Estabelecer limites nas relações pessoais é importante para o nosso bem-estar psicológico. No entanto, para muitas pessoas, dizer «não», expressar desacordo ou comunicar aquilo de que precisam pode ser particularmente difícil. Mesmo quando uma situação provoca desconforto ou cansaço, acabam por aceitar pedidos, assumir responsabilidades ou corresponder a expectativas que não respeitam as suas próprias necessidades.
Esta dificuldade pode estar relacionada com experiências anteriores, medos e crenças que fomos construindo ao longo da vida. Algumas pessoas cresceram em ambientes onde a obediência, a disponibilidade e a preocupação com os outros eram especialmente valorizadas. Noutras situações, expressar discordância podia desencadear críticas, desaprovação ou conflitos. Estas experiências podem favorecer pensamentos como «se disser que não, vão ficar desiludidos comigo», «tenho de estar sempre disponível» ou «se defender aquilo que quero, estou a ser egoísta».
As relações pessoais, nomeadamente as relações amorosas que vivemos deixam marcas. Algumas ajudam-nos a construir segurança, confiança e proximidade emocional. Outras podem tornar-nos mais cautelosos, inseguros ou com receio de voltar a sofrer. Uma rejeição, uma traição, uma relação de casal marcada pela instabilidade, pela crítica ou pela falta de disponibilidade emocional, pode influenciar a forma como nos envolvemos afetivamente, mesmo muito tempo depois de essa experiência ter terminado.
Nem sempre percebemos o que está a acontecer. Muitas vezes sentimos que estamos apenas a reagir ao comportamento do parceiro ou da parceira atual, quando, na realidade, algumas situações podem ativar medos e inseguranças que começaram noutras relações amorosas. A investigação sobre vinculação na idade adulta mostra que as experiências afetivas podem influenciar a confiança, a proximidade emocional e a forma como interpretamos o comportamento de quem está connosco (Campbell & Stanton, 2019). Quem já viveu uma experiência de traição, por exemplo, pode ficar mais atento a pequenas mudanças no comportamento do parceiro. Uma resposta que demora mais tempo, uma saída com amigos ou uma alteração de rotina podem ser sentidas e avaliadas como sinais de afastamento. Para quem já passou por relações amorosas em que se sentiu rejeitado ou desvalorizado, uma situação aparentemente simples pode despertar o medo de “não ser suficientemente importante” ou de voltar a ser abandonado.
Por vezes, esse medo leva a uma procura constante de confirmação dentro da relação. A pessoa precisa de saber repetidamente se está tudo bem, se continua a ser amada ou se pode confiar no parceiro. Noutros casos acontece o contrário: para evitar sofrer, mantém maior distância emocional, evita mostrar vulnerabilidade ou afasta-se quando sente que a relação amorosa começa a tornar-se mais próxima. A forma como lidamos com as emoções no contexto do casal está intimamente ligada aos padrões de vinculação e pode influenciar a qualidade da relação (Fávero et al., 2021). Estas reações não surgem necessariamente por escolha. Muitas vezes são formas de proteção. Se já sofremos numa relação amorosa, é compreensível que tentemos evitar que o mesmo aconteça novamente. A dificuldade aparece quando aquilo que inicialmente serviu para nos proteger começa a interferir com a relação atual, dificultando a confiança, a comunicação ou a intimidade.
Também as crenças que fomos construindo sobre nós próprios e sobre os outros podem ter um papel importante. Experiências repetidas de rejeição, crítica ou instabilidade amorosa podem favorecer pensamentos como “as pessoas acabam sempre por ir embora”, “não posso confiar totalmente em ninguém” ou “se mostrar demasiado o que sinto, vou acabar magoado”. Estudos sobre esquemas precoces mostram que este tipo de crenças persistentes pode estar associado a dificuldades nas relações interpessoais, incluindo nas relações de casal (Janovsky et al., 2020). Por isso, pode ser importante aprender a distinguir aquilo que pertence à relação amorosa atual daquilo que vem do passado. Perguntar “o que está realmente a acontecer agora nesta relação?” ou “estou a reagir apenas ao que o meu parceiro fez ou também ao que já vivi antes?” pode ajudar a criar algum espaço entre aquilo que sentimos e a forma como reagimos. Isto não significa ignorar sinais importantes ou aceitar comportamentos que nos fazem sofrer. Significa procurar olhar para a relação atual a partir daquilo que realmente acontece nela, em vez de assumir antecipadamente que a história vai repetir-se.
A confiança numa relação amorosa constrói-se pouco a pouco. Cresce através de experiências de respeito, consistência, disponibilidade e segurança emocional. Também se fortalece quando existe espaço para falar de medos e inseguranças sem que tudo se transforme em acusação, controlo ou afastamento. A terapia cognitivo-comportamental aplicada às relações de casal procura precisamente ajudar a identificar padrões de pensamento, comunicação e resposta emocional que podem contribuir para dificuldades relacionais (Fischer, Baucom, & Cohen, 2016). Reconhecer estes padrões não significa culpabilizarmo-nos. Muitas das estratégias que hoje dificultam uma relação amorosa já tiveram, provavelmente, uma função de proteção. A questão é perceber se ainda fazem sentido ou se estão a impedir-nos de viver vínculos afetivos diferentes. O passado faz parte da nossa história amorosa, mas não tem de decidir tudo aquilo que acontece no presente. Tornar alguns padrões mais conscientes pode ser o primeiro passo para os questionar e para construir relações mais seguras, mais flexíveis e menos condicionadas pelo medo.
Quando as dificuldades em confiar no parceiro, o medo de abandono, os ciúmes, a necessidade constante de validação ou o afastamento emocional provocam sofrimento, se repetem em diferentes relações amorosas ou interferem significativamente com o bem-estar, pode ser importante procurar apoio psicológico.
Referências Bibliográficas:
Campbell, L., & Stanton, S. C. E. (2019). Adult attachment and trust in romantic relationships. Current Opinion in Psychology, 25, 148–151.
Fávero, M., Lemos, L., Moreira, D., Ribeiro, F. N., & Sousa-Gomes, V. (2021). Romantic attachment and difficulties in emotion regulation on dyadic adjustment: A comprehensive literature review. Frontiers in Psychology, 12, 723823.
Janovsky, T., Rock, A. J., Thorsteinsson, E. B., Clark, G. I., & Murray, C. V. (2020). The relationship between early maladaptive schemas and interpersonal problems: A meta-analytic review. Clinical Psychology & Psychotherapy, 27(3), 408–447.
Fischer, M. S., Baucom, D. H., & Cohen, M. J. (2016). Cognitive-behavioral couple therapies: Review of the evidence for the treatment of relationship distress, psychopathology, and chronic health conditions. Family Process, 55(3), 423–442.
Há qualquer coisa em setembro que nos convida a recomeçar. Terminam as férias, regressam os horários, as obrigações escolares e laborais, reorganizam-se agendas e, quase sem darmos conta, começamos muitas vezes a pensar no que gostaríamos de mudar. Mas será mesmo necessário entrar em setembro com uma nova versão de nós próprios?Essa necessidade de mudança não põe muita pressão no recomeço?
Embora janeiro seja tradicionalmente o mês associado aos grandes recomeços, setembro pode também representar um momento particularmente propício à mudança e à reorganização. O final do verão e o regresso às rotinas funcionam como uma espécie de marco temporal, separando aquilo que ficou “antes das férias” do período que agora começa. A investigação em Psicologia descreve precisamente este fenómeno como fresh start effect — efeito de novo começo. Determinados momentos, como o início de um ano, de um mês ou de uma semana, um aniversário ou o começo de um novo ciclo, podem aumentar temporariamente a motivação para estabelecer novos objetivos e introduzir mudanças nas nossas vidas (Dai, Milkman & Riis, 2014).
Nem sempre é fácil perceber quando uma relação está apenas a atravessar uma fase mais exigente ou quando começa, de facto, a comprometer o bem-estar emocional. Reconhecer alguns sinais de desgaste pode ajudar a compreender melhor o que se está a viver e a procurar apoio antes que o sofrimento se torne mais intenso.
As relações afetivas podem constituir uma importante fonte de segurança, intimidade, apoio emocional e sentimento de pertença. No entanto, também podem tornar-se fonte de ansiedade, tristeza, insegurança e desgaste, sobretudo quando as necessidades emocionais deixam de ser reconhecidas ou quando determinados conflitos se repetem sem que seja possível encontrar formas mais construtivas de os resolver. A existência de dificuldades não significa necessariamente que tenha deixado de existir amor ou que a relação esteja condenada. Todas as relações atravessam mudanças e períodos mais exigentes, influenciados pelo trabalho, pela parentalidade, por dificuldades económicas, problemas de saúde, perdas ou outras transições de vida.
O Dia do Trabalhador convida-nos, todos os anos, a refletir sobre o lugar que o trabalho ocupa nas nossas vidas. Para além da sua dimensão económica, o trabalho é uma das principais fontes de identidade, propósito e organização do quotidiano. No entanto, quando a sua exigência ultrapassa a capacidade de adaptação individual, pode transformar-se numa fonte relevante de stresse e desgaste psicológico.
A psicologia tem vindo a estudar de forma consistente a relação entre o trabalho e o bem-estar, destacando a importância do equilíbrio entre as diferentes áreas de vida. O conceito de work-life balance (equilíbrio trabalho–vida pessoal) refere-se à capacidade de gerir de forma satisfatória as exigências profissionais e pessoais, sem que uma interfira de forma excessiva na outra. Quando este equilíbrio é comprometido, surgem frequentemente sinais como fadiga persistente, irritabilidade, dificuldade em “desligar” do trabalho e diminuição do envolvimento em atividades pessoais significativas (Greenhaus & Allen, 2011).
Sentir-se preso em pensamentos repetitivos ou em comportamentos que parecem impossíveis de parar pode ser profundamente desgastante — especialmente numa fase da vida em que se esperaria maior liberdade, autonomia e clareza nas decisões.
Os comportamentos obsessivo-compulsivos em jovens adultos surgem frequentemente como tentativas de lidar com níveis elevados de ansiedade. Podem manifestar-se através de pensamentos intrusivos persistentes, como dúvidas constantes, receios de cometer erros, medo de causar dano ou preocupações com contaminação, acompanhados por uma necessidade intensa de reduzir o desconforto que esses pensamentos provocam. Embora este tipo de pensamentos seja uma experiência comum a todas as pessoas, o que tende a diferenciá-los nestes casos é a forma como são interpretados: como perigosos, inaceitáveis ou reveladores de algo negativo sobre si próprio (Clark & Beck, 2010).
Falar de namoro tóxico na adolescência não é falar apenas de relações “difíceis” ou de dramas próprios da idade. É falar de experiências emocionais que, muitas vezes, deixam marcas profundas na forma como os jovens aprendem a amar, a relacionar-se e a ver a si próprios.
A adolescência é um período de intensa construção identitária. É nesta fase que se experimenta, muitas vezes pela primeira vez, a intimidade emocional, o desejo de pertença e o medo da rejeição. O namoro surge, assim, como um espaço privilegiado de validação emocional — mas também como um terreno fértil para inseguranças, dependências emocionais e padrões relacionais pouco saudáveis.
Os jogos eletrónicos fazem parte do quotidiano de muitas crianças e adolescentes, levantando dúvidas naturais nos pais sobre limites, riscos e impacto emocional. Compreender a diferença entre um uso saudável e um uso problemático é essencial para promover um desenvolvimento equilibrado.
Os jogos eletrónicos fazem hoje parte do universo das crianças e dos adolescentes, sendo uma forma comum de entretenimento, socialização e até aprendizagem. Para muitos pais, esta realidade levanta dúvidas legítimas: quanto tempo é demasiado? Quando é que o jogo deixa de ser apenas diversão e passa a ser motivo de preocupação? A psicologia ajuda-nos a compreender que o problema não está, na maioria das vezes, no jogo em si, mas na forma como este é utilizado e no papel que passa a ocupar na vida da criança ou do adolescente.
Enquanto psicóloga, tenho recebido com frequência pais que procuram ajuda por sentirem que perderam o controlo sobre os hábitos digitais dos seus filhos adolescentes. Jogos online, redes sociais, horas a fio em frente ao telemóvel ou computador… São queixas recorrentes. Muitos destes pais chegam esgotados, angustiados, com um sentimento de impotência e, não raras vezes, com a esperança de que a psicóloga tenha “a solução”. “Ele não me ouve, talvez ouça alguém de fora”, “Já tentei tudo, diga-lhe a senhora o que fazer”, “Ela só vive para o telemóvel, já não sei o que fazer”. Estas frases não são apenas desabafos, são gritos silenciosos de pais que estão em sofrimento, por vezes confusos sobre o seu papel e profundamente preocupados com o futuro dos seus filhos.
É importante, antes de mais, reconhecer este sofrimento. A parentalidade na era digital coloca desafios para os quais poucos adultos estavam preparados. A velocidade com que a tecnologia evolui, aliada à crescente complexidade das relações online, pode criar um verdadeiro fosso geracional. Muitos pais sentem que perderam a autoridade ou a capacidade de comunicar com os filhos de forma eficaz. Neste cenário, não é de estranhar que depositem na figura do psicólogo uma série de expectativas, por vezes irrealistas, na esperança de encontrar respostas rápidas e eficazes.
Nos dias de hoje, a adolescência apresenta-se como uma fase do desenvolvimento particularmente desafiadora, não apenas pelas transformações fisiológicas e emocionais, mas também pelas novas exigências sociais e tecnológicas que moldam a forma como os jovens comunicam entre si. Apesar de estarem permanentemente ligados através de redes sociais e dispositivos móveis, muitos adolescentes revelam uma acentuada dificuldade em estabelecer relações interpessoais saudáveis e eficazes com os seus pares. Este fenómeno, frequentemente observado por educadores, pais e psicólogos, levanta preocupações relativamente ao desenvolvimento de competências relacionais fundamentais para a saúde mental e bem-estar ao longo da vida.
A adolescência é uma fase crítica para o desenvolvimento das competências sociais. É nesta etapa que os jovens experimentam, constroem e consolidam a sua identidade social, explorando papéis e procurando a aceitação no grupo de pares. No entanto, o contexto atual, fortemente influenciado pela digitalização da comunicação, alterou profundamente os modos de interação entre os adolescentes. O contacto cara-a-cara, essencial para a aquisição de competências relacionais como a empatia, a escuta ativa e a leitura da linguagem não verbal, tem vindo a ser progressivamente substituído por interações mediadas por écrans, principalmente mensagens escritas (Twenge, 2017).