A experiência de um diagnóstico de cancro representa, frequentemente, uma das vivências mais desafiantes do ponto de vista emocional, físico e relacional. Para além das implicações médicas e do impacto associado aos tratamentos, existem dimensões da vida que tendem a ser menos faladas, mas que assumem um papel importante na qualidade de vida e no bem-estar psicológico da pessoa. A sexualidade é uma dessas dimensões.
Apesar de muitas vezes permanecer envolta em silêncio, a sexualidade continua a fazer parte da identidade, da intimidade e da forma como cada pessoa se relaciona consigo própria e com o outro, mesmo após a doença oncológica. Contudo, é frequente que o cancro e os respetivos tratamentos provoquem alterações físicas, emocionais e relacionais que influenciam significativamente a vivência da intimidade e do desejo sexual (World Health Organization [WHO], 2006; National Cancer Institute [NCI], 2023).

Dependendo do tipo de cancro, da localização da doença e das intervenções realizadas — como cirurgia, quimioterapia, radioterapia, hormonoterapia ou terapêuticas-alvo — podem surgir mudanças no funcionamento sexual e na perceção corporal. Entre as dificuldades mais frequentemente descritas encontram-se a fadiga persistente, alterações hormonais, dor, secura vaginal, dificuldades de ereção, diminuição do desejo sexual, alterações na fertilidade e maior desconforto físico durante a intimidade (American Cancer Society [ACS], 2020). Paralelamente, as alterações da imagem corporal, como cicatrizes, perda de cabelo, alterações de peso ou mudanças associadas a mastectomias e ostomias, podem interferir profundamente na autoestima e na forma como a pessoa se sente desejável ou confortável com o próprio corpo (Gilbert et al., 2010).

Do ponto de vista psicológico, é também comum que surjam emoções como ansiedade, tristeza, medo, vergonha ou insegurança relativamente à intimidade. Algumas pessoas referem sentir dificuldade em reconhecer o próprio corpo após a doença, enquanto outras experienciam receio de rejeição, evitamento da proximidade física ou sentimentos de culpa perante o parceiro. Em determinados casos, o foco prolongado na sobrevivência e na recuperação física conduz a uma espécie de “suspensão” da vida afetiva e sexual, sendo necessária uma readaptação gradual a esta dimensão após o término dos tratamentos (Gilbert et al., 2010).

Importa sublinhar que a sexualidade não se reduz exclusivamente ao ato sexual. Inclui igualmente proximidade emocional, toque, afeto, comunicação, ternura, prazer, identidade e ligação relacional (WHO, 2006). Assim, a reconstrução da intimidade após o cancro pode assumir formas diferentes e necessitar de tempo, flexibilidade e ajustamento mútuo. Não existe uma “forma correta” de retomar a sexualidade, nem um prazo universal para que isso aconteça.

A comunicação no casal desempenha, frequentemente, um papel central neste processo. Muitos casais evitam abordar estas dificuldades por receio de magoar o outro, aumentar o desconforto emocional ou gerar pressão adicional. No entanto, o silêncio tende a aumentar sentimentos de distância, incompreensão ou solidão emocional. Falar abertamente sobre medos, expectativas, limitações e necessidades pode contribuir para uma maior proximidade emocional e para a adaptação gradual a uma nova vivência da intimidade (Flynn et al., 2012).

Também é importante reconhecer que algumas dificuldades sexuais podem beneficiar de acompanhamento especializado. A intervenção psicológica pode ajudar na gestão emocional associada às alterações corporais, na reconstrução da autoestima, na adaptação à doença e no trabalho sobre crenças relacionadas com atratividade, feminilidade, masculinidade ou desempenho sexual. Em alguns casos, poderá ainda ser relevante a articulação com profissionais de saúde especializados em sexologia clínica, ginecologia, urologia ou fisioterapia pélvica (NCI, 2023).

A evidência científica sugere que a qualidade da vida sexual após o cancro está frequentemente associada não apenas às sequelas físicas da doença, mas também à forma como a pessoa consegue integrar emocionalmente a experiência vivida, reconstruir a relação com o corpo e restabelecer sentimentos de segurança e conexão relacional (Flynn et al., 2012; Gilbert et al., 2010). Neste sentido, olhar para a sexualidade como parte integrante da recuperação e do bem-estar global constitui uma abordagem mais humana, completa e centrada na pessoa.

Falar sobre sexualidade depois do cancro não significa desvalorizar a gravidade da doença, mas sim reconhecer que sobreviver implica também poder continuar a viver com qualidade, dignidade, intimidade e ligação emocional.
Referências bibliográficas
American Cancer Society. (2020). Sex and the adult cancer patient. American Cancer Society. https://www.cancer.org/
Flynn, K. E., Reese, J. B., Jeffery, D. D., Abernethy, A. P., Lin, L., Shelby, R. A., & Weinfurt, K. P. (2012). Patient experiences with communication about sex during and after treatment for cancer. Psycho-Oncology, 21(6), 594–601. https://doi.org/10.1002/pon.1947
Gilbert, E., Ussher, J. M., & Perz, J. (2010). Sexuality after breast cancer: A review. Maturitas, 66(4), 397–407. https://doi.org/10.1016/j.maturitas.2010.03.027
National Cancer Institute. (2023). Sexuality and cancer. U.S. Department of Health and Human Services. https://www.cancer.gov/
World Health Organization. (2006). Defining sexual health: Report of a technical consultation on sexual health. World Health Organization. https://www.who.int/