Stresse: o mau e…o bom!

DistressSegundo Selye (1976) o stresse é um conjunto de respostas fisiológicas que mobilizam o organismo para a acção e que são ao mesmo tempo adaptativas. O autor defende ainda que estas respostas ou reacções se alteram ao longo do tempo e que com a exposição repetida a situações de stresse, a reacção de defesa do organismo passa por três fases distintas: alarme, resistência e exaustão, às quais chamou Síndrome de Adaptação Geral.

Podemos considerar que o stresse é um processo de adaptação e não propriamente uma doença, embora a exposição repetida a factores causadores de stresse possa levar a um estado patológico, pelo desgaste que provoca no indivíduo. Existem vários tipos de stressores, que podem ser internos (representações mentais ou memórias) ou externos (vivenciar uma determinada situação). O modo como o indivíduo reage perante os factores causadores de stresse pode ser através de uma resposta emocional (ex. ansiedade ou medo), uma resposta fisiológica (ex. roer as unhas), uma resposta comportamental (ex. agitação motora) ou resposta cognitiva (ex. pessimismo ou dificuldade em tomar uma decisão).O stresse tem no indivíduo consequências negativas mas também pode ter consequências positivas. É algo inevitável, uma vez que está presente nas situações do dia-a-dia. É também de certo modo e em alguns casos desejável, na medida em que funciona como o motor que nos conduz à resolução dos problemas. Nestes casos, é a oportunidade de adquirirmos competências práticas e de nos tornarmos capazes.

EustressPerante um mesmo factor de stresse, cada indivíduo reage e age de forma diferente, sendo que, uns têm tendência a minimizar os custos da situação e torná-la irrelevante e outros, agudizam-nos, tornando a situação ainda mais ameaçadora. É o significado que cada indivíduo atribui a uma determinada situação, com base na avaliação que faz e nos recursos que possui, que vai determinar as suas reacções ao elemento stressor. Segundo o modelo de avaliação cognitiva de Lazarus e Falkman, uma situação é geradora de stresse quando é potencialmente prejudicial e caso o indivíduo considere que os seus recursos são insuficientes para gerir o resultado aversivo. Uma situação indutora de stresse é toda aquela em que a relação estabelecida entre o indivíduo e o meio ambiente é avaliada como excedendo os seus recursos prejudicando por isso, o seu bem-estar. Às estratégias utilizadas para repor o equilíbrio homeostático após uma situação de stresse dá-se o nome de coping. Estas estratégias têm a ver com regulação de emoções, negação e evitamento ou resolução de problemas, sendo as últimas as que tendencialmente têm maior eficácia, sempre que o factor causador de stresse pode ser controlado pelo indivíduo. A regulação de sintomas pode ser funcional quando o stressor não é controlável, sendo neste caso a autorregulação a melhor forma de lidar com o problema. Em relação à negação e evitamento, considera-se a forma menos eficaz de coping, se bem que em alguns casos pode servir para se ganhar tempo e posteriormente adoptar uma estratégia mais adequada para o problema em questão.

EustressO stresse pode ter um impacto directo na saúde, na medida em que a percepção de falta de controlo, que se atribui a causas internas, estáveis e globais pode levar a estados de ansiedade e/ou depressão, bem como a um estado de saúde física precário. Deste modo, o custo do stresse é sentido na saúde e no bem-estar do indivíduo. Dentro das perturbações patológicas causadas por acção do stresse podemos destacar as perturbações do foro digestivo, infecções, doença coronária ou até mesmo o cancro. É ainda de referir as queixas psicossomáticas, em que o indivíduo por má gestão emocional, manifesta queixas a nível físico para as quais não se encontra uma causa orgânica. Para lidar com o inevitável stresse, cada indivíduo dispõe de recursos internos – características da personalidade e externos – apoio social. São exemplos de factores promotores de distress a dificuldade na gestão do tempo, a dificuldade em estabelecer prioridades e de tomada de decisões, as perdas por morte, os conflitos interpessoais ou uma crise financeira. Até agora falámos essencialmente de distress, isto é, a dimensão negativa e prejudicial do stresse mas ao contrário do que vulgarmente se pensa o stresse nem sempre é negativo.

DistressÉ consensual entre psicólogos e outros profissionais que se dedicam a este tema, a divisão do stresse em mau e bom, respectivamente distress e eustress. Denominamos de eustress, o bom stresse, a capacidade que o ser humano tem de realizar uma acção necessária. Este é natural do organismo e é graças a ele que o indivíduo mantém uma relação entre o stresse e a motivação, sendo encarado como afecto positivo e esperança. Chamamos savoring às estratégias que utilizamos para sentir, prolongar regular, manipular e manter as emoções positivas, o eustress. Estas conduzem ao bem-estar, à saúde física e mental, ao bom desempenho profissional e à satisfação nas relações interpessoais. É um modelo que leva ao impulso para a acção, para a auto-eficácia, para as emoções pró-sociais e trás serenidade. Dentro dos factores promotores de eustress, podemos encontrar a aquisição de competências técnicas ou académicas, estar na eminência de ganhar um prémio ou o estabelecimento e manutenção de algumas relações sociais, como por exemplo, estar apaixonado. Uma das principais estratégias de savoring é a partilha de acontecimentos positivos com os outros, o que vai levar ao aumento do bem-estar e satisfação com a vida.

Aprenda a identificar os sinais de alarme e a gerir o seu distress. Acha a tarefa difícil? Peça a ajuda ao seu psicólogo!

 

 

 

 

Fontes:

Selye, H. (1976). The Stress of Life (Revised ed.). New York: McGraw-Hill.

Stroebe, W. & Stroebe, M. (1995). Social Psychology and Health. Buckingham: Open University Press.

Primeiros socorros… psicológicos!

Situações de catástrofe natural, acidentes ou outras situações de emergência podem acontecer a qualquer um de nós. A qualquer momento das nossas vidas, um evento traumático pode abalar a nossa paz, segurança, saúde física ou mental, e, dessa forma causar uma instabilidade emocional ou mesmo um descontrolo.

O termo “Primeiros Socorros Psicológicos” é utilizado sempre que é necessário dar apoio a alguém que subitamente sofre um trauma emocional para o qual não está preparado, podendo não conseguir no imediato utilizar as estratégias adequadas para lidar com o problema. Por outro lado, nem todas as pessoas são capazes de responder a uma situação traumática de forma adaptativa, por uma questão de personalidade ou por falta de recursos internos ou externos. A reação de cada indivíduo a uma situação de crise pode ser positiva ou negativa. De entre as reações positivas destacam-se a determinação para a resolução de problemas, o otimismo, a coragem, a força psicológica ou até mesmo uma capacidade de perceção mais apurada para compreender e lidar com a adversidade. O sentimento de envolvimento e mobilização a par de um comportamento altruísta e de conexão social contribuem de forma positiva para enfrentar eventos traumáticos. Das reações negativas salientam-se a confusão, desorientação, choque, medo, culpa, zanga, irritabilidade, culpabilização, fuga interpessoal ou até mesmo reações físicas como tensão muscular, cefaleias, dor abdominal ou dificuldades de sono, entre outras.

Perante uma situação de crise, por vezes os indivíduos podem reagir de forma não adaptativa, adotando comportamentos que não os ajudam a lidar com o problema e que podem até desencadear outras perturbações. Esses comportamentos podem incluir o uso do álcool ou outras substâncias psicoativas como estratégia para lidar com a situação, o evitamento extremo em falar sobre o evento traumático, o isolamento social, o excesso de trabalho ou de ocupação como forma de evitar o problema ou até mesmo a exagerada ingestão de alimentos ou a opção por atividades de risco (ex. condução perigosa). Porém, outros há que tendem a lidar com a situação de forma adequada e procuram falar ou passar tempo com outras pessoas, utilizam técnicas de relaxamento para se autorregularem (ex. respiração controlada, relaxamento muscular, meditação), envolvem-se em atividades distrativas positivas, focam-se em questões práticas que as ajudem a gerir melhor o problema, procuram manter as suas rotinas, fazendo pausas e alimentando-se de forma saudável ou há ainda os que escrevem um diário e registam os seus pensamentos e emoções como forma de expressão emocional. Em casos em que as estratégias individuais não são suficientes, aceitar que não se está a conseguir equilibrar sozinho pode ser o primeiro passo para pedir ajuda especializada, ou para aceitar a que nos é oferecida.

Perante a necessidade de intervir em situação de emergência, crise ou catástrofe, a/o psicóloga/o pode intervir como elemento de suporte não só técnico como pessoal. Em primeiro lugar deverá estabelecer o contacto com a pessoa de modo a poder ajudá-la a reduzir o seu sofrimento. Deve apresentar-se e oferecer a sua ajuda, pedindo permissão para falar, no entanto tendo sempre em atenção a vontade do indivíduo, a sua disponibilidade para aceitar ajuda naquele momento, respeitar as questões culturais e geracionais, e claro, não se esquecer de assegurar ao máximo a confidencialidade. De seguida a/o psicóloga/o deve procurar garantir a segurança física da pessoa, fornecendo informação acerca dos recursos disponíveis face ao incidente. Logo de seguida, deverá ter-se em atenção a promoção da segurança física e do conforto do indivíduo. Oferecer conforto físico, comida, água, dar informação acerca dos serviços de apoio disponíveis, promover o contacto social com outros sobrevivente ou ajudar a limitar a exposição aos meios de comunicação social, podem ser ações de extrema importância.

Em momentos de crise, a/o psicóloga/o deve permitir a expressão emocional do indivíduo, empatizar e compreender o que lhe causa maior sofrimento naquele momento, procurando contê-lo na sua dor, evitando a sua desorganização emocional e potenciais comportamentos de risco que possam agravar a situação já de si difícil. Este tipo de intervenção psicológica tem como objetivos reduzir os aspetos biológicos das reações extremas de stresse traumático, afetar positivamente os pensamentos que inibem a recuperação, reduzir a ansiedade, a ativação elevada, ou o entorpecimento, visando uma melhoria do sono, alimentação, funcionalidade, capacidade de tomar decisões, etc., no sentido não só de beneficiar a vítima no imediato, mas também de reduzir a probabilidade de vir a desenvolver psicopatologia a longo prazo. É importante ajudar o indivíduo a regular-se mas também a reconectar-se com a sua rede de suporte social ou com cuidados de saúde especializados, nos casos mais graves. O apoio psicológico em situação de crise deve procurar potenciar a funcionalidade da pessoa e conduzi-la de volta á sua autoconfiança, missão e valores centrais.

Fonte: Curso de Primeiros Socorros Psicológicos – Ordem dos Psicólogos Portugueses, 2021.

Parto e ansiedade

O momento do parto pode ver visto sob duas perspetivas: a positiva, associada à felicidade e entusiasmo pelo nascimento e pela realização do casal enquanto pais, e a perspetiva mais negativa, habitualmente relacionada com a ansiedade e o medo da vivência desse momento.

O parto é, à medida de cada caso, uma experiência física e emocionalmente exigente. A separação de dois (ou mais!) seres, que viveram aproximadamente 9 meses de modo interdependente em contacto íntimo e permanente, tem um impacto emocional para cada um deles. Numa perspetiva psicodinâmica, no momento do parto a mulher revive inconscientemente o trauma do seu próprio nascimento e a angústia que experienciou ao nascer, pela perda do estado intrauterino e pelo medo do desconhecido. A ansiedade causada pelo medo de cuidar o bebé, associado à sensação de perda ou “esvaziamento”, são os dois fatores cuja interação pode conduzir a um estado de confusão que pode desencadear na mulher a sensação de despersonalização ou perda de identidade.

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Stresse! O mau e o bom…

Segundo Selye (1976) o stresse é um conjunto de respostas fisiológicas adaptativas que mobilizam o organismo para a ação. Considera-se que o stresse é um processo de adaptação e não propriamente uma doença, embora a exposição repetida a fatores causadores de stresse possa levar a um estado patológico pelo desgaste que provoca no indivíduo.

Existem vários tipos de stressores. Podem ser internos (representação mental ou memória) ou externos (viver uma situação). O indivíduo reage aos fatores causadores de stresse através da resposta emocional (ex. ansiedade ou medo), da resposta fisiológica (ex. roer as unhas), das respostas comportamentais (ex. agitação motora) ou as respostas cognitivas(ex. o pessimismo ou a dificuldade em tomar decisões). O stresse tem habitualmente no indivíduo consequências muito negativas. No entanto, também pode ser positivo pois leva-o à ação. Sendo muitas vezes inevitável, pois está presente nas situações do dia-a-dia, o stresse é também de certo modo desejável na medida em que funciona como o motor que nos conduz à resolução dos problemas. Pode ser a oportunidade de adquirirmos competências práticas e de nos tornarmos capazes.

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Psicologia e eventos traumáticos

Em psicologia, uma crise corresponde a um período de desequilíbrio psicológico, resultante da vivência de uma situação ou acontecimento que obrigue a um grau de exigência para lidar com essa situação, superior àquele com o qual o indivíduo consegue responder e que resulta na diminuição do seu funcionamento adaptativo.

O desequilíbrio psicológico e as reações ao stresse podem ser resultado das mais variadas situações ou acontecimentos altamente exigentes. O evento traumático poderá ser decorrente de uma catástrofe natural, um acidente de viação, uma doença, uma agressão, uma perda pessoal ou social, enfim, um sem número de situações que se podem constituir como traumas, consoante o grau em que afetam o equilíbrio psicológico do indivíduo. O acontecimento traumático pode ocorrer diretamente com a pessoa ou pode ter o seu impacto através do relato de outra pessoa ou da visualização, por exemplo, de uma notícia nos meios de comunicação social. Por outro lado, o mesmo evento poderá afetar de forma diferente pessoas diferentes, embora todas elas envolvidas na mesma situação. Cada indivíduo possui um conjunto de recursos, internos e externos, que lhes permitem de forma individualizada, lidarem com as situações com maior ou menor grau de adequação e equilíbrio.

Parece haver um padrão de comportamento, biológica e psicologicamente determinado, de respostas sociais, identificado em indivíduos expostos direta ou indiretamente a acontecimentos de vida de alto risco. Esse padrão comportamental de resposta designa-se por reação aguda ao stresse. Esta reação inclui manifestações cognitivas, emocionais, físicas e comportamentais. As manifestações cognitivas podem incluir a negação, as dificuldades de atenção e concentração, os problemas de memória, os sentimentos de confusão, preocupação, os pensamentos intrusivos, a reduzida autoeficácia e a dificuldade nas tomadas de decisão. As manifestações emocionais podem ser caracterizadas por sentimentos de ansiedade, depressão, medo, culpa, raiva, desespero, vulnerabilidade ou até de embotamento afetivo. No que diz respeito às manifestações físicas, estas incluem a aceleração dos batimentos cardíacos, alterações da tensão arterial, falta de ar, fadiga, dificuldades de sono, dores de cabeça, dores abdominais, alterações do apetite, entre outras. Em termos de manifestações comportamentais, estas podem englobar a fuga, o seu oposto, ou seja, o enfrentamento por luta, a imobilização, a obediência, o abandono, a agitação, etc.

A reação aguda ao stresse deve ser normalizada, isto é, é importante que o indivíduo seja ajudado a tomar consciência que aquilo que pensa, sente ou faz perante o evento traumático é normativo e por vezes adaptativo. No entanto, é igualmente importante que o indivíduo tenha a possibilidade de beneficiar de uma intervenção psicológica adequada no sentido de evitar que a situação evolua para a psicopatologia. Segundo os manuais de psicopatologia DSM-5 e CDI, conforme o tempo que medeia entre a ocorrência do evento traumático e as manifestações de perturbação psicológica, esta poderá assumir diversas nomenclaturas, entre elas, reação aguda ao stresse, perturbação aguda de stresse ou perturbação aguda de stresse pós-traumático.

Torna-se, desta forma, importante a monitorização das reações iniciais de stresse, de forma a prevenir a sua escalada e consolidação em síndromes clínicos. Na monitorização deverá ser avaliada a intensidade, a frequência e a duração das reações do indivíduo, que num bom padrão de adaptação diminuem com o passar do tempo. É frequente após ser submetido a uma situação de alto risco de vida, o indivíduo ter dificuldades de sono como insónias ou pesadelos. No entanto, é expectável que essas perturbações vão diminuindo de intensidade, frequência e duração com o passar do tempo. Quando assim não é, torna-se necessária a intervenção psicológica, no sentido de dar “ferramentas” ao indivíduo para lidar com o problema e reduzir os seus efeitos na sua vida.

Segundo a investigação nesta área, a evolução das reações de stresse pode estar relacionada tanto com os antecedentes pessoais como com as experiências pós trauma. Assim, pretende-se que mais estudos nesta área sejam levados a cabo, no sentido de se perceber melhor quais os fatores de risco para o desenvolvimento de psicopatologia posterior e quais os fatores protetores, no sentido de se poderem evitar os primeiros e potenciar os segundos.

Perturbação de Stresse Pós-Traumático

Em psicologia, uma crise corresponde a um período de desequilíbrio psicológico, resultante da vivência de um acontecimento, que obriga a um grau de exigência para lidar com ele, superior àquele com o qual o indivíduo consegue responder, resultando na diminuição do seu funcionamento adaptativo.

O desequilíbrio psicológico e as reações ao stresse podem ser resultado das mais variadas situações ou acontecimentos, altamente exigentes. O evento traumático poderá ser decorrente de uma catástrofe natural, um acidente de viação, uma doença, uma agressão, uma perda pessoal ou social, enfim, um sem número de situações que se podem constituir como traumas, consoante o grau em que afetam o equilíbrio psicológico do indivíduo. O acontecimento traumático pode ocorrer diretamente com a pessoa ou pode ter o seu impacto através do relato de outra pessoa ou da visualização, por exemplo, de uma notícia nos meios de comunicação social. Por outro lado, o mesmo evento poderá afetar de forma diferente, pessoas diferentes embora todas elas envolvidas na mesma situação. Cada indivíduo possui um conjunto de recursos, internos e externos, que lhes permitem de forma individualizada, lidarem com as situações com maior ou menor grau de adequação e equilíbrio.

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Adolescência e ansiedade social: as possíveis consequências

Adolescentes e ansiedade socialDe um modo relativamente consistente, precoce e estável, as manifestações de ansiedade social revelam-se desde a infância, tornando-se tendencialmente mais expressivas e intensas na fase da adolescência.

A adolescência é um período da vida em que há uma particular vulnerabilidade à ansiedade social. As manifestações deste tipo de ansiedade interferem no desempenho do adolescente no que diz respeito às suas relações sociais mas também na realização de tarefas e atividades do quotidiano. Tendo as relações sociais uma especial relevância nesta etapa da vida, a ansiedade social pode ter uma influência de tal modo negativa que poderá afetar o indivíduo de forma permanente, se não for tratada. Tanto a relação do jovem com os outros quer o seu desempenho público, como por exemplo a apresentação oral de trabalhos em contexto escolar, podem ser fortemente prejudicados pela ansiedade, sempre que este se sente de alguma forma avaliado. Continue a ler “Adolescência e ansiedade social: as possíveis consequências”

Burnout e férias de verão

EsgotamentoVerão! Sinónimo de férias escolares para uns e de férias profissionais para muitos outros.  O tão desejado período de descanso e lazer, de convívio, de festa, praia, campo ou tudo aquilo que no dia-a-dia, a azáfama não permite fazer.

As férias são uma necessidade do ser humano. Perante o desgaste físico e psicológico decorrente de um quotidiano rotineiro e por vezes com excesso de solicitações, torna-se fundamental o repouso, para o restabelecimento do corpo e da mente. A falta de descanso pode conduzir os indivíduos a situações de esgotamento físico e psicológico – o Burnout. O Burnout resulta do stresse crónico mal gerido associado principalmente ao trabalho. É caracterizado por uma enorme falta de energia ou exaustão, distanciamento mental face à atividade profissional, sentimentos negativos e perda de eficiência relativamente ao próprio trabalho. Um inquérito da DECO PROTESTE (2018) apontou para a existência de cerca de 30% de pessoas em situação de Burnout em Portugal, ou seja, uma percentagem bastante expressiva. Continue a ler “Burnout e férias de verão”

Psicossomática: afinal estou doente de quê?

SomatizaçãoA somatização caracteriza-se pela apresentação de sintomas físicos em indivíduos, sem causa orgânica óbvia. É uma problemática que está associada a uma incapacidade funcional e a um grande recurso aos cuidados de saúde.

A presença persistente de sintomatologia física sem explicação médica constitui-se como um enorme desafio quer para médicos, quer para psicólogos. Estes sintomas apresentam-se num continuum e podem ir de ligeiros e transitórios a intensos, constantes e severos. Os sintomas físicos mais comuns na somatização são a fadiga, as dores de cabeça, as dores nas costas, a insónia, as dores de barriga, as tonturas, o aumento dos batimentos cardíacos ou a falta de ar. O doente psicossomático tende a procurar sistematicamente uma causa orgânica para as suas queixas e por isso recorre frequentemente aos cuidados de saúde, no sentido de pedir ao médico a prescrição de exames auxiliares de diagnóstico ou medicamentos para o alívio dos sintomas, de uma doença que não tem. Nesta procura excessiva pelos cuidados de saúde, a relação com o médico pode ficar afetada se este não entender o problema do paciente, ou seja, se não levar em consideração os fatores psicossociais que o envolvem. Além do mais, a banalização da toma de medicação para alívio da referida sintomatologia pode conduzir a uma dependência que não é de todo recomendada.

PsicossomáticaOs resultados apresentados pela investigação sobre esta matéria sugerem uma prevalência de doentes psicossomáticos na ordem dos 20% a 50%, no entanto, nem todos os indivíduos que apresentam sintomatologia física sem explicação médica, preenchem todos os critérios de referenciação para os cuidados de saúde mental. É de salientar que muito frequentemente, a apresentação deste tipo de sintomatologia está associado a casos de ansiedade e/ou depressão, sendo que a intervenção psicológica poderá trazer um enorme benefício para estes indivíduos. Porém, muitas vezes, estes pacientes recusam a necessidade de apoio psicológico mesmo quando é sugerida pelo médico, dando preferência a uma intervenção médica sobre os sintomas. O estigma ainda presente em muitos grupos sociais, pode ajudar a explicar essa dificuldade em aderir ao acompanhamento psicológico, mesmo que indiretamente, possam demonstrar o desejo de apoio emocional.

PsicossomáticaPodem-se referir como determinantes da sintomatologia psicossomática o stresse e a ansiedade, sendo que estes provocam um aumento da atividade cerebral e a produção de cortisol e adrenalina. Estas hormonas podem afetar outros órgãos do corpo como o estômago, os intestinos, o coração ou a pele.  O stresse profissional, os traumas por acontecimentos de vida significativos, a dificuldade em expressar as emoções ou um elevado grau de perfeccionismo, constituem-se como algumas das causas possíveis para o desenvolvimento desta patologia. As perturbações psicossomáticas, ou seja, com causa emocional, não tratadas, podem conduzir elas próprias ao aparecimento de doenças como por exemplo a gastrite ou a hipertensão arterial. Em casos mais graves, a sintomatologia mais intensa poderá mesmo confundir-se com situações graves como o enfarte do miocárdio ou o acidente vascular cerebral, como é o caso dos ataques de pânico, em que o indivíduo experimenta sensações tão desagradáveis que o podem fazer pensar que vai morrer.

SomatizaçãoEm termos de tratamento, o doente psicossomático poderá como já foi referido, beneficiar de acompanhamento psicológico, uma vez que este pode ajudar o indivíduo a identificar o motivo do seu stresse e da sua ansiedade e, deste modo, aprender a lidar com a situação e conseguir treinar estratégias promotoras da redução da ansiedade e do aumento do bem-estar. Alguns casos poderão beneficiar de um tratamento misto, ou seja, intervenção psicológica combinada com medicação. Esta é habitualmente feita através de analgésicos ou anti-inflamatórios, para alívio dos sintomas, mas também ansiolíticos e antidepressivos. A psicossomática coloca a doença numa dimensão psicológica abrangente e integral, proporcionando uma abordagem onde a relação entre médico, paciente e psicólogo se constituem como um recurso muito relevante para que o indivíduo seja olhado como um todo, e não penas com vista ao tratamento dos sintomas. Assim, qualquer doença pode ser alvo de uma abordagem como se de psicossomática se tratasse, pois o que precisa de tratamento não é apenas a doença mas sim o doente.

 

PsicossomáticaPense que pode ter na Sua Psicóloga uma aliada importante para o ajudar a lidar com os seus problemas. Procure apoio!

Sugestão:

https://rfs.emnuvens.com.br/rfs/article/view/14/12

http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-37722016000300245&script=sci_arttext&tlng=pt

 

Para quê ter um psicólogo da saúde na sua empresa?

Saúde e doençaA Psicologia da Saúde surgiu na década de 70 do Séc. XX nos EUA e teve como principal intuito estudar a natureza e a extensão da contribuição dos Psicólogos para a investigação básica e aplicada sobre os aspetos comportamentais nas doenças físicas e na manutenção da saúde (Ribeiro, J., 2007, p.33).

Tradicionalmente a psicologia, em particular a psicologia clínica, dedicava-se ao diagnóstico e tratamento das doenças mentais. Contudo, à medida que se vai dando importância ao papel dos fatores psicológicos como fatores com influência na doença física, também a psicologia se passou a interessar pela saúde física dos indivíduos. Atualmente podemos dizer que a psicologia da saúde é a área que tem como objetivo a promoção e proteção da saúde assim como a prevenção, o tratamento e o apoio na doença e na adaptação do indivíduo à mesma. Logo, podemos dizer que o psicólogo da saúde tem como principais funções a promoção de estilos de vida saudáveis através da implementação de programas de mudança de comportamentos considerados de risco, intervenção psicológica de apoio na doença, com ênfase na doença crónica e nas doenças terminais, tanto ao doente como aos seus familiares ou cuidadores.

Psicologo na empresaOutro aspeto importante da intervenção do psicólogo da saúde é a intervenção facilitadora à adesão e resposta do doente a terapêuticas médicas variadas, como a medicação, a cirurgia e meios complementares de diagnóstico, por exemplo. Este profissional de saúde tem também competências para trabalhar na problemática da comunicação interpessoal, desenvolvendo no indivíduo competências relacionais, técnicas de mediação e gestão de conflito, gestão do stress, entre outras. Pretende-se ainda que o psicólogo da saúde possa num futuro breve vir a integrar projetos de humanização dos serviços, acesso e atendimento, bem como em projetos de melhoria da qualidade nos cuidados de saúde e nas organizações.

Psicologia da saúdeE o que pode então fazer um psicólogo  da saúde numa empresa ou organização? O psicólogo da saúde pode implementar na empresa algumas intervenções práticas a realizar no âmbito dos programas de ajuda em contexto organizacional. Pode trabalhar na promoção da atividade física de modo a prevenir os efeitos nefastos do sedentarismo, como o caso da obesidade e de problemas motores entre outros. Pode dedicar-se ao ensino e treino de técnicas de relaxamento a serem utilizadas em momentos de maior sobrecarga de stresse ou de trabalho, com vista a um melhor bem-estar físico e psicológico dos colaboradores. Pode trabalhar na promoção da comunicação e partilha de experiências entre hierarquias em contexto informal, com vista a aprendizagens e partilha de experiências, assim como o convívio e a prática de atividades conjuntas de modo a proporcionar uma maior proximidade, conhecimento e facilitar a comunicação e as relações pessoais/sociais.

Psicologia da saúdeO psicólogo da saúde pode também promoverr na empresa práticas de alimentação saudável, em parceria com os responsáveis pela cantina da empresa e com um nutricionista, com o objetivo de corrigir maus hábitos alimentares e evitar problemas cardiovasculares e excesso de peso, entre outros, com forte influência na autoestima do individuo e consequentemente no seu bem-estar físico e emocional. A implementação de programas de cessação tabágica ou de outros consumos excessivos identificados, poderá ser uma proposta de intervenção,  assim como a realização de ações de incentivo à adesão aos tratamentos, nos trabalhadores com doença crónica diagnosticada, identificando as consequências da não adesão para o seu bem-estar e que afetam diretamente a sua vida profissional.

Doença e trabalhoNeste contexto torna-se necessária a avaliação das crenças dos trabalhadores com doença crónica, em relação à evolução da mesma e trabalhar no sentido de aumentar a sua adaptação à doença e às possíveis limitações inerentes a esta que possam interferir com o desempenho na organização e com o seu bem-estar geral. Outro ponto de extrema importância a poder ser trabalhado com os colaboradores da empresa, é a promoção de ações de formação sobre hábitos saudáveis de sono. Os distúrbios do sono têm consequências adversas no dia-a-dia dos indivíduos por diminuir o seu funcionamento aumentar a propensão a distúrbios psiquiátricos, défices cognitivos, surgimento e agravamento de problemas de saúde, riscos de acidentes de trabalho e de trânsito e consequentemente absentismo no trabalho, comprometendo assim também a sua qualidade de vida.

Trabalho, empresa e saúdeE como comunicar de forma eficaz é meio caminho andado para o entendimento, a promoção de treinos de comunicação assertiva no sentido de facilitar a mediação e a gestão de conflitos decorrentes dos problemas inerentes às atividades profissionais, e de dar competências a empregados e empregadores para uma melhor comunicação e relação. é outro dos pontos relevantes que podem ser melhorados, com a intervenção do psicólogo. Do mesmo modo, a promoção de programas de incentivo à crítica construtiva, de modo a aumentar o sentimento de autoeficácia e aumento da autoestima, são pertinentes e necessários. Promover a ‘política do elogio’ com vista a aumentar a satisfação do indivíduo, que se vai refletir na continuação de boas práticas e numa maior abertura à mudança, pode fazer a diferença. Por fim, este profissional de saúde poderá ainda organizar palestras/comunicações com especialistas em várias doenças que são diretamente afetadas pelo stresse excessivo, como é o caso das doenças cardiovasculares, digestivas, diabetes, etc. de modo a informar, esclarecer dúvidas e aconselhar práticas mais saudáveis adequadas a cada patologia.

Psicologia da saúde e da doençaAssim, um psicólogo da saúde em contexto organizacional, muito poderá fazer em termos de intervenção psicológica, no que diz respeito não só à promoção da saúde e prevenção  da doença, mas também no sentido de minimizar os efeitos decorrentes da falta de informação, de motivação e de comunicação. Fomentar relações saudáveis, hábitos de vida saudáveis e promover um contexto de trabalho orientado para a saúde física e emocional dos colaboradores, poderá prevenir o absentismo, promover a satisfação pessoal e a melhoria do desempenho, que se irá decerto refletir  no aumento do rendimento da própria organização.