Regresso às aulas: uma ansiedade natural

A ansiedade é uma reação comum e até certo ponto funcional, na vida de qualquer indivíduo, podendo manifestar-se por comportamentos de fuga ou evitamento. É normal que cada um de nós, em vários momentos da nossa existência, experienciemos o sentimento de ansiedade, sempre que avaliamos cognitivamente uma situação ou um acontecimento que consideramos importante.

O regresso às aulas é para a maioria crianças e jovens, um momento aguardado com alguma ansiedade.  Corresponde ao reinício de rotinas e tarefas, interrompidas pelo período de férias. Principalmente as crianças do primeiro ciclo, tendem a revelar uma grande vontade de recomeçar a escola e de rever colegas e professores, o que de um modo geral, nem sempre é vivido com o mesmo entusiasmo por parte dos adolescentes. De qualquer modo, o momento de se confrontarem com novos professores, distribuição de turmas e horários, bem como novas disciplinas e novas matérias, pode ser sempre acompanhado de alguma ansiedade e outras emoções intensas.

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Os comportamentos autolesivos na adolescência

Chamamos comportamentos autolesivos a todos os comportamentos diretos que causem lesões físicas ligeiras a moderadas, feitas sem intenção suicida consciente, e que acontecem na ausência de um estado de psicose ou de incapacidade intelectual organicamente determinada.

A adolescência é caracterizada por ser uma fase de inúmeros desafios. Desde a adaptação a um novo corpo e uma nova aparência, ás espectativas de novas experiências e relacionamentos, o adolescente vive esta fase da sua vida numa ambiguidade, entre o medo e o desejo de crescer. Muitas vezes, esta etapa do desenvolvimento humano trás consigo angustia e sofrimento emocional. As variações do humor e os sentimentos características desta fase de descoberta mas também de dúvida e insegurança, podem conduzir os jovens a momentos de rigidez do pensamento e de razão absoluta, intercalados com outros de insegurança e infelicidade extrema.

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Ansiedade e verão, atenção ao calor!

Com a chegada do verão e do calor, algumas pessoas podem ficar mais vulneráveis às crises de ansiedade. O aumento das temperaturas pode ter um impacto significativo em pessoas mais ansiosas, podendo mesmo levar ao ataque de pânico.

Os sintomas físicos da ansiedade podem ser muito intensos e perturbadores. Podem incluir palpitações, falta de ar, sudação ou tonturas, muito comuns também ao que sentimos quando está muito calor. Esta reação ao calor, nomeadamente em ambientes fechados, pode confundir-se com uma crise de ansiedade, uma vez que os sintomas são semelhantes. A pessoa ansiosa pode ter tendência a considerar que o que está a despoletar estes sintomas é a ansiedade, focar-se demasiado neles, e vê-los escalar para fora do seu controlo.

Todas as pessoas devem ter cuidados específicos no verão, a bem da sua saúde. No entanto, para alguém que sofre de ansiedade, os cuidados devem estar ainda mais presentes. Assim, recomenda-se que evite andar na rua e expor-se ao sol nas horas de maior calor (entre as 12h e as 16h aproximadamente). A hidratação é algo que não pode esquecer. Beber água ao longo do dia vai ajudar a regular a sua temperatura e a manter a sua pele mais protegida. A alimentação é outro fator a levar em consideração. Privilegie as refeições ligeiras e os alimentos frescos, com elevado teor de água na sua composição. Dormir bem é também muito importante na regulação do seu corpo, a todos os níveis, nomeadamente no que diz respeito ao stresse.

O calor intenso está associado à desidratação, que pode dar sinais como boca seca, náuseas, dores de cabeça, cansaço ou irritabilidade. Isto pode conduzir a pensamentos intrusivos e persistentes, que podem levar ao aumento da ansiedade. O calor pode também fazer aumentar a frequência cardíaca e causar alterações na respiração. O cérebro poderá interpretar esses sintomas como sendo causados pela ansiedade e não pelo calor, e levar a uma preocupação excessiva que não lhe fará bem.

Proteja-se do calor, proteja a sua ansiedade e aproveite o verão!

O papel do psicólogo no processo de envelhecimento

O envelhecimento da população mundial é uma realidade e Portugal não é exceção. Dos fatores que contribuem para esta situação, destacam-se a baixa natalidade mas também a melhoria das condições de vida e os avanços médicos e tecnológicos, que assim promovem o aumento da esperança média de vida.

Segundo dados do Eurostat, em Portugal cerca de26,6% da população tem 65 anos ou mais e estima-se que em 2050 esse valor ultrapasse os 40%. Este facto está a transformar as sociedades e a economia a nível global, levantando questões como o financiamento dos cuidados de saúde e as medidas de proteção social. Por outro lado, importa também não esquecer a importância da criação e implementação de programas de promoção da saúde e prevenção da doença, para que a qualidade de vida e o bem-estar das populações se mantenha o mais satisfatória possível, ao longo de todo o curso de vida, nomeadamente nos anos mais tardios.

Perante esta realidade, e uma vez que os adultos mais velhos estão mais vulneráveis à doença crónica, isolamento social, depressão e processos de demência, entre outras patologias, os/as psicólogos/as podem ter um papel fundamental na avaliação e acompanhamento destas pessoas, tendo em vista uma resposta adequada às suas necessidades. Tendo em conta a sua formação e o conhecimento cientifico teórico-prático sobre desenvolvimento, comportamento e sobre o impacto psicológico do processo de envelhecimento, os/as psicólogos/as estão preparados para apoiar os adultos mais velhos nos seus diferentes contextos de vida e problemáticas.

A eficácia da intervenção psicológica está demonstrada nas várias fases do desenvolvimento humano (desde a primeira infância). Assim sendo, alguns adultos mais velhos poderão beneficiar de uma intervenção psicológica com muito bons resultados, ao invés de intervenções apenas farmacológicas. Esta população apresenta frequentemente comorbilidades com outras patologias características da idade, encontrando-se por vezes muito medicada. Em muitas situações o recurso à psicologia pode ser a melhor opção. E quais poderão ser os campos de ação do/a psicólogo/a na sua intervenção com pessoas idosas?

Com esta população específica, o/a psicólogo/a pode ajudar a promover o envelhecimento ativo rentabilizando o potencial de cada indivíduo, para que numa relação terapêutica possam trabalhar as suas várias dimensões, tendo em vista o aumento do seu bem-estar. Questões como informar e consciencializar a pessoa acerca do natural processo de envelhecimento, desmistificar crenças e mitos sobre a velhice, promover uma perspetiva realista mas positiva da vida, salientar e potenciar os pontos fortes do individuo, facilitar a sua participação ativa em sociedade/comunidade, são áreas de abrangência do trabalho do/a psicólogo/a. A facilitação da expressão emocional, a compreensão dos processos e situações problemáticas da vida da pessoa idosa, bem como o apoio na adaptação a possíveis mudanças decorrentes do passar do tempo, cabem também na esfera da intervenção psicológica. A acrescentar, este profissional pode ajudar na aceitação e controlo da doença. física ou mental e respetivo tratamento, assim como ensinar e treinar estratégias para lidar com a dor, com a ansiedade, entre outras patologias típicas desta fase da vida, como por exemplo a prevenção da demência ou ainda o apoio em processos de luto.

Envelhecer faz parte da vida e saber envelhecer é muito importante na preservação da qualidade de vida e da satisfação com a mesma. Há que ter uma perspetiva de aceitação e de esperança e tomar decisões importantes para o seu próprio bem-estar emocional, físico e social. A felicidade é um direito universal e cada um de nós pode contribuir efetivamente para ela.

Não basta dar anos á vida, é fundamental dar vida aos anos. Se para isso sentir que precisa de ajuda, não espere mais, peça-a á Sua Psicóloga!

Qualidade do sono na adolescência

Pode considerar-se a qualidade do sono como boa, se corresponder a um período de sono reparador que atende às necessidades do indivíduo de modo a permitir-lhe um funcionamento diário ideal (Walker, Johnson, Miaskowski, Lee, &Gedaly-Duff, 2010).

Um adolescente com uma boa qualidade de sono deverá ir para a cama sem apresentar dificuldades na hora de dormir, transitar sem esforço do estado de vigília para o sono, ter um sono sem interrupções e tranquilo, manter o sono ou não apresentar dificuldades em reiniciar após o despertar noturno e de manhã fazer a passagem do sono para a vigília sem dificuldade (LeBourgeois, Giannotti, Cortesi, Wolfson, & Harsh, 2005). Assim, para uma avaliação da qualidade do sono, é necessário avaliar 5 dimensões essenciais: hora de deitar, adormecer, manutenção do sono, reinício do sono e despertar.

A qualidade do sono é afetada por vários fatores, entre os quais o stresse psicológico, problemas afetivos, hábitos de sono desadequados e parasónias (sonambulismo, pesadelos, bruxismo, etc.) (Manni, Ratti, Marchioni, Castelnovo, Murelli, Startori et al., 1997). Num estudo em que participaram adolescentes portugueses com idades compreendidas entre os 14 e os 18 anos, concluiu-se que as maiores dificuldades se prendem com a preparação da hora de deitar, a passagem do sono para a vigília, e o controlo das preocupações do dia-a-dia na hora de ir dormir (Cortez, 2014).

 De um modo geral, a má qualidade do sono é um preditor significativo de maiores limitações na atividade diária dos jovens (Palermo, Fonareva & Janosy, 2008). Em termos comportamentais, parece haver evidência de que a má qualidade do sono está associada a uma maior apatia e menor autoestima, bem como a um tempo de reação mais lento (Telzera, Fulignib, Lieberman. & Galvánb, 2013), o que pode justificar uma maior propensão para comportamentos de risco assim como o comprometimento das capacidades de tomada de decisão.

Em termos de duração, o tempo de sono recomendado para os adolescentes corresponde a uma média de nove horas de sono diárias (Carskadon, Acebo, & Jenni, 2004), no entanto são vários os estudos que indicam que muitos adolescentes não atingem esta média, o que contribui para um sono de má qualidade (Johnson et al., 2006; Liu et al., 2000; R. Roberts, C. Roberts, & Chen, 2002; Terman & Hocking, 1913; Tynjala, Kannas,& Valimaa, 1993; Wolfson & Carskadon, 1998).

Dormir bem é essencial em qualquer momento da vida. No entanto, durante a infância e a adolescência e atendendo ao rápido desenvolvimento físico, cognitivo e emocional, a importância de um sono de qualidade é maior. Se o seu filho revela dificuldades relacionadas com o sono, procure ajuda-lo e se a tarefa se revelar complicada, procure a Sua Psicóloga!

Sugestão: Matos, M. G. de, Santos, T. G. S. dos, Guedes, F. A. B., Branquinho, C., Cerqueira, A., Marques, A., Simões, C., Tomé, G., Gómez-Baya, D., & Paiva, T. (2019). Os adolescentes portugueses dormem pouco e bem, ou pouco e mal? E então?. Revista De Psicologia Da Criança E Do Adolescente10(1), 159–171. Obtido de http://revistas.lis.ulusiada.pt/index.php/rpca/article/view/2639

Controlar a ansiedade

A ansiedade é uma reação natural do nosso corpo que faz parte do desenvolvimento humano. É uma expectativa apreensiva relacionada com as mudanças (naturais e/ou imprevistas) que o indivíduo experiencia no seu quotidiano e nos diversos contextos em que se movimenta.

A ansiedade manifesta-se de diferentes formas, sendo o nosso corpo o primeiro a reagir e a dar os primeiros sinais. Sintomas como aceleração dos batimentos cardíacos, rubor, tremores, dor de cabeça, dificuldade em respirar, tensão muscular, tonturas, aperto no peito ou dificuldade em se concentrar, são sinais de alerta que não devem ser ignorados. A ansiedade pode também manifestar-se por pensamentos derrotistas e ruminantes, sensação de que algo de mal nos vai acontecer, irritabilidade, dificuldade em adormecer e/ou manter o sono, entre outros sintomas que podem variar de pessoa para pessoa. Uma perturbação de ansiedade pode mesmo conduzir o indivíduo a sentimentos de medo irracional, vergonha isolamento social, tristeza, desespero, insegurança, angústia constante, sentimentos de frustração, falta de sentido de humor ou ressentimento.

Todos nós, em vários momentos das nossas vidas já vivenciamos situações em que os níveis de ansiedade subiram mais do que o desejável, tendo em alguns casos até escalado para um ataque de pânico. Para evitar essa escalada e as respetivas consequências, há que saber identificar os sinais do nosso corpo e agir, utilizando estratégias de coping. Chama-se coping aos esforços cognitivos e comportamentais adaptativos que utilizamos face a uma determinada situação de stresse, que ultrapassa as nossas capacidades e que constitui numa sobrecarga aos nossos recursos, perante uma ameaça ao nosso bem-estar. Estas estratégias, por sua vez, podem ser orientadas para o problema ou para a emoção. As primeiras visam atuar sobre o fator de stresse, procurando alterar a situação ou o problema que está a provocar desajustamentos (ex. agir sobre a origem da situação, procurar formas para resolver o problema). As segundas estratégias são direcionadas à resposta emocional ao evento stressante, adequando essa resposta quando não é possível controlar ou modificar a situação. São estratégias que procuram regular as emoções desajustadas, associadas ou resultantes de acontecimentos geradores de tensão (ex. choro, autocensura, evitamento, recusa, agitação ou fuga).

De entre as estratégias focadas no problema, destacam-se a procura de informação (serviços, apoios…), a definição de objetivos concretos e reais de resolução do problemas e a identificação das respostas alternativas. No que diz respeito às estratégias focadas nas emoções, é de referir a procura de significados para o problema (no passado, ou antecedentes das ações stressantes), bem como a identificação das emoções e a aprendizagem e treino de mecanismos eficazes de regulação das mesmas (exercícios de relaxamento, treino cognitivo de técnicas como a paragem do pensamento, a racionalização, entre outras).

A ansiedade pode afetar transversalmente todos os indivíduos. Não escolhe género nem idade e pode ser um problema ligeiro, com o qual a pessoa consegue lidar facilmente, ou, pelo contrário, tornar-se numa perturbação grave que necessita de ajuda especializada. Mesmo os casos mais ligeiros, não devem ser desvalorizados, principalmente tratando-se de crianças ou jovens, uma vez que corre o risco de se agravar e de se tornar um problema crónico e perturbador da funcionalidade da criança ou do adolescente. Faça uma avaliação do seu estado de ansiedade e procure ajuda, se sentir que ela o está a perturbar e a diminuir a sua qualidade de vida.

A Sua Psicóloga, poderá ser uma boa aliada para o/a ajudar a controlar a sua ansiedade!

Falar da guerra aos mais novos

As notícias e imagens de guerra que diariamente chegam às nossas casas, podem afetar de forma muito significativa os pensamentos e sentimentos de crianças e adolescentes. Mesmo relativamente longe, assistir aos conflitos armados que acontecem neste momento, pode comprometer a necessidade dos mais novos verem o mundo como um lugar seguro e previsível.

A atual guerra entre a Rússia e a Ucrânia faz com que cheguem diariamente às nossas casas imagens e relatos do conflito, que por um lado nos mantêm informados e por outro lado nos provocam stresse e ansiedade. Sem que muitas vezes consigam compreender o que se está a passar, as crianças/adolescentes podem ser particularmente sensíveis a esta situação, que pode ser verdadeiramente aterrorizadora. As imagens dos bombardeamentos e destruição, dos feridos, das pessoas a fugirem desesperadas e os relatos emocionados quer de repórteres, quer dos refugiados podem provocar medo, sofrimento ou confusão. A nós pais e educadores, cabe-nos procurar proteger as crianças e ao mesmo tempo encoraja-las a serem curiosas em relação ao que se passa no mundo. Como podemos então desempenhar essa tarefa tão difícil?

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Ano Novo, Vida Nova!

Mais um ano que se aproxima do fim, mais um ano que vai começar. Esta é tipicamente, uma fase em que se faz um balanço do que foi o ano que termina e se fazem planos para o ano que inicia. As “famosas” resoluções de Ano Novo!

Como é sabido, a situação pandémica que temos vivido nos últimos quase dois anos, em muito contribuiu para agravar problemas de saúde mental a quem já deles padecia, ao mesmo tempo que despoletou o surgimento desse mesmo tipo de perturbações, em pessoas anteriormente saudáveis. As súbitas mudanças que se observaram no nosso quotidiano, como é o caso do isolamento social, da utilização de máscara e outras medidas de proteção individual, a obrigatoriedade de teletrabalho ou telescola, entre outras alterações que o nosso dia-a-dia sofreu, têm sido responsáveis por uma instabilidade emocional, que em muitos casos deu origem a problemas relacionados com ansiedade ou depressão. Algumas pessoas, pelas suas características de personalidade, tiveram maior capacidade de adaptação a uma realidade outrora inimaginável. Outras pessoas, com maiores dificuldades de adaptação, sofrem desde há muito com todas as modificações a que se viram obrigadas e que tiveram um impacto muito negativo no seu quotidiano e nas suas vidas.

A pandemia tem sido muito difícil para todos e tem trazido consigo muita dor e muitas emoções negativas, como o medo, a tristeza, a angústia, a solidão, etc. Todas estas emoções e algumas das mudanças a que fomos obrigados, geraram em algumas pessoas uma incapacidade para a ação, ou seja, algumas pessoas sentem que não estão bem mas não conseguem iniciar esforços que as ajudem a melhorar. Tratam-se de situações em que a ansiedade, o medo ou os sintomas depressivos as impedem de agir, no sentido da mudança, para que possam melhorar o seu bem-estar e serem mais felizes. Algumas pessoas conseguem adaptar-se de tal forma a esta atual realidade, que parece que apesar das alterações que aconteceram nas suas vidas, continuam a “caminhar” com alegria e otimismo. Outras, não conseguem ver a “luz ao fundo do túnel” e fecham-se em si mesmas, descendo nessa espiral negativa que é a doença mental.

Num momento de viragem do ano, em que tipicamente se fazem planos para o ano que vai entrar, algumas pessoas não conseguem sequer imaginar que a sua vida poderá melhorar, uma vez que não acreditam na mudança delas próprias. Quando algo está mal, ou nos adaptamos e seguimos vivendo em harmonia, ou, na maioria dos casos, temos que empreender esforços de mudança para conseguirmos ser pelo menos funcionais, senão felizes. O processo de mudança começa dentro de cada um de nós, no momento em que reconhecemos que efetivamente temos um problema ou uma dificuldade. A partir desse momento, com ou sem ajuda profissional, a pessoa pode preparar-se para agir. A ação pode passar por um conjunto de comportamentos a abolir, a iniciar ou a transformar, com o intuito de se tornarem mais adaptativos. Modificar comportamentos pode não é tarefa fácil e por vezes pode ser necessário apoio, acompanhamento e compromisso, para que cada pequeno esforço, cada pequeno passo no sentido daquilo que se deseja, não seja nunca um retrocesso mas sim uma conquista sólida e consistente.

Numa época em que a saúde mental está na “ordem do dia”, a sua prevenção, manutenção ou o seu tratamento pode passar por pedir ajuda a um técnico especializado. O primeiro passo pode estar na mão dos cuidados de saúde primários, que havendo disponibilidade, o médico assistente pode encaminhar o indivíduo para a consulta de psicologia. Infelizmente, o nosso Serviço Nacional de Saúde, não dispõe de psicólogos em número suficiente para atender a todos os que desse apoio necessitam. Assim sendo, na maioria das situações, esse apoio terá que ser prestado por profissionais independentes, em clínica privada. No entanto, este não deve ser um motivo para deixar de procurar ajuda.

Há a ideia generalizada de que os serviços privados de avaliação e acompanhamento psicológico são muito dispendiosos, não é de todo uma realidade. É claro que cada pessoa tem as suas limitações em termos de orçamento, porém, muitas vezes os custos das consultas não são assim tão elevados, havendo até muitos profissionais que atendem e cobram as suas consultas, levando em consideração os casos de maior vulnerabilidade económica, numa vertente de responsabilidade social. Assim, recomenda-se que se quebre em primeiro lugar o estigma de que a saúde mental é menos importante do que a saúde física, pois ambas estão interligadas. Por outro lado, não é vergonha nem embaraço para ninguém, recorrer á ajuda de um psicólogo, num momento de maior instabilidade emocional. O reestabelecimento ou a manutenção da saúde mental é extremamente importante e repercute-se também na saúde física e no bem-estar individual, familiar e social.

Se sente que pode estar a sofrer de problemas ao nível da ansiedade, se apresenta sintomatologia depressiva ou se apenas não está a saber lidar com as suas emoções ou com os seus relacionamentos, não deixe de colocar nas resoluções de Ano Novo, a procura de apoio psicológico. Uma correta avaliação do seu caso e um plano de intervenção adequado, poderão fazer toda a diferença no seu bem-estar pessoal e nas suas relações sociais e familiares. O autoconhecimento, a aprendizagem e treino de estratégias para lidar com a sua ansiedade, a estruturação comportamental em casos de depressão, são exemplos de intervenções que podem modificar a sua vida e torna-la mais fácil e mais feliz. A par com os típicos planos para iniciar a prática desportiva, iniciar a reeducação alimentar para controlar o peso, porque não iniciar um acompanhamento psicológico, para melhorar a sua qualidade de vida, aprendendo a conhecer-se melhor e permitindo-se abrir-se a diferentes perspetivas?

Ano Novo, Vida Nova! Comece o Ano de 2022 a pensar em si e procure ajuda. A Sua Psicóloga, estará ao dispor para a (o) orientar na descoberta de si mesma (o) e do que a (o) pode tornar numa pessoa mais feliz!

A ansiedade na infância e a intervenção cognitivo-comportamental

Desde os primórdios da humanidade que nos deparamos com diversos perigos e ameaças à sobrevivência, tendo desenvolvido ao longo dos tempos, estratégias adaptativas de proteção ou de enfrentamento, para lidarmos com as mais variadas situações difíceis ou ameaçadores do quotidiano. Essas situações ocorrem ao longo do ciclo de vida e é desde crianças que devemos aprender a lidar com elas.

Perante uma situação ou acontecimento causador de stresse, o corpo humano está preparado para reagir de forma imediata à ameaça percebida. O cérebro recebe a mensagem de perigo eminente, produz e liberta substâncias químicas que desencadeiam sensações fisiológicas ou psicológicas, como a aceleração do ritmo cardíaco, o aumento da sudação, as alterações ao nível da respiração, os pensamentos de catastrofização e/ou de fuga, entre outras reações possíveis. Essas sensações e cognições têm como finalidade preparar o organismo para se proteger da ameaça e facilitar a reação de fuga ou enfrentamento do problema. Após um determinado período, de duração variável conforme a situação e o indivíduo, estas sensações diminuem por ação do sistema nervoso parassimpático, provocando uma sensação de relaxamento.

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Perturbação de uso de tabaco

Segundo o Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais – DSM-V, as perturbações relacionadas com substâncias e perturbações aditivas englobam 10 classes de drogas, entre as quais se inclui o tabaco. À semelhança de outras substâncias, o tabaco ativa diretamente o sistema de recompensa do cérebro, que está envolvido no reforço de comportamentos e na produção de memórias.

O uso de substâncias psicoativas ativa diretamente o sistema de recompensa e produz uma sensação de prazer. Os indivíduos com níveis mais baixos de autocontrolo, podem estar particularmente vulneráveis ao desenvolvimento de perturbações do uso de substâncias, ao invés de conseguirem a ativação do sistema de recompensa, apenas por meio de comportamentos adaptativos, como seria desejável. Foquemo-nos então na substância tabaco. O tabaco é uma droga legal e socialmente aceite o que a torna mais perniciosa do que à partida se poderia pensar. Habitualmente de início precoce, o consumo de tabaco faz parte da integração de alguns adolescentes no grupo, bem como da sua afirmação enquanto indivíduos. Parece haver uma diferenciação de género, sendo que tendencialmente as raparigas iniciam hábitos tabágicos para expressarem rebeldia e autoconfiança, enquanto os rapazes parecem utilizar esses hábitos como mecanismo compensatório para a sua insegurança social. Estes hábitos adquiridos em idade precoce, para além das conhecidas consequências negativas ao nível respiratório e cardiovascular, entre outros, podem ainda escalar para um problema de saúde mental – um comportamento aditivo.

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