Para que servem os Psicólogos?

Para que serve o psicólogo?

Se por vezes alguns adultos revelam dúvidas sobre o que faz um Psicólogo, as crianças poderão ter maior dificuldade em perceber qual a função destes profissionais. Quem são, para que servem e o que fazem é aquilo que me proponho esclarecer neste texto dedicado aos mais pequenos, para que possam saber o que contar se precisarem de recorrer à ajuda psicológica.

É relativamente frequente, em consulta, à pergunta “Sabes o que faz um psicólogo?”, algumas crianças ainda responderem algo do tipo “Tratam os malucos” ou “ajudam as pessoas que não são boas da cabeça”. Estes estereótipos são para eliminar de uma vez por todas. Primeiro porque não há malucos mas sim pessoas com perturbações mentais ou défices nas suas diversas capacidades, e depois, porque qualquer pessoa dita “normal” poderá beneficiar do apoio de um Psicólogo, em algum momento da sua vida. Continue a ler “Para que servem os Psicólogos?”

Adolescência e suicídio

Parece haver evidência científica de que o suicídio na adolescência tem vindo a aumentar nos últimos anos, sendo esta a segunda causa de morte entre os jovens nos países ocidentais a seguir aos acidentes rodoviários. Quer o acto suicida, quer a ideação suicida, são sinais de psicopatologia grave e não devem ser desvalorizados.

Os pensamentos de morte constituem-se como um fator de risco para o suicídio, no entanto, nem sempre existe ideação suicida anterior ao acto de suicídio. O suicídio pode ocorrer num ato impulsivo sem que tenha havido um planeamento anterior. Por outro lado, os comportamentos de risco como por exemplo o conduzir embriagado, podem estar associados á ideação suicida. A dolorosa luta interna entre a vontade de morrer e o desejo de permanecer vivo causa um imenso sofrimento psicológico ao individuo, que num impulso poderá deitar tudo a perder. As tentativas de suicídio na adolescência têm maior prevalência em jovens entre os 14 e os 17 anos (Novick, Cibula & Sutphen, 2003) e os rapazes parecem ser os mais vulneráveis. Felizmente, em cada 10 a 20 tentativas de suicídio, apenas uma acaba em morte, no entanto, os danos que causam no jovem e na sua família, podem ser muito perturbadores.

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Crianças e redes sociais: reais e virtuais

Hoje em dia falar de redes sociais remete-nos para o mundo virtual, tão apelativo para os adolescentes mas também para as crianças mais novas. A partilha de fotos e vídeos, bem como os likes e comentários que estes originam são fortemente valorizados, para o bem, e para o mal…Porém, existe uma rede de pessoas, reais, que se forma á volta da criança e que a acompanha ao longo do seu desenvolvimento. Essa é a verdadeira rede de apoio social.

Ao longo do curso de vida a rede de apoio social vai-se modificando, havendo elementos que entram e outros que saem, conforme a fase da vida em que o indivíduo se encontra. No entanto, as dimensões da rede social são tipicamente 3: familiar, escolar e comunitária. A família nuclear constitui-se como o anel mais próximo da criança desde o seu nascimento. Ao nascer, a criança é habitualmente rodeada pelos pais, irmãos e avós, sendo estes por norma os elementos mais comuns de suporte socio-emocional. Provedores de alimento, afeto e outros cuidados, a família constitui a rede que acolhe a criança e a protege. Noutro anel mais alargado, encontram-se outros familiares como tios, primos ou avós geograficamente mais distantes. Estes elementos estão habitualmente presentes na vida da criança em momentos significativos como aniversários e outras festividades, mas também podem constituir um meio de suporte importante em momentos de doença ou outras dificuldades, como por exemplo a separação dos pais.

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Ansiedade na criança e no adolescente

As perturbações de ansiedade surgem frequentemente em idade precoce. Crianças e adolescentes não estão “imunes” a este problema, no entanto, isso não significa que tenham que viver com ele para o resto das suas vidas. Os problemas relacionados com a ansiedade tratam-se e esta pode deixar de ser perturbadora e passar a ser adaptativa.

Sabe-se que o medo e a ansiedade são protetores e que uma dose moderada de cada um deles fazem parte do processo normativo de desenvolvimento infantil.  Uma das formas de ansiedade mais comum nas crianças, mesmo as de mais tenra idade, é a ansiedade de separação. Reagir com choro á separação da mãe ou de outra figura de referência é uma característica deste tipo de perturbação. Mais tarde, a entrada para o infantário, pode ser também um momento em que a ansiedade se manifesta. Os medos também são característicos de determinadas fases do desenvolvimento, como é o caso do medo do escuro ou dos fantasmas ou monstros, por volta dos 4 anos. Posteriormente, em idade escolar. É também comum aparecerem “novos” medos como a morte ou as agressões. No início da adolescência, os jovens podem ainda desenvolver ansiedade social, ou seja, medo ou perturbação da avaliação dos outros e que se manifesta pela dificuldade de falar em público e de se exporem.

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Rede de apoio social – pedir ajuda

Rede socialO relacionamento com os outros está omnipresente na vida e no dia-a-dia de todos nós. Ao conjunto de pessoas com quem temos uma relação significativa podemos chamar rede de apoio social. O apoio social pode ser definido como a quantidade e coesão das relações sociais que nos rodeiam.

É um processo interactivo que visa o bem-estar físico e psicológico. O contacto social pode promover a saúde e o bem-estar e tem provavelmente uma função de regulação da resposta emocional perante os vários factores causadores de stress. De acordo com Uchino, Uno & Holt-Lustad (1999) o apoio social pode ter várias funções: apoio informativo, apoio emocional, apoio de pertença e apoio tangível, desempenhando assim um importantíssimo papel nas nossas vidas, manifestando-se na nossa saúde física e psicológica.

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O adolescente e o sono

Sono na adolescência

Há uma diferenciação entre o sono das crianças mais novas e o sono dos adolescentes, tanto no que diz respeito à sua duração em termos de número de horas por noite, quer em termos da sua própria estrutura (Carskadon, 2010; Giannotti & Cortesi, 2010).

As crianças mais novas tendem a dormir um maior número de horas enquanto os adolescentes tendem a adiar progressivamente a hora de deitar, resultando num declínio da duração do sono, acabando estes por dormirem muitas vezes menos do que seria aconselhável. Vários estudos referem, que à medida que caminham da infância para a adolescência também as preferências dos jovens em relação à hora do dia para desenvolverem actividades vai mudando, ou seja, as crianças mais pequenas preferem as manhãs para as suas actividades, enquanto que os adolescentes mostram uma tendência para horários mais tardios (Andrade et al., 1993; Carskadon, Vieira, & Acebo). É também na adolescência que se verifica um aumento do desejo de independência, a assunção de novos papéis sociais, o aumento da pressão dos pares, das responsabilidades académicas e das possibilidades de actividades extra-curriculares, mas também a diminuição do controlo parental.

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Adolescentes e competências sociais

Quando um adolescente tem boas competências sociais, isso quer dizer que o seu desempenho no que diz respeito às relações que estabelece e mantém com os outros é bem-sucedido. Este sucesso deve-se essencialmente a uma aprendizagem relacional e comportamental positiva que reflete um saudável desenvolvimento.

A adolescência é uma fase da vida em que as relações interpessoais assumem especial relevância. Os jovens estabelecem novas relações nos vários contextos em que se movimentam e o grupo de pares nesta fase da vida adquire uma maior relevância. Espera-se que durante a adolescência os jovens alcancem capacidades sociais que os venham a tornar adultos socialmente competentes. Embora a maioria dos jovens tenha potencial para desenvolver essas competências, nem sempre assim acontece de uma forma natural. Alguns jovens, quer por características de personalidade, quer por fatores ambientais e contextuais, têm dificuldades nas suas relações com os outros, nomeadamente com os seus colegas e companheiros de escola e atividades.

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Isolamento ou afastamento social na adolescência

Numa altura em que a palavra de ordem é isolamento, no sentido de mantermos distanciamento pessoal dos outros, importa entender o isolamento na adolescência. Muitos jovens, ao longo da difícil tarefa de crescer e se tornarem adultos, passam por momentos mais ou menos dolorosos em que por vezes se isolam, tornando esses momentos um tanto ou quanto perturbadores para os que com eles coabitam.

Comum no período da adolescência, o isolamento dos jovens geralmente ocorre em relação aos seus familiares mais diretos (pais) mas por vezes também em relação ao seu grupo de pares e à vida social em geral. A razão pelas quais o adolescente se isola pode ser de várias ordens. Por um lado, pode haver uma necessidade de se diferenciar em relação aos outros e de quebrar barreiras de autoridade que sente em relação a pais e professores. Mais do que isolamento, trata-se de um afastamento, por vezes marcado pela rebeldia, em que o jovem procura ter novas experiências, quebrar regras e testar limites. Por vontade própria relacionada com traços de personalidade, pressão dos pares ou por necessidade de se sentir parte integrante de um determinado grupo, o adolescente tende a afastar-se das ideias, opiniões e recomendações dos adultos significativos e fecha-se no seu mundo, passando a viver centrado em si em busca do auto-conhecimento e da autonomia.

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A adolescência e o consumo de álcool

Impelidos pela curiosidade, pressão dos pares, busca de novas sensações, necessidade de se alhearem dos seus problemas, auto-descoberta, definição da identidade e consequente assunção de comportamentos de oposição à autoridade parental, muitos são os jovens que experimentam e consomem álcool, tabaco ou outras substâncias psicoativas. Estes comportamentos põem em risco a sua saúde física e psicológica, não só presente mas também futura.

Os jovens encontram nos seus pares os seus modelos de identificação, adotando os comportamentos do grupo uma vez que na maioria dos casos e devido à sua imaturidade cerebral, principalmente das estruturas do córtex pré-frontal, os adolescentes não têm ainda a capacidade de compreender as potenciais consequências dos seus atos.

O consumo de álcool, na adolescência, muitas vezes vai para além da experiencia e torna-se abusivo, logo, prejudicial. É considerado abuso, um padrão comportamental muito pouco adaptativo, com a duração superior a um mês, em que um jovem continua a consumir uma substância mesmo conhecendo a sua perigosidade. Este padrão de comportamento desadequado e arriscado inclui, por exemplo, a condução de veículos após o consumo de álcool, o que coloca em risco a sua vida e a de terceiros. Um dos perigos da experiencia do consumo de substâncias psicoativas é o perigo de se tornar abusivo ou até mesmo de levar o adolescente à dependência. Esta pode ser fisiológica, psicológica ou ambas e o mais provável é que se não houver intervenção, se prolongue pela idade adulta.

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Adolescência e Covid-19

A adolescência é um período da vida humana especialmente complexo e ambíguo. A vontade de crescer e de se tornar adulto e autónomo, colide por vezes com a vontade de se manter criança, livre de responsabilidades ou encargos. “Entre o medo e o desejo de crescer” (Manuela Fleming).

Se para nós adultos a situação de pandemia causada pelo vírus Covid-19 está a revelar-se difícil de ultrapassar, na medida em que encerra em si diversos desafios, principalmente de adaptação a uma nova realidade, para os adolescentes, pelas suas características, o desafio pode estar a ser mais difícil de vivenciar. As súbitas alterações das rotinas e do estilo de vida de muitos jovens, a par com a dificuldade que alguns possam ter em cumprir as regras de conduta adequadas no contexto atual, pode levar a situações de grande sofrimento emocional, de isolamento, aumento dos níveis de ansiedade, depressão ou problemas de comportamento. No futuro, também poderá vir a tornar-se um problema o retomar hábitos, horários e rotinas anteriores.

E como podem os pais ajudar os seus filhos adolescentes a passarem por esta fase com o menor dano possível? Em primeiro lugar deverão informar os seus filhos sobre a realidade atual. Essa informação passa por fornecer informação fidedigna ou orientar os jovens na procura de informação adequada nos meios de comunicação disponíveis. A informação é o ponto de partida para o entendimento da situação e para a adoção de medidas de proteção e segurança para evitar a contaminação. Uma boa informação ajudará certamente na aceitação do problema e esta será a melhor estratégias para se lidar com algo que é inevitável.

Manter as rotinas possíveis é extremamente importante. Com o fecho das escolas houveram muitas alterações em termos de horários. As horas de deitar, de acordar, de fazer as refeições, etc., podem sofrer grandes alterações devido às mudanças inevitáveis causadas pela adaptação à situação e pelo confinamento necessário. No entanto, é muito importante para o bem-estar geral, que o dia-a-dia seja estruturado de modo a que tudo o que for possível seja mantido, programando e executado. Dever-se-á estabelecer uma hora fixa de levantar, fazer a higiene diária e tomar o pequeno-almoço adequada à situação de cada jovem em termos de exigências escolares ou académicas. Nos dias do fim-de-semana esses horários poderão ser flexibilizados, à semelhança do que eram em tempos “normais”, no sentido de manter uma diferenciação entre os dias de semana e os dias de descanso semanal.

Planear as atividades diárias, quer escolares como lúdicas e destinar um tempo para cada uma delas, poderá ser o modo mais fácil de as cumprir e de dar sentido aos dias. No final do dia o jovem terá a possibilidade de verificar de que forma conseguiu cumprir o planeado e refletir sobre as tarefas efetuadas, ao mesmo tempo que tem a possibilidade de reestruturar as suas tarefas de forma mais eficaz, se sentir essa necessidade. Os pais devem ficar atentos às atividades dos jovens, no sentido de os ajudarem e apoiarem em algumas tarefas com as quais eles possam ter maiores dificuldades. Por outro lado, esse acompanhamento deverá ser positivo e reforçador. Elogie cada esforço do seu filho para se adaptar às novas realidades e para cumprir com as exigências escolares. Lembre-se sempre de que esta é uma situação nova e difícil para todos e procure ser tolerante na relação com o adolescente, sem descurar o estabelecimento de regras e limites.

E como ser tolerante quando o comportamento do jovem é difícil, desafiante ou desobediente? Antes de mais expresse sempre o seu amor pelos seus filhos, qualquer que seja a sua idade, adequando as suas palavras e gestos, claro. O que poderá estar em causa e provocar-lhe desagrado é o comportamento do seu filho e não ele. Validar os sentimentos dos jovens é muito importante. Permitir que expressem as suas emoções, que coloquem as suas dúvidas e que manifestem as suas dificuldades, vai certamente ajuda-los a lidarem com os problemas decorrentes da situação atual. A vivência dos afetos é importante em todos os momentos, principalmente quando estes são mais instáveis e difíceis de nos adaptarmos.

Por fim, procure integrar o seu filho adolescente nas atividades da família para promover o convívio e evitar o isolamento. Destine um tempo em família para fazer atividades em conjunto como jogos de tabuleiro, assistir a filmes, partilhar tarefas como a culinária, ou outras que sejam do agrado de todos. Se o seu filho adolescente tem dificuldades ao nível dos relacionamentos sociais, promova o contacto dele com colegas e amigos através dos meios de tecnologia existentes. Isolamento social não significa deixar de comunicar com os outros mas sim manter-se fisicamente afastado dos outros. Hoje em dia, a tecnologia permite inúmeras interações, que na dose certa podem ser muito gratificantes. E tenha muita paciência e calma, aos poucos e com muitos cuidados, a vida irá seguindo o seu curso.