Desenvolvimento psicomotor: entre o “normal” e o “anormal”

Desenvolvimento psicomotor

A normalidade do desenvolvimento psicomotor é definida pelos limites da idade em que a criança faz as suas diversas aquisições e pela qualidade das mesmas.

Podemos considerar normal ou normativo um desenvolvimento psicomotor em que a criança adquire as suas competências dentro da idade determinada, mas também pela adequação da sua funcionalidade. Porém, a definição de normalidade ou de anomalia não é determinante, isto é, não há um limite ou uma fronteira bem definida da idade normativa de aquisição dessas mesmas competências. O que é normal ou não, situa-se num contínuo, e, se corresponde àquilo que acontece habitualmente, no que diz respeito ao neurodesenvolvimento não é diferente. Assim, como exemplo, em termos de aquisições e de competências, a aquisição da marcha ocorre em média por volta dos 15 meses, sendo também normal que aconteça entre os 9 e os 18. Deste modo, e uma vez que esta definição se baseia em observações nas quais se verifica que os bebés começam a andar até aos 18 meses, passando este limite, habitualmente observam-se outras alterações do desenvolvimento psicomotor, como por exemplo o atraso do desenvolvimento da fala. Continuar a ler

Alucinações auditivas

Alucinações auditivas

As alucinações auditivas, são o tipo de alucinação mais frequente nas perturbações mentais. Estas alucinações podem ser simples ou complexas, sendo estas últimas as que constituem um maior desafio e interesse à psicopatologia.

As alucinações auditivas simples são aquelas nas quais se ouvem apenas ruídos primários e são menos comuns que as alucinações auditivas complexas. O tinnitus corresponde à sensação subjetiva de se ouvirem ruídos, como por exemplo zumbidos ou estalidos. Estes ruídos podem ser contínuos, intermitentes ou ritmados como os batimentos cardíacos. O tinnitus decorre habitualmente de doenças ou alterações do sistema auditivo e pode ser objetivo, podendo ser observado no ouvido do paciente através de técnicas médicas. O Síndrome de Méniere é o exemplo típico de patologia do ouvido com tinnitus, à qual se associa habitualmente perda auditiva e desequilíbrio. Outras doenças do foro cerebral e vascular podem também apresentar sintomas deste tipo.

Alucinações auditivas

As alucinações correspondem a uma perceção clara e objetiva de algo como uma voz, um ruído ou mesmo uma imagem, sem que o objeto/estímulo real esteja presente. A alucinação auditiva complexa é a mais frequente em psicopatologia, sendo a audio-verbal a mais impactante e significativa. Neste tipo de alucinação a pessoa ouve vozes “dentro da sua cabeça” sem que qualquer tipo de estímulo esteja objetivamente presente. Habitualmente estas vozes são de comando, ameaça ou insulto, assumindo um caráter depreciativo e persecutório. As vozes de comando podem até mesmo instruir o indivíduo no sentido do suicídio.

Alucinações auditivas

As alucinações auditivas podem observar-se nos casos de esquizofrenia, em que as pessoas têm a perceção marcante de que estas são reais. Umas vezes as vozes “internas” fazem comentários e observações acerca dos comportamentos e ações da pessoa, outras vezes o pensamento torna-se “sonoro” ou seja, os indivíduos ouvem os seus próprios pensamentos, algumas vezes repetidos e em eco e outras vezes ainda, o pensamento torna-se delirante, ou seja, o indivíduo experiencia ouvir pensamentos que lhe parecem ter sido introduzidos na cabeça por um estranho.

Psicopatologia

Em alguns casos de depressão grave podem também estar presentes as alucinações auditivas. Aqui, as pessoas tendem a ouvir vozes geralmente com conteúdos negativos, de humilhação ou de culpa. Também nas perturbações do humor este tipo de alucinações pode estar presente, por vezes com conteúdos de grandeza ou conteúdo místico-religioso, habitualmente nos casos de mania. Nos doentes alcoólicos crónicos, as alucinações auditivas também podem ocorrer, bem como em algumas perturbações da personalidade, como o caso da personalidade borderline, histriónica, perturbação dissociativa ou esquizotípica.

Psicopatologia

Apesar de alguns medicamentos antipsicóticos conseguirem controlar, na maioria dos casos, as manifestações da doença, nem sempre conseguem calar as vozes que insistem em se fazer ouvir na mente dos pacientes. Estudos recentes sugerem que a Estimulação Magnética Transcraniana (EMT), uma técnica não invasiva e praticamente sem efeitos colaterais, pode controlar de forma eficaz este problema. Esta técnica consiste no envio de impulsos magnéticos para o cérebro, que dependendo da frequência podem aumentar ou diminuir a atividade na região alvo. Desta forma, o médico consegue modular os neurónios de forma a equilibrar o seu funcionamento. A técnica é indolor e a sua aplicação é feita com o paciente acordado. Apesar das neurociências serem grandes aliadas no processo de deteção e compreensão das alucinações auditivas, a forma como estas aparecem parece permanecer ainda sem resposta.

 

 

 

Sugestão:

https://core.ac.uk/download/pdf/82297852.pdf~

 

Xixi na cama! Outra vez…

Enurese noturna

A enurese é uma disfunção que se manifesta pela perda involuntária de urina, diurna ou noturna, não normativa em relação à idade da criança e que não surge como consequência de falta de controlo da bexiga por doença neurológica, anomalia do trato urinário ou convulsão epilética, por exemplo.

A enurese noturna corresponde a perdas de urina durante o sono. Apesar de ser um problema comum, tem um forte impacto no dia-a-dia da criança e da sua família, constituindo-se como uma enorme fonte de stresse. O controlo dos esfíncteres corresponde a uma tarefa do desenvolvimento da criança, que decorre naturalmente mas que pode ser facilitada por atitudes educacionais. O contexto relacional e cultural onde decorre este processo, nomeadamente no que se refere ao ensino da higiene e às diferentes fases de aprendizagem e treino dos hábitos de higiene, é de extrema importância. A enurese pode ser primária, se a criança nunca chegou a adquirir o controlo da urina durante a noite ou secundária quando se observou um período de pelo menos seis meses de continência. A prevalência da enurese primária varia com a idade, sendo mais comum nos meninos (cerca de 9%) aos sete anos de idade, do que nas meninas (cerca de 6%) na mesma idade. Sendo o controlo dos esfíncteres um processo complexo, que envolve a ação coordenada de músculos, nervos, espinal medula e cérebro, pode resultar de vários fatores. Parece ser mais frequente em crianças que urinam mais vezes durante o dia, apresentam disfunção da bexiga ou têm dificuldades de sono (sono muito profundo e dificuldade em despertar). Ainda em termos de causas, parece existir também alguma predisposição genética.

EnuresePerante um caso de enurese, o primeiro passo é contactar o pediatra para o despiste de algum problema fisiológico (ex. renal) ou causa orgânica (ex. infeção urinária). Em termos de tratamento, habitualmente este só se aplica em casos de crianças com mais de seis anos de idade. A abordagem ao tratamento da enurese pode ser medicamentosa ou comportamental. A abordagem comportamental envolve estratégias de reforço, treino de retenção urinária ou pela utilização de sistemas de condicionamento com reforço positivo.

Enurese noturna

Os pais e cuidadores têm a grande responsabilidade de ajudar a criança a ultrapassar a  situação de enurese ao invés de a transformarem numa experiência traumatizante, o que pode ser fácil, não por má intenção mas por desconhecimento das características do problema. Para ajudar a criança a lidar com a enurese, os pais deverão normalizar a situação, explicando à criança que não está sozinha e que há muitas crianças da sua idade, que também passam pelo mesmo problema e que conseguem ultrapassá-lo. Outra estratégia passa por limitar a ingestão de líquidos a partir do final da tarde. Deverá também ser estabelecida uma rotina de sono, com horários regulares e que contemple uma ida à casa de banho, mesmo antes de ir para a cama. Se os pais sentirem dificuldade em lidar com o problema e com o impacto deste na sua vida e na sua família, devem recorrer à ajuda profissional de um psicólogo.

Enurese

Na consulta de psicologia, deverá ser feita a avaliação do impacto emocional da enurese na criança e na família, bem como devem ser identificadas algumas situações que possam ser responsáveis pela perturbação do equilíbrio emocional e psicológico da criança, como por exemplo a perda de um familiar, o nascimento de um irmão, algum tipo de abuso ou uma dificuldade de adaptação à escola. De acordo com a criança em questão e com a familia, será selecionada a estratégia a implementar. E como cada caso é uma caso e cada criança tem as suas particularidades, quando um método não for eficaz, haverão outros métodos a serem implementados até ao sucesso da intervenção.

EnureseÉ de extrema importância que os pais ou cuidadores não punam nem culpem a criança por urinar a cama. Esse comportamento por parte dos adultos, não só irá contribuir para a baixa da autoestima da criança, desenvolvimento do sentimento de vergonha, aumento da ansiedade e possíveis dificuldades de socialização e decréscimo do rendimento escolar, assim como dificulta o processo de tratamento. Pelo contrário, a criança deverá ser reforçada a cada sucesso que alcança. Este problema também constitui um grande desafio para os pais, não sendo fácil lidar com a enurese. Dependendo dos casos, alguns adultos podem, em consequência desta perturbação dos filhos, desenvolver problemas de sono, ansiedade, aumento da tensão emocional, agressividade e stresse familiar.

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Sugestão:

Barros, L. (2004). Perturbações da eliminação na criança e no adolescente: da prevenção ao controlo. Lisboa: Climepsi.

 

 

Intervenção no luto

Luto e psicologiaO luto éuma reação à perda de um ente querido ou de algo mais abstrato em seu lugar, como por exemplo, o trabalho, um relacionamento, a pátria ou até mesmo uma ideologia.

O modelo dual de intervenção no luto proposto por Stroebe & Schut (1999) tenta compreender as reações dos indivíduos às perdas, sugerindo um modelo de compreensão do processo de se lidar com a perda e de adaptação ao luto. Neste modelo os autores propõem a coexistência de três dimensões ou componentes: (a) orientação para a perda, (b) orientação para o restabelecimento e (c) oscilação. Este processo de adaptação ao luto defende a existência de uma dinâmica de oscilação do indivíduo enlutado entre o confronto orientado para a perda e o confronto orientado para o restabelecimento.

Intervenção psicológica no lutoNo conforto orientado para a perda o enlutado disponibiliza-se para elaborar a perda, vivenciar a dor, a ausência, os medos, traduzindo-se numa abertura para trabalhar estes aspetos. O confronto orientado para o restabelecimento diz respeito ao investimento na vida e na realidade que o rodeia, traduzindo-se na reorganização da vida. Este processo dinâmico é fundamental para uma adaptação satisfatória, funcionando como um mecanismo regulatório que integra e organiza internamente, quer o confronto orientado para a perda, quer o confronto orientado para o restabelecimento.

Psicologia no apoio ao lutoConsiderar em simultâneo as duas dimensões é muito difícil, mas como é necessário atender a ambas, a oscilação é um processo indispensável e, muito possivelmente, um dos melhores informativos do desenvolvimento da experiência do luto. O valor que os autores atribuem ao processo de oscilação, tratando-se de um processo de ‘coping’ (lidar com), que regula os esforços de adaptação do indivíduo, em paralelo com a proposta de que um ‘coping’ adaptativo seria constituído tanto por stressores de perda como de restabelecimento, que se traduz numa oscilação enquanto indicador do processo.

LUTOA tomada de decisão por parte do enlutado, está sempre presente na medida em que pode optar pela atenção dada ao stresse gerado pela perda ou pela supressão da dor e centrar-se na adaptação a uma realidade externa alterada. Partindo deste modelo, o psicoterapeuta assume o papel de facilitador, sensibilizando os seus clientes na tomada de decisão inerente a este processo ativo, ajudando-os a discriminar as implicações que advêm de cada uma das suas decisões, que podem ser tomadas de uma forma consciente ou inconsciente.

A elaboração do luto continua a ser necessária e o tipo de vinculação à pessoa falecida constitui um fator altamente determinante nas intervenções com enlutados. O indivíduo enlutado deve tornar-se capaz de aceitar a realidade da perda e reorganizar a sua vida sem o objeto perdido. Vários autores defendem que, quanto mais complicado for o processo de luto, maiores serão as hipóteses de que a psicoterapia contribua para resultados satisfatórios.

Apoio psicológico no lutoAssim, as intervenções com pessoas enlutadas devem ser principalmente dirigidas para pacientes com riscos sociodemográficos e circunstanciais, sejam elas pessoas sem apoio familiar, social e financeiro, que vivam sós ou cujo luto seja consequência de mortes violentas, traumáticas ou em massa. Parece também relevante dar especial atenção a situações de mães e esposas, sobretudo se a relação com o falecido tiver características de dependência. Indivíduos que apresentem ideação suicida devem ser considerados prioridade, assim como os que manifestaram transtornos psiquiátricos prévios à perda. Sujeitos que tenham sido vítimas de abuso ou negligência parental na infância podem igualmente obter grandes benefícios com a psicoterapia.

Processos de luto

“Para além da felicidade e do rir, também a tristeza e o chorar, são elementos intrínsecos ao facto de estar vivo, bem como na elaboração das perdas significativas”.

 

 

Bibliografia

Barbosa, A., (2013). Olhares sobre o Luto. Lisboa: AIDMFL.

Parkes, C.M. (2006). Love and loss: The roots of grief and its complications. London: Routledge.

Stroebe, M. S., & Schut, H. (1999). The dual process model of coping with bereavement: Rationale and description. Death Studies, 23, 197-224.

 

Para quê ter um psicólogo da saúde na sua empresa?

Saúde e doençaA Psicologia da Saúde surgiu na década de 70 do Séc. XX nos EUA e teve como principal intuito estudar a natureza e a extensão da contribuição dos Psicólogos para a investigação básica e aplicada sobre os aspetos comportamentais nas doenças físicas e na manutenção da saúde (Ribeiro, J., 2007, p.33).

Tradicionalmente a psicologia, em particular a psicologia clínica, dedicava-se ao diagnóstico e tratamento das doenças mentais. Contudo, à medida que se vai dando importância ao papel dos fatores psicológicos como fatores com influência na doença física, também a psicologia se passou a interessar pela saúde física dos indivíduos. Atualmente podemos dizer que a psicologia da saúde é a área que tem como objetivo a promoção e proteção da saúde assim como a prevenção, o tratamento e o apoio na doença e na adaptação do indivíduo à mesma. Logo, podemos dizer que o psicólogo da saúde tem como principais funções a promoção de estilos de vida saudáveis através da implementação de programas de mudança de comportamentos considerados de risco, intervenção psicológica de apoio na doença, com ênfase na doença crónica e nas doenças terminais, tanto ao doente como aos seus familiares ou cuidadores.

Psicologo na empresaOutro aspeto importante da intervenção do psicólogo da saúde é a intervenção facilitadora à adesão e resposta do doente a terapêuticas médicas variadas, como a medicação, a cirurgia e meios complementares de diagnóstico, por exemplo. Este profissional de saúde tem também competências para trabalhar na problemática da comunicação interpessoal, desenvolvendo no indivíduo competências relacionais, técnicas de mediação e gestão de conflito, gestão do stress, entre outras. Pretende-se ainda que o psicólogo da saúde possa num futuro breve vir a integrar projetos de humanização dos serviços, acesso e atendimento, bem como em projetos de melhoria da qualidade nos cuidados de saúde e nas organizações.

Psicologia da saúdeE o que pode então fazer um psicólogo  da saúde numa empresa ou organização? O psicólogo da saúde pode implementar na empresa algumas intervenções práticas a realizar no âmbito dos programas de ajuda em contexto organizacional. Pode trabalhar na promoção da atividade física de modo a prevenir os efeitos nefastos do sedentarismo, como o caso da obesidade e de problemas motores entre outros. Pode dedicar-se ao ensino e treino de técnicas de relaxamento a serem utilizadas em momentos de maior sobrecarga de stresse ou de trabalho, com vista a um melhor bem-estar físico e psicológico dos colaboradores. Pode trabalhar na promoção da comunicação e partilha de experiências entre hierarquias em contexto informal, com vista a aprendizagens e partilha de experiências, assim como o convívio e a prática de atividades conjuntas de modo a proporcionar uma maior proximidade, conhecimento e facilitar a comunicação e as relações pessoais/sociais.

Psicologia da saúdeO psicólogo da saúde pode também promoverr na empresa práticas de alimentação saudável, em parceria com os responsáveis pela cantina da empresa e com um nutricionista, com o objetivo de corrigir maus hábitos alimentares e evitar problemas cardiovasculares e excesso de peso, entre outros, com forte influência na autoestima do individuo e consequentemente no seu bem-estar físico e emocional. A implementação de programas de cessação tabágica ou de outros consumos excessivos identificados, poderá ser uma proposta de intervenção,  assim como a realização de ações de incentivo à adesão aos tratamentos, nos trabalhadores com doença crónica diagnosticada, identificando as consequências da não adesão para o seu bem-estar e que afetam diretamente a sua vida profissional.

Doença e trabalhoNeste contexto torna-se necessária a avaliação das crenças dos trabalhadores com doença crónica, em relação à evolução da mesma e trabalhar no sentido de aumentar a sua adaptação à doença e às possíveis limitações inerentes a esta que possam interferir com o desempenho na organização e com o seu bem-estar geral. Outro ponto de extrema importância a poder ser trabalhado com os colaboradores da empresa, é a promoção de ações de formação sobre hábitos saudáveis de sono. Os distúrbios do sono têm consequências adversas no dia-a-dia dos indivíduos por diminuir o seu funcionamento aumentar a propensão a distúrbios psiquiátricos, défices cognitivos, surgimento e agravamento de problemas de saúde, riscos de acidentes de trabalho e de trânsito e consequentemente absentismo no trabalho, comprometendo assim também a sua qualidade de vida.

Trabalho, empresa e saúdeE como comunicar de forma eficaz é meio caminho andado para o entendimento, a promoção de treinos de comunicação assertiva no sentido de facilitar a mediação e a gestão de conflitos decorrentes dos problemas inerentes às atividades profissionais, e de dar competências a empregados e empregadores para uma melhor comunicação e relação. é outro dos pontos relevantes que podem ser melhorados, com a intervenção do psicólogo. Do mesmo modo, a promoção de programas de incentivo à crítica construtiva, de modo a aumentar o sentimento de autoeficácia e aumento da autoestima, são pertinentes e necessários. Promover a ‘política do elogio’ com vista a aumentar a satisfação do indivíduo, que se vai refletir na continuação de boas práticas e numa maior abertura à mudança, pode fazer a diferença. Por fim, este profissional de saúde poderá ainda organizar palestras/comunicações com especialistas em várias doenças que são diretamente afetadas pelo stresse excessivo, como é o caso das doenças cardiovasculares, digestivas, diabetes, etc. de modo a informar, esclarecer dúvidas e aconselhar práticas mais saudáveis adequadas a cada patologia.

Psicologia da saúde e da doençaAssim, um psicólogo da saúde em contexto organizacional, muito poderá fazer em termos de intervenção psicológica, no que diz respeito não só à promoção da saúde e prevenção  da doença, mas também no sentido de minimizar os efeitos decorrentes da falta de informação, de motivação e de comunicação. Fomentar relações saudáveis, hábitos de vida saudáveis e promover um contexto de trabalho orientado para a saúde física e emocional dos colaboradores, poderá prevenir o absentismo, promover a satisfação pessoal e a melhoria do desempenho, que se irá decerto refletir  no aumento do rendimento da própria organização.

 

 

Ansiedade e depressão vs. doença física

Psicologia da saúdeO principal interesse da Psicologia pelas doenças é o modo como as reações de ansiedade e/ou depressão que acompanham muitos dos processos de doença fisiológica, interferem com as ações de tratamento. As emoções desadaptativas ou patológicas do doente, podem manifestar-se nas reações ao diagnóstico e/ou ao tratamento, influenciando a progressão da doença, qualquer que seja o seu tipo.

As emoções intensas frequentes e/ou prolongadas de ansiedade e/ou depressão, podem contribuir para a mudança na progressão da doença física, podendo levá-la de transitória a crónica. A grande maioria das intervenções da psicologia da doença têm como objetivo a mudança das emoções desadequadas do doente, pois estas aumentam o seu sofrimento e influenciam os seus comportamentos de prevenção da doença ou de adesão ao seu tratamento. A intervenção visa também impedir que as emoções desadequadas constituam a causa do aparecimento ou reaparecimento da doença, à semelhança de outros determinantes. A inadequação dos processos emocionais inscreve-se num contínuo entre o normal e o patológico, o que implica uma distinção entre depressão ou tristeza ligeira e moderada, observada na maioria dos doentes, quando confrontados quer com os sintomas, quer com o diagnóstico de uma doença, ou até mesmo do próprio tratamento.

Doença e saúdeA doença física constitui-se como um terreno fértil para a expressão de emoções desadaptativas. A depressão está muitas vezes associada à doença crónica. As reações depressivas tendem a manifestar-se mais tarde, em comparação com as reações de ansiedade e posteriormente, ambas podem ocorrer de forma alternada ou em simultâneo. O processo depressivo pode ser anterior à doença física e pode constituir-se como determinante direto ou indireto da mesma (ex. alterações imunológicas e/ou fisiológicas, negligência pessoal etc.). O processo depressivo posterior à doença física pode apresentar-se como sintoma da doença ou como consequência do seu tratamento (ex. efeitos da medicação, baixa da autoestima, possível perda de capacidades ou de papéis sociais, isolamento, etc.).

AnsiedadeÉ difícil saber se é a depressão que contribui mais para o aparecimento e evolução da doença física ou se é esta que contribui para o desenvolvimento da depressão. Isto leva à necessidade de que médicos e psicólogos trabalhem em equipa, no sentido de chegarem ao diagnóstico, quer seja de doença física com sintomatologia depressiva quer seja de depressão com sintomatologia somática. Caso contrário, o médico pode diminuir a sintomatologia do processo depressivo, considerando-o normal e inerente ao processo de doença, ficando o doente sem acesso ao tratamento psicológico, ou, o psicólogo poderá considerar que as reações somáticas do doente fazem parte do processo depressivo, e o doente ficar sem os cuidados médicos de que pode necessitar. Considerar que doença física e depressão se determinam mutuamente poderá permitir que médico e psicólogo formem uma equipa e que trabalhando em conjunto possam dar uma resposta mais adequada ao doente.

Saúde e doençaO stesse, estado reativo do organismo face a situações inesperadas ou de ameaça e hoje em dia também visto como uma resposta de ajustamento do organismo, contingencial a essas situações, é o processo ansiogénio mais comum, tendo sido transformado em sinónimo de todo e qualquer tipo de ansiedade geral ou específica. Sendo o stresse um conceito de grande operacionalidade em psicologia da doença, a intervenção clínica é quase sempre dirigida à sua redução para limites aceitáveis, por diversas razões. Uma delas é o facto de o stresse poder causar doença por interferir no sistema imunitário. Por outro lado, pode estar também associado a hábitos que causam a doença (ex. tabagismo). O stresse pode escalar facilmente para processos ansiogénios mais graves, podendo interferir com a capacidade do indivíduo reagir tanto a um diagnóstico de doença, como à adesão ao tratamento proposto.

Psicologia da saúdeA depressão e a ansiedade têm sido estudadas na sua relação com o mesmo tipo de doenças, o que não significa que sejam abordadas da mesma forma. As reações depressivas tendem a ser consideradas na sua polaridade mais grave (depressão major) e o stresse é mais representativo das reações ansiogénias. Dada a semelhança entre sintomas reais e somatizações, como saber se é a depressão ou o stresse que provocam e/ou agravam os sintomas ou se é a doença, na sua dimensão orgânica que os provoca e/ou agrava? A maior dificuldade do psicólogo para determinar se as emoções excessivas contribuem para o agravamento da condição do paciente advêm de questões metodológicas, que incluem a avaliação da gravidade da doença e a avaliação da gravidade da emocionalidade negativa que a acompanha. Embora esta questão possa parecer circular, ela constitui uma limitação para a intervenção. Uma vez mais se destaca a grande importância do trabalho de equipa ,em psicologia da saúde. Não basta tratar a doença, é fundamental tratar o doente.

Psicologia do trabalho e desenvolvimento de carreira

Psicologia do trabalhoA psicologia do desenvolvimento e gestão de carreira no contexto das organizações tem como foco o estudo da relação entre o individuo e a organização onde trabalha, no sentido de sustentar o desenvolvimento das pessoas, encontrar respostas às necessidades das organizações e procurar um compromisso entre a estratégia organizacional e as aspirações de cada trabalhador.

A psicologia do desenvolvimento e gestão de carreiras tem como propósito o apoio à resolução de problemas que possam derivar da relação entre o indivíduo e a organização. Esta área da psicologia teve o seu início nos anos 60 do séc. XX, abarcando dois domínios: o domínio interdisciplinar no estudo do individuo e domínio multidisciplinar na compreensão da organização. Com o advento desta área da psicologia, o trabalhador passou a ser visto como colaborador e foi dado relevo à sua relação com a organização. Desde então nota-se uma tendência para o fim do conceito de “emprego para a vida” e a ascensão na empresa por anos de trabalho leal e dedicado. O conceito tradicional de carreira como aumento do salário ou promoção automática torna-se também menos comum.

Psicologia das organizaçõesNo passado não eram valorizados nem a motivação nem o auto-desenvolvimento do trabalhador. Atualmente parece haver a responsabilidade do empregado aprender a gerir a sua carreira, e da empresa, em promover programas de desenvolvimento de carreira, visando a sobrevivência e satisfação de ambos, ou seja, passou a haver uma responsabilidade partilhada. Promove-se também hoje em dia, a construção de uma teia de relações e responsabilidade crescente, que se tem vindo a estabelecer entre o individuo em busca de percursos de desenvolvimento de satisfação pessoal e a organização, que reúne as condições necessárias para mobilizar essa procura.

Desenvolvimento de carreiraO mundo do trabalho modelou o conceito de carreira na medida em que após a revolução industrial e das mudanças socioeconómicas daí decorrentes, as profissões diversificaram-se e foi necessário ajudar as pessoas e encontrarem o emprego certo. Anteriormente o modelo vigente era centrado exclusivamente nos objetivos da organização e era orientado para a determinação de regras rígidas voltadas para a realização de tarefas e a incrementação do rendimento, ignorando as relações sociais e as necessidades das pessoas, sendo o conceito de carreira baseado somente na progressão hierárquica.

A Psicologia vocacional, que visa a adequação do individuo ao trabalho, ou seja, colocar o homem certo no lugar certo, passou a ser integrada desde cedo na vida dos jovens estudantes. Em termos de emprego e carreira, passou a olhar-se para as características individuais e não apenas para o coletivo. Passou a haver uma nova forma de o individuo assumir responsabilidades e tarefas consistentes com as suas características pessoais assim como a oportunidade de promoção para aqueles que revelem potencial adequado, avaliado com base na sua formação e experiencia de trabalho. A carreira é própria do individuo, das posições que vai ocupando ao longo da vida, dos papéis que vai desempenhando enquanto trabalhador e no acumular de experiencias, o que também inclui aspirações, expectativas, necessidades e sentimentos.

Carreira e profissãoA importância crescente do indivíduo decorre da importância estratégica da gestão dos recursos humanos. São vários os elementos para promoção de sistemas de desenvolvimento e gestão de carreiras flexíveis que promovam satisfação e sucesso para o colaborador e para a organização, nomeadamente a criação e desenvolvimento de mecanismos de detenção de informação, o reconhecimento, a integração dos colaboradores na cultura da organização e o desenvolvimento de sistemas de recompensa pelo seu desempenho e desenvolvimento, entre outras.

Os modelos mais recentes referem abordagens centradas no individuo/situação. A recolha de informação que permitam melhores decisões e o apoio dos familiares e amigos, por parte do trabalhador e a disponibilização de recursos e de apoio por parte da empresa, conduzem a um modelo de obrigações reciprocas. O reconhecimento mutuo e a renegociação são o ponto de equilíbrio entre aquilo que o individuo pode oferecer e aquilo que a organização espera dele.

O Desenvolvimento e gestão de carreiras é um processo de interações contínuas na ajuda de resolução de problemas, que enquadra os processos de tomada de decisão de forma sistemática e realista e que permite conjugar necessidades individuais com necessidades da organização. Em termos de técnicas de intervenção destacam-se o desenvolvimento do auto-conhecimento e das variáveis situacionais, a ajuda na aplicação de estratégias de carreira e as ações de informação retroativa num sistema bidirecional de estabelecer planos de carreira de acordo com a estratégia previamente definida.

Psicologia dos recursos humanosA avaliação psicológica individual deverá permitir capitalizar o que de melhor o individuo tem para dar à organização ao mesmo tempo que a psicologia da construção da vida deverá promover a adequação da pessoa aos novos contextos em que o trabalho e emprego se desenvolvem. A carreira do individuo desenvolve-se através do modo como ele perceciona a realidade e a ela se adapta, sem renegar a sua personalidade e as linhas estruturantes da sua história pessoal. Os paradigmas atuais devem considerar as diferenças individuais em oposição à uniformização que conduziu nos tempos modernos, à mecanização dos comportamentos. No futuro, espera-se uma teoria psicológica que vise a promoção do sucesso e que procure a construção como fonte de satisfação. Outro desafio que se apresenta é o apoiar e escutar o individuo, bem como a organização, de forma harmoniosa,  enquanto agentes ativos do constante processo de integração, neste novo mundo em que a informação está ao alcance de um clique.

Sugestão:

http://pepsic.bvsalud.org/pdf/rpot/v17n4/v17n4a02.pdf

 

Obsessões e compulsões

Perturbação obsessivo-compulsivaQuando o seu pensamento se prende repetidamente a uma ideia ou a uma imagem e não o consegue afastar, por muito que não o queira ter e por mais absurdo que ele lhe pareça ser, e quando a esse pensamento se junta uma sensação de mal-estar, nervosismo ou ansiedade, que apenas consegue ver reduzida após efetuar determinados comportamentos ou rituais, então poderá estar perante uma Perturbação Obsessivo-Compulsiva (POC).

Exemplos comuns deste tipo de perturbação são as lavagens frequentes das mãos e os banhos ultra prolongados por medo da contaminação, ou a verificação vezes repetidas de que se desligou o fogão antes de sair de casa ou se fechou bem a porta. O indivíduo não quer ter esses pensamentos ambíguos pois se por um lado lhe parecem não ter sentido, por outro lado eles são muito intensos e parecem verdadeiros. Todos os comportamentos associados a estes pensamentos repetitivos, intrusivos e persistentes fazem com que o individuo os sinta como necessários para reduzir o estado de ansiedade que os pensamentos provocam. Do mesmo modo, os comportamentos relacionados com a verificação ou contaminação, são repetidos podendo levar a um elevado consumo do tempo e da energia do sujeito.

POCC A POC é uma perturbação grave que se caracteriza por dois fenómenos: as obsessões e as compulsões. As obsessões definem-se como pensamentos, imagens ou impulsos recorrentes, intensos e persistentes e que provocam grande ansiedade e mal-estar. O sujeito pode tentar ignorar estes pensamentos com algum outro pensamento ou através de comportamentos compulsivos ou ritualizados. Definem-se como compulsões os comportamentos repetitivos geralmente executadas em resposta às obsessões, ou seja, aos pensamentos. Para além dos exemplos de compulsões já referidos, repetir palavras, números ou frases assim como organizar objetos segundo uma determinada ordem podem ilustrar comportamentos característicos da POC e que têm como finalidade a diminuição do desconforto causado pelos pensamentos obsessivos.

POCNo entanto, muitas pessoas gostam de ser muito organizadas, de ter bons cuidados de higiene ou de se certificarem se realmente fecharam todas as janelas antes de saírem de casa, sem que por isso reúnam critérios de diagnóstico de POC. A avaliação deverá ser feita com cuidado e com recurso a instrumentos rigorosos e por um psicólogo com  boas competências de avaliação psicológica, para que se possa diferenciar de forma inequívoca o normal do patológico. Apenas poderá ser considerado que o sujeito tem POC quando as obsessões ou as compulsões interferem significativamente com as suas rotinas diárias e quando as mesmas ocupam um tempo considerável do seu dia, isto é, pelo menos uma hora. Esta é uma perturbação que pode reduzir acentuadamente a funcionalidade dos indivíduos nos vários contextos em que se move, o que se vai refletir num decréscimo na sua qualidade de vida.

StressEmbora a POC habitualmente tenha o seu início durante a adolescência ou no início da idade adulta, em alguns casos poderá começar a manifestar-se na infância, sendo a prevalência desta perturbação de cerca de 2%. A idade de início é geralmente mais precoce no género masculino (entre os 6 e os 15 anos) do que no género feminino (20 e os 29 anos), aparecendo por norma gradualmente e quase sempre de forma aguda. Na maioria dos casos observa-se um curso crónico de melhoria alternada com períodos de agravamento dos sintomas, em que muitas vezes o agudizar dos sintomas  se prende com situações relacionadas com a ansiedade. A POC pode ser ligeira a grave em termos de incapacidade, podendo mesmo em casos extremos, causar incapacidade absoluta ao ponto do paciente poder ter que ser internado.

relax.jpegEm termos de tratamento, a intervenção baseada no modelo cognitivo-comportamental tem mostrado grande eficácia. Esta intervenção tem como objetivo ensinar o indivíduo a lidar com a ansiedade produzida pelas obsessões e a reduzir ou eliminar os rituais compulsivos. O ensino e treino de um conjunto de técnicas e estratégias estruturadas, leva a que o indivíduo aprenda a utiliza-las em situações de ansiedade e em momentos em que o mal-estar causado pelas obsessões e compulsões se torna disfuncional. A intervenção visa a mudança de comportamento através de estratégias de enfrentamento, de confronto e de exposição, inicialmente em ambiente controlado e posteriormente em contexto natural. As técnicas de relaxamento, entre outras, são também ensinadas e treinadas no sentido da redução da ansiedade. Por vezes, em casos mais graves, a medicação pode ser necessária. Os medicamentos que afetam a serotonina parecem ser os mais eficazes no tratamento desta doença, obedecendo a sua escolha a critérios médicos, de acordo com o perfil de cada doente. Porém, para uma maior eficácia, mesmo o tratamento medicamentoso beneficia, se associado ao tratamento psicológico.

 

 

Fonte: DSM-V – Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (Quinta edição) de American Pshychiatric Association.

 

Sugestão: Ferreira e colaboradores (2017)Perfeccionismo, pensamento repetitivo negativo e sintomatologia do espectro obsessivo-compulsivo.

http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?pid=S1645