Perturbação de uso de tabaco

Segundo o Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais – DSM-V, as perturbações relacionadas com substâncias e perturbações aditivas englobam 10 classes de drogas, entre as quais se inclui o tabaco. À semelhança de outras substâncias, o tabaco ativa diretamente o sistema de recompensa do cérebro, que está envolvido no reforço de comportamentos e na produção de memórias.

O uso de substâncias psicoativas ativa diretamente o sistema de recompensa e produz uma sensação de prazer. Os indivíduos com níveis mais baixos de autocontrolo, podem estar particularmente vulneráveis ao desenvolvimento de perturbações do uso de substâncias, ao invés de conseguirem a ativação do sistema de recompensa, apenas por meio de comportamentos adaptativos, como seria desejável. Foquemo-nos então na substância tabaco. O tabaco é uma droga legal e socialmente aceite o que a torna mais perniciosa do que à partida se poderia pensar. Habitualmente de início precoce, o consumo de tabaco faz parte da integração de alguns adolescentes no grupo, bem como da sua afirmação enquanto indivíduos. Parece haver uma diferenciação de género, sendo que tendencialmente as raparigas iniciam hábitos tabágicos para expressarem rebeldia e autoconfiança, enquanto os rapazes parecem utilizar esses hábitos como mecanismo compensatório para a sua insegurança social. Estes hábitos adquiridos em idade precoce, para além das conhecidas consequências negativas ao nível respiratório e cardiovascular, entre outros, podem ainda escalar para um problema de saúde mental – um comportamento aditivo.

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A psicologia diferencial e os seus antecedentes

A psicologia diferencial é o campo da psicologia que estuda as diferenças individuais e as diferenças inter grupos, em variáveis psicológicas. Existem três grandes domínios de investigação em psicologia diferencial: as diferenças individuais, as variedades das diferenças psicológicas inter grupos e a explicação das diferenças psicológicas.

A psicologia diferencial nasce de um conjunto de antecedentes, inerentes tanto a outros campos científicos como a um contexto social específico. No que diz respeito aos antecedentes históricos, podemos referir a filosofia, a astronomia, a psicofísica, a psicologia científica, a biologia e a estatística. A filosofia teve uma influência direta e foram vários os filósofos e as escolas de pensamento que contribuíram para o surgimento da psicologia diferencial: Platão, Aristóteles e Hipócrates, entre outros. De um modo geral, os principais contributos da filosofia têm a ver com a constatação das diferenças individuais, com as tentativas de explicar e/ou classificar essas diferenças, mas também com a polémica que se instalou entre o Inatismo de Platão e o Empirismo de Locke.

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Síndrome pré-menstrual

A perturbação disfórica pré-menstrual, habitualmente conhecida como síndrome pré-menstrual ou até depressão pré-menstrual (DPM), é um problema que afeta um número significativo de mulheres em idade fértil e que pode ter um impacto muito significativo na sua funcionalidade e no seu bem-estar.

A perturbação disfórica pré-menstrual manifesta-se na maioria dos ciclos menstruais, com alguns sintomas que ocorrem na semana final antes do início da menstruação, começando a melhorar poucos dias depois do início da menstruação e tornando-se mínimos ou ausentes na semana pós-menstrual. Esses sintomas podem incluir instabilidade emocional, mudanças súbitas de humor, irritabilidade ou raiva que podem potenciar conflitos relacionais, sentimentos de desesperança, ansiedade, tensão muscular, diminuição do interesse por atividades habituais, dificuldades de atenção ou concentração, falta de energia, cansaço, dificuldades de sono, alterações do apetite (ex. avidez por um alimento específico ou, pelo contrário, náuseas) ou ainda dificuldades de autorregulação e de autocontrolo. Os sintomas podem também ser físicos, como dor ou inchaço dos seios, dores articulares, inchaço abdominal ou aumento do peso.

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Stresse: o mau e…o bom!

DistressSegundo Selye (1976) o stresse é um conjunto de respostas fisiológicas que mobilizam o organismo para a acção e que são ao mesmo tempo adaptativas. O autor defende ainda que estas respostas ou reacções se alteram ao longo do tempo e que com a exposição repetida a situações de stresse, a reacção de defesa do organismo passa por três fases distintas: alarme, resistência e exaustão, às quais chamou Síndrome de Adaptação Geral.

Podemos considerar que o stresse é um processo de adaptação e não propriamente uma doença, embora a exposição repetida a factores causadores de stresse possa levar a um estado patológico, pelo desgaste que provoca no indivíduo. Existem vários tipos de stressores, que podem ser internos (representações mentais ou memórias) ou externos (vivenciar uma determinada situação). O modo como o indivíduo reage perante os factores causadores de stresse pode ser através de uma resposta emocional (ex. ansiedade ou medo), uma resposta fisiológica (ex. roer as unhas), uma resposta comportamental (ex. agitação motora) ou resposta cognitiva (ex. pessimismo ou dificuldade em tomar uma decisão).O stresse tem no indivíduo consequências negativas mas também pode ter consequências positivas. É algo inevitável, uma vez que está presente nas situações do dia-a-dia. É também de certo modo e em alguns casos desejável, na medida em que funciona como o motor que nos conduz à resolução dos problemas. Nestes casos, é a oportunidade de adquirirmos competências práticas e de nos tornarmos capazes.

EustressPerante um mesmo factor de stresse, cada indivíduo reage e age de forma diferente, sendo que, uns têm tendência a minimizar os custos da situação e torná-la irrelevante e outros, agudizam-nos, tornando a situação ainda mais ameaçadora. É o significado que cada indivíduo atribui a uma determinada situação, com base na avaliação que faz e nos recursos que possui, que vai determinar as suas reacções ao elemento stressor. Segundo o modelo de avaliação cognitiva de Lazarus e Falkman, uma situação é geradora de stresse quando é potencialmente prejudicial e caso o indivíduo considere que os seus recursos são insuficientes para gerir o resultado aversivo. Uma situação indutora de stresse é toda aquela em que a relação estabelecida entre o indivíduo e o meio ambiente é avaliada como excedendo os seus recursos prejudicando por isso, o seu bem-estar. Às estratégias utilizadas para repor o equilíbrio homeostático após uma situação de stresse dá-se o nome de coping. Estas estratégias têm a ver com regulação de emoções, negação e evitamento ou resolução de problemas, sendo as últimas as que tendencialmente têm maior eficácia, sempre que o factor causador de stresse pode ser controlado pelo indivíduo. A regulação de sintomas pode ser funcional quando o stressor não é controlável, sendo neste caso a autorregulação a melhor forma de lidar com o problema. Em relação à negação e evitamento, considera-se a forma menos eficaz de coping, se bem que em alguns casos pode servir para se ganhar tempo e posteriormente adoptar uma estratégia mais adequada para o problema em questão.

EustressO stresse pode ter um impacto directo na saúde, na medida em que a percepção de falta de controlo, que se atribui a causas internas, estáveis e globais pode levar a estados de ansiedade e/ou depressão, bem como a um estado de saúde física precário. Deste modo, o custo do stresse é sentido na saúde e no bem-estar do indivíduo. Dentro das perturbações patológicas causadas por acção do stresse podemos destacar as perturbações do foro digestivo, infecções, doença coronária ou até mesmo o cancro. É ainda de referir as queixas psicossomáticas, em que o indivíduo por má gestão emocional, manifesta queixas a nível físico para as quais não se encontra uma causa orgânica. Para lidar com o inevitável stresse, cada indivíduo dispõe de recursos internos – características da personalidade e externos – apoio social. São exemplos de factores promotores de distress a dificuldade na gestão do tempo, a dificuldade em estabelecer prioridades e de tomada de decisões, as perdas por morte, os conflitos interpessoais ou uma crise financeira. Até agora falámos essencialmente de distress, isto é, a dimensão negativa e prejudicial do stresse mas ao contrário do que vulgarmente se pensa o stresse nem sempre é negativo.

DistressÉ consensual entre psicólogos e outros profissionais que se dedicam a este tema, a divisão do stresse em mau e bom, respectivamente distress e eustress. Denominamos de eustress, o bom stresse, a capacidade que o ser humano tem de realizar uma acção necessária. Este é natural do organismo e é graças a ele que o indivíduo mantém uma relação entre o stresse e a motivação, sendo encarado como afecto positivo e esperança. Chamamos savoring às estratégias que utilizamos para sentir, prolongar regular, manipular e manter as emoções positivas, o eustress. Estas conduzem ao bem-estar, à saúde física e mental, ao bom desempenho profissional e à satisfação nas relações interpessoais. É um modelo que leva ao impulso para a acção, para a auto-eficácia, para as emoções pró-sociais e trás serenidade. Dentro dos factores promotores de eustress, podemos encontrar a aquisição de competências técnicas ou académicas, estar na eminência de ganhar um prémio ou o estabelecimento e manutenção de algumas relações sociais, como por exemplo, estar apaixonado. Uma das principais estratégias de savoring é a partilha de acontecimentos positivos com os outros, o que vai levar ao aumento do bem-estar e satisfação com a vida.

Aprenda a identificar os sinais de alarme e a gerir o seu distress. Acha a tarefa difícil? Peça a ajuda ao seu psicólogo!

 

 

 

 

Fontes:

Selye, H. (1976). The Stress of Life (Revised ed.). New York: McGraw-Hill.

Stroebe, W. & Stroebe, M. (1995). Social Psychology and Health. Buckingham: Open University Press.

Métodos de investigação científica: entrevista semiestruturada e focus group

Diariamente o ser humano experimenta, observa e questiona factos do mundo real para encontrar soluções para problemas que surgem da sua constante interação com o meio e com os outros. O mesmo acontece no domínio da investigação científica, onde o experimentar, o observar e o questionar são contidos em paradigmas que orientam uma busca sistemática para um novo conhecimento ou problemática.

Em contexto de investigação científica, um paradigma pode ser definido por um conjunto de conceitos, valores, perceções e práticas, reconhecidas e partilhadas por uma comunidade científica, onde a representação da realidade é organizada a partir de um determinado pensamento (Kuhn, 1972; cit. in Pinto, B., 2004). Dentro de um paradigma, a teoria, os métodos e as técnicas assumem uma grande importância. Neste enquadramento a teoria pode fornecer regras capazes de explicar acontecimentos, os métodos serem vistos como conjuntos de operações que podem conduzir ao alcance dos objetivos e por fim as técnicas serem definidas como procedimentos operatórios rigorosos e bem explicados com um carácter transmissível e suscetível de aplicações, nas mesmas condições, adaptando-se ao tipo de problema e aos fenómenos em causa.

Numa perspetiva tradicional, tanto a Psicologia como todas as outras Ciências Sociais dirigiram o seu foco ao desenvolvimento de métodos quantitativos e padronizados. Assim, foi construído um plano de medição rigoroso, onde as causas e os efeitos podem ser nitidamente isolados, a operacionalização de relações teóricas ganha importância e o simples ato de medir e quantificar os fenómenos torna-se indispensável na investigação quantitativa (Flick, 2005). A interpretação de dados quantitativos é feita com a análise estatística, onde se estabelecem as relações de causa-efeito e a previsão dos seus fenómenos. O método quantitativo defende a generalização dos resultados a partir da amostra de uma população alvo, tendo como finalidade a formulação de leis gerais.Por outro lado, o paradigma qualitativo fundamenta-se na realidade e é importante para o estudo das relações sociais. Não se deve esquecer que a complexidade do contexto social onde o ser humano está inserido, é cada vez maior no que diz respeito às constantes mudanças do ambiente, dos estilos de vida e da evolução cultural. É neste contexto que a investigação qualitativa afirma a sua importância no estudo destes fenómenos através do seu caráter exploratório, expansionista, indutivo, descritivo e orientado para o processo e interesse de compreender a subjetividade do comportamento humano.

Neste contexto o investigador pode ser ele próprio um instrumento de recolha de dados (Carmo et.al.1998). O estudo e a compreensão de determinados fenómenos poderão ser feitos recorrendo a métodos quantitativos ou métodos qualitativos, de acordo com o que se pretende estudar. Vários autores defendem a utilidade do conceito de triangulação metodológica ou seja a combinação de ambos os métodos para o estudo dos mesmos fenómenos com o objetivo de tornar o plano de investigação mais firme e produzir resultados mais fiáveis e sem enviesamentos. Assim sendo, uma investigação científica com caráter quantitativo poderá ser complementada com diversas técnicas de natureza qualitativa como por exemplo a entrevista.

A entrevista faz parte dos métodos qualitativos e continua a ser uma boa técnica de recolha de informação. Segundo uma definição tradicional a entrevista é uma conversa com um objetivo, que ocorre entre duas ou mais pessoas. Ela pode funcionar como um instrumento complementar de pesquisa ou pode ser um instrumento principal na análise e compreensão do comportamento humano e dos processos cognitivos subjacentes. De entre as principais vantagens da entrevista aponta-se para a flexibilidade que permite ao entrevistador acomodar as particularidades do seu entrevistado, possibilita a extração de diversos dados e a clarificação de ideias. Como principais limitações destaca-se a forma lenta de recolher dados e a dificuldade de quantificação dos mesmos.

Segundo a tipologia da condução da entrevista distinguem-se três tipos: a estruturada, a semiestruturada e a não estruturada, todas elas com características diferenciadas. Optando por um dos 3 tipos de entrevista, a semiestruturada apresenta como vantagem o facto de não exigir uma ordem rígida na colocação das questões, ao mesmo tempo que permite um maior grau de flexibilidade na exploração da informação pertinente. A utilização de um guião de entrevista auxiliará a orientação do entrevistador durante a recolha de dados

As entrevistas coletivas são uma outra modalidade de recolha de dados de natureza qualitativa recorrendo à técnica focus group, onde a discussão de um determinado tema é dirigido a um grupo de pessoas. Esta abordagem tem como objetivo a criação de um contexto favorável onde cada participante possa expor a sua opinião ou discutir a opinião dos outros acerca de um tema que é definido pelo entrevistador/moderador. A interação em focus group permite abordar o tema de várias formas, tenta explorar a compreensão subjetiva de cada participante num curto espaço de tempo e visa obter informação com carater individual, social ou familiar acerca de sistemas de representação, de valores ou normas veiculadas por um individuo. Entre as maiores vantagens deste tipo de entrevista estão a poupança de recursos como tempo, dinheiro e a possibilidade de aumentar a amostra, caso seja necessário até se atingir a saturação de dados. Como limitações podem-se apontar a dificuldade em reunir os participantes num só local e à mesma hora, ter em conta que a recolha de dados não é feita num ambiente natural e o entrevistador ter que possuir uma sólida formação na condução da entrevista. Não sendo possível conhecer se a interação em grupo mostra ou não a atitude individual de cada sujeito, poderá levar a um maior grau de dificuldade na análise dos dados que deverá ser realizada em função do contexto.

Fontes:

Carmo, H., & Ferreira, M. (1998). Metodologia da investigação. Guia para autoaprendizagem. Lisboa: Universidade Aberta.

Flick, U. (2005). Métodos qualitativos na Investigação Científica. Lisboa Ed. Monitor.

Pinto, B. E. (2004). A pesquisa qualitativa em psicologia clínica. Psicologia. USP, São Paulo, p.71-80.

Síndrome das pernas inquietas

O quadro das perturbações do sono-vigília é consideravelmente variado, englobando entre outras, a perturbação de insónia, a narcolepsia, as perturbações do sono relacionadas com a respiração, a perturbação de pesadelos e a síndrome das pernas inquietas. Embora muitas pessoas refiram ter dificuldades de sono, muitas vezes identificar o tipo de perturbação, as causas e as suas consequências, nem sempre é fácil.

Uma das perturbações do sono que desperta maior curiosidade, até porque não será a mais comum, é a síndrome das pernas inquietas. É uma perturbação neurológica sensoriomotora do sono e que se caracteriza por um intenso desejo de mover as pernas (ou os braços) associado a sensações desconfortáveis tipicamente descritas como formigueiro, latejar, rastejar ou sensação de queimadura. O diagnóstico desta perturbação tem por base inicial o relato do doente e a sua história clínica. Os sintomas tornam-se mais intensos quando o indivíduo está em repouso, sendo que os movimentos frequentes das pernas derivam de um esforço do mesmo para aliviar o desconforto que sente. Estes sintomas são frequentemente mais intensos ao final do dia e à noite. Este desconforto nas pernas deve ser diferenciado de cãibras ou de outro desconforto decorrente de mal posicionamento.

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Narcisismo, uma personalidade muito particular

Segundo a lenda, Narciso, personagem da mitologia grega, apaixonou-se pela sua própria imagem ao vê-la refletida num lago. Consta que era um jovem de extrema beleza e que despertava grande interesse nas donzelas, no entanto, escolheu viver só, por achar que não havia quem fosse digno de si e do seu amor.

Uma Perturbação da Personalidade pode definir-se como um padrão estável de experiência interna e comportamental, que se afasta marcadamente do esperado para um sujeito de uma determinada cultura. É invasiva, inflexível e tem o seu início na adolescência ou no início da idade adulta, mantendo-se estável ao longo do tempo e causando mal-estar, dificuldades de adaptação ou até mesmo incapacidade. O Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (DSM-V) define 10 perturbações de personalidade específicas: paranoide, esquizoide, antissocial, estado-limite ou borderline, histriónica, narcísica, evitante, dependente, obsessivo-compulsiva, alteração da personalidade devida a outra condição médica, perturbação da personalidade com outra especificação e não especificada.

A Perturbação Narcísica da Personalidade caracteriza-se por um padrão global de grandiosidade e necessidade de admiração, bem como na ausência de empatia com o outro. É um tipo de perturbação do foro mental que tem o seu início no começo da idade adulta e que está presente numa variedade de contextos. Os sujeitos com esta perturbação tendem a sobrevalorizar as suas capacidades e a exagerar os seus feitos, sendo com frequência apelidados de vaidosos e gabarolas. Consideram que os outros lhes atribuem o mesmo valor que eles próprios julgam ter e surpreendem-se quando não têm o reconhecimento que esperam e julgam merecer.

É frequente o indivíduo narcísico desvalorizar as capacidades dos outros, sempre que as compara com as suas próprias capacidades e fantasiar com o seu sucesso ilimitado, poder, brilho e beleza. Apresenta pensamentos ruminantes acerca de uma merecida admiração e tem tendência para comparar-se favoravelmente com pessoas influentes, privilegiadas e famosas. As pessoas com este tipo de personalidade consideram-se superiores, raras e especiais, esperando que os outros as reconheçam como tal. Sentem que só se devem associar a pessoas que consideram igualmente especiais ou de elevado estatuto, acreditando que as suas necessidades são também elas especiais e que não estão ao alcance das pessoas comuns.

O narcísico tem uma autoestima elevada, espelhada pelo valor idealizado que atribui às pessoas a quem se associa, e procura juntar-se com indivíduos de profissões diferenciadas e nível socioeconómico alto, desvalorizando o “comum dos mortais”. Esta autoestima elevada é no entanto frágil, uma vez que o indivíduo narcisista mantém uma preocupação excessiva com o quão bem se está a sair e quão favoravelmente é considerado pelos outros, uma vez que possui uma necessidade excessiva de admiração que nem sempre é expressa, defraudando as suas expectativas.. Adora e espera ser sempre recebido com “pompa e circunstância”, ficando muito espantado com a possível indiferença dos outros, procurando sucessivamente o elogio e agindo de forma sedutora.

Uma pessoa com personalidade narcísica espera dos outros alguma inveja e subserviência, ficando surpresa quando isso não acontece. Tem um elevado sentido de reverência a par com uma inabilidade para compreender as necessidades do outro, o que pode levar a situações de desrespeito e exploração, intencional ou não. A falta de empatia é uma característica muito vincada no narcisista. Estes indivíduos têm enorme dificuldade em identificar e compreender os sentimentos das outras pessoas, tendendo a desvaloriza-las, colocando sempre os seus sentimentos em primeiro lugar. Discutem os seus problemas com exagerado pormenor e por vezes de forma desadequada, desprezando e impacientando-se quando são os outros a falar dos seus assuntos e das suas preocupações.

A Perturbação Narcísica da Personalidade tem uma prevalência estimada de 0 a 6,2% na população e 50% a 75% dos casos diagnosticados são homens. A característica mais relevante na discriminação desta perturbação em relação à perturbação histriónica (sedutor), antissocial (insensível) ou borderline (dependente) é a grandiosidade. A relativa estabilidade da autoimagem, bem como a ausência de auto destrutividade, impulsividade e preocupação de abandono, distinguem a perturbação narcísica da perturbação borderline de personalidade. O excessivo orgulho nos seus feitos, o desdém pela sensibilidade alheia e a relativa ausência de manifestação dos sentimentos, ajudam a distinguir esta perturbação da perturbação histriónica. Os sujeitos com perturbação narcísica e perturbação antissocial tendem a ser rígidos, superficiais, exploradores e sem empatia, no entanto, os narcísicos não incluem habitualmente características de agressividade, impulsividade ou dolo.

O narcisismo é uma das construções de personalidade mais antigas conhecidas. Porém, continua a ser fonte de discussão científica, nomeadamente nas áreas da teoria clínica, do diagnóstico psiquiátrico e da psicologia. É uma síndrome desafiante, complexa de entender, heterogénea na sua apresentação e difícil de tratar, prejudicando também o tratamento de outras patologias do foro mental que possam estar presentes, como por exemplo a perturbação depressiva, a ansiedade ou o abuso de substâncias. É uma perturbação que pode incluir manifestações de grandiosidade alternadas com vulnerabilidade, conforme o contexto ou o momento/situação do sujeito, o que por si só dificulta o tratamento. Das várias abordagens psicoterapêuticas disponíveis, as de maior sucesso parecem ser as do grupo das terapias cognitivo-comportamental.

Fonte: Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais – Quinta Edição (DSM-V). American Psychiatric Association.

Ciúme e amor romântico

O ciúme é uma emoção universal, que em maior ou menor grau, todo o ser humano experiencia, em algum momento da sua vida. Transversal às relações pessoais e sociais, o ciúme pode ser vivenciado em diversos tipos de relacionamentos: romântico, familiar ou de amizade.

Definir o ciúme não é fácil, mais fácil é sem dúvida identifica-lo. No entanto, podemos referir as suas principais características que incluem o facto de ser um sentimento perante uma ameaça percebida, que pressupõe a existência de um rival, quer este seja real ou imaginário, e é uma reação que tem como objetivo eliminar o risco da perda do “objeto amado”. Foquemo-nos então no amor romântico e no respetivo ciúme. Este é um ciúme que acontece entre casais, tipificado por um conjunto complexo de pensamentos, emoções e ações perante a ameaça da perda do amor do outro e do respetivo relacionamento. O ciúme decorre da existência de um triângulo social, ainda que imaginário o que desperta sentimentos como o medo, a raiva ou a tristeza e que podem levar o indivíduo a comportamentos por vezes irracionais e desadequados.

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Parto e ansiedade

O momento do parto pode ver visto sob duas perspetivas: a positiva, associada à felicidade e entusiasmo pelo nascimento e pela realização do casal enquanto pais, e a perspetiva mais negativa, habitualmente relacionada com a ansiedade e o medo da vivência desse momento.

O parto é, à medida de cada caso, uma experiência física e emocionalmente exigente. A separação de dois (ou mais!) seres, que viveram aproximadamente 9 meses de modo interdependente em contacto íntimo e permanente, tem um impacto emocional para cada um deles. Numa perspetiva psicodinâmica, no momento do parto a mulher revive inconscientemente o trauma do seu próprio nascimento e a angústia que experienciou ao nascer, pela perda do estado intrauterino e pelo medo do desconhecido. A ansiedade causada pelo medo de cuidar o bebé, associado à sensação de perda ou “esvaziamento”, são os dois fatores cuja interação pode conduzir a um estado de confusão que pode desencadear na mulher a sensação de despersonalização ou perda de identidade.

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Perturbação da linguagem

Dentro do vasto espectro das perturbações mentais e do desenvolvimento, podem ser várias as perturbações da comunicação. Estas incluem défices na linguagem, na fala e na comunicação.

A fala corresponde à produção expressiva de sons e inclui a articulação, a fluência, a voz e a qualidade da ressonância de um indivíduo. A linguagem tem a ver com a forma, a função e a utilização de um sistema convencional de símbolos – palavras faladas, palavras escritas, linguagem gestual ou imagens, orientadas por regras de comunicação. A comunicação inclui todos os comportamentos verbais e não-verbais, intencionais ou não, que influenciam o comportamento, o pensamento ou as ideias e atitudes de outro indivíduo. Para uma correta avaliação das capacidades de fala, linguagem e comunicação, dever-se-á ter em conta o contexto linguístico e cultural do indivíduo, principalmente tratando-se de pessoas que se desenvolvem em contextos bilingues ou multiculturais.

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