As minhas crianças estão muito preocupadas com o Covid-19!

De há um tempo a esta parte fui recebendo mensagens de pais que me questionavam sobre se seria normal a preocupação excessiva que algumas das suas crianças manifestavam acerca do Coronavírus. De facto o assunto tornou-se uma preocupação generalizada e os números de infetados, quer a nível nacional como internacional são muito significativos, tendo conduzido a esta situação de pandemia que hoje vivemos.

Algumas crianças mais ansiosas, começaram a preocupar-se com o novo vírus logo que se começou a falar dele. Outras, foram aos poucos dando atenção ao assunto e, principalmente após a adoção de medidas mais extremas como o fecho das escolas e as recomendações de isolamento social, entre outras, foram ficando “contaminadas” de medos e dúvidas, para algumas delas muito perturbadoras. Como tal, deixo aqui algumas dicas de como agir com a sua criança neste momento de inquietação tão novo para todos nós.

Não deixe de falar com a sua criança sobre este tema, começando por questionar a criança acerca do que ela já sabe ou de como pensa sobre o assunto. Ouça a sua criança com atenção e deste modo irá permitir que a criança se exprima, que fale sobre o que receia mas acima de tudo poderá corrigir alguma informação errada à qual a criança tenha tido acesso. Ensine à criança como se transmite o vírus e como se pode proteger, falando sempre com verdade e adequando a sua linguagem à idade da criança e à sua capacidade de entendimento. Use um tom de voz tranquilo pois informação e serenidade são recomendáveis em momentos como este.

Ensine também à sua criança que os afetos podem estar presentes fora dos abraços e dos beijinhos e que em alguns casos, o facto de não dar abraços nem beijinhos pode ser a melhor prova de amor (ex. manter a distância dos mais velhos). Podem telefonar, enviar vídeos, escrever cartas, fazer desenhos e enviar por email, enfim, nos dias de hoje as tecnologias permitem um sem número de hipóteses de contacto sem proximidade física, nas quais podemos manifestar o nosso amor e o nosso cuidado com os outros.

Faça por proteger a sua criança do excesso de informação. Por muito que nos queiramos manter atualizados, devemos poupar as nossas crianças a noticiários e reportagens mais agressivas e por vezes especulativas e muito enfáticas, com um grau de potencial ansiogéneo enorme. Falar sobre o assunto sim mas colocar o Coronavírus dentro de todas as conversas ao longo do dia, não! Em especial à noite, na hora de dormir, tente manter as rotinas possíveis e procure tranquilizar a criança com um momento positivo, como contar uma história, por exemplo.

Aproveite as “histórias felizes” relacionadas com o tema Covid-19 para tranquilizar a sua criança e mostrar-lhe bons exemplos. Relatos de cura bem como de manifestações de generosidade e solidariedade podem ser excelentes exemplos para as crianças. Saber que alguém que esteve infetado já está curado pode ser bastante tranquilizador para uma criança com muito medo da morte. Também o exemplo de alguns profissionais de saúde que se disponibilizam para esclarecer e acompanhar alguns de nós mais preocupados, pode funcionar para sossegar as crianças mais ansiosas.

Por fim, nunca é demais lembrar que aos sinais de febre, tosse, fadiga generalizada, dores musculares, dores de cabeça ou dificuldades respiratórias, a indicação é que deverá ligar para a linha do SNS 24 – 808 24 24 24. Não corra com o seu filho para as urgências do hospital ou do centro de saúde e tente manter a calma, pois só assim conseguirá manter calma a sua criança.

Solidão na velhice: compreensão, prevenção e intervenção

RnvelhecerO processo de envelhecimento pressupõe inevitavelmente uma degradação progressiva e diferencial do indivíduo. É um processo que ocorre e se manifesta a vários níveis, pois a velhice associa-se a um conjunto de alterações biológicas, psicológicas, funcionais e sociais que variam de indivíduo para indivíduo.

Não sendo a idade um fator determinante, constitui-se como mais uma variável a levar em consideração no processo de envelhecimento. A par com o passar do tempo, destacam-se também as características individuais como a personalidade, a história e os hábitos de vida do sujeito. Uma pessoa mais ativa será tendencialmente mais funcional, até mais tarde na vida, em suma, terá uma melhor qualidade de vida e autonomia. O envelhecimento ativo é visto como um meio que procura otimizar as oportunidades para a saúde e manter a participação e a segurança, no sentido de aumentar a qualidade de vida ao longo do envelhecimento. Continue reading “Solidão na velhice: compreensão, prevenção e intervenção”

OncoSexologia

OncoSexologiaDecorreu nos passados dias 3 e 4 do corrente, no Instituto Português de Oncologia Francisco Gentil em Lisboa )IPO), o Congresso Nacional de OncoSexologia, cujo foco incidiu sobre o impacto do cancro na sexualidade.

O referido evento contou com a participação de palestrantes e formadores com “cartas dadas” na área da oncologia em Portugal, nomeadamente em urologia, ginecologia, endocrinologia, cirurgia plástica e reconstrutiva, enfermagem, psiquiatria e psicologia, entre outros. Participaram também outros oradores representantes de áreas distintas como a representação ou o jornalismo, com intervenções igualmente relevantes. Este congresso com caráter formativo abordou numa área tão específica como importante para o bem-estar e qualidade de vida dos indivíduos. Aberto à comunidade médica mas também a outros técnicos de saúde, nomeadamente enfermeiros e psicólogos, este foi um momento de formação, informação, sensibilização, reflexão e partilha. O curso abarcou temas como a sexualidade humana no Século XXI – do normal ao disfuncional; o sexo, a sexologia e a comunicação; a sexualidade na perspetiva do envelhecimento e da sobrevivência; inovação e reabilitação em OncoSexologia e ainda os workshops sobre treino de comunicação em OncoSexologia e os problemas sexuais no homem e na mulher com cancro. Continue reading “OncoSexologia”

Perturbações mentais comuns: o perigo da banalização

Ansiedade

Quando falamos de Perturbações Mentais Comuns referimo-nos a duas categorias principais de diagnóstico: as perturbações de Ansiedade e as perturbações Depressivas. Designá-las como comuns prende-se com o facto de serem as perturbações do foro mental com maior expressividade na população em geral. A sua elevada prevalência apresenta um grande impacto no funcionamento dos indivíduos por elas afetados, sendo que a gravidade e duração dos sintomas é variável, indo de ligeiros a graves e de se manterem por meses ou anos, podendo em muitos casos atingir a cronicidade.

Quer as perturbações depressivas, quer as perturbações de ansiedade representam condições de saúde diagnosticáveis e diferenciam-se dos sentimentos de tristeza, tensão ou medo que qualquer pessoa pode experimentar de forma normativa, algumas vezes ao longo da vida. Destes dois tipos de perturbação, a depressão parece ser por muitos a mais temida e incapacitante ao nível da funcionalidade do indivíduo, estimando-se uma prevalência de mais de 4% ao nível da população mundial e de cerca de 8% na população portuguesa em 2014. No entanto, as perturbações de ansiedade apresentam uma maior prevalência a nível nacional (cerca de 17% em 2014). Voltando às perturbações depressivas, embora estas possam afetar indivíduos de todas as faixas etárias e de vários níveis socioeconómicos, a pobreza, o isolamento, o desemprego, uma situação de doença física, uma separação ou a morte de um ente querido, são exemplos de fatores de risco para a depressão.
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Psicólogos clínicos no SNS: Precisam-se!

Psicologia no SNSNos cuidados de saúde primários, a intervenção em psicologia clínica consiste na prestação de serviços psicológicos aos indivíduos, ás famílias e à comunidade, fazendo a integração da promoção da saúde e da prevenção da doença, assim como o apoio assistencial.

A intervenção do psicólogo clínico em contexto de cuidados de saúde primários implica a adoção de um paradigma holista no entendimento da pessoa bem como dos processos de saúde e/ou doença. Pressupõe também a integração numa equipa multidisciplinar, no sentido de poder fazer um trabalho responsável, integrativo e colaborativo, entre o utente, a família e a comunidade, e os restantes profissionais dos cuidados de saúde primários, em articulação com os cuidados de saúde especializados, se necessário. Compreender o indivíduo e o seu contexto, requer a aplicação de um modelo multidimensional, centrado no indivíduo e nas suas particularidades que vise essencialmente a promoção da sua autonomia e do seu bem-estar, não só psicológico mas consequentemente físico e relacional. Continue reading “Psicólogos clínicos no SNS: Precisam-se!”

Burnout e férias de verão

EsgotamentoVerão! Sinónimo de férias escolares para uns e de férias profissionais para muitos outros.  O tão desejado período de descanso e lazer, de convívio, de festa, praia, campo ou tudo aquilo que no dia-a-dia, a azáfama não permite fazer.

As férias são uma necessidade do ser humano. Perante o desgaste físico e psicológico decorrente de um quotidiano rotineiro e por vezes com excesso de solicitações, torna-se fundamental o repouso, para o restabelecimento do corpo e da mente. A falta de descanso pode conduzir os indivíduos a situações de esgotamento físico e psicológico – o Burnout. O Burnout resulta do stresse crónico mal gerido associado principalmente ao trabalho. É caracterizado por uma enorme falta de energia ou exaustão, distanciamento mental face à atividade profissional, sentimentos negativos e perda de eficiência relativamente ao próprio trabalho. Um inquérito da DECO PROTESTE (2018) apontou para a existência de cerca de 30% de pessoas em situação de Burnout em Portugal, ou seja, uma percentagem bastante expressiva. Continue reading “Burnout e férias de verão”

Psicossomática: afinal estou doente de quê?

SomatizaçãoA somatização caracteriza-se pela apresentação de sintomas físicos em indivíduos, sem causa orgânica óbvia. É uma problemática que está associada a uma incapacidade funcional e a um grande recurso aos cuidados de saúde.

A presença persistente de sintomatologia física sem explicação médica constitui-se como um enorme desafio quer para médicos, quer para psicólogos. Estes sintomas apresentam-se num continuum e podem ir de ligeiros e transitórios a intensos, constantes e severos. Os sintomas físicos mais comuns na somatização são a fadiga, as dores de cabeça, as dores nas costas, a insónia, as dores de barriga, as tonturas, o aumento dos batimentos cardíacos ou a falta de ar. O doente psicossomático tende a procurar sistematicamente uma causa orgânica para as suas queixas e por isso recorre frequentemente aos cuidados de saúde, no sentido de pedir ao médico a prescrição de exames auxiliares de diagnóstico ou medicamentos para o alívio dos sintomas, de uma doença que não tem. Nesta procura excessiva pelos cuidados de saúde, a relação com o médico pode ficar afetada se este não entender o problema do paciente, ou seja, se não levar em consideração os fatores psicossociais que o envolvem. Além do mais, a banalização da toma de medicação para alívio da referida sintomatologia pode conduzir a uma dependência que não é de todo recomendada.

PsicossomáticaOs resultados apresentados pela investigação sobre esta matéria sugerem uma prevalência de doentes psicossomáticos na ordem dos 20% a 50%, no entanto, nem todos os indivíduos que apresentam sintomatologia física sem explicação médica, preenchem todos os critérios de referenciação para os cuidados de saúde mental. É de salientar que muito frequentemente, a apresentação deste tipo de sintomatologia está associado a casos de ansiedade e/ou depressão, sendo que a intervenção psicológica poderá trazer um enorme benefício para estes indivíduos. Porém, muitas vezes, estes pacientes recusam a necessidade de apoio psicológico mesmo quando é sugerida pelo médico, dando preferência a uma intervenção médica sobre os sintomas. O estigma ainda presente em muitos grupos sociais, pode ajudar a explicar essa dificuldade em aderir ao acompanhamento psicológico, mesmo que indiretamente, possam demonstrar o desejo de apoio emocional.

PsicossomáticaPodem-se referir como determinantes da sintomatologia psicossomática o stresse e a ansiedade, sendo que estes provocam um aumento da atividade cerebral e a produção de cortisol e adrenalina. Estas hormonas podem afetar outros órgãos do corpo como o estômago, os intestinos, o coração ou a pele.  O stresse profissional, os traumas por acontecimentos de vida significativos, a dificuldade em expressar as emoções ou um elevado grau de perfeccionismo, constituem-se como algumas das causas possíveis para o desenvolvimento desta patologia. As perturbações psicossomáticas, ou seja, com causa emocional, não tratadas, podem conduzir elas próprias ao aparecimento de doenças como por exemplo a gastrite ou a hipertensão arterial. Em casos mais graves, a sintomatologia mais intensa poderá mesmo confundir-se com situações graves como o enfarte do miocárdio ou o acidente vascular cerebral, como é o caso dos ataques de pânico, em que o indivíduo experimenta sensações tão desagradáveis que o podem fazer pensar que vai morrer.

SomatizaçãoEm termos de tratamento, o doente psicossomático poderá como já foi referido, beneficiar de acompanhamento psicológico, uma vez que este pode ajudar o indivíduo a identificar o motivo do seu stresse e da sua ansiedade e, deste modo, aprender a lidar com a situação e conseguir treinar estratégias promotoras da redução da ansiedade e do aumento do bem-estar. Alguns casos poderão beneficiar de um tratamento misto, ou seja, intervenção psicológica combinada com medicação. Esta é habitualmente feita através de analgésicos ou anti-inflamatórios, para alívio dos sintomas, mas também ansiolíticos e antidepressivos. A psicossomática coloca a doença numa dimensão psicológica abrangente e integral, proporcionando uma abordagem onde a relação entre médico, paciente e psicólogo se constituem como um recurso muito relevante para que o indivíduo seja olhado como um todo, e não penas com vista ao tratamento dos sintomas. Assim, qualquer doença pode ser alvo de uma abordagem como se de psicossomática se tratasse, pois o que precisa de tratamento não é apenas a doença mas sim o doente.

 

PsicossomáticaPense que pode ter na Sua Psicóloga uma aliada importante para o ajudar a lidar com os seus problemas. Procure apoio!

Sugestão:

https://rfs.emnuvens.com.br/rfs/article/view/14/12

http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-37722016000300245&script=sci_arttext&tlng=pt