetivo era descrever os conteúdos da consciência. Procuravam eliminar as diferenças individuais, uma vez que as consideravam erros de avaliação e não realmente um objeto de estudo, pois estas dificultavam a generalização dos resultados das investigações. Assim, a psicologia diferencial não surgiu em simultâneo com a psicologia científica, uma vez que esta última tinha como objetivo procurar leis gerais, a sua metodologia procurava eliminar as diferenças individuais que considerava como erros.

Foi a conjugação de outros aspetos como a biologia ou a estatística que veio a determinar o surgimento da psicologia diferencial. A influência próxima destas ciências, revelando que a lei matemática se pode aplicar ao estudo das diferenças individuais, associada a um conjunto de fatores de carater social, vieram a estruturar este ramo da psicologia. Quetlet procurou, pela primeira vez, descrever as diferenças entre os indivíduos, principalmente, no que diz respeito à sua constituição física e verificou, que as diferenças entre estes, no que concerne a variáveis físicas, tinham uma distribuição em grandes amostras que se aproximava de uma distribuição que os matemáticos Lapplace e Gauss tinham estudado: a distribuição normal. A distância das diferenças e entre os indivíduos nessas dimensões descrevia o desvio normal. Assim, Quetlet contribuiu para a psicologia diferencial com a recolha de dados sobre diferenças individuais em grandes amostras, mostrando que as leis matemáticas podem ser aplicadas às diferenças individuais e à distinção em grandes populações.

No que se refere aos contributos da biologia para a psicologia diferencial é de salientar a abordagem naturalista de Darwin, pois na sua teoria da evolução as diferenças individuais têm um papel fundamental, uma vez que são elas que determinam a sobrevivência ou não dos organismos. Este autor contribuiu também a nível metodológico, por ter desenvolvido a metodologia comparativa, que é a base da metodologia diferencial. Ainda na temática da biologia é de salientar o papel de Mendel na medida em que conseguiu provar cientificamente que uma geração consegue passar características para a sua descendência, abrindo assim caminho à genética enquanto ciência. Por fim, o grande avanço tecnológico do final do século XVIII que dá origem ao crescimento da população, leva a uma nova sociedade industrializada conducente à proliferação de ideias de eficiência e de produtividade, onde as diferenças individuais assumiram maior relevo. Desenvolve-se a especialização profissional e uma subdivisão do trabalho em tarefas. Este contexto promove a possibilidade de se criarem tarefas específicas e de se passar a poder colocar o “homem certo no local certo”, conduzindo á tomada de consciência da importância de se levarem em consideração as diferenças individuais, conferindo deste modo uma maior relevância à psicologia diferencial.

Fontes:

Anastasi, A. (1979). Psicologia Diferencial. Spain: Aguilar.

psicologia.pt/artigos/textos/TL0107.pdf

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