Controlar a ansiedade

A ansiedade é uma reação natural do nosso corpo que faz parte do desenvolvimento humano. É uma expectativa apreensiva relacionada com as mudanças (naturais e/ou imprevistas) que o indivíduo experiencia no seu quotidiano e nos diversos contextos em que se movimenta.

A ansiedade manifesta-se de diferentes formas, sendo o nosso corpo o primeiro a reagir e a dar os primeiros sinais. Sintomas como aceleração dos batimentos cardíacos, rubor, tremores, dor de cabeça, dificuldade em respirar, tensão muscular, tonturas, aperto no peito ou dificuldade em se concentrar, são sinais de alerta que não devem ser ignorados. A ansiedade pode também manifestar-se por pensamentos derrotistas e ruminantes, sensação de que algo de mal nos vai acontecer, irritabilidade, dificuldade em adormecer e/ou manter o sono, entre outros sintomas que podem variar de pessoa para pessoa. Uma perturbação de ansiedade pode mesmo conduzir o indivíduo a sentimentos de medo irracional, vergonha isolamento social, tristeza, desespero, insegurança, angústia constante, sentimentos de frustração, falta de sentido de humor ou ressentimento.

Todos nós, em vários momentos das nossas vidas já vivenciamos situações em que os níveis de ansiedade subiram mais do que o desejável, tendo em alguns casos até escalado para um ataque de pânico. Para evitar essa escalada e as respetivas consequências, há que saber identificar os sinais do nosso corpo e agir, utilizando estratégias de coping. Chama-se coping aos esforços cognitivos e comportamentais adaptativos que utilizamos face a uma determinada situação de stresse, que ultrapassa as nossas capacidades e que constitui numa sobrecarga aos nossos recursos, perante uma ameaça ao nosso bem-estar. Estas estratégias, por sua vez, podem ser orientadas para o problema ou para a emoção. As primeiras visam atuar sobre o fator de stresse, procurando alterar a situação ou o problema que está a provocar desajustamentos (ex. agir sobre a origem da situação, procurar formas para resolver o problema). As segundas estratégias são direcionadas à resposta emocional ao evento stressante, adequando essa resposta quando não é possível controlar ou modificar a situação. São estratégias que procuram regular as emoções desajustadas, associadas ou resultantes de acontecimentos geradores de tensão (ex. choro, autocensura, evitamento, recusa, agitação ou fuga).

De entre as estratégias focadas no problema, destacam-se a procura de informação (serviços, apoios…), a definição de objetivos concretos e reais de resolução do problemas e a identificação das respostas alternativas. No que diz respeito às estratégias focadas nas emoções, é de referir a procura de significados para o problema (no passado, ou antecedentes das ações stressantes), bem como a identificação das emoções e a aprendizagem e treino de mecanismos eficazes de regulação das mesmas (exercícios de relaxamento, treino cognitivo de técnicas como a paragem do pensamento, a racionalização, entre outras).

A ansiedade pode afetar transversalmente todos os indivíduos. Não escolhe género nem idade e pode ser um problema ligeiro, com o qual a pessoa consegue lidar facilmente, ou, pelo contrário, tornar-se numa perturbação grave que necessita de ajuda especializada. Mesmo os casos mais ligeiros, não devem ser desvalorizados, principalmente tratando-se de crianças ou jovens, uma vez que corre o risco de se agravar e de se tornar um problema crónico e perturbador da funcionalidade da criança ou do adolescente. Faça uma avaliação do seu estado de ansiedade e procure ajuda, se sentir que ela o está a perturbar e a diminuir a sua qualidade de vida.

A Sua Psicóloga, poderá ser uma boa aliada para o/a ajudar a controlar a sua ansiedade!

Luto normal e luto patológico

Ao longo do nosso curso de vida enfrentamos algumas inevitáveis perdas significativas. À nossa reação emocional a essas perdas, chamamos luto. O luto é um processo normal e necessário, porém, por vezes pode tornar-se patológico, podendo levar estados de doença, nomeadamente à depressão.

Perdemos amigos ou familiares, animais de estimação, a saúde, o emprego, enfim, as perdas podem ser de diversas naturezas. Perante uma situação de perda temos a necessidade de expressar os nossos sentimentos de tristeza e desânimo. O período no qual decorre este processo é variável e os sintomas apresentados por cada indivíduo também podem ser diversos. Tipicamente ocorrem sentimentos de apatia e abatimento, perda de interesse no mundo exterior e diminuição na atividade e iniciativa. Estas reações são semelhantes à depressão, mas são menos persistentes e não são consideradas patológicas (APA, 2010, p. 586). Apesar de o fenómeno do luto ser universal, o seu significado é multifacetado na experiência de vida humana, uma vez que existem grandes diferenças em relação á forma como cada indivíduo reage às suas perdas.

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Anorexia nervosa, uma doença silenciosa

Dentro do espectro das perturbações do comportamento alimentar, também descritas como perturbações da alimentação e da ingestão, podemos encontrar vários tipos, cada qual com as suas especificidades e critérios de diagnóstico. A anorexia nervosa é uma das perturbações mais conhecidas, a par da bulimia ou da perturbação de compulsão alimentar.

A anorexia nervosa é uma perturbação do foro mental e deve ser tratada como tal. O estigma associado (cada vez menos) à saúde mental, pode levar à falta de acompanhamento e a um atraso na avaliação e correto encaminhamento do caso. Em casos muito ligeiros, por vezes, a psicoterapia pode ser eficaz por si só, no entanto, muitas vezes é necessária uma intervenção multidisciplinar, que inclui pelo menos o médico psiquiatra, o psicólogo e o nutricionista. Habitualmente não é o doente que procura ajuda mas sim os seus familiares, após acentuada perda de peso. Quando é o próprio doente a procurar ajuda profissional, fá-lo frequentemente devido ao mal-estar que decorre das sequelas somáticas e fisiológicas do jejum. Raramente uma pessoa que sofre de anorexia nervosa se queixa do emagrecimento por si, uma vez que em regra, não tem consciência do problema ou nega-o. Por esta razão, a família pode constituir-se como uma importante fonte de informação na avaliação da história da perda de peso e das outras características da doença.

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Síndrome das pernas inquietas

O quadro das perturbações do sono-vigília é consideravelmente variado, englobando entre outras, a perturbação de insónia, a narcolepsia, as perturbações do sono relacionadas com a respiração, a perturbação de pesadelos e a síndrome das pernas inquietas. Embora muitas pessoas refiram ter dificuldades de sono, muitas vezes identificar o tipo de perturbação, as causas e as suas consequências, nem sempre é fácil.

Uma das perturbações do sono que desperta maior curiosidade, até porque não será a mais comum, é a síndrome das pernas inquietas. É uma perturbação neurológica sensoriomotora do sono e que se caracteriza por um intenso desejo de mover as pernas (ou os braços) associado a sensações desconfortáveis tipicamente descritas como formigueiro, latejar, rastejar ou sensação de queimadura. O diagnóstico desta perturbação tem por base inicial o relato do doente e a sua história clínica. Os sintomas tornam-se mais intensos quando o indivíduo está em repouso, sendo que os movimentos frequentes das pernas derivam de um esforço do mesmo para aliviar o desconforto que sente. Estes sintomas são frequentemente mais intensos ao final do dia e à noite. Este desconforto nas pernas deve ser diferenciado de cãibras ou de outro desconforto decorrente de mal posicionamento.

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Perturbação de movimentos estereotipados

A perturbação de movimentos estereotipados caracteriza-se por comportamentos motores repetitivos, não atribuíveis a efeitos fisiológicos de uma substância ou condição neurológica, aparentemente dirigidos sem propósito, que interferem com as atividades sociais, académicas ou outras, e que pode resultar em lesões do próprio indivíduo.

A perturbação de movimentos estereotipados pode incluir comportamentos como sacudir ou agitar as mãos, balançar o corpo, bater com a cabeça, bater a si próprio ou até mesmo morder-se, podendo resultar ou não em comportamentos autolesivos, consoante a gravidade do caso. Consideram-se autolesivos todos os comportamentos que podem resultar em lesões se não forem tomadas medidas preventivas. Deverá especificar-se se estes comportamentos estão associados a alguma condição médica ou genética conhecida, perturbação do neurodesenvolvimento ou fator ambiental (ex. exposição intrauterina ao álcool). A gravidade desta perturbação pode ser ligeira, se os sintomas são facilmente suprimidos por distração ou estímulos sensoriais, ou moderada, se os sintomas requerem medidas protetoras e modificação explícita do comportamento.

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A depressão não tem que ser um “bicho papão”

Falar de depressão é falar de um assunto muito sério, muito perturbador, muito prevalente e muito dispendioso. Sério porque é uma doença. Perturbador porque a depressão pode ser muito incapacitante ou por outro lado, pode ser “disfarçada” sendo por vezes incompreendida e desvalorizada. Prevalente porque os números da OMS não deixam dúvidas (a nível global, estima-se que cerca de 300 milhões, ou seja, 4,4% da população mundial sofra de depressão) e dispendiosa porque para além de poder levar a uma situação de incapacidade para o trabalho e consequente quebra do rendimento, pode exigir também uma quantidade de recursos técnicos e farmacológicos, difíceis incluir em alguns orçamentos familiares.

A maioria das pessoas já teve um ou mais episódios depressivos. Estes caracterizam-se pela perda temporária da disposição, quebra do humor, alterações do apetite, dificuldades de sono, dificuldade em executar tarefas quotidianas, dificuldade de atenção ou concentração, perturbações da memória, menor interesse em atividades anteriormente prazerosas, diminuição da líbido, entre outros sintomas. Estes podem permanecer por um período de tempo mais ou menos durador e ter uma intensidade que pode ir de ligeira a grave. Quando os episódios depressivos se tornam intensos e frequentes e não isolados, então podemos estar perante uma perturbação depressiva, ou seja, uma depressão.

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O luto normal

O luto é a reação emocional a uma perda e o processo de adaptação a essa perda implica algumas emoções, cognições e comportamentos comuns à maioria dos seres humanos. Sentimentos de tristeza, descrença no sucedido ou o isolamento social, são exemplos de reações padrão da pessoa enlutada.

São várias as emoções normativas presentes num processo de luto, sendo as mais comuns a tristeza, com ou sem manifestações de choro; a raiva, por não ter podido fazer nada para evitar a perda; a culpa, na maioria das vezes irracional por não ter conseguido evitar a morte do ente querido; a ansiedade por ter medo de não conseguir sobreviver sem a pessoa que morreu ou pela tomada de consciência da sua própria finitude ao confrontar-se com a “partida” de alguém próximo; a solidão e o desamparo, principalmente em casos de viuvez após uma relação muito duradoura e feliz; a fadiga, especialmente se o período antecedente à morte de uma pessoa foi física e emocionalmente muito exigente para o enlutado; o alívio ou libertação, por ver terminar um sofrimento muito doloroso de alguém significativo e a saudade, esse termo tão português e que significa sentir dolorosamente a falta de algo ou de alguém que se perdeu.

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Adolescência e suicídio

Parece haver evidência científica de que o suicídio na adolescência tem vindo a aumentar nos últimos anos, sendo esta a segunda causa de morte entre os jovens nos países ocidentais a seguir aos acidentes rodoviários. Quer o acto suicida, quer a ideação suicida, são sinais de psicopatologia grave e não devem ser desvalorizados.

Os pensamentos de morte constituem-se como um fator de risco para o suicídio, no entanto, nem sempre existe ideação suicida anterior ao acto de suicídio. O suicídio pode ocorrer num ato impulsivo sem que tenha havido um planeamento anterior. Por outro lado, os comportamentos de risco como por exemplo o conduzir embriagado, podem estar associados á ideação suicida. A dolorosa luta interna entre a vontade de morrer e o desejo de permanecer vivo causa um imenso sofrimento psicológico ao individuo, que num impulso poderá deitar tudo a perder. As tentativas de suicídio na adolescência têm maior prevalência em jovens entre os 14 e os 17 anos (Novick, Cibula & Sutphen, 2003) e os rapazes parecem ser os mais vulneráveis. Felizmente, em cada 10 a 20 tentativas de suicídio, apenas uma acaba em morte, no entanto, os danos que causam no jovem e na sua família, podem ser muito perturbadores.

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Delírios, alucinações e outras perturbações

PsicoseAs perturbações do espectro da esquizofrenia e outras perturbações psicóticas referem-se a anomalias em um ou mais domínios, como delírios, alucinações, pensamento desorganizado, comportamento motor anormal ou grosseiramente desorganizado e sintomas negativos.

Os delírios referem-se a crenças fixas que não mudam perante a evidência oposta, ou seja, a pessoa não consegue deixar de acreditar em algo mesmo que lhe seja apresentada evidência concreta do contrário. Por exemplo, o delírio persecutório que corresponde à crença do sujeito em que vai ser prejudicado, perseguido ou incomodado por uma determinada pessoa ou grupo, é um dos mais comuns. O delírio de grandiosidade refere-se a casos em que o sujeito acredita ter habilidades excecionais, fortuna ou fama. O delírio de referência prende-se com o facto de o indivíduo acreditar que determinados comentários, gestos ou estímulos do ambiente são dirigidos a si. Estes parecem ser os delírios mais comuns nas perturbações do espectro da esquizofrenia, no entanto há que referir ainda o delírio erotomaníaco que significa que a pessoa acredita falsamente que alguém está apaixonado por si, o delírio niilístico que corresponde à convicção de que vai ocorrer uma catástrofe e o delírio somático, que é focado em preocupação com a saúde e com as funções orgânicas. Continue a ler “Delírios, alucinações e outras perturbações”

Perturbação de Personalidade Paranoide (2)

Perturbação de Personalidade ParanoideA Personalidade Paranoide caracteriza-se por uma forte tendência do indivíduo para interpretar as intenções e ações dos outros como ameaçadoras, sendo difícil adotar outras explicações alternativas para os seus comportamentos. Assim, a suspeição e a insegurança generalizada em relação aos outros, são as características centrais que interferem no modo de pensar, sentir, e consequentemente de agir, dos sujeitos com Perturbação de Personalidade Paranoide.

Perceber a etiologia acerca do desenvolvimento de traços paranoides na personalidade é particularmente desafiador, tendo em conta a dificuldade em determinar a exatidão da informação relativa à sua história de vida. Ainda assim, são interessantes as hipóteses colocadas por alguns investigadores. Sugere-se que a postura associada aos traços de personalidade paranoide deverá ter sido adaptativa em algum momento no passado, numa situação verdadeiramente perigosa, em que as pessoas que rodeavam o individuo se mostravam claramente hostis, exploradoras e enganadoras. Talvez este tenha crescido numa família na qual aprendeu que a vigilância era absolutamente fulcral para sobreviver, que o mundo era um lugar perigoso e que as pessoas eram egoístas. Talvez ainda nas interações precoces com as figuras cuidadoras tenha aprendido que deveria ter cuidado para não cometer erros, era diferente dos outros ou precisaria de ser duro e defensivo para se proteger. Tais ideias poderão ter conduzido a uma elevada preocupação com a avaliação externa, bem como ao desenvolvimento de um sentimento de obrigação em relação às expectativas parentais. Consequentemente, poderá sentir-se não só humilhado, como passar muito tempo a pensar sobre o seu isolamento e maus tratos percebidos. Acaba por concluir que está a ser perseguido porque é alguém especial. Dados adicionais apontam também para a contribuição mútua e interativa do papel da genética. Continue a ler “Perturbação de Personalidade Paranoide (2)”