Psicologia, solidariedade e apoio social

Nesta fase tão conturbada de conflito armado e com o número de refugiados de guerra na Europa a aumentar diariamente, torna-se pertinente falar de solidariedade e apoio social. A psicologia social estuda os processos inerentes ao apoio social e explica as diversas formas e fatores com ele relacionados, bem como os seus benefícios.

O relacionamento com os outros está omnipresente na vida e no quotidiano dos indivíduos. Ao conjunto de pessoas com quem temos uma relação significativa podemos chamar rede de apoio social. Em psicologia, as redes de apoio social mais estudadas são as redes egocêntricas, isto é, as redes centradas numa pessoa específica que é alvo de interesse. Existem várias formas para definir apoio social, uma delas é dizermos que corresponde à quantidade e coesão das relações sociais que rodeiam de um modo dinâmico um indivíduo (Vaz Serra, 1999). É um processo interativo que visa o bem-estar físico e psicológico. O contacto social promove a saúde e o bem-estar e tem provavelmente uma função de regulação da resposta emocional perante os vários fatores causadores de stresse (Coan, J. A., Schaefer, H. S., & Davidson, R. J., 2006).

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Quando a criança não dorme sozinha…

Filhos a dormir no meio dos pais, mães ou pais a dormir na cama com o filho, o pai a dormir no sofá da sala porque o filho dorme com a mãe, a mãe a dormir na cama de um filho e o pai na cama com o outro… tantas possibilidades de cenários e tão reais e até frequentes.

Vários são os argumentos utilizados pelos pais para justificarem algumas destas situações. “Se eu não for para a cama dele, ele não dorme”, “se não a deixar aconchegar-se no meio de nós ela passa a noite a acordar e ninguém tem sossego”, “eu deixo-o dormir comigo porque também gosto desse miminho” ou “é uma boa maneira de não ter que dormir com o meu marido”. São todos argumentos possíveis, e eu já os ouvi a todos! Geralmente aconselha-se que a criança durma sozinha, se possível a partir dos seis meses de vida, de preferência no seu próprio quarto, no sentido de favorecer a sua capacidade de estar só e de promover o desenvolvimento da sua autonomia.

A situação de filhos a dormirem com os pais pode arrastar-se ao longo de muitos anos e o impacto que esse facto tem na vida das crianças e dos casais pode ser muito perturbador. Por vezes tudo começa com apenas uns minutos para que a criança adormeça, que depois se estendem por mais tempo e se repete por uns dias, semanas e por vezes anos. Acontece também o pai ou a mãe trocarem de forma definitiva a sua cama pela cama do filho, ou o contrário, o filho permanece na cama dos pais, expulsando definitivamente um dos progenitores do seu lugar. A duração deste comportamento, quando prolongada, tende a ser banalizada pelos intervenientes e as consequências podem ser de grande gravidade, não apenas na perspetiva do desenvolvimento da criança, mas também na ameaça que o referido comportamento constitui para a intimidade do casal e para a saúde e qualidade da sua relação.

As crianças devem para o seu próprio bem, adquirir autonomia em relação ao momento do sono nos primeiros anos de vida, de modo a potenciarem o seu adequado desenvolvimento  e a tornarem-se adultos autónomos e saudáveis. Adormecer por rotina na cama dos pais não é uma prática adequada. Numa situação de exceção pode ser compreendido mas só mesmo excecionalmente. Se a criança está doente, se está a ultrapassar um momento particularmente difícil, se está num contexto diferente, poderão ser motivos para que se abra a tal exceção mas logo que a situação regularize as rotinas que envolvem o deitar e o dormir deverão também elas ser reestabelecidas.

Na origem destes hábitos menos recomendáveis está por vezes a dificuldade que alguns pais têm em estabelecer regras e limites, e em fazê-los cumprir. Definir um horário regular para deitar a criança é recomendável. Deverá ser explicada à criança a importância do dormir. Dormir faz bem porque descansa o corpo e o cérebro. As células regeneram-se com maior rapidez durante o sono. A criança vai crescer e desenvolver-se também enquanto dorme. Dormir bem faz com que se cresça bem. Uma cabeça bem descansada terá melhor capacidade de atenção, concentração e aprendizagem, logo, uma boa noite de sono promove um dia de escola mais produtivo. Se dormirem bem e o suficiente (cerca de 9 a 10 horas/noite em idade escolar) as crianças também vão brincar mais, ficam mais despertas e curiosas para as aprendizagens informais e mais predispostas para as relações sociais.

Por outro lado, alguns pais acham que dormindo com os filhos os estão a proteger. Certo é, que o excesso de proteção pode levar a que a criança se torne insegura, dependente e ansiosa e carregar esse fardo ao longo da sua vida adulta. Proteger significa salvaguardar que a criança está num ambiente confortável, seguro e que reúne todas as condições necessárias a um sono descansado (conforto, temperatura, ausência de ruído, etc.). O afeto, tão importante para o desenvolvimento psicossocial de todas as crianças, deve ser também contemplado na hora de deitar. Acompanhar a criança ao quarto, aconchegar-lhe a roupa, contar uma história, falar um pouco acerca dos acontecimentos do dia, completados com uma dose “terapêutica” de beijinhos e abraços, seguidos de um boa noite e até amanhã, são exemplos de boas práticas de final de dia.

Quando um casal tem problemas que se refletem na partilha da cama, por vezes “utilizam” o filho como justificação para se manterem afastados. Colocar o filho a dormir entre os dois ou por outro lado, passar a ir dormir no quarto com o filho, são práticas muito mais comuns do que o que seria desejável, com tudo o que isso implica para o relacionamento do casal, quase sempre jovem, e das implicações para o desenvolvimento da criança, já sobejamente conhecidas. Havendo dificuldades no seu relacionamento, um casal deverá sempre procurar resolvê-las sem que isso envolva dormir com os filhos.

São várias as estratégias a adotar para que as crianças adquiram hábitos de sono saudáveis desde tenra idade. Preparar um quarto para criança ou uma cama num quarto que irá partilhar com um irmão, é o que se aconselha para que a criança conheça e se habitue ao seu espaço de descanso. É importante que se crie o hábito de por a criança a dormir na sua própria cama em idade precoce (4 a 6 meses) pois facilita o processo de adaptação. A criança vai saber que aquele é o seu lugar para dormir e vai mais facilmente aceitar essa regra. Quanto mais coerência e menos exceções houverem, mais facilmente a criança se vai habituar a dormir na sua cama. Por outro lado, pode também ser muito útil a preparação da rotina de dormir, ou seja, poderá prevenir interrupções do sono durante a noite se a criança se deitar após a digestão, se forem evitadas refeições muito fartas ou atividades físicas muito estimulantes. A ingestão de líquidos a partir das 18 horas deverá ser moderada para evitar que a criança urine muito durante a noite e interrompa o sono.

Se o problema está instalado e não está a conseguir tirar o seu filho da sua cama, procure a ajuda da Sua Psicóloga. Ela poderá avaliar devidamente a situação e ensinar-lhe outras estratégias, que poderão fazer toda a diferença para que as noites em sua casa sejam mais tranquilas e felizes!

Qualidade de vida

O conceito de qualidade de vida tem vindo a ser referenciado desde a segunda metade do século XX e aplicado em diversos contextos, desde a saúde, a política ou o meio académico, entre outros, no sentido de se poder “medir” os níveis de vida das diversas populações mundiais. Nos dias de hoje, este conceito tem ainda uma definição imprecisa, no entanto, com toda a subjetividade que encerra, o conceito de qualidade de vida tem assumido um cada vez maior relevo, quando se fala de saúde e bem-estar.

Inicialmente, a investigação associava a qualidade de vida a um conceito quantitativo, ligado principalmente aos recursos materiais disponíveis para um sujeito ou sociedade. Com o passar do tempo, esta associação foi perdendo alguma força e passou a haver uma tendência para se entender a qualidade de vida através de uma abordagem mais ampla e integrativa. Assim, a Organização Mundial da Saúde (OMS) propôs atribuir uma natureza multifatorial a e pluridimensional a este conceito. Deste modo, passou a medir-se a qualidade de vida em termos de saúde física, saúde mental, nível de independência, qualidade das relações sociais e ambiente. Trata-se de uma perspetiva global e abrangente, que leva em consideração as várias dimensões do ser humano, na determinação dos níveis de qualidade de vida de cada indivíduo.

Entendendo o conceito como a sensação de bem-estar do indivíduo, este baseia-se tanto em fatores subjetivos, mais difíceis de quantificar e comparar, como objetivos, mais palpáveis e específicos. Deste modo, alguns autores consideram a qualidade de vida como uma condição complexa e multifatorial sobre a qual é possível desenvolver algumas formas de medidas objetivas, através de uma série de indicadores. Porém, a experiência que o indivíduo tem de si mesmo, tem também um papel muito significativo. O facto de o indivíduo ter recursos materiais ótimos de sobrevivência, não é garantia de que o seu nível de qualidade de vida seja elevado, uma vez que o que a determina, é a forma e a capacidade do indivíduo em perceber e se apropriar dessas condições e de outras. A própria conjuntura política ou cultural, influenciam a forma como o indivíduo percebe a sua vivência e a classifica como mais ou menos satisfatória.

Maslow, ao construir a sua pirâmide das necessidades, cujos sistemas de necessidades podem ser tomados também como parâmetros de promoção da qualidade de vida, defende que uma vez satisfeitas as necessidades relacionadas à simples sobrevivência (fisiológicas), outros grupos de necessidades dominariam o indivíduo hierarquicamente (segurança, amor, estima, etc.), fazendo-o avançar nas suas condições de bem-estar. Assim, conclui-se que a qualidade de vida se eleva através de uma escala de valores que avança desde a satisfação das necessidades básicas do ser humano, em direção ao sentimento de bem-estar subjetivo e social, levando a uma definição possível como sendo a condição biopsicossocial de bem-estar, relativa a experiências humanas objetivas e subjetivas e considerada dentro das particularidades individuais e sociais de cada caso particular. Trata-se de uma definição de caráter contextual, devendo ser entendida dentro das especificidades de cada situação, e multidimensional, considerando os vários determinantes da condição humana.

A intervenção psicológica tem múltiplos objetivos, porém visa sempre o aumento da qualidade de vida do indivíduo. Neste contexto, as ações dirigidas à saúde em particular, adquirem grande relevância. Uma boa saúde é o melhor recurso para o progresso pessoal, económico e social, sendo uma dimensão muito importante da qualidade de vida. Se compreendermos a saúde como elemento fundamental no conjunto de condições indispensáveis à qualidade de vida, a sua promoção deve ser uma prioridade. Um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença, potencia a elevação da qualidade de vida do indivíduo.

Cuide da sua saúde física e mental. Ambas concorrem para o aumento dos seus recursos, quer materiais e palpáveis, quer subjetivos e particulares, que farão de si uma pessoa com maior qualidade de vida e consequentemente, uma pessoa mais feliz!

Ano Novo, Vida Nova!

Mais um ano que se aproxima do fim, mais um ano que vai começar. Esta é tipicamente, uma fase em que se faz um balanço do que foi o ano que termina e se fazem planos para o ano que inicia. As “famosas” resoluções de Ano Novo!

Como é sabido, a situação pandémica que temos vivido nos últimos quase dois anos, em muito contribuiu para agravar problemas de saúde mental a quem já deles padecia, ao mesmo tempo que despoletou o surgimento desse mesmo tipo de perturbações, em pessoas anteriormente saudáveis. As súbitas mudanças que se observaram no nosso quotidiano, como é o caso do isolamento social, da utilização de máscara e outras medidas de proteção individual, a obrigatoriedade de teletrabalho ou telescola, entre outras alterações que o nosso dia-a-dia sofreu, têm sido responsáveis por uma instabilidade emocional, que em muitos casos deu origem a problemas relacionados com ansiedade ou depressão. Algumas pessoas, pelas suas características de personalidade, tiveram maior capacidade de adaptação a uma realidade outrora inimaginável. Outras pessoas, com maiores dificuldades de adaptação, sofrem desde há muito com todas as modificações a que se viram obrigadas e que tiveram um impacto muito negativo no seu quotidiano e nas suas vidas.

A pandemia tem sido muito difícil para todos e tem trazido consigo muita dor e muitas emoções negativas, como o medo, a tristeza, a angústia, a solidão, etc. Todas estas emoções e algumas das mudanças a que fomos obrigados, geraram em algumas pessoas uma incapacidade para a ação, ou seja, algumas pessoas sentem que não estão bem mas não conseguem iniciar esforços que as ajudem a melhorar. Tratam-se de situações em que a ansiedade, o medo ou os sintomas depressivos as impedem de agir, no sentido da mudança, para que possam melhorar o seu bem-estar e serem mais felizes. Algumas pessoas conseguem adaptar-se de tal forma a esta atual realidade, que parece que apesar das alterações que aconteceram nas suas vidas, continuam a “caminhar” com alegria e otimismo. Outras, não conseguem ver a “luz ao fundo do túnel” e fecham-se em si mesmas, descendo nessa espiral negativa que é a doença mental.

Num momento de viragem do ano, em que tipicamente se fazem planos para o ano que vai entrar, algumas pessoas não conseguem sequer imaginar que a sua vida poderá melhorar, uma vez que não acreditam na mudança delas próprias. Quando algo está mal, ou nos adaptamos e seguimos vivendo em harmonia, ou, na maioria dos casos, temos que empreender esforços de mudança para conseguirmos ser pelo menos funcionais, senão felizes. O processo de mudança começa dentro de cada um de nós, no momento em que reconhecemos que efetivamente temos um problema ou uma dificuldade. A partir desse momento, com ou sem ajuda profissional, a pessoa pode preparar-se para agir. A ação pode passar por um conjunto de comportamentos a abolir, a iniciar ou a transformar, com o intuito de se tornarem mais adaptativos. Modificar comportamentos pode não é tarefa fácil e por vezes pode ser necessário apoio, acompanhamento e compromisso, para que cada pequeno esforço, cada pequeno passo no sentido daquilo que se deseja, não seja nunca um retrocesso mas sim uma conquista sólida e consistente.

Numa época em que a saúde mental está na “ordem do dia”, a sua prevenção, manutenção ou o seu tratamento pode passar por pedir ajuda a um técnico especializado. O primeiro passo pode estar na mão dos cuidados de saúde primários, que havendo disponibilidade, o médico assistente pode encaminhar o indivíduo para a consulta de psicologia. Infelizmente, o nosso Serviço Nacional de Saúde, não dispõe de psicólogos em número suficiente para atender a todos os que desse apoio necessitam. Assim sendo, na maioria das situações, esse apoio terá que ser prestado por profissionais independentes, em clínica privada. No entanto, este não deve ser um motivo para deixar de procurar ajuda.

Há a ideia generalizada de que os serviços privados de avaliação e acompanhamento psicológico são muito dispendiosos, não é de todo uma realidade. É claro que cada pessoa tem as suas limitações em termos de orçamento, porém, muitas vezes os custos das consultas não são assim tão elevados, havendo até muitos profissionais que atendem e cobram as suas consultas, levando em consideração os casos de maior vulnerabilidade económica, numa vertente de responsabilidade social. Assim, recomenda-se que se quebre em primeiro lugar o estigma de que a saúde mental é menos importante do que a saúde física, pois ambas estão interligadas. Por outro lado, não é vergonha nem embaraço para ninguém, recorrer á ajuda de um psicólogo, num momento de maior instabilidade emocional. O reestabelecimento ou a manutenção da saúde mental é extremamente importante e repercute-se também na saúde física e no bem-estar individual, familiar e social.

Se sente que pode estar a sofrer de problemas ao nível da ansiedade, se apresenta sintomatologia depressiva ou se apenas não está a saber lidar com as suas emoções ou com os seus relacionamentos, não deixe de colocar nas resoluções de Ano Novo, a procura de apoio psicológico. Uma correta avaliação do seu caso e um plano de intervenção adequado, poderão fazer toda a diferença no seu bem-estar pessoal e nas suas relações sociais e familiares. O autoconhecimento, a aprendizagem e treino de estratégias para lidar com a sua ansiedade, a estruturação comportamental em casos de depressão, são exemplos de intervenções que podem modificar a sua vida e torna-la mais fácil e mais feliz. A par com os típicos planos para iniciar a prática desportiva, iniciar a reeducação alimentar para controlar o peso, porque não iniciar um acompanhamento psicológico, para melhorar a sua qualidade de vida, aprendendo a conhecer-se melhor e permitindo-se abrir-se a diferentes perspetivas?

Ano Novo, Vida Nova! Comece o Ano de 2022 a pensar em si e procure ajuda. A Sua Psicóloga, estará ao dispor para a (o) orientar na descoberta de si mesma (o) e do que a (o) pode tornar numa pessoa mais feliz!

Stresse: o mau e…o bom!

DistressSegundo Selye (1976) o stresse é um conjunto de respostas fisiológicas que mobilizam o organismo para a acção e que são ao mesmo tempo adaptativas. O autor defende ainda que estas respostas ou reacções se alteram ao longo do tempo e que com a exposição repetida a situações de stresse, a reacção de defesa do organismo passa por três fases distintas: alarme, resistência e exaustão, às quais chamou Síndrome de Adaptação Geral.

Podemos considerar que o stresse é um processo de adaptação e não propriamente uma doença, embora a exposição repetida a factores causadores de stresse possa levar a um estado patológico, pelo desgaste que provoca no indivíduo. Existem vários tipos de stressores, que podem ser internos (representações mentais ou memórias) ou externos (vivenciar uma determinada situação). O modo como o indivíduo reage perante os factores causadores de stresse pode ser através de uma resposta emocional (ex. ansiedade ou medo), uma resposta fisiológica (ex. roer as unhas), uma resposta comportamental (ex. agitação motora) ou resposta cognitiva (ex. pessimismo ou dificuldade em tomar uma decisão).O stresse tem no indivíduo consequências negativas mas também pode ter consequências positivas. É algo inevitável, uma vez que está presente nas situações do dia-a-dia. É também de certo modo e em alguns casos desejável, na medida em que funciona como o motor que nos conduz à resolução dos problemas. Nestes casos, é a oportunidade de adquirirmos competências práticas e de nos tornarmos capazes.

EustressPerante um mesmo factor de stresse, cada indivíduo reage e age de forma diferente, sendo que, uns têm tendência a minimizar os custos da situação e torná-la irrelevante e outros, agudizam-nos, tornando a situação ainda mais ameaçadora. É o significado que cada indivíduo atribui a uma determinada situação, com base na avaliação que faz e nos recursos que possui, que vai determinar as suas reacções ao elemento stressor. Segundo o modelo de avaliação cognitiva de Lazarus e Falkman, uma situação é geradora de stresse quando é potencialmente prejudicial e caso o indivíduo considere que os seus recursos são insuficientes para gerir o resultado aversivo. Uma situação indutora de stresse é toda aquela em que a relação estabelecida entre o indivíduo e o meio ambiente é avaliada como excedendo os seus recursos prejudicando por isso, o seu bem-estar. Às estratégias utilizadas para repor o equilíbrio homeostático após uma situação de stresse dá-se o nome de coping. Estas estratégias têm a ver com regulação de emoções, negação e evitamento ou resolução de problemas, sendo as últimas as que tendencialmente têm maior eficácia, sempre que o factor causador de stresse pode ser controlado pelo indivíduo. A regulação de sintomas pode ser funcional quando o stressor não é controlável, sendo neste caso a autorregulação a melhor forma de lidar com o problema. Em relação à negação e evitamento, considera-se a forma menos eficaz de coping, se bem que em alguns casos pode servir para se ganhar tempo e posteriormente adoptar uma estratégia mais adequada para o problema em questão.

EustressO stresse pode ter um impacto directo na saúde, na medida em que a percepção de falta de controlo, que se atribui a causas internas, estáveis e globais pode levar a estados de ansiedade e/ou depressão, bem como a um estado de saúde física precário. Deste modo, o custo do stresse é sentido na saúde e no bem-estar do indivíduo. Dentro das perturbações patológicas causadas por acção do stresse podemos destacar as perturbações do foro digestivo, infecções, doença coronária ou até mesmo o cancro. É ainda de referir as queixas psicossomáticas, em que o indivíduo por má gestão emocional, manifesta queixas a nível físico para as quais não se encontra uma causa orgânica. Para lidar com o inevitável stresse, cada indivíduo dispõe de recursos internos – características da personalidade e externos – apoio social. São exemplos de factores promotores de distress a dificuldade na gestão do tempo, a dificuldade em estabelecer prioridades e de tomada de decisões, as perdas por morte, os conflitos interpessoais ou uma crise financeira. Até agora falámos essencialmente de distress, isto é, a dimensão negativa e prejudicial do stresse mas ao contrário do que vulgarmente se pensa o stresse nem sempre é negativo.

DistressÉ consensual entre psicólogos e outros profissionais que se dedicam a este tema, a divisão do stresse em mau e bom, respectivamente distress e eustress. Denominamos de eustress, o bom stresse, a capacidade que o ser humano tem de realizar uma acção necessária. Este é natural do organismo e é graças a ele que o indivíduo mantém uma relação entre o stresse e a motivação, sendo encarado como afecto positivo e esperança. Chamamos savoring às estratégias que utilizamos para sentir, prolongar regular, manipular e manter as emoções positivas, o eustress. Estas conduzem ao bem-estar, à saúde física e mental, ao bom desempenho profissional e à satisfação nas relações interpessoais. É um modelo que leva ao impulso para a acção, para a auto-eficácia, para as emoções pró-sociais e trás serenidade. Dentro dos factores promotores de eustress, podemos encontrar a aquisição de competências técnicas ou académicas, estar na eminência de ganhar um prémio ou o estabelecimento e manutenção de algumas relações sociais, como por exemplo, estar apaixonado. Uma das principais estratégias de savoring é a partilha de acontecimentos positivos com os outros, o que vai levar ao aumento do bem-estar e satisfação com a vida.

Aprenda a identificar os sinais de alarme e a gerir o seu distress. Acha a tarefa difícil? Peça a ajuda ao seu psicólogo!

 

 

 

 

Fontes:

Selye, H. (1976). The Stress of Life (Revised ed.). New York: McGraw-Hill.

Stroebe, W. & Stroebe, M. (1995). Social Psychology and Health. Buckingham: Open University Press.

Stresse! O mau e o bom…

Segundo Selye (1976) o stresse é um conjunto de respostas fisiológicas adaptativas que mobilizam o organismo para a ação. Considera-se que o stresse é um processo de adaptação e não propriamente uma doença, embora a exposição repetida a fatores causadores de stresse possa levar a um estado patológico pelo desgaste que provoca no indivíduo.

Existem vários tipos de stressores. Podem ser internos (representação mental ou memória) ou externos (viver uma situação). O indivíduo reage aos fatores causadores de stresse através da resposta emocional (ex. ansiedade ou medo), da resposta fisiológica (ex. roer as unhas), das respostas comportamentais (ex. agitação motora) ou as respostas cognitivas(ex. o pessimismo ou a dificuldade em tomar decisões). O stresse tem habitualmente no indivíduo consequências muito negativas. No entanto, também pode ser positivo pois leva-o à ação. Sendo muitas vezes inevitável, pois está presente nas situações do dia-a-dia, o stresse é também de certo modo desejável na medida em que funciona como o motor que nos conduz à resolução dos problemas. Pode ser a oportunidade de adquirirmos competências práticas e de nos tornarmos capazes.

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Rede de apoio social – pedir ajuda

Rede socialO relacionamento com os outros está omnipresente na vida e no dia-a-dia de todos nós. Ao conjunto de pessoas com quem temos uma relação significativa podemos chamar rede de apoio social. O apoio social pode ser definido como a quantidade e coesão das relações sociais que nos rodeiam.

É um processo interactivo que visa o bem-estar físico e psicológico. O contacto social pode promover a saúde e o bem-estar e tem provavelmente uma função de regulação da resposta emocional perante os vários factores causadores de stress. De acordo com Uchino, Uno & Holt-Lustad (1999) o apoio social pode ter várias funções: apoio informativo, apoio emocional, apoio de pertença e apoio tangível, desempenhando assim um importantíssimo papel nas nossas vidas, manifestando-se na nossa saúde física e psicológica.

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O adolescente e o sono

Sono na adolescência

Há uma diferenciação entre o sono das crianças mais novas e o sono dos adolescentes, tanto no que diz respeito à sua duração em termos de número de horas por noite, quer em termos da sua própria estrutura (Carskadon, 2010; Giannotti & Cortesi, 2010).

As crianças mais novas tendem a dormir um maior número de horas enquanto os adolescentes tendem a adiar progressivamente a hora de deitar, resultando num declínio da duração do sono, acabando estes por dormirem muitas vezes menos do que seria aconselhável. Vários estudos referem, que à medida que caminham da infância para a adolescência também as preferências dos jovens em relação à hora do dia para desenvolverem actividades vai mudando, ou seja, as crianças mais pequenas preferem as manhãs para as suas actividades, enquanto que os adolescentes mostram uma tendência para horários mais tardios (Andrade et al., 1993; Carskadon, Vieira, & Acebo). É também na adolescência que se verifica um aumento do desejo de independência, a assunção de novos papéis sociais, o aumento da pressão dos pares, das responsabilidades académicas e das possibilidades de actividades extra-curriculares, mas também a diminuição do controlo parental.

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Brincar ao ar livre

As brincadeiras ao ar livre e o contato com a natureza incentivam as crianças a ultrapassarem desafios, ao mesmo tempo que aprendem e apreendem o mundo, no seu contato com os elementos da natureza. Nos dias de hoje as tecnologias “dominam” o mundo, e os brinquedos digitais são muito apelativos para as nossas crianças, e sem dúvida importantes para que as estas sejam envolvidas numa realidade que já é o presente e será certamente o futuro. No entanto, o correr, pular e sujar-se continuam a ser essenciais para o saudável desenvolvimento infantil.

As crianças, em todas as etapas do seu desenvolvimento, beneficiam sem dúvida com o contato com o mundo exterior. Após um período de confinamento e com o retomar gradual com a normalidade, aliados ao bom tempo que os próximos meses nos prometem, sair com as crianças e levá-las a experienciar o contato com a natureza pode ser a opção acertada. Evidentemente que as regras de distanciamento físico em relação aos outros, os cuidados de higiene e a etiqueta respiratória não podem ser esquecidas. No entanto, este texto visa focar-se nas possibilidades que o contexto exterior oferece às crianças mas também aos adultos que as acompanham.

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Adolescência: quando o tema é sexualidade

A adolescência é um período de grandes mudanças, tanto a nível fisiológico como psicológico. Fase de descoberta, afirmação e construção da identidade, é rica em experiências e vivências comuns e normativas mas revestidas de um potencial de risco que merece toda a atenção e cuidado. Quando o tema é a sexualidade, não é exceção.

A sexualidade é uma área que acompanha todo o curso de vida, desde o nascimento até à morte mas que tem particular relevância durante o período da adolescência. É nesta fase que o corpo e as suas transformações se tornam centrais na vida do jovem e emergem as questões relacionadas com a capacidade de atração e de desempenho. Numa fase inicial, os jovens preocupam-se mais com a sua aparência, baseiam-se muitas vezes em comparações com os modelos ditados pela sociedade e questionam-se acerca da adequação do seu desempenho, tendo em conta a sua ainda pouca experiência e dos seus pares.

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