A Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA) é frequentemente associada à infância, sobretudo a crianças muito agitadas, impulsivas ou com dificuldades evidentes em contexto escolar. No entanto, atualmente sabemos que a PHDA pode persistir ao longo da vida e que muitos adultos chegam à idade adulta sem nunca terem recebido um diagnóstico formal. Em muitos casos, estas pessoas cresceram a sentir-se “desorganizadas”, “distraídas”, “preguiçosas” ou constantemente em esforço para acompanhar as exigências do quotidiano, sem compreender verdadeiramente a origem dessas dificuldades.
A PHDA no adulto caracteriza-se por um padrão persistente de desatenção e/ou impulsividade que interfere significativamente com o funcionamento pessoal, académico, profissional e relacional. Embora a hiperatividade motora intensa da infância possa diminuir com a idade, é frequente que permaneça uma sensação interna de inquietação, dificuldade em relaxar, tendência para procrastinação, desorganização, esquecimentos frequentes ou dificuldade em gerir prioridades e tempo.
De acordo com o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders — Fifth Edition, Text Revision (DSM-5-TR), a PHDA é uma perturbação do neurodesenvolvimento, sendo necessário que alguns sintomas tenham estado presentes antes dos 12 anos de idade. Contudo, isto não significa que o diagnóstico tenha obrigatoriamente de ser feito na infância. Muitos adultos apenas procuram ajuda décadas mais tarde, sobretudo quando as exigências da vida profissional, académica ou familiar aumentam e deixam de conseguir compensar as suas dificuldades através de estratégias pessoais.
Em muitos casos, o não diagnóstico precoce está relacionado com fatores como apresentações menos evidentes da perturbação, elevado esforço compensatório, bom desempenho intelectual ou contextos familiares e escolares pouco sensibilizados para a identificação destas manifestações. Isto é particularmente frequente em pessoas cuja principal dificuldade é a desatenção, sem hiperatividade marcada. Algumas aprenderam desde cedo a mascarar os sintomas, desenvolvendo rotinas rígidas, hipercontrolo ou níveis elevados de ansiedade para conseguirem responder às exigências externas.
Entre os principais fatores de risco associados à PHDA encontram-se fatores genéticos e neurobiológicos, sendo reconhecida uma forte componente hereditária. É frequente existirem antecedentes familiares de PHDA, dificuldades de aprendizagem, impulsividade ou perturbações do humor. Outros fatores associados podem incluir exposição pré-natal ao tabaco, álcool ou determinadas substâncias, prematuridade, baixo peso ao nascer ou algumas adversidades no desenvolvimento inicial. Ainda assim, importa salientar que a PHDA resulta habitualmente da interação de múltiplos fatores, não existindo uma causa única e linear.
Na idade adulta, a PHDA pode manifestar-se de formas subtis, mas altamente impactantes. Algumas pessoas apresentam dificuldade em manter atenção em tarefas prolongadas, esquecem compromissos, interrompem conversas, perdem objetos frequentemente ou sentem grande dificuldade em concluir tarefas iniciadas. Outras experienciam impulsividade emocional, baixa tolerância à frustração, alterações frequentes de motivação ou sensação persistente de “caos mental”. Não raramente, estas dificuldades coexistem com ansiedade, baixa autoestima, sintomas depressivos ou sensação de fracasso acumulado ao longo dos anos.
Do ponto de vista da intervenção psicológica, a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) constitui uma das abordagens com maior evidência científica no acompanhamento da PHDA no adulto. Embora a medicação possa ser recomendada em determinados casos, sobretudo quando os sintomas apresentam impacto funcional significativo, a TCC assume um papel particularmente relevante no desenvolvimento de estratégias práticas de gestão do quotidiano e na reformulação das crenças negativas frequentemente associadas ao percurso de vida destas pessoas.
A intervenção em TCC procura ajudar o adulto a compreender o funcionamento da PHDA e a identificar padrões automáticos que contribuem para a desorganização, procrastinação ou evitamento. Frequentemente, trabalha-se a estruturação de rotinas, gestão do tempo, definição de prioridades, fragmentação de tarefas e estratégias de regulação emocional. Paralelamente, é comum existir um trabalho importante ao nível da autoestima, uma vez que muitos adultos com PHDA cresceram sob críticas constantes ou com a sensação de nunca conseguirem corresponder às expectativas.
A psicoeducação constitui igualmente um elemento central da intervenção. Compreender que determinadas dificuldades não refletem falta de capacidade, preguiça ou desinteresse, mas sim um padrão neuropsicológico específico, tende a promover maior autocompreensão e redução da autoculpabilização. Em muitos casos, o diagnóstico em adulto é vivido com sentimentos ambivalentes: por um lado, alívio pela explicação encontrada; por outro, tristeza ou frustração por anos de sofrimento silencioso e incompreensão.
Importa também sublinhar que a PHDA no adulto não impede necessariamente um funcionamento adaptativo ou uma vida bem-sucedida. Muitas pessoas desenvolvem percursos pessoais e profissionais altamente competentes, sobretudo quando recebem apoio adequado e aprendem estratégias compatíveis com o seu funcionamento cognitivo. A identificação precoce e uma intervenção ajustada podem contribuir significativamente para melhorar a qualidade de vida, o desempenho funcional e o bem-estar emocional.
Referências Bibliográficas
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