OncoSexologia

OncoSexologiaDecorreu nos passados dias 3 e 4 do corrente, no Instituto Português de Oncologia Francisco Gentil em Lisboa )IPO), o Congresso Nacional de OncoSexologia, cujo foco incidiu sobre o impacto do cancro na sexualidade.

O referido evento contou com a participação de palestrantes e formadores com “cartas dadas” na área da oncologia em Portugal, nomeadamente em urologia, ginecologia, endocrinologia, cirurgia plástica e reconstrutiva, enfermagem, psiquiatria e psicologia, entre outros. Participaram também outros oradores representantes de áreas distintas como a representação ou o jornalismo, com intervenções igualmente relevantes. Este congresso com caráter formativo abordou numa área tão específica como importante para o bem-estar e qualidade de vida dos indivíduos. Aberto à comunidade médica mas também a outros técnicos de saúde, nomeadamente enfermeiros e psicólogos, este foi um momento de formação, informação, sensibilização, reflexão e partilha. O curso abarcou temas como a sexualidade humana no Século XXI – do normal ao disfuncional; o sexo, a sexologia e a comunicação; a sexualidade na perspetiva do envelhecimento e da sobrevivência; inovação e reabilitação em OncoSexologia e ainda os workshops sobre treino de comunicação em OncoSexologia e os problemas sexuais no homem e na mulher com cancro.

CancroOs formadores/oradores têm formação e vasta experiência nesta matéria, tendo alguns deles sido os fundadores da Clínica de OncoSexologia do IPO de Lisboa, em funcionamento desde 2009. Esta consulta destina-se à comunidade de doentes do IPO Lisboa e colabora de modo formativo e informativo com outras entidades de saúde nacionais. A necessidade de desenvolvimento de trabalhos nesta área específica prende-se com o facto de os doentes oncológicos poderem manifestar perturbações do desejo ou do interesse sexual e dificuldades nas relações sexuais, durante ou após os tratamentos. No entanto, constrangimentos ou inibições de ordem social e as dificuldades na comunicação com os vários profissionais de saúde, em parte pela falta de formação dos mesmos nesta área específica, podem levar a que esse tipo de perturbações não sejam abordadas, com prejuízo na qualidade de vida dos doentes e dos seus companheiros/as.

OncosexologiaA prevenção dos problemas sexuais dos doentes de cancro e o seu tratamento carecem de sensibilização e de formação por parte dos profissionais de saúde que o acompanham, tanto nas unidades de oncologia como nos diversos serviços de saúde. Para isso, ações deste nível são de extrema importância para que a comunidade médica e outros técnicos de saúde se sintam aptos a acompanhar e ajudar os doentes oncológicos e as suas famílias, com foco na abordagem dos problemas e disfunções sexuais secundários à doença e aos tratamentos.

Sexualidade e cancroA sexualidade é um ponto central do ser humano durante toda sua vida, abarcando o sexo, a identidade e os papéis de género, a orientação sexual, o erotismo, o prazer, a intimidade e a reprodução. A sexualidade é vivenciada nos pensamentos, nas fantasias, nos desejos, nas atitudes, nos valores, nos comportamentos, no papel que cada um representa e nos relacionamentos. Embora a sexualidade possa englobar todas estas dimensões, nem todas são sempre experimentadas ou vividas. A sexualidade é influenciada pela interação de fatores biológicos, psicológicos, sociais, económicos, políticos, culturais, éticos, legais, históricos, religiosos e espirituais. (WHO, 2007).

OncologiaTendo por base tão grande diversidade de dimensões e abordagens, a sexualidade tende a ser demasiado focada na genitalidade e na sua funcionalidade. No caso dos doentes de cancro, estes podem ver comprometida essa mesma funcionalidade genital, quer provisória, quer definitivamente, o que pode causar a perceção de perda de identidade e de papéis. o que implica um luto e potencialmente um grande sofrimento. É nestes casos que o papel do profissional de saúde, nomeadamente o psicólogo, pode ser extremamente importante e fazer toda a diferença na forma como o indivíduo vai viver quer a fase de tratamento, quer a fase de reabilitação e eventual adaptação a algumas perdas ou limitações que possam ocorrer. A possibilidade de falar com alguém que entende o problema, que conhece os seus determinantes e consequentes, e, que, acima de tudo tem formação adequada na área da OncoSexologia, será uma mais-valia para o doente.

OncosexologiaA intervenção em OncoSexologia pressupõe vários níveis de atuação. O primeiro nível foca-se na aceitação e compreensão das limitações do doente, bem como na desculpabilização em relação àquilo que é normativo. O doente deverá encontrar um contexto de segurança para expor as suas preocupações, nomeadamente ao nível dos seus pensamentos, fantasias, sentimentos e comportamentos. O segundo nível, consiste no fornecimento de informação básica em relação à função sexual e ao ciclo de resposta sexual, bem como em relação ás limitações do doente e às suas potencialidades. O terceiro nível refere-se à apresentação de sugestões específicas relacionadas com a prática sexual, que passam por orientações de mudança comportamental, que possam levar o doente a atingir os seus objetivos, sempre com base numa sólida história clínica. Por fim, o quarto nível pressupõe uma intervenção com um profissional especializado em sexologia e consiste num plano personalizado, podendo envolver não só o doente mas também o seu parceiro (a).

Fontes:

Annon, J. (1981). PLISSIT Therapy. In: Corsini, R. Handbook of Innovative Pshychotherapies. New York. John Wiley & Sons Inc., pp 626-639.

O.M.S. (2001). Relatório Mundial da Saúde – Saúde Mental: Nova concepção, nova esperança. Lisboa: Direcção-Geral da Saúde.

Perturbação de Personalidade Paranoide (2)

Perturbação de Personalidade ParanoideA Personalidade Paranoide caracteriza-se por uma forte tendência do indivíduo para interpretar as intenções e ações dos outros como ameaçadoras, sendo difícil adotar outras explicações alternativas para os seus comportamentos. Assim, a suspeição e a insegurança generalizada em relação aos outros, são as características centrais que interferem no modo de pensar, sentir, e consequentemente de agir, dos sujeitos com Perturbação de Personalidade Paranoide.

Perceber a etiologia acerca do desenvolvimento de traços paranoides na personalidade é particularmente desafiador, tendo em conta a dificuldade em determinar a exatidão da informação relativa à sua história de vida. Ainda assim, são interessantes as hipóteses colocadas por alguns investigadores. Sugere-se que a postura associada aos traços de personalidade paranoide deverá ter sido adaptativa em algum momento no passado, numa situação verdadeiramente perigosa, em que as pessoas que rodeavam o individuo se mostravam claramente hostis, exploradoras e enganadoras. Talvez este tenha crescido numa família na qual aprendeu que a vigilância era absolutamente fulcral para sobreviver, que o mundo era um lugar perigoso e que as pessoas eram egoístas. Talvez ainda nas interações precoces com as figuras cuidadoras tenha aprendido que deveria ter cuidado para não cometer erros, era diferente dos outros ou precisaria de ser duro e defensivo para se proteger. Tais ideias poderão ter conduzido a uma elevada preocupação com a avaliação externa, bem como ao desenvolvimento de um sentimento de obrigação em relação às expectativas parentais. Consequentemente, poderá sentir-se não só humilhado, como passar muito tempo a pensar sobre o seu isolamento e maus tratos percebidos. Acaba por concluir que está a ser perseguido porque é alguém especial. Dados adicionais apontam também para a contribuição mútua e interativa do papel da genética. Continuar a ler