Verão e imagem corporal: quando mostrar mais o corpo aumenta a insegurança

Woman standing barefoot on beach watching ocean waves at sunset

Com a chegada do verão, mudam as temperaturas, a roupa torna-se mais leve e o corpo fica naturalmente mais exposto. Para muitas pessoas, esta mudança é vivida com descontração, mas, para outras, pode trazer consigo um aumento significativo da insegurança, da autocrítica e do desconforto com a própria imagem. Ir à praia, usar determinadas peças de roupa, aparecer numa fotografia ou simplesmente estar num espaço onde outros corpos estão mais visíveis pode tornar-se emocionalmente exigente.

A imagem corporal não corresponde apenas àquilo que vemos quando nos olhamos ao espelho. É uma construção complexa, que envolve pensamentos, emoções, perceções e atitudes relativamente ao próprio corpo e que vai sendo influenciada pelas experiências pessoais, pelas relações, pelos padrões culturais e pelas mensagens que recebemos ao longo da vida. No verão, alguns destes fatores parecem ganhar maior intensidade. A comparação com outras pessoas torna-se mais frequente e as redes sociais acrescentam uma sucessão de imagens cuidadosamente selecionadas, posadas, filtradas ou editadas que podem facilmente ser tomadas como referência. A investigação tem mostrado uma relação consistente entre a comparação baseada na aparência e uma maior insatisfação corporal.

Young woman sitting on a dock looking thoughtfully at her phone by the water

Embora estas dificuldades sejam frequentemente associadas à adolescência, não pertencem exclusivamente a esta fase da vida. As transformações corporais acompanham-nos ao longo dos anos: crescimento, gravidez, pós-parto, envelhecimento, menopausa, doença, tratamentos médicos, alterações hormonais ou simplesmente as mudanças naturais do corpo. Homens e mulheres podem sentir desconforto com a sua imagem em diferentes momentos. A ideia cultural de que existe uma forma física adequada para usar determinada roupa ou frequentar a praia contribui para perpetuar uma expectativa difícil de alcançar e, sobretudo, desnecessária.

Six diverse adults standing barefoot in swimwear on a sandy beach smiling and hugging each other

É precisamente antes do verão que reaparecem expressões como “preparar o corpo para o verão” ou “conseguir um corpo de praia”. Mas um corpo não precisa de preencher determinados critérios estéticos para poder estar na praia, usar um fato de banho ou desfrutar dos dias quentes. Todos os corpos são corpos de verão. Ter um corpo de verão significa, simplesmente, ter um corpo e estar no verão. Esta ideia não implica que tenhamos de gostar todos os dias de tudo aquilo que vemos ao espelho. Podemos sentir insegurança relativamente a algumas características físicas e, ainda assim, escolher não deixar que essa insegurança determine aquilo que podemos vestir, os lugares onde podemos estar ou as experiências das quais nos permitimos participar.

Group of friends sitting on beach towels talking and laughing by ocean

A pressão para modificar rapidamente o corpo pode também interferir com a relação com a alimentação. Nesta época tornam-se particularmente comuns dietas muito restritivas, eliminação de determinados alimentos, períodos prolongados sem comer ou tentativas de compensar aquilo que se comeu através de restrição posterior ou exercício físico excessivo. Quando comer começa a organizar-se predominantemente em torno de regras externas — “isto posso”, “isto não posso”, “hoje estraguei tudo”, “amanhã tenho de compensar” — é fácil perder progressivamente o contacto com os sinais internos de fome, saciedade, prazer e satisfação. A comida deixa então de ser apenas alimento, prazer, cultura e convívio e pode transformar-se numa fonte permanente de vigilância e culpa.

Woman in floral dress serving food at a picnic table with sandwiches, corn, and salads

Uma relação mais saudável e intuitiva com a alimentação procura precisamente recuperar essa capacidade de escutar o corpo. Significa reconhecer a fome e a saciedade, permitir flexibilidade alimentar, escolher também tendo em conta o prazer, as preferências e as necessidades físicas e compreender que nenhum alimento isolado define a qualidade global da nossa alimentação. Não significa comer sem qualquer atenção às necessidades nutricionais, nem ignorar condições de saúde que exijam cuidados específicos. Significa antes afastar-se da lógica da punição, da culpa e da compensação. A investigação sobre alimentação intuitiva tem encontrado associações com menor perturbação do comportamento alimentar e da imagem corporal e com indicadores mais favoráveis de autoestima e bem-estar psicológico.

Smiling woman eating a plate of grilled chicken, salad, quinoa, and roasted sweet potatoes

Construir uma relação mais tranquila com o corpo pode também passar por deslocar parte da atenção da aparência para aquilo que o corpo permite fazer e experimentar. Caminhar, nadar, descansar, abraçar alguém, dançar, sentir a água do mar ou simplesmente respirar são experiências corporais que não dependem do tamanho de uma roupa nem de uma fotografia considerada perfeita. Pode igualmente ser útil observar a forma como falamos connosco próprios, reduzir a exposição a conteúdos digitais que desencadeiam comparação constante e questionar determinadas regras que fomos interiorizando: “não posso usar isto”, “as minhas pernas não são para mostrar”, “quando emagrecer vou à praia”. Nem todas as inseguranças desaparecem quando deixamos de lhes obedecer, mas podem progressivamente deixar de comandar as nossas escolhas.

Young woman in floral bikini laughing and splashing in ocean waves

Quando a preocupação com a aparência ocupa grande parte do pensamento, condiciona a alimentação, provoca evitamento de situações sociais, leva a comportamentos repetidos de verificação do corpo ou interfere significativamente com a autoestima e o bem-estar, poderá ser importante procurar acompanhamento psicológico. O objetivo não precisa de ser aprender a considerar o próprio corpo perfeito. Pode ser algo mais realista e, frequentemente, mais libertador: desenvolver uma relação suficientemente segura e respeitadora com ele para que a vida não tenha de ficar à espera de um corpo diferente.

Young woman and therapist engaged in conversation in therapy office

Neste verão, talvez o desafio não seja preparar o corpo para ser visto, mas permitir que o corpo que já temos participe plenamente na nossa vida.

Referências bibliográficas

Myers, T. A., & Crowther, J. H. (2009). Social comparison as a predictor of body dissatisfaction: A meta-analytic review. Journal of Abnormal Psychology, 118(4), 683–698. https://doi.org/10.1037/a0016763

Linardon, J., Tylka, T. L., & Fuller-Tyszkiewicz, M. (2021). Intuitive eating and its psychological correlates: A meta-analysis. International Journal of Eating Disorders, 54(7), 1073–1098. https://doi.org/10.1002/eat.23509

Warren, J. M., Smith, N., & Ashwell, M. (2017). A structured literature review on the role of mindfulness, mindful eating and intuitive eating in changing eating behaviours: Effectiveness and associated potential mechanisms. Nutrition Research Reviews, 30(2), 272–283. https://doi.org/10.1017/S0954422417000154

Férias Sem Descanso: Porque é Que Nem Sempre Conseguimos Desligar?

Woman wrapped in a blanket sitting on a balcony with a cup of coffee, overlooking green hills and mountains

As férias são habitualmente associadas a descanso, liberdade e bem-estar. Esperamos que alguns dias longe das obrigações sejam suficientes para recuperar energia, reduzir o stresse e regressar à rotina com uma sensação renovada. No entanto, para muitas pessoas, parar fisicamente não significa conseguir descansar emocionalmente.

Mesmo durante as férias, a mente pode continuar ocupada com assuntos profissionais, tarefas pendentes, preocupações familiares ou decisões que ficaram por tomar. O corpo muda de lugar, mas os pensamentos permanecem ligados às exigências habituais. Esta dificuldade em “desligar” é particularmente frequente após períodos prolongados de sobrecarga ou quando existe a sensação de que é necessário estar permanentemente disponível.

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Sinais de Desgaste Em Relações Afetivas

Couple thoughtful apart on sunny terrace

Nem sempre é fácil perceber quando uma relação está apenas a atravessar uma fase mais exigente ou quando começa, de facto, a comprometer o bem-estar emocional. Reconhecer alguns sinais de desgaste pode ajudar a compreender melhor o que se está a viver e a procurar apoio antes que o sofrimento se torne mais intenso.

As relações afetivas podem constituir uma importante fonte de segurança, intimidade, apoio emocional e sentimento de pertença. No entanto, também podem tornar-se fonte de ansiedade, tristeza, insegurança e desgaste, sobretudo quando as necessidades emocionais deixam de ser reconhecidas ou quando determinados conflitos se repetem sem que seja possível encontrar formas mais construtivas de os resolver. A existência de dificuldades não significa necessariamente que tenha deixado de existir amor ou que a relação esteja condenada. Todas as relações atravessam mudanças e períodos mais exigentes, influenciados pelo trabalho, pela parentalidade, por dificuldades económicas, problemas de saúde, perdas ou outras transições de vida.

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Férias em Família: entre a Proximidade e o Conflito

Make family slightly larger in frame

As férias em família são frequentemente associadas a descanso, convívio e criação de boas memórias. No entanto, este período pode também tornar mais visíveis tensões que, durante o ano, ficam diluídas pelas rotinas, pelos horários e pelas responsabilidades individuais. Passar mais tempo em conjunto não significa, necessariamente, sentir maior proximidade. Em algumas famílias, a convivência prolongada pode aumentar a irritabilidade, a sensação de invasão de espaço e a dificuldade em gerir diferenças.

Uma das principais fontes de conflito está nas expectativas. Muitas pessoas iniciam as férias com a ideia de que todos devem estar disponíveis, bem-dispostos e interessados nas mesmas atividades. Espera-se que o tempo em conjunto decorra de forma harmoniosa e que o afastamento das obrigações quotidianas resolva, por si só, o cansaço ou as dificuldades relacionais. Quando isso não acontece, pode surgir a frustração. Um dia menos conseguido, uma discussão ou a necessidade de ficar sozinho podem ser interpretados como sinais de que as férias “não estão a correr bem”.

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Intolerância: Quando a Diferença é Vista como Ameaça

Group of eight people standing in a circle having a serious discussion on a pedestrian street

Vivemos numa sociedade marcada pela diversidade. As pessoas diferem nas suas crenças, valores, origens, escolhas e formas de viver. Essas diferenças podem enriquecer as relações e ampliar a nossa compreensão do mundo. No entanto, também podem despertar desconforto, insegurança e resistência.

A intolerância surge quando existe dificuldade em reconhecer e respeitar o direito do outro a pensar, sentir ou viver de forma diferente. Não se trata apenas de discordar. É possível discordar sem desvalorizar, atacar ou excluir. A intolerância começa quando a diferença é vista como inaceitável, inferior ou ameaçadora. A tolerância implica respeito pela diversidade humana e não significa indiferença, condescendência ou renúncia às próprias convicções (UNESCO, 1995). Podemos manter os nossos valores e, simultaneamente, reconhecer que os outros têm direito à sua própria forma de pensar e viver.

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Férias Escolares Prolongadas: Desafios e Estratégias para os Pais

Living room with couch, books, board games, snacks, and gaming consoles

As férias escolares são um tempo importante para crianças e adolescentes descansarem, brincarem e recuperarem energia. Mas, para muitos pais, estes meses trazem também dúvidas, sobrecarga e preocupação: como organizar quase três meses sem aulas quando as férias dos adultos são mais curtas e nem sempre existe uma rede de apoio disponível? Neste artigo, refletimos sobre os principais desafios deste período e sobre algumas estratégias que podem ajudar as famílias a vivê-lo com mais equilíbrio, realismo e tranquilidade.

As férias escolares são, para crianças e adolescentes, um tempo desejado de descanso, brincadeira e liberdade. No entanto, para muitos pais, este período pode tornar-se exigente e até fonte de preocupação. Enquanto os filhos têm cerca de três meses de férias, a maioria dos pais dispõe de um período muito mais curto de descanso. Muitos continuam a trabalhar, nem sempre têm avós disponíveis, rede familiar próxima, suporte comunitário ou possibilidade económica para recorrer a campos de férias, ATL ou outras atividades organizadas. Este desfasamento entre o calendário escolar e a vida profissional das famílias cria uma pressão real: como garantir cuidado, segurança, ocupação e bem-estar dos filhos quando os pais não conseguem estar presentes como gostariam?

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Ciúme: Emoções e Comportamentos a Reconhecer

Young woman in a denim jacket and green beanie looking worried on a city street

O ciúme é uma emoção humana comum, geralmente associada ao medo de perder alguém significativo ou à percepção de ameaça numa relação. Pode surgir em diferentes contextos: perante uma mudança na disponibilidade emocional do parceiro, experiências anteriores de traição, insegurança pessoal, ambiguidade relacional ou dificuldades de comunicação.

Sentir ciúme não significa, por si só, que exista uma perturbação psicológica, nem que a relação esteja necessariamente em risco. O problema surge quando o ciúme se torna frequente, intenso e passa a condicionar o comportamento da pessoa, levando à vigilância, ao controlo, à comparação constante, à procura repetida de garantias ou à interpretação negativa de pequenos sinais.

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PHDA no Adulto: Quando o Défice de Atenção Passa Despercebido Durante Anos

Woman at a busy desk surrounded by project calendars, sticky notes, and multiple screens showing tasks and time.

A Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA) é frequentemente associada à infância, sobretudo a crianças muito agitadas, impulsivas ou com dificuldades evidentes em contexto escolar. No entanto, atualmente sabemos que a PHDA pode persistir ao longo da vida e que muitos adultos chegam à idade adulta sem nunca terem recebido um diagnóstico formal. Em muitos casos, estas pessoas cresceram a sentir-se “desorganizadas”, “distraídas”, “preguiçosas” ou constantemente em esforço para acompanhar as exigências do quotidiano, sem compreender verdadeiramente a origem dessas dificuldades.

A PHDA no adulto caracteriza-se por um padrão persistente de desatenção e/ou impulsividade que interfere significativamente com o funcionamento pessoal, académico, profissional e relacional. Embora a hiperatividade motora intensa da infância possa diminuir com a idade, é frequente que permaneça uma sensação interna de inquietação, dificuldade em relaxar, tendência para procrastinação, desorganização, esquecimentos frequentes ou dificuldade em gerir prioridades e tempo.

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Impacto do Abandono Conjugal em Mulheres com Cancro

Woman alone after cancer diagnosis, emotional vulnerability

O diagnóstico de cancro é, por si só, profundamente desafiador. Quando a essa realidade se junta o abandono do parceiro, a experiência torna-se ainda mais dolorosa, combinando vulnerabilidade física com rutura emocional. Esta dupla ferida, doença e perda relacional, merece uma reflexão cuidada do ponto de vista psicológico.

Receber um diagnóstico oncológico implica confrontar-se com a fragilidade do corpo, a imprevisibilidade do futuro e a ameaça à própria identidade. Contudo, para algumas mulheres, o sofrimento não se limita à dimensão médica. Estudos na área da psico-oncologia sugerem que a doença pode constituir um fator de instabilidade conjugal, existindo evidência de maior probabilidade de dissolução conjugal quando o diagnóstico afeta a mulher, comparativamente ao homem (Glantz et al., 2009). Embora não represente a realidade de todas as relações, este dado aponta para um fenómeno clinicamente relevante.

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Supervisão Clínica: Um Pilar na Prática Psicológica

Mesa maior; papéis só com jovem

A prática clínica em psicologia exige muito mais do que conhecimento teórico ou domínio de técnicas de intervenção. Implica escuta, responsabilidade, tomada de decisão, consciência ética e capacidade de refletir continuamente sobre o impacto da relação terapêutica no processo de mudança. Neste contexto, a supervisão clínica assume um papel fundamental no desenvolvimento profissional do psicólogo e na qualidade dos cuidados prestados às pessoas que procuram acompanhamento psicológico.

A supervisão clínica pode ser entendida como um espaço estruturado de reflexão, aprendizagem e orientação, no qual o psicólogo analisa a sua prática com o apoio de um profissional mais experiente ou com formação específica em supervisão. De acordo com Bernard e Goodyear (2019), a supervisão constitui uma intervenção profissional distinta, com objetivos próprios, centrada no desenvolvimento de competências, na monitorização da qualidade da prática e na proteção do cliente. Assim, não se trata apenas de “pedir opinião” sobre casos clínicos, mas de um processo colaborativo que permite aprofundar a compreensão dos pacientes, rever hipóteses de conceptualização, pensar estratégias de intervenção e reconhecer os próprios limites enquanto terapeuta.

Two women discussing documents in a therapy office with a whiteboard and bookshelves

Ao longo do trabalho clínico, surgem frequentemente situações complexas: dúvidas diagnósticas, dificuldades na adesão ao processo terapêutico, impasses na relação terapêutica, questões éticas, gestão do risco, resistência à mudança ou impacto emocional dos casos no próprio psicólogo. A supervisão oferece um contexto seguro e confidencial para pensar estas situações com maior distância crítica, favorecendo uma prática mais consciente, fundamentada e eticamente responsável. As orientações da American Psychological Association (2014) sublinham precisamente a importância da supervisão como processo orientado para competências, ética, responsabilidade profissional e qualidade dos serviços psicológicos.

Four people in a meeting discussing case formulation with documents and laptop

Um dos aspetos centrais da supervisão clínica é a reflexão sobre a relação terapêutica. A forma como o psicólogo escuta, interpreta, responde e se posiciona perante o paciente influencia profundamente o processo terapêutico. Por vezes, determinados casos ativam no terapeuta emoções, inseguranças, expectativas ou padrões relacionais que podem interferir, mesmo de forma subtil, na intervenção. A supervisão permite identificar estes aspetos, não com uma lógica de julgamento, mas de desenvolvimento e autoconsciência profissional. Falender e Shafranske (2004) destacam que a supervisão baseada em competências implica não só a aquisição de conhecimentos técnicos, mas também a capacidade de autorreflexão, integração ética e consciência dos fatores pessoais que podem influenciar a prática clínica.

Two women engaged in a therapy session in a bright, comfortable office with plants and books.

Para psicólogos em início de carreira, a supervisão é particularmente importante. A passagem da formação académica para a prática clínica implica lidar com a incerteza, a responsabilidade e a singularidade de cada pessoa acompanhada. A supervisão ajuda a consolidar competências, desenvolver raciocínio clínico, integrar modelos teóricos e ganhar segurança na condução dos processos terapêuticos. No entanto, a supervisão não deve ser entendida como uma necessidade apenas dos profissionais menos experientes. Também psicólogos com muitos anos de prática beneficiam de espaços regulares de supervisão, sobretudo perante casos complexos, áreas clínicas específicas ou momentos de maior exigência emocional.

Experienced supervisor mentoring young psychologist in bright office

Do ponto de vista ético e deontológico, a supervisão clínica contribui para uma prática mais rigorosa e responsável. A psicologia envolve decisões que podem ter impacto significativo na vida das pessoas: avaliação psicológica, formulação clínica, intervenção, encaminhamentos, comunicação com outros profissionais ou elaboração de relatórios. Ter um espaço onde estas decisões possam ser refletidas favorece a qualidade da intervenção e reduz o risco de atuações isoladas, precipitadas ou insuficientemente fundamentadas. Em Portugal, o Código Deontológico da Ordem dos Psicólogos Portugueses reforça a responsabilidade do psicólogo em manter uma prática competente, atualizada e respeitadora dos princípios éticos da profissão (Ordem dos Psicólogos Portugueses, 2016).

Psychologists discussing ethical decisions in supervision office

A supervisão é também um instrumento de prevenção do desgaste profissional. A exposição continuada ao sofrimento psicológico, ao trauma, à perda, à doença, à violência ou a contextos familiares disfuncionais pode ter impacto emocional no psicólogo. Quando não existe espaço para pensar e elaborar esse impacto, aumenta o risco de fadiga por compaixão, exaustão emocional ou dificuldades na manutenção da disponibilidade terapêutica. A supervisão pode funcionar, assim, como um fator protetor, promovendo maior equilíbrio, autorregulação e sustentabilidade da prática clínica.

Remove empty chair and reduce desk papers

Importa ainda distinguir supervisão clínica de psicoterapia pessoal. Embora ambas possam contribuir para o desenvolvimento do psicólogo, têm objetivos diferentes. A psicoterapia centra-se no funcionamento pessoal do terapeuta enquanto pessoa; a supervisão centra-se na prática profissional, nos casos clínicos, nas decisões técnicas, na relação terapêutica e nas competências clínicas. Em muitos momentos, estas dimensões podem tocar-se, mas devem manter enquadramentos diferenciados.

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Na prática, a supervisão pode assumir diferentes formatos: individual, em grupo, presencial ou online. Pode centrar-se na discussão de casos, na revisão de conceptualizações clínicas, na análise de sessões, na preparação de intervenções ou na reflexão sobre dilemas éticos. Independentemente do formato, é essencial que exista um clima de confiança, respeito, confidencialidade e abertura à reflexão. A qualidade da supervisão depende não apenas da experiência do supervisor, mas também da disponibilidade do supervisionando para questionar a sua prática, reconhecer dúvidas e integrar feedback.

Clinical supervision individual and group formats

Em síntese, a supervisão clínica em psicologia não deve ser vista como sinal de insegurança ou insuficiência profissional, mas como expressão de responsabilidade, maturidade e compromisso ético. Ser psicólogo implica continuar a aprender, a questionar e a cuidar da qualidade da relação terapêutica. Num campo tão humano e complexo como a psicologia clínica, a supervisão constitui um espaço privilegiado para pensar melhor, intervir melhor e cuidar também de quem cuida.

Referências bibliográficas

American Psychological Association. (2014). Guidelines for clinical supervision in health service psychology. American Psychologist, 70(1), 33–46.

Bernard, J. M., & Goodyear, R. K. (2019). Fundamentals of clinical supervision (6.ª ed.). Pearson.

Falender, C. A., & Shafranske, E. P. (2004). Clinical supervision: A competency-based approach. American Psychological Association.

Ordem dos Psicólogos Portugueses. (2016). Código Deontológico da Ordem dos Psicólogos Portugueses. OPP.