Cérebro – o órgão onde tudo acontece!

Cérebro

O cérebro e o corpo são inseparáveis e ligam-se um ao outro através de circuitos bioquímicos e neuronais, envolvendo-se numa relação de reciprocidade. Os  nervos motores e sensoriais periféricos transportam sinais das diversas partes do corpo para o cérebro, e do cérebro para todas as partes do corpo. O cérebro lê os sinais, interpreta-os e responde, como pode.

No ser humano, de todos os sistemas de que é composto, o Sistema Nervoso (SN) é sem dúvida o mais complexo e sofisticado. A unidade funcional e estrutural deste sistema, também conhecida como célula neural ou neuronal, é o neurónio. É a unidade base do SN sendo o seu diâmetro de uma dimensão extremamente reduzida e existindo na ordem dos biliões no cérebro humano. Os neurónios diferem entre si no que diz respeito à sua localização, dimensão e funções. Cada neurónio tem uma morfologia adaptada à receção, integração, transmissão e ao processamento de sinais. Estes sinais são transmitidos por meio de estruturas altamente especializadas, que fazem a transmissão de um impulso nervoso de um neurónio para outro – as sinapses. Este impulso pode ser integrado, bloqueado e modificado de duas formas diferentes: as sinapses químicas, que são as mais frequentes no ser humano, e as elétricas. As sinapses químicas pressupõem a presença de neurotransmissores que são compostos químicos produzidos pelos neurónios e comunicados pelas sinapses, os quais são responsáveis por transmitir as informações necessárias para as diversas partes do corpo.

NeurotransmissãoO SN é o nosso grande comandante e é responsabilidade sua, a coordenação de toda e qualquer ação voluntária ou não, assim como a transmissão de sinais a todos os outros sistemas presentes no organismo, como o sistema motor, sensorial, cognitivo e a integração entre todos eles. O SN divide-se em 3 partes e são elas o Sistema Nervoso Central (SNC), o Sistema Nervoso Periférico (SNP) e o Sistema Nervoso Autónomo (SNA). Fazem parte do SNC o cérebro e a espinal medula. O SNP é formado principalmente por nervos (cranianos e espinais), gânglios e recetores sensoriais. O SNP divide-se ainda noutros dois subsistemas, o sistema nervoso somático (nervos sensoriais e motores) e o sistema nervoso autónomo que por sua vez engloba outros dois constituintes, o simpático e o parassimpático. Descrito assim mesmo de uma forma simplificada, percebe-se que o assunto é realmente complexo. Coloquemos então o foco no SNC, mais precisamente no cérebro – o órgão onde tudo acontece!

Neurónio

O cérebro divide-se em 4 partes, os lobos. O lobo frontal é o maior e é responsável pelos movimentos físicos, assim como pelas funções da aprendizagem, do pensamento, da memória e da fala. O lobo parietal é responsável pela perceção espacial e pela transmissão da informação sensorial como a dor, o calor ou o frio. O lobo temporal responde pelos estímulos auditivos e o lobo occipital recebe e processa as imagens visuais. Dividindo o cérebro ao meio, este apresenta uma função contra lateral, ou seja, a metade esquerda do cérebro controla o lado oposto do corpo (lado direito) e as funções do lado esquerdo do organismo são comandadas pela metade direita do cérebro. A lateralidade cerebral define que cada hemisfério controla determinadas funções (ex. o hemisfério direito confere a capacidade de reconhecer rostos e objetos e o esquerdo comanda a capacidade de leitura e escrita). Assim, o cérebro é o comandante de todas as funções e sentimentos, como os movimentos corporais, a memória e emoções. É a ação conjunta das várias partes do cérebro que permite ao ser humano capacidades como a marcha, a fala e a capacidade de pensar, sentir e amar.

Neurotransmissão

O cérebro é um órgão muito curioso e tem características e particularidades muito suas. Embora seja o responsável pela transmissão dos sinais e pela interpretação da sensação de dor, o cérebro em si é indolor. Sendo um orgão que pesa menos de 2 quilos, tem cerca de 160 000 quilómetros de vasos sanguíneos. O cérebro consome muita energia, embora o seu peso represente apenas cerca de 2% do peso total do corpo, ele gasta cerca de 25% de toda a energia de que o corpo humano necessita para funcionar. Este grande consumo de energia parece dever-se à manutenção dos processos relacionados com o pensamento e os processos corporais, sendo parte dela possivelmente investida na manutenção da saúde das células cerebrais.

Neurotransmissão

Estudos acerca do funcionamento cerebral por género revelam que o cérebro das mulheres é diferente do dos homens, ou seja, parece estar efetivamente comprovado que o cérebro das mulheres é mais orientado para as emoções e para a subjetividade, enquanto o dos homens parece ser mais racional e objetivo. O cérebro dorme mas não para. É durante os períodos de sono que o cérebro humano mais trabalha, conseguindo mesmo assimilar informação. Esse trabalho cerebral está relacionado com a atividade onírica, ou seja o sonhar. Com o avançar da idade, observam-se determinadas alterações no cérebro humano e algumas das suas partes começam a diminuir de forma natural, à qual se associa uma perda neuronal. As zonas cerebrais responsáveis pela regulação dos processos cognitivos como a memória, começam a diminuir por volta dos 65 /70 anos de idade o que pode conduzir à redução da plasticidade cerebral e da capacidade de adaptação dos indivíduos.

CérebroVoltando aos neurónios, a ideia de que estes não se reproduzem nem se dividem e que são insubstituíveis, foi durante muito tempo uma verdade absoluta. No entanto, alguns estudos mais recentes têm vindo a apontar para a possibilidade de haver um processo de neurogénese adulta, ou seja, a capacidade de se criar e reforçar os neurónios em idade mais tardia, através de uma série de práticas relacionadas aos hábitos vida saudáveis ao longo do tempo. A prática de exercício físico de corrida ou resistência, a dieta mediterrânica e a estimulação cognitiva, podem ajudar a manter o cérebro saudável. A aprendizagem facilita as conexões entre as diferentes áreas do cérebro e por isso pode constituir-se como um fator protetor contra a neuro degeneração. Porém, a neurogénese adulta, a ser uma realidade, tem um papel limitado incapaz de corrigir lesões cerebrais graves. A investigação e a ciência estarão decerto atentas a este problema e irão continuar a fazer esforços no sentido do prolongamento da saúde neuronal.

Cérebro

Até lá e pelo sim, pelo não, cuide-se para envelhecer melhor!

 

 

 

S

Para que servem os Psicólogos?

Para que serve o psicólogo?

Se por vezes alguns adultos revelam dúvidas sobre o que faz um Psicólogo, as crianças poderão ter maior dificuldade em perceber qual a função destes profissionais. Quem são, para que servem e o que fazem é aquilo que me proponho esclarecer neste texto dedicado aos mais pequenos, para que possam saber o que contar se precisarem de recorrer à ajuda psicológica.

É relativamente frequente, em consulta, à pergunta “Sabes o que faz um psicólogo?”, algumas crianças ainda responderem algo do tipo “Tratam os malucos” ou “ajudam as pessoas que não são boas da cabeça”. Estes estereótipos são para eliminar de uma vez por todas. Primeiro porque não há malucos mas sim pessoas com perturbações mentais ou défices nas suas diversas capacidades, e depois, porque qualquer pessoa dita “normal” poderá beneficiar do apoio de um Psicólogo, em algum momento da sua vida. Continuar a ler

Famílias modernas

FamíliaNas últimas décadas, as sociedades ocidentais têm sofrido alterações bastante significativas em relação às gerações anteriores. A família, enquanto instituição, tem sido alvo de muitas mudanças ao longo do tempo, devido ao aumento do número de separações e de divórcios, a par de outras transformações de carácter económico e social.

Socialmente, o divórcio já não é visto como outrora, em que o estigma conduzia muitas vezes a um sentimento de vergonha e de baixa autoestima, principalmente por parte das mulheres. Com a entrada da mulher no mundo profissional e com profissões cada vez mais diferenciadas, que conduzem a uma maior autonomia económica, o problema da dependência financeira do marido, deixou em muitos casos de ser um entrave à separação. Por outro lado, a procura da felicidade e do bem-estar emocional, constitui-se como um direito de todos, sendo que as exigências afetivas passaram a ter um papel cada vez mais determinante na decisão da manutenção ou da dissolução de uma união.

FamíliasUm estudioso destas matérias (Hall, 1999) identificou três formas de pensar acerca do casamento: a visão mais tradicional, que vê o casamento como uma obrigação de relação mútua, romântica e algo hierarquizada, a visão mais autocentrada, ou seja, que vê o casamento de forma mais paralela, prática, individualista e menos romântica e uma outra visão mais extremista no que diz respeito ao estatuto do casamento, muito orientada para a obrigação e muito pouco para o romantismo. Qualquer uma destas formas de olhar o casamento tem subjacente um conceito comum, a família, sendo que a cada modo de percecionar o casamento poderá corresponder um modelo de família. O modelo de família tradicional, caracteriza-se pelo destaque pela a autoridade paterna, a funcionalidade da união e a relação com a família alargada e a comunidade. Outro modelo de família, refere-se a um tipo de construção familiar mais influenciado pelo individualismo e autonomia, mais nuclear e menos complexa e que se centra essencialmente nos afetos e nos sentimentos. Por fim a família pós-moderna, pautada pela aceitação de formas menos convencionais, com maior flexibilidade e diversidade nos seus constituintes.

FamíliaPodemos encontrar hoje em dia famílias tradicionais, constituídas por pais, filhos, por vezes avós ou outros que coabitam e/ou que se relacionam de uma forma tipicamente hierarquizada. As famílias monoparentais, que são cada vez mais frequentes, assim como também vão sendo notórias, famílias cujos laços nem sempre são de sangue e que se organizam de uma forma menos convencional e mais flexível. Atualmente, as novas formas de conjugalidade concorrem com as mais tradicionais, no que se refere aos papéis de género, à sexualidade, à cultura, à religião, entre outros aspetos das sociedades modernas. Apesar de toda a diversidade de famílias que podemos encontrar na sociedade atual, existem algumas características comuns como a diminuição do número de filhos e de membros, o aumento da participação feminina no mercado de trabalho e a participação dos diversos elementos da família na economia doméstica. Observa-se assim que a evolução e a transformação das famílias, conduziu a uma organização das mesmas, mais democrática cooperante e participativa, comparativamente ao modelo de família patriarcal em que o chefe de família era o pai e se constituía como o núcleo económico e de poder.

Família

 

Pais separados, crianças protegidas?

Pais divorciadosA separação e o divórcio são acontecimentos hoje em dia comuns na nossa sociedade. Se para os adultos é difícil lidarem com o fim de uma relação que se acreditou ser para a vida, para as crianças, fruto dessas relações, nem sempre é mais fácil.

Para muitas crianças a separação dos pais é vivida de forma tranquila e natural. Muitos pais, optam pela separação em relação ao seu companheiro e decidem por fim a uma vida em comum, no entanto, têm o cuidado de nunca se separarem dos seus filhos. Se é certo que deixarem de viver na mesma casa pode constituir algo de difícil para as crianças, estas têm a capacidade de se adaptarem e de serem muito felizes, se os pais tiverem certos cuidados e evitarem determinados comportamentos que possam vir a afetar as crianças e de deixar marcas por vezes difíceis de reparar. Embora muitos pais tentem esconder a realidade aos seus filhos no sentido de os protegerem, esta não será a melhor forma de agir. Manter a criança ao corrente dos acontecimentos é essencial. Deve-se conversar com a criança sobre a separação, de acordo com o estádio de desenvolvimento em que ela se encontra, tendo o cuidado de lhe explicar que o amor dos pais por ela é inalterável. É fundamental que a criança entenda que o amor dos pais não será posto em causa com o divórcio, que poderá sempre gostar dos dois e que, sobretudo, não terá de fazer escolhas.

pais separadosÉ também muito importante retirar o sentimento de culpa que algumas crianças sentem pela separação dos pais, uma vez mais através de um diálogo adequado. É fundamental também que a criança possa ter a possibilidade de falar com os pais (ou outros) e expressar a sua opinião. Dizer o que pensa e sente pode ajudar a que os adultos compreendam melhor  e lidem mais facilmente com eventuais consequências que a criança possa apresentar, por exemplo a nível comportamental. Embora o diálogo entre pais e filhos seja importante, devem ser respeitadas algumas regras. Não é bom interrogar a criança sobre o tempo que passa com o outro progenitor, pois estas perguntas podem leva-la a escolher ficar em silêncio, com receio de interferir numa relação por vezes muito sensível. É altamente desaconselhável enviar recados para o pai ou para a mãe, através da criança, para evitar aspetos de manipulação que acabam sempre por gerar conflitos entre os pais. Os recados devem ser dados um ao outro diretamente, devendo a bem de todos, tentar manter um diálogo tranquilo e civilizado, pelo menos sobre os assuntos que dizem respeito aos filhos. Se tal não for possível, é preferível enviarem mensagens por escrito e não pedir aos filhos para darem recados porque as crianças ao passarem a mensagem acabam por ouvir muitas vezes críticas ao outro progenitor e que não lhes vão fazer bem.

divórcio e separaçãoÀ semelhança de todas as outras crianças, é fundamental que se estabeleçam regras e rotinas, de modo a que possam por exemplo, ser mantidos os horários das refeições, de dormir e de acordar, de modo a permitir à criança, ter uma noção de que a sua vida se mantém o mais possível dentro da normalidade. A consistência entre regras e limites estabelecidos quer pelo pai como pela mãe, é essencial para a manutenção da estabilidade e do bem-estar da criança e da família. Se o reforço é comprovadamente eficaz para que os bons comportamentos ocorram, deverão ser evitadas as recompensas materiais. O que a criança mais quer é a atenção e o mimo dos pais. Tempo de qualidade passado em atividades em família, em que cada um dos pais se envolva com as suas crianças de modo a partilharem gostos e afetos, será certamente a melhor forma de recompensar a obediência ou um bom desempenho da criança.

Pais separadosO modo como será preenchido o tempo livre com cada um dos pais, deverá ser escolhido, sempre que possível, em conjunto com a criança. Deverá ser dada prioridade a atividades de exterior que impliquem a interação entre os pais e os filhos (ex. jogar à bola, andar de bicicleta, passear no campo ou na praia, ir ao teatro, visitar jardins, visitar outros espaços culturais, ou em casa, contar histórias, desenhar, jogar jogos de tabuleiro, fazer construções, etc.). Deve evitar-se que a criança fique muito tempo sozinha a ver televisão ou dedicada a jogos eletrónicos, o que pode levar a que o contacto e as interações com os pais sejam reduzidas e pouco gratificantes. O objetivo da escolha conjunta de atividades é que estas correspondam aos interesses da criança mas também dos pais para que estes momentos tão importantes possam proporcionar  a ambos momentos felizes e compensadores.

Responsabilidade parentalPor muito que possa ser difícil a sua relação com o seu ex-companheiro ou ex-companheira, nunca deixe de pensar que em primeiro lugar está o seu filho. Os adultos têm mais recursos para lidarem com as adversidades da vida e têm maior capacidade de refletir e de compreender, o impacto que algumas mudanças podem ter na vida das crianças. Assim, podem fazer um esforço conjunto no sentido de poupar as crianças a discussões, manipulações e trocas de acusações, que não levam a nada a não ser à infelicidade dos mais pequenos. Quando tudo isto parece impossível, quando não consegue conviver com as dificuldades da separação e de um relacionamento quebrado, então peça ajuda, não se force a enfrentar tudo sozinho/a. O Psicólogo poderá ajudar!

 

A adolescência e o processo de separação/individuação: três olhares

AdolescentesA adolescência corresponde a uma fase do desenvolvimento que começa com a entrada na puberdade. Tem por isso um início biológico marcado por transformações às quais o indivíduo tem que se adaptar. O final da adolescência poderá ser determinado pela independência do jovem em relação aos pais, logo tem um carácter psicossocial.

A adolescência é uma fase de paradoxos uma vez que há uma inconstância de sentimentos e emoções que levam o jovem a oscilar entre o desejo de estar só e a vontade de sentir atenção e companhia, “Entre o medo e o desejo de crescer” (M. Fleming, 2005). Em termos psicológicos, a tarefa básica do adolescente é a aquisição do sentimento de identidade. Descobrir e experimentar coisas novas, assim como ensaiar vários papéis característicos do adulto, são tarefas típicas deste período. Para isso é fundamental que o contexto relacional do adolescente lhe forneça a segurança e o apoio necessário à experimentação e à sua estruturação enquanto individuo. Os estudiosos desta matéria defendem diversas teorias e modelos, sendo vários os autores portugueses que têm dado o seu contributo para o estudo do processo de separação/individuação na adolescência. Apresento neste texto três olhares psicodinâmicos sobre esta temática, de três psiquiatras e psicanalistas portugueses, cada qual com as suas particularidades e especificidades.

Separação/IndividuaçãoSegundo Carlos Amaral Dias, a adolescência é um período de espera moratória concedido ao adolescente enquanto não se encontra com aptidão para satisfazer os compromissos da vida adulta. O autor refere ainda que a adolescência é uma fase organizadora do psiquismo em que há um desinvestimento nos laços de dependência narcísica que anteriormente uniam a criança às suas figuras parentais, através de um processo de luto, que dá ao jovem a possibilidade de estar só e de ultrapassar de forma positiva o processo de separação/individuação. Em relação a este processo, o autor introduz uma ideia original, com base na obra de Bion e Meltzer, na medida em que defende que o adolescente rejeita o continente parental, isto é, a disponibilidade que os pais poderão ter para acolher conteúdos não transformados que recebem dos filhos através da identificação projetiva, conferir-lhes significado e a dirigi-los novamente para o filho de modo a que este já o possa assimilar. Para este autor, o adolescente, na fase de separação/individuação passa por dois processos de luto, na medida em que perde o self parental ao adquirir autonomia das figuras parentais e também o luto pelo grupo no sentido de conseguir individualizar-se e constituir-se enquanto ser com capacidade de estar com os outros mas também de estar só, consigo próprio.

Separação/IndividuaçãoNa perspetiva de Eurico Figueiredo, o conflito de gerações é indispensável à estruturação do indivíduo, sendo que o conflito é articulado por duas problemáticas distintas. Por um lado a idealização vs. desidealização das figuras parentais e por outro lado o narcisismo ou amor-próprio. Durante a infância a criança idealiza as figuras parentais e interioriza esse objeto que mais tarde, na adolescência lhe vai causar deceção ao olhar com outros olhos os pais reais. Isto leva a uma relação de conflito – o conflito de gerações. A realidade parental apresenta-se como uma dupla ameaça pois por um lado há uma renuncia precoce a um ideal que é do agrado do jovem e por outro lado há uma ameaça de depressão causada por um luto interno de desejos e ambições que o jovem receia não poder vir a concretizar, ou seja, ao mesmo tempo que o indivíduo renuncia a algo que o fez feliz na infância ele teme também não conseguir realizar as suas aspirações de adolescente. Este autor defende que no conflito de gerações há uma luta pelo amor-próprio. Por parte dos pais porque temem perder o amor dos filhos ao qual se habituaram durante a infância e por parte dos filhos porque lutam pelo seu amor-próprio que ficou perturbado pela desidealização dos pais. Eurico Figueiredo defende que a separação psicológica da família de origem é universal e deverá traduzir-se em aquisições psicológicas também elas universais (Fleming, M., 2005). Estes conflitos têm uma natureza evolutiva entre vários polos: autonomia vs. dependência, desautorização vs. submissão e desidealização vs. idealização, sendo que o primeiro polo deverá predominar à medida que o indivíduo se torna adulto.

Separação/Individuação

Por último, a perspetiva de Emílio Salgueiro. No que concerne a adolescência e ao processo de separação/individuação, o autor discorda da teoria da desvinculação ou desinvestimento do jovem adolescente às figuras parentais. Para ele os pais ganham importância e tornam-se figuras complexas ajudando a remodelar os objetos internos primordiais (Fleming, M., 2005). Isto é, refere que os pais ganham relevo na medida em que auxiliam o jovem a conferir uma nova forma aos objetos internos iniciais que irão ser o suporte para a sua vida adulta. O autor salienta que o amor pelos pais não desaparece, porém por vezes toma a forma de ódio positivo, sentimento inseparável do amor positivo, causado pela deceção dos pais idealizados na infância face aos pais reais. Se por um lado o adolescente se vê impelido a reagir contra os pais, por outro lado a confiança e segurança que estes lhe oferecem irá ser fundamental na consolidação da sua individuação.

 

Processo de separação/IndividuaçãoEmbora o processo de separação/individuação seja complexo, contraditório e pleno de obstáculos, ele é indispensável para que os adolescentes entrem no mundo dos adultos com a maturidade necessária para enfrentarem as novas situações e vivências com que se irão deparar na vida adulta.

 

 

Fontes:

Amaral Dias, C. & Nunes Vicente, T. (1981). A depressão no adolescente. Porto: Edições Afrontamento.

Fleming, M. (2005). Entre o medo e o desejo de crescer. Porto. Edições Afrontamento.

Sprinthall, N. & Collins, W., (2003). Psicologia do Adolescente: Abordagem desenvolvimentista. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

Moralidade: um conceito, duas perspectivas

Piaget e KholbergUm dos objectivos da socialização é inculcar valores morais que são respeitados não apenas para evitar a punição mas também porque a pessoa acredita que eles são correctos.

A socialização dá-se ao longo do desenvolvimento humano sendo um  processo gradual e cumulativo. Ao longo do tempo tem-se procurado compreender de que forma o indivíduo assume e interioriza  os valores que orientam o seu comportamento, isto é, a forma como ocorre o desenvolvimento moral que vai influenciar o modo como vai construir o seu significado sobre o mundo social.

Piaget e Kohlberg Jean Piaget, cientista suíço que revolucionou o modo de encarar a educação das crianças, ao mostrar que elas não pensam como os adultos mas constroem a sua própria aprendizagem, afirma que o desenvolvimento moral das crianças, desde o nascimento até cerca dos 12 anos de idade, passa por duas orientações: heteronomia e autonomia. Numa primeira fase, as crianças encontram-se em moralidade heterónoma, ou seja, todas as regras são impostas pelo adulto, exteriores a si e não podem ser contestadas. Um comportamento é visto como completamente certo ou completamente errado, não havendo lugar para ver o ponto de vista do outro. Numa segunda fase, as crianças evoluem para uma moralidade autónoma, onde aceitam que as regras podem ser alteradas por elas próprias ou pelos outros, julgam os actos pela sua intenção e não apenas pela consequência dos mesmos e têm a capacidade de se colocar no lugar do outro, considerando mais do que um ponto de vista.

Kohlberg e PiagetPara este autor, a moral refere-se a um conjunto de regras e o conceito de moralidade refere-se ao respeito que a criança tem por essas regras. Para uma abordagem mais profunda a este conceito, Piaget divide-o em dois níveis: a consciência que a criança tem das referidas regras e a prática, isto é,o modo como as respeita e segue. As três questões básicas da moralidade são, o conhecimento das regras, a sua origem e a sua mutabilidade. Quando expostas às regras de determinado jogo, as crianças no estádio sensório-motor não tendo ainda consciência destas, vêm o jogo como uma actividade meramente motora. No estádio pré-operatório, as crianças imitam o comportamento dos outros e reconhecem a existência de regras, considerando-as imutáveis e rígidas. Embora tenha já consciência que essas regras regulam a actividade/jogo, a criança tem uma atitude egocêntrica na medida em que não joga “com os outros” mas sim retira dessa actividade um prazer para si mesma. No estádio operatório concreto, a criança já vê o jogo como uma competição e não apenas como uma actividade geradora de prazer psicomotor. Este estádio é marcado pela moralidade heterónoma em que as regras são vistas como algo rígido, não contestável e também percebidas como necessárias para a evolução do jogo. Numa última fase deste estádio, por volta dos 10 anos ou no início do estádio operatório formal, a criança desenvolve o raciocínio abstracto e passa para a fase da autonomia moral. Nota-se então um maior interesse não só em estudar as regras mas também em discuti-las de uma forma cooperante dentro do seu grupo de pares.

Piaget e KohlbergPor outro lado, Kohlberg, psicólogo norte-americano que se dedicou ao estudo do desenvolvimento moral das crianças e adolescentes, postula que este passa por três níveis: pré-convencional, convencional e pós-convencional, cada um dos quais está dividido em dois estádios, que vão para além da adolescência. Para este autor, só a maturidade pode trazer um conceito de moral, pleno de significado. Na base desta classificação está o nível de maturidade, de consciência e de motivação em relação às regras e à utilidade destas. O primeiro nível é Moralidade Pré-convencional onde a moralidade da criança é apenas marcada pelas consequências dos seus actos. No estádio 1, a criança respeita a regra apenas por ter medo da punição e não por ter noção do valor e do significado da mesma. Há uma orientação para a punição e para a obediência sendo considerada apenas a perspectiva do próprio ou da figura de autoridade. No estádio 2, marcado pelo individualismo e pela troca instrumental, a criança vê a relação com os outros como uma troca comercial, isto é, uma acção justa é aquela que é recompensada. No segundo nível,  Moralidade Convencional, há uma atitude de conformidade com a ordem da sociedade de lealdade e amor à família e ao grupo. O estádio 3 caracteriza-se pelo relacionamento e conformidade interpessoal, isto é, o comportamento é muitas vezes julgado com base na intenção, e esta intencionalidade torna-se pela primeira vez importante. A consciência social, o desenvolvimento da noção do dever e a manutenção da lei e da ordem, caracterizam o estádio 4. No terceiro nível, Moralidade Pós-convencional, destaca-se o esforço do indivíduo para definir os valores morais, o certo e o errado prescindindo por vezes da figura de autoridade. Alcançado o  estádio 5, nota-se uma orientação para o contrato social e os direitos individuais aceites democraticamente.  Há uma tomada de consciência da existência do outro, de maioria e de utilidade social. Por último, o  estádio 6 reflecte uma orientação para os princípios éticos universais. A noção de justiça define-se nesta fase pela decisão da consciência de acordo com princípios éticos abstractos que determinam o código moral pessoal, escolhidos com base na compreensão lógica, na coerência, na universalidade, e na solidariedade, regendo-se por princípios universais de igualdade, reciprocidade e respeito pelo outro.

Piaget e Kohlberg O desenvolvimento moral ocorre através da interiorização de um conjunto de princípios éticos ou normas, a partir das quais é avaliada a conformidade dos vários pensamentos, sentimentos e comportamentos. A maturidade moral implica  a capacidade e disponibilidade do indivíduo para se sujeitar às normas morais interiorizadas, mesmo quando não estão presentes as figuras de referencia e autoridade, que habitualmente reforçam a conduta moral ou punem as transgressões. Duas teorias, duas perspectivas, em todo o caso têm em comum uma ideia desenvolvimentista e ecológica. Tanto no modelo de Piaget como no de modelo de Kohlberg, a moralidade de um indivíduo depende tanto de factores psicológicos e biológicos  como de elementos sociais e culturais, tornando-se claro que diferentes situações sociais, culturais, psicológicas e biológicas irão propiciar diferentes comportamentos e diferentes moralidades.

Fontes:

Kohlberg, L. (1981). The Philosophy of Moral Development. San Francisco. Harper and Row.

Piaget, J. (1994). O juízo moral na criança. São Paulo: Summus

 

 

Esquemas mentais, memória e formação de impressões

Esquemas mentaisFormar uma impressão significa organizar a informação disponível acerca de uma pessoa de modo a podermos integrá-la numa categoria significativa para nós.

Tendo como base a psicologia cognitiva, a abordagem da formação de impressões que tem como base a memória, tem o objectivo de analisar os processos cognitivos relacionados com aquisição, armazenamento e recuperação de informação. Assim sendo, é através dos esquemas mentais, isto é, estruturas cognitivas formadas por categorias, conceitos e conhecimentos anteriores, que são utilizados de modo a dar coerência e sentido à nova informação de modo a categorizar e até avaliar uma pessoa quando num primeiro contacto formamos uma impressão.

Esquemas mentais e memóriasOs esquemas mentais influenciam a codificação da informação nova, a memória de conhecimentos anteriores e permitem-nos inferir sobre informação ausente assim como prever acontecimentos futuros. Interpretamos o comportamento da outra pessoa baseando-nos na nossa memória, isto é, nos nossos conhecimentos e informações anteriores como por exemplo os traços de comportamento e os estereótipos, tornando-se  os processos de memória fundamentais para a formação de impressões.

Fonte:

Vala, J., & Monteiro, M. B. (Eds.). (2001 Psicologia Social (6ª ed.). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

 

 

Estamos divorciados! E os nossos filhos?

SeparaçãoAs separações e os divórcios são uma realidade muito frequente nos dias de hoje. Quando os casais que se separam têm filhos ainda pequenos, muitas vezes têm comportamentos em relação às crianças, que nem sempre são as mais adequadas e adaptativas. Algumas vezes fazem-no intencionalmente para magoar o ex-companheiro/a mas muitas vezes é apenas porque não sabem fazer melhor.

Se de repente se separou e se viu sozinha/o com o seu filho pequeno, não se admire se a sua criança começar a apresentar comportamentos diferentes do habitual. Alguns comportamentos podem ter a ver com o facto de a sua estrutura familiar ter mudado, assim como alguma alteração das rotinas do dia-a-dia mas também porque as crianças, como seres em desenvolvimento que são, têm por vezes comportamentos desadequados apenas porque ainda estão a aprender a se comportarem.

Criança infelizAssim,  encha-se de paciência, de tolerância e não ceda a birras ou exigências. Não deixe que a separação seja um motivo para que o seu filho a/o manipule. As regras e o seu cumprimento são de grande importância para o seu filho, no presente e mais ainda no futuro. Não fique demasiado preocupada/o se o seu filho revelar reações de hostilidade, com frequência mais dirigidas ao progenitor com quem ficou a viver mais tempo. Ele poderá culpa-la/o de ser responsável pela separação e isso pode ser “normal” numa primeira fase. Dê ao seu filho tempo para aceitar a mudança. Se for possível, dedique alguns minutos por dia a conversar com o seu filho sobre o que se está a passar. Fale com ele sobre o que o preocupa ou assusta. Prepare-se para o aparecimento de alguns comportamentos regressivos (ex. falar “à bebé”, voltar a fazer xixi na cama, mau comportamento na escola, isolamento…). Se estes comportamentos persistirem, peça ajuda profissional.

Separação litigiosaGuarda partilhada? É fundamental que os pais pensem muito bem se este é o regime que beneficia a criança. Será benéfico para a sua criança mudar de casa todas as semanas? Como fazer em relação aos brinquedos, roupas, livros e à escola? Conseguem criar dois ambientes (casa da mãe e casa do pai) idênticos no que diz respeito a regras e rotinas? A guarda partilhada é uma solução cada vez mais com expressão em novos casos de divórcio, no entanto, a permanência numa casa fixa, com visitas semanais, quinzenais ou outras a combinar com o outro progenitor, poderá promover uma maior estabilidade emocional à criança. Pensem bem antes de decidir. Ponham sempre à frente o superior interesse da criança e nunca caia no erro de a utilizar para atingir o outro. Nunca se esqueça que os momentos que passa junto dos seus filhos devem ser de qualidade, muito mais do que em quantidade.

DivórciooNa escola, é essencial que a professora/educadora seja avisada das alterações que sofreu a vida familiar da criança. A sua colaboração nesta fase será de grande importância, principalmente no que se refere à capacidade de empatia e de a saber ouvir. Os professores devem ter em conta que o divórcio pode prejudicar o rendimento escolar da criança, além de poder estar associado à agressividade e a problemas relacionados com a concentração e a atenção. Peça-lhe para lhe comunicarem caso a criança altere significativamente os seus comportamentos após a separação dos pais. Se os comportamentos se tornarem desadequados e preocupantes, a ajuda da professora pode ser muito útil na avaliação da criança e na definição de estratégias de apoio.

SeparadosEstá muito zangada/o ou magoada/o com o seu ex-companheiro/a? Pois é, por vezes e principalmente numa fase inicial, pode ser muito difícil o relacionamento entre os elementos de ex-casais. Evite ao máximo discutir com o pai/mãe da sua criança  na sua presença. Seja antes, durante ou após o processo de separação, trocar argumentos e acusações na presença das crianças aumenta a sensação de conflito, gera confusão, sentimentos de culpa e de revolta nos mais pequenos. Procure que o processo de divórcio não seja demasiado prolongado. A separação pode causar muito sofrimento a uma criança mas ela certamente saberá ultrapassá-la, depois de um processo normal de luto, de duração variável, caso a caso.

Luto infantilNunca culpe a sua criança. É fundamental que a criança compreenda que os pais se separam porque já não se amam e porque já não querem viver juntos e não porque ela fez algo de errado. É fundamental que continue a transmitir ao seu filho o quanto o ama. Embora seja uma excelente companhia e ofereça um grande conforto, o seu filho não é o seu melhor amigo. Não confunda os papéis. Pai e mãe são isso mesmo, pai e mãe. Tornar-se uma espécie de melhor amigo da criança pode levar a graves problemas de autoridade no futuro. Por outro lado, evite transformar o pai/mãe numa figura ausente. Na infância, sentir que o pai/mãe é uma figura presente, mesmo não vivendo diariamente com a criança, sentir a sua proteção, vê-lo como modelo e referencia, e como alguém que estabelece regras e exerce a autoridade quando é necessário, é fundamental para que a criança cresça com estabilidade emocional e equilíbrio psicológico.

Para que serve o psicólogo?Quando as crianças ficam à guarda da mãe, o pai não deve delegar nestas, todas as funções associadas à educação da criança. Por outro lado, a mãe também não deve utilizar em seu benefício, o facto de lhe ser concedida a guarda da criança, optando muitas vezes por afastar o pai, manipulando informações em seu benefício e transformando-o num ser temido e ausente aos olhos do filho. A alienação parental é uma realidade muito preocupante e as grande vítimas deste flagelo são sem dúvida as crianças. Se a sua relação com o seu ex-companheiro/a é muito difícil, pode sempre recorrer à mediação familiar. Há psicólogos especializados nessa área, que podem dar um contributo muito importante para o bem-estar de todos os envolvidos num processo de separação.

Separação

Stresse: o mau e…o bom!

DistressSegundo Selye (1976) o stresse é um conjunto de respostas fisiológicas que mobilizam o organismo para a acção e que são ao mesmo tempo adaptativas. O autor defende ainda que estas respostas ou reacções se alteram ao longo do tempo e que com a exposição repetida a situações de stresse, a reacção de defesa do organismo passa por três fases distintas: alarme, resistência e exaustão, às quais chamou Síndrome de Adaptação Geral.

Podemos considerar que o stresse é um processo de adaptação e não propriamente uma doença, embora a exposição repetida a factores causadores de stresse possa levar a um estado patológico, pelo desgaste que provoca no indivíduo. Existem vários tipos de stressores, que podem ser internos (representações mentais ou memórias) ou externos (vivenciar uma determinada situação). O modo como o indivíduo reage perante os factores causadores de stresse pode ser através de uma resposta emocional (ex. ansiedade ou medo), uma resposta fisiológica (ex. roer as unhas), uma resposta comportamental (ex. agitação motora) ou resposta cognitiva (ex. pessimismo ou dificuldade em tomar uma decisão).O stresse tem no indivíduo consequências negativas mas também pode ter consequências positivas. É algo inevitável, uma vez que está presente nas situações do dia-a-dia. É também de certo modo e em alguns casos desejável, na medida em que funciona como o motor que nos conduz à resolução dos problemas. Nestes casos, é a oportunidade de adquirirmos competências práticas e de nos tornarmos capazes.

EustressPerante um mesmo factor de stresse, cada indivíduo reage e age de forma diferente, sendo que, uns têm tendência a minimizar os custos da situação e torná-la irrelevante e outros, agudizam-nos, tornando a situação ainda mais ameaçadora. É o significado que cada indivíduo atribui a uma determinada situação, com base na avaliação que faz e nos recursos que possui, que vai determinar as suas reacções ao elemento stressor. Segundo o modelo de avaliação cognitiva de Lazarus e Falkman, uma situação é geradora de stresse quando é potencialmente prejudicial e caso o indivíduo considere que os seus recursos são insuficientes para gerir o resultado aversivo. Uma situação indutora de stresse é toda aquela em que a relação estabelecida entre o indivíduo e o meio ambiente é avaliada como excedendo os seus recursos prejudicando por isso, o seu bem-estar. Às estratégias utilizadas para repor o equilíbrio homeostático após uma situação de stresse dá-se o nome de coping. Estas estratégias têm a ver com regulação de emoções, negação e evitamento ou resolução de problemas, sendo as últimas as que tendencialmente têm maior eficácia, sempre que o factor causador de stresse pode ser controlado pelo indivíduo. A regulação de sintomas pode ser funcional quando o stressor não é controlável, sendo neste caso a autorregulação a melhor forma de lidar com o problema. Em relação à negação e evitamento, considera-se a forma menos eficaz de coping, se bem que em alguns casos pode servir para se ganhar tempo e posteriormente adoptar uma estratégia mais adequada para o problema em questão.

EustressO stresse pode ter um impacto directo na saúde, na medida em que a percepção de falta de controlo, que se atribui a causas internas, estáveis e globais pode levar a estados de ansiedade e/ou depressão, bem como a um estado de saúde física precário. Deste modo, o custo do stresse é sentido na saúde e no bem-estar do indivíduo. Dentro das perturbações patológicas causadas por acção do stresse podemos destacar as perturbações do foro digestivo, infecções, doença coronária ou até mesmo o cancro. É ainda de referir as queixas psicossomáticas, em que o indivíduo por má gestão emocional, manifesta queixas a nível físico para as quais não se encontra uma causa orgânica. Para lidar com o inevitável stresse, cada indivíduo dispõe de recursos internos – características da personalidade e externos – apoio social. São exemplos de factores promotores de distress a dificuldade na gestão do tempo, a dificuldade em estabelecer prioridades e de tomada de decisões, as perdas por morte, os conflitos interpessoais ou uma crise financeira. Até agora falámos essencialmente de distress, isto é, a dimensão negativa e prejudicial do stresse mas ao contrário do que vulgarmente se pensa o stresse nem sempre é negativo.

DistressÉ consensual entre psicólogos e outros profissionais que se dedicam a este tema, a divisão do stresse em mau e bom, respectivamente distress e eustress. Denominamos de eustress, o bom stresse, a capacidade que o ser humano tem de realizar uma acção necessária. Este é natural do organismo e é graças a ele que o indivíduo mantém uma relação entre o stresse e a motivação, sendo encarado como afecto positivo e esperança. Chamamos savoring às estratégias que utilizamos para sentir, prolongar regular, manipular e manter as emoções positivas, o eustress. Estas conduzem ao bem-estar, à saúde física e mental, ao bom desempenho profissional e à satisfação nas relações interpessoais. É um modelo que leva ao impulso para a acção, para a auto-eficácia, para as emoções pró-sociais e trás serenidade. Dentro dos factores promotores de eustress, podemos encontrar a aquisição de competências técnicas ou académicas, estar na eminência de ganhar um prémio ou o estabelecimento e manutenção de algumas relações sociais, como por exemplo, estar apaixonado. Uma das principais estratégias de savoring é a partilha de acontecimentos positivos com os outros, o que vai levar ao aumento do bem-estar e satisfação com a vida.

Aprenda a identificar os sinais de alarme e a gerir o seu distress. Acha a tarefa difícil? Peça a ajuda ao seu psicólogo!

 

 

 

 

Fontes:

Selye, H. (1976). The Stress of Life (Revised ed.). New York: McGraw-Hill.

Stroebe, W. & Stroebe, M. (1995). Social Psychology and Health. Buckingham: Open University Press.

Desenvolvimento da personalidade e construção da carreira

Psicologia do trabalhoPode dizer-se que a carreira é o percurso profissional que o indivíduo vai construindo ao longo da vida. Mas como é que temos consciência desse percurso? Como nos desenvolvemos de modo a fazer escolhas e a tomar decisões? Porque é que muitas vezes a profissão que desejávamos em crianças não é aquela que escolhemos em adultos?

Eric Erickson, psiquiatra e psicanalista alemão nascido no início do século XX e seguidor da teoria Freudiana por influência do seu contacto com Anna Freud, foi o responsável pela elaboração da Teoria Psicossocial do Desenvolvimento da Personalidade que é constituída por oito fases ou estádios. Estas fases caracterizam-se por crises que constituem o ponto de viragem entre cada uma delas e que, se por um lado podem aumentar a vulnerabilidade do indivíduo, por outro lado, podem também aumentar o seu potencial e dar origem a uma força básica que vai permitir a evolução para a fase seguinte.

Trabalho e carreiraDas oito fases descritas por Eric Erickson, a primeira tem início no nascimento e vai até cerca dos 12-18 meses. Corresponde a uma dualidade entre confiança  vs desconfiança, isto é, a criança adquire ou não confiança em relação a si mesma e ao meio ambiente, com base no seu relacionamento com a mãe ou com a figura de vinculação que a possa substituir. A segunda fase, caracterizada por autonomia vs vergonha, vai até cerca dos 3 anos e é uma luta entre a vontade própria e as regras sociais. A criança explora o seu próprio corpo e o mundo que a rodeia de uma forma autónoma, o que a pode conduzir a um sentimento de vergonha, ou pelo contrário, ir adquirindo autonomia. Entre os 3 e os 6 anos, situa-se a terceira fase, que segundo o mesmo autor se caracteriza pelo binómio iniciativa vs culpa. É como que um prolongamento da fase anterior mas com a diferença que agora a criança já sabe distinguir o que deve ou não deve fazer, e as suas iniciativas podem por vezes conduzi-la à culpa. A quarta fase decorre desde o início da idade escolar até à adolescência e tem como palavras-chave indústria vs inferioridade. A criança sabe que já é capaz de fazer e de agir, ao mesmo tempo que, se tiver havido uma falha nas fases anteriores no que diz respeito à confiança, autonomia e iniciativa, a criança pode sentir-se inferior e insegura.

Carreira e trabalhoA adolescência, período compreendido entre os 12 e aproximadamente os 20 anos, corresponde à quinta fase do desenvolvimento, caracterizada por identidade vs confusão da identidade. Aqui o jovem adquire uma identidade psicológica e social e toma consciência da sua singularidade. Segundo Erickson, a busca da identidade é o foco central desta fase. Assim, os jovens devem afirmar e organizar as suas capacidades, interesses e vontades, manifestando-as socialmente. A falta de apoio ou perda de laços sociais e afetivos, podem conduzir à confusão da identidade. A sexta fase do desenvolvimento da personalidade situa-se entre os 20 e os 35 anos aproximadamente e traduz-se por intimidade vs isolamento, pois é no decorrer desta fase que o indivíduo procura estabelecer relações afetivas duráveis e, a não concretização destas relações de intimidade pode levar ao isolamento. Dos 35 aos 60 anos ocorre a sétima fase, caracterizada por generatividade vs estagnação. É uma fase de afirmação pessoal em termos familiares, sociais e profissionais. A não realização em qualquer um destes campos pode conduzir o sujeito à estagnação, o que leva a que este se ocupe apenas de si próprio, revelando uma atitude egoísta em relação às gerações seguintes. A oitava e última fase corresponde à fase da integridade vs desespero e ocorre a partir dos 60 anos. Assinala um balanço do percurso de vida, que tanto pode ser positivo, se o indivíduo se sentir realizado e preenchido – integridade, ou pelo contrário, negativo, no caso deste sentir que fracassou nos aspetos sociais, físicos ou mesmo cognitivos – desespero.

Psicologia das organizaçõesParalelamente ao desenvolvimento da personalidade, dá-se também no indivíduo o desenvolvimento em termos de carreira. Uma das personalidades que mais terá contribuído para a teoria do desenvolvimento de carreira foi Donald Super, através da ênfase que dá à importância do autoconceito. Segundo o seu modelo, o autoconceito (modo como a pessoa se vê a si própria) varia ao longo da vida e desenvolve-se como resultado da experiência do indivíduo. Este modelo, representado em forma de arco íris, é constituído por uma dimensão latitudinal, que engloba os vários papéis que o indivíduo desempenha e uma dimensão longitudinal que se caracteriza pela sequência pela qual esses papéis se vão desenvolvendo, desde a infância até à velhice. Também aqui o indivíduo passa por sucessivas fases, cada uma com as suas particularidades em que se depara com tarefas de desenvolvimento. Estas fases são o crescimento que vai desde o nascimento até cerca dos 14 anos, seguida da fase da exploração que ocorre entre os 15 e os 24 anos, onde o jovem explora o sistema escolar e o tipo de profissão que gostaria de vir a ter e faz a sua escolha. Já na idade adulta, entre os 25 e os 44 anos o indivíduo chega à fase do estabelecimento, marcada pelo início da atividade profissional. Procura estabilidade e segurança de modo a estabelecer o seu próprio estilo de vida como reflexo da sua autonomia financeira. Segue-se a fase de manutenção, entre os 45 e os 64 anos e que compreende conceitos como, manter, atualizar e inovar cuja intenção é a de manter o nível de vida, atualizar-se em relação às novas tecnologias e marcar a diferença profissionalmente sendo inovador e criativo. A última fase é a do declínio, depois dos 65 anos e que se caracteriza essencialmente pela preparação para a reforma.

Psicologia do trabalhoA carreira faz parte da história de vida e o planeamento da carreira começa muitas vezes ainda em criança quando por observação de modelos ou por influência direta dos mesmos, nos posicionamos de acordo com um determinado objetivo. Uma carreira profissional, é algo em que, à partida, vamos ocupar o nosso tempo durante muitos anos, é o que nos vai preencher os dias e é também o que nos vai dar a possibilidade de atingir um determinado estatuto socioeconómico. O planeamento do nosso futuro profissional exige algum cuidado e atenção e na minha opinião exige ainda, em muitos casos uma orientação vocacional na medida em que as escolhas começam a ser feitas muito cedo, na adolescência, que é uma fase em que a maioria dos jovens têm muito poucas certezas. Crescemos com sonhos, com objetivos e por muitas voltas que a vida nos faça dar, se formos determinados e persistentes mais cedo ou mais tarde faremos esforços para os concretizar. O importante é que possamos ir somando sucessos, numa carreira bem construída e na certeza de que se fizermos o que gostamos a nossa vida será muito mais feliz.

Psicologia do trabalho

Fontes:

Erikson, E. H. (1980). Identity and the life cycle. New York: Norton & Company.

Sacino, M. (2005) Listen to My Story! Identifying Patterns and Purpose in Career Counseling.

Super, D. E. (1990). The life span, life space approach to career development. Em D. Brown & L. Brooks (Orgs.), Career Choice and Development (2ª ed., pp.197-261): San Francisco: Jossey-Bass.