Síndrome das pernas inquietas

O quadro das perturbações do sono-vigília é consideravelmente variado, englobando entre outras, a perturbação de insónia, a narcolepsia, as perturbações do sono relacionadas com a respiração, a perturbação de pesadelos e a síndrome das pernas inquietas. Embora muitas pessoas refiram ter dificuldades de sono, muitas vezes identificar o tipo de perturbação, as causas e as suas consequências, nem sempre é fácil.

Uma das perturbações do sono que desperta maior curiosidade, até porque não será a mais comum, é a síndrome das pernas inquietas. É uma perturbação neurológica sensoriomotora do sono e que se caracteriza por um intenso desejo de mover as pernas (ou os braços) associado a sensações desconfortáveis tipicamente descritas como formigueiro, latejar, rastejar ou sensação de queimadura. O diagnóstico desta perturbação tem por base inicial o relato do doente e a sua história clínica. Os sintomas tornam-se mais intensos quando o indivíduo está em repouso, sendo que os movimentos frequentes das pernas derivam de um esforço do mesmo para aliviar o desconforto que sente. Estes sintomas são frequentemente mais intensos ao final do dia e à noite. Este desconforto nas pernas deve ser diferenciado de cãibras ou de outro desconforto decorrente de mal posicionamento.

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Perturbação de movimentos estereotipados

A perturbação de movimentos estereotipados caracteriza-se por comportamentos motores repetitivos, não atribuíveis a efeitos fisiológicos de uma substância ou condição neurológica, aparentemente dirigidos sem propósito, que interferem com as atividades sociais, académicas ou outras, e que pode resultar em lesões do próprio indivíduo.

A perturbação de movimentos estereotipados pode incluir comportamentos como sacudir ou agitar as mãos, balançar o corpo, bater com a cabeça, bater a si próprio ou até mesmo morder-se, podendo resultar ou não em comportamentos autolesivos, consoante a gravidade do caso. Consideram-se autolesivos todos os comportamentos que podem resultar em lesões se não forem tomadas medidas preventivas. Deverá especificar-se se estes comportamentos estão associados a alguma condição médica ou genética conhecida, perturbação do neurodesenvolvimento ou fator ambiental (ex. exposição intrauterina ao álcool). A gravidade desta perturbação pode ser ligeira, se os sintomas são facilmente suprimidos por distração ou estímulos sensoriais, ou moderada, se os sintomas requerem medidas protetoras e modificação explícita do comportamento.

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A depressão não tem que ser um “bicho papão”

Falar de depressão é falar de um assunto muito sério, muito perturbador, muito prevalente e muito dispendioso. Sério porque é uma doença. Perturbador porque a depressão pode ser muito incapacitante ou por outro lado, pode ser “disfarçada” sendo por vezes incompreendida e desvalorizada. Prevalente porque os números da OMS não deixam dúvidas (a nível global, estima-se que cerca de 300 milhões, ou seja, 4,4% da população mundial sofra de depressão) e dispendiosa porque para além de poder levar a uma situação de incapacidade para o trabalho e consequente quebra do rendimento, pode exigir também uma quantidade de recursos técnicos e farmacológicos, difíceis incluir em alguns orçamentos familiares.

A maioria das pessoas já teve um ou mais episódios depressivos. Estes caracterizam-se pela perda temporária da disposição, quebra do humor, alterações do apetite, dificuldades de sono, dificuldade em executar tarefas quotidianas, dificuldade de atenção ou concentração, perturbações da memória, menor interesse em atividades anteriormente prazerosas, diminuição da líbido, entre outros sintomas. Estes podem permanecer por um período de tempo mais ou menos durador e ter uma intensidade que pode ir de ligeira a grave. Quando os episódios depressivos se tornam intensos e frequentes e não isolados, então podemos estar perante uma perturbação depressiva, ou seja, uma depressão.

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O luto normal

O luto é a reação emocional a uma perda e o processo de adaptação a essa perda implica algumas emoções, cognições e comportamentos comuns à maioria dos seres humanos. Sentimentos de tristeza, descrença no sucedido ou o isolamento social, são exemplos de reações padrão da pessoa enlutada.

São várias as emoções normativas presentes num processo de luto, sendo as mais comuns a tristeza, com ou sem manifestações de choro; a raiva, por não ter podido fazer nada para evitar a perda; a culpa, na maioria das vezes irracional por não ter conseguido evitar a morte do ente querido; a ansiedade por ter medo de não conseguir sobreviver sem a pessoa que morreu ou pela tomada de consciência da sua própria finitude ao confrontar-se com a “partida” de alguém próximo; a solidão e o desamparo, principalmente em casos de viuvez após uma relação muito duradoura e feliz; a fadiga, especialmente se o período antecedente à morte de uma pessoa foi física e emocionalmente muito exigente para o enlutado; o alívio ou libertação, por ver terminar um sofrimento muito doloroso de alguém significativo e a saudade, esse termo tão português e que significa sentir dolorosamente a falta de algo ou de alguém que se perdeu.

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Adolescência e suicídio

Parece haver evidência científica de que o suicídio na adolescência tem vindo a aumentar nos últimos anos, sendo esta a segunda causa de morte entre os jovens nos países ocidentais a seguir aos acidentes rodoviários. Quer o acto suicida, quer a ideação suicida, são sinais de psicopatologia grave e não devem ser desvalorizados.

Os pensamentos de morte constituem-se como um fator de risco para o suicídio, no entanto, nem sempre existe ideação suicida anterior ao acto de suicídio. O suicídio pode ocorrer num ato impulsivo sem que tenha havido um planeamento anterior. Por outro lado, os comportamentos de risco como por exemplo o conduzir embriagado, podem estar associados á ideação suicida. A dolorosa luta interna entre a vontade de morrer e o desejo de permanecer vivo causa um imenso sofrimento psicológico ao individuo, que num impulso poderá deitar tudo a perder. As tentativas de suicídio na adolescência têm maior prevalência em jovens entre os 14 e os 17 anos (Novick, Cibula & Sutphen, 2003) e os rapazes parecem ser os mais vulneráveis. Felizmente, em cada 10 a 20 tentativas de suicídio, apenas uma acaba em morte, no entanto, os danos que causam no jovem e na sua família, podem ser muito perturbadores.

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Delírios, alucinações e outras perturbações

PsicoseAs perturbações do espectro da esquizofrenia e outras perturbações psicóticas referem-se a anomalias em um ou mais domínios, como delírios, alucinações, pensamento desorganizado, comportamento motor anormal ou grosseiramente desorganizado e sintomas negativos.

Os delírios referem-se a crenças fixas que não mudam perante a evidência oposta, ou seja, a pessoa não consegue deixar de acreditar em algo mesmo que lhe seja apresentada evidência concreta do contrário. Por exemplo, o delírio persecutório que corresponde à crença do sujeito em que vai ser prejudicado, perseguido ou incomodado por uma determinada pessoa ou grupo, é um dos mais comuns. O delírio de grandiosidade refere-se a casos em que o sujeito acredita ter habilidades excecionais, fortuna ou fama. O delírio de referência prende-se com o facto de o indivíduo acreditar que determinados comentários, gestos ou estímulos do ambiente são dirigidos a si. Estes parecem ser os delírios mais comuns nas perturbações do espectro da esquizofrenia, no entanto há que referir ainda o delírio erotomaníaco que significa que a pessoa acredita falsamente que alguém está apaixonado por si, o delírio niilístico que corresponde à convicção de que vai ocorrer uma catástrofe e o delírio somático, que é focado em preocupação com a saúde e com as funções orgânicas. Continue a ler “Delírios, alucinações e outras perturbações”

Perturbação de Personalidade Paranoide (2)

Perturbação de Personalidade ParanoideA Personalidade Paranoide caracteriza-se por uma forte tendência do indivíduo para interpretar as intenções e ações dos outros como ameaçadoras, sendo difícil adotar outras explicações alternativas para os seus comportamentos. Assim, a suspeição e a insegurança generalizada em relação aos outros, são as características centrais que interferem no modo de pensar, sentir, e consequentemente de agir, dos sujeitos com Perturbação de Personalidade Paranoide.

Perceber a etiologia acerca do desenvolvimento de traços paranoides na personalidade é particularmente desafiador, tendo em conta a dificuldade em determinar a exatidão da informação relativa à sua história de vida. Ainda assim, são interessantes as hipóteses colocadas por alguns investigadores. Sugere-se que a postura associada aos traços de personalidade paranoide deverá ter sido adaptativa em algum momento no passado, numa situação verdadeiramente perigosa, em que as pessoas que rodeavam o individuo se mostravam claramente hostis, exploradoras e enganadoras. Talvez este tenha crescido numa família na qual aprendeu que a vigilância era absolutamente fulcral para sobreviver, que o mundo era um lugar perigoso e que as pessoas eram egoístas. Talvez ainda nas interações precoces com as figuras cuidadoras tenha aprendido que deveria ter cuidado para não cometer erros, era diferente dos outros ou precisaria de ser duro e defensivo para se proteger. Tais ideias poderão ter conduzido a uma elevada preocupação com a avaliação externa, bem como ao desenvolvimento de um sentimento de obrigação em relação às expectativas parentais. Consequentemente, poderá sentir-se não só humilhado, como passar muito tempo a pensar sobre o seu isolamento e maus tratos percebidos. Acaba por concluir que está a ser perseguido porque é alguém especial. Dados adicionais apontam também para a contribuição mútua e interativa do papel da genética. Continue a ler “Perturbação de Personalidade Paranoide (2)”

Perturbação de Personalidade Paranoide (1)

PersonalidadeA Personalidade Paranoide caracteriza-se por uma forte tendência do indivíduo para interpretar as intenções e ações dos outros como ameaçadoras, sendo difícil adotar outras explicações alternativas para os seus comportamentos. Assim, a suspeição e a insegurança generalizada em relação aos outros, são as características centrais que interferem no modo de pensar, sentir, e consequentemente de agir, dos sujeitos com Perturbação de Personalidade Paranoide.

O indivíduo com este tipo de perturbação apresenta 4 ou mais dos seguintes sinais: suspeitas infundadas de que outros o exploram, prejudicam ou enganam; atormenta-se com dúvidas injustificadas sobre a lealdade ou a confiança dos amigos ou colegas; dificilmente faz confidências por recear injustificadamente que as informações possam ser usadas contra si próprio; interpreta os comentários ou acontecimentos inofensivos dos outros como atitudes dissimuladas ou com significados ameaçadores á sua pessoa; mantém uma má vontade persistente, não perdoando insultos ou desfeitas; percebe ataques ao seu carácter ou reputação que não são aparentes aos outros, sendo rápido a reagir com raiva ou a vingar-se e desconfia injustificadamente e recorrentemente sobre a fidelidade do conjugue/companheiro.

Perturbação de personalidadeO indivíduo com Personalidade Paranoide sente-se constantemente vigilante. Dificilmente confia nos outros e questiona os motivos que levam os outros a aproximarem-se de si, podendo acreditar que as pessoas são maldosas e traiçoeiras, prontas para atacar se tiverem oportunidade, tendo a necessidade de estar sempre “alerta”. Espantam-se com demonstrações de lealdade por parte dos familiares, amigos e conhecidos. Estes indivíduos tendem a preocupar-se com dúvidas injustificadas quanto à lealdade e confiança nas outras pessoas, cujas ações são cuidadosamente averiguadas para desvendar intenções de hostilidade mesmo tratando-se de pessoas mais chegadas. À primeira vista esta desconfiança sentida pode confundir-se com a tendência ao isolamento. Ao sentir-se desconfortável com a proximidade, por recear que o envolvimento e abertura emocional das relações íntimas aumentem a sua vulnerabilidade, geralmente tende a ser reservado e defensivo ao interagir com os outros.

PsicopatologiaO indivíduo com este tipo de personalidade tenderá a estar constantemente disposto de forma defensiva ao contra-ataque, sendo dificilmente capaz de reconhecer alguma hostilidade ou agressividade no seu próprio comportamento. Perante pequenos deslizes e provavelmente reage muito intensamente ao sentir-se maltratado, atacado ou enganado. Se está constantemente vigilante para potenciais sinais de perigo, nomeadamente aqueles que se relacionam com as outras pessoas, age cautelosa e intencionalmente, evitando descuidos e riscos desnecessários. Para ele, mostrar qualquer fraqueza é como pedir para ser atacado. Sente a necessidade de esconder cuidadosamente as suas inseguranças, dificuldades e problemas por meio de enganos, negação, desculpas ou atribuindo a responsabilidade aos outros. Assim, tem dificuldade em falar da sua vida, raramente revela os seus problemas e nunca exprime os seus desejos mais íntimos. Privilegia o mundo cognitivo e intelectual em prejuízo do mundo das emoções. É um verdadeiro desafio reconhecer a presença de emoções e permitir a exploração das mesmas. Manifesta assim uma certa resistência em confidenciar ou se aproximar dos outros, porque teme que a informação partilhada possa ser usada em seu prejuízo. Deste modo, o estabelecimento de relações próximas ou de maior intimidade é algo particularmente difícil.

ParanoideMuito atento, terá a sensação de que a observação do exterior e a experiência subjetiva com as outras pessoas confirma solidamente as ideias em que acredita. Parece que mesmo quando as interações sociais são boas e acessíveis, quando as pessoas agem de forma bondosa e gentil, isso não é mais do que uma tentativa para o levar a confiar nelas, para depois ser atacado e explorado. Rejeitará as interpretações das ações dos outros que habitualmente seriam óbvias à maioria das pessoas, ao mesmo tempo que procurará o que é para si o verdadeiro significado subjacente a essas ações. Para si a verdade tem de ser reposta e a justiça tem de ser feita. Por um lado, é possível que se confundam as manifestações de traços evitantes e traços paranoides na personalidade. Certamente, em qualquer um dos casos, a pessoa tem medo de ser magoada e desconfia como consequência disso. Ainda assim, o medo é uma emoção reconhecida e consciente no primeiro caso e inconsciente no segundo. Face a uma ameaça, alguém tendencialmente mais evitante foge, enquanto alguém mais próximo de um quadro paranoide defende-se atacando.

ParanoideEm última análise, a pessoa com traços paranoides tendencialmente desconfia, suspeita, é sensível à crítica, argumenta e pode ser teimosa. Necessita de ser autossuficiente e independente, assim como exercer controlo sobre o ambiente. Retrata-se como alguém sensível, ciumento, que se ofende e se irrita com facilidade. Talvez se sinta ainda como “vítima da injustiça”, crente de que a sua perceção pessoal tem significado especial, levando sempre a sério tudo o que acontece e que é dito ou feito. A personalidade com traços paranoides encontra-se em cerca de 0,5 a 2,5 % da população em geral, sendo mais frequente nos homens do que nas mulheres. Há alguma evidência para um aumento da sua prevalência em familiares de pessoas com esquizofrenia crónica ou perturbação delirante.

 

 

Fonte: DSM-V – Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (Quinta edição) de American Pshychiatric Association.

Perturbações alimentares na infância

Alimentação das criançasNa primeira infância, as perturbações alimentares são situações clínicas relativamente comuns. No entanto, este tipo de problemas provoca aos pais e cuidadores uma grande preocupação, ao mesmo tempo que dificultam a sua relação com a criança.

As perturbações alimentares da primeira infância podem ser identificadas num contínuo, que vai desde as ligeiras flutuações do apetite devidas a causas menos relevantes, como por exemplo a reação à entrada para a cresce ou o nascimento de um irmão, até situações graves de recusa alimentar que podem colocar em risco a própria vida da criança. A estas perturbações alimentares pode estar associado o aparecimento de outros comportamentos fora do comum. Segundo do Manual de Diagnóstico das Perturbações Mentais (DSM-5), as perturbações alimentares definem-se como situações em que se observa uma alteração na ingestão de alimentos, quer em termos quantitativos, quer em termos qualitativos. São exemplos a ruminação ou mericismo (regurgitação repetida de alimentos), a pica (ingestão persistente de substâncias não alimentares), e a perturbação alimentar da primeira infância, que corresponde a uma falha persistente de ingestão adequada de alimentos, com acentuada falta de aumento ou mesmo perda de peso, sem causa orgânica conhecida e com a duração de mais de um mês. Continue a ler “Perturbações alimentares na infância”

Burnout e férias de verão

EsgotamentoVerão! Sinónimo de férias escolares para uns e de férias profissionais para muitos outros.  O tão desejado período de descanso e lazer, de convívio, de festa, praia, campo ou tudo aquilo que no dia-a-dia, a azáfama não permite fazer.

As férias são uma necessidade do ser humano. Perante o desgaste físico e psicológico decorrente de um quotidiano rotineiro e por vezes com excesso de solicitações, torna-se fundamental o repouso, para o restabelecimento do corpo e da mente. A falta de descanso pode conduzir os indivíduos a situações de esgotamento físico e psicológico – o Burnout. O Burnout resulta do stresse crónico mal gerido associado principalmente ao trabalho. É caracterizado por uma enorme falta de energia ou exaustão, distanciamento mental face à atividade profissional, sentimentos negativos e perda de eficiência relativamente ao próprio trabalho. Um inquérito da DECO PROTESTE (2018) apontou para a existência de cerca de 30% de pessoas em situação de Burnout em Portugal, ou seja, uma percentagem bastante expressiva. Continue a ler “Burnout e férias de verão”