Será que o meu filho já tem idade para ir ao psicólogo?

Psicólogo infantilSou questionada algumas vezes sobre a partir de que idade, pode uma criança beneficiar de acompanhamento psicológico. Pais e cuidadores preocupam-se frequentemente com o bem-estar das suas crianças mas têm ainda alguma relutância em procurar o psicólogo.

A razão mais frequente para se evitar procurar a ajuda do psicólogo prende-se com questões sociais, pois há ainda o mito de que o psicólogo serve para ajudar apenas as “pessoas perturbadas”, no entanto, essa tendência está a diminuir uma vez que as pessoas estão cada vez mais informadas. Porém, reconhecer que se precisa de ajuda pode significar para os pais alguma incapacidade no desempenho do seu nobre papel. Por outro lado, os pais por vezes tendem a pensar que os problemas se resolvem por si só. E não estão completamente enganados. Alguns comportamentos típicos das crianças e que deixam os pais com os “nervos em franja” têm a ver com a imaturidade do bebé e de facto, numa perspetiva desenvolvimentista, resolvem-se simplesmente com o passar do tempo. Porém, há outros comportamentos ou situações que podem ser indicadores de algum tipo de perturbação, que pode ser séria, ou que não sendo propriamente muito grave, tem um impacto muito negativo na vida criança e da família e que pode ser resolvida com uma intervenção breve e precoce. Continuar a ler

Doença de Parkinson

Doença neuro-degenerativaA Doença de Parkinson é a segunda doença neuro-degenerativa mais comum na população e resulta na acumulação anormal de proteínas no cérebro e na morte progressiva de neurónios. Pensa-se que uma grande parte das dificuldades motoras apresentadas pelos doentes derivam da perda de neurónios produtores de Dopamina.

Doença de Parkinson foi descrita em 1817 por James Parkinson e é uma das doenças neurológicas mais frequentes dos nossos dias. Apresenta uma distribuição universal, sendo transversal aos vários grupos étnicos e classes socioeconómicas. Estima-se uma prevalência de 100 a 200 casos por 100.000 habitantes e a sua prevalência aumenta com o avançar da idade. Esta doença é de um modo geral conhecida pelas suas características motoras como os tremores, rigidez, face pouco expressiva, lentificação dos movimentos e alterações da marcha. Também a presença de manifestações neuropsiquiátricas é frequente e conduzem à diminuição do funcionamento global do doente e consequentemente, da sua qualidade de vida. Destas manifestações destacam-se a depressão, ansiedade, dificuldades de sono, disfunção sexual ou demência. Continuar a ler

A criança deprimida não está só triste, está doente…

DepressãoUma criança deprimida não é o mesmo que uma criança triste. A tristeza é um sentimento normal que surge em consequência de um acontecimento relacional, físico ou outro. A tristeza tem uma duração curta não tendo efeitos significativos na funcionalidade da criança. A depressão é outra coisa…

A tristeza decorrente de um estado depressivo é duradoura, intensa e perturbadora da funcionalidade normal da criança e do seu equilíbrio. A criança deprimida apresenta habitualmente falta de vontade para brincar, queixas frequentes de cansaço, dores de cabeça ou de barriga, irritabilidade, choro fácil, problemas de sono, problemas alimentares, dificuldades de concentração e atenção, enurese, tendência para o isolamento, baixa autoestima, entre outros sintomas como a culpa e a inferiorização, podendo em casos mais extremos conduzir ao suicídio. Estes sintomas podem passar despercebidos ou serem confundidos com birras ou timidez, no entanto, se os sintomas persistirem por mais de 2 semanas é aconselhável que a criança seja avaliada, quer em termos fisiológicos, pelo pediatra, quer em termos psicológicos e emocionais, pelo psicólogo. Continuar a ler

Alucinações auditivas

Alucinações auditivas

As alucinações auditivas, são o tipo de alucinação mais frequente nas perturbações mentais. Estas alucinações podem ser simples ou complexas, sendo estas últimas as que constituem um maior desafio e interesse à psicopatologia.

As alucinações auditivas simples são aquelas nas quais se ouvem apenas ruídos primários e são menos comuns que as alucinações auditivas complexas. O tinnitus corresponde à sensação subjetiva de se ouvirem ruídos, como por exemplo zumbidos ou estalidos. Estes ruídos podem ser contínuos, intermitentes ou ritmados como os batimentos cardíacos. O tinnitus decorre habitualmente de doenças ou alterações do sistema auditivo e pode ser objetivo, podendo ser observado no ouvido do paciente através de técnicas médicas. O Síndrome de Méniere é o exemplo típico de patologia do ouvido com tinnitus, à qual se associa habitualmente perda auditiva e desequilíbrio. Outras doenças do foro cerebral e vascular podem também apresentar sintomas deste tipo.

Alucinações auditivas

As alucinações correspondem a uma perceção clara e objetiva de algo como uma voz, um ruído ou mesmo uma imagem, sem que o objeto/estímulo real esteja presente. A alucinação auditiva complexa é a mais frequente em psicopatologia, sendo a audio-verbal a mais impactante e significativa. Neste tipo de alucinação a pessoa ouve vozes “dentro da sua cabeça” sem que qualquer tipo de estímulo esteja objetivamente presente. Habitualmente estas vozes são de comando, ameaça ou insulto, assumindo um caráter depreciativo e persecutório. As vozes de comando podem até mesmo instruir o indivíduo no sentido do suicídio.

Alucinações auditivas

As alucinações auditivas podem observar-se nos casos de esquizofrenia, em que as pessoas têm a perceção marcante de que estas são reais. Umas vezes as vozes “internas” fazem comentários e observações acerca dos comportamentos e ações da pessoa, outras vezes o pensamento torna-se “sonoro” ou seja, os indivíduos ouvem os seus próprios pensamentos, algumas vezes repetidos e em eco e outras vezes ainda, o pensamento torna-se delirante, ou seja, o indivíduo experiencia ouvir pensamentos que lhe parecem ter sido introduzidos na cabeça por um estranho.

Psicopatologia

Em alguns casos de depressão grave podem também estar presentes as alucinações auditivas. Aqui, as pessoas tendem a ouvir vozes geralmente com conteúdos negativos, de humilhação ou de culpa. Também nas perturbações do humor este tipo de alucinações pode estar presente, por vezes com conteúdos de grandeza ou conteúdo místico-religioso, habitualmente nos casos de mania. Nos doentes alcoólicos crónicos, as alucinações auditivas também podem ocorrer, bem como em algumas perturbações da personalidade, como o caso da personalidade borderline, histriónica, perturbação dissociativa ou esquizotípica.

Psicopatologia

Apesar de alguns medicamentos antipsicóticos conseguirem controlar, na maioria dos casos, as manifestações da doença, nem sempre conseguem calar as vozes que insistem em se fazer ouvir na mente dos pacientes. Estudos recentes sugerem que a Estimulação Magnética Transcraniana (EMT), uma técnica não invasiva e praticamente sem efeitos colaterais, pode controlar de forma eficaz este problema. Esta técnica consiste no envio de impulsos magnéticos para o cérebro, que dependendo da frequência podem aumentar ou diminuir a atividade na região alvo. Desta forma, o médico consegue modular os neurónios de forma a equilibrar o seu funcionamento. A técnica é indolor e a sua aplicação é feita com o paciente acordado. Apesar das neurociências serem grandes aliadas no processo de deteção e compreensão das alucinações auditivas, a forma como estas aparecem parece permanecer ainda sem resposta.

 

 

 

Sugestão:

https://core.ac.uk/download/pdf/82297852.pdf~

 

Intervenção no luto

Luto e psicologiaO luto éuma reação à perda de um ente querido ou de algo mais abstrato em seu lugar, como por exemplo, o trabalho, um relacionamento, a pátria ou até mesmo uma ideologia.

O modelo dual de intervenção no luto proposto por Stroebe & Schut (1999) tenta compreender as reações dos indivíduos às perdas, sugerindo um modelo de compreensão do processo de se lidar com a perda e de adaptação ao luto. Neste modelo os autores propõem a coexistência de três dimensões ou componentes: (a) orientação para a perda, (b) orientação para o restabelecimento e (c) oscilação. Este processo de adaptação ao luto defende a existência de uma dinâmica de oscilação do indivíduo enlutado entre o confronto orientado para a perda e o confronto orientado para o restabelecimento.

Intervenção psicológica no lutoNo conforto orientado para a perda o enlutado disponibiliza-se para elaborar a perda, vivenciar a dor, a ausência, os medos, traduzindo-se numa abertura para trabalhar estes aspetos. O confronto orientado para o restabelecimento diz respeito ao investimento na vida e na realidade que o rodeia, traduzindo-se na reorganização da vida. Este processo dinâmico é fundamental para uma adaptação satisfatória, funcionando como um mecanismo regulatório que integra e organiza internamente, quer o confronto orientado para a perda, quer o confronto orientado para o restabelecimento.

Psicologia no apoio ao lutoConsiderar em simultâneo as duas dimensões é muito difícil, mas como é necessário atender a ambas, a oscilação é um processo indispensável e, muito possivelmente, um dos melhores informativos do desenvolvimento da experiência do luto. O valor que os autores atribuem ao processo de oscilação, tratando-se de um processo de ‘coping’ (lidar com), que regula os esforços de adaptação do indivíduo, em paralelo com a proposta de que um ‘coping’ adaptativo seria constituído tanto por stressores de perda como de restabelecimento, que se traduz numa oscilação enquanto indicador do processo.

LUTOA tomada de decisão por parte do enlutado, está sempre presente na medida em que pode optar pela atenção dada ao stresse gerado pela perda ou pela supressão da dor e centrar-se na adaptação a uma realidade externa alterada. Partindo deste modelo, o psicoterapeuta assume o papel de facilitador, sensibilizando os seus clientes na tomada de decisão inerente a este processo ativo, ajudando-os a discriminar as implicações que advêm de cada uma das suas decisões, que podem ser tomadas de uma forma consciente ou inconsciente.

A elaboração do luto continua a ser necessária e o tipo de vinculação à pessoa falecida constitui um fator altamente determinante nas intervenções com enlutados. O indivíduo enlutado deve tornar-se capaz de aceitar a realidade da perda e reorganizar a sua vida sem o objeto perdido. Vários autores defendem que, quanto mais complicado for o processo de luto, maiores serão as hipóteses de que a psicoterapia contribua para resultados satisfatórios.

Apoio psicológico no lutoAssim, as intervenções com pessoas enlutadas devem ser principalmente dirigidas para pacientes com riscos sociodemográficos e circunstanciais, sejam elas pessoas sem apoio familiar, social e financeiro, que vivam sós ou cujo luto seja consequência de mortes violentas, traumáticas ou em massa. Parece também relevante dar especial atenção a situações de mães e esposas, sobretudo se a relação com o falecido tiver características de dependência. Indivíduos que apresentem ideação suicida devem ser considerados prioridade, assim como os que manifestaram transtornos psiquiátricos prévios à perda. Sujeitos que tenham sido vítimas de abuso ou negligência parental na infância podem igualmente obter grandes benefícios com a psicoterapia.

Processos de luto

“Para além da felicidade e do rir, também a tristeza e o chorar, são elementos intrínsecos ao facto de estar vivo, bem como na elaboração das perdas significativas”.

 

 

Bibliografia

Barbosa, A., (2013). Olhares sobre o Luto. Lisboa: AIDMFL.

Parkes, C.M. (2006). Love and loss: The roots of grief and its complications. London: Routledge.

Stroebe, M. S., & Schut, H. (1999). The dual process model of coping with bereavement: Rationale and description. Death Studies, 23, 197-224.

 

Ansiedade e depressão vs. doença física

Psicologia da saúdeO principal interesse da Psicologia pelas doenças é o modo como as reações de ansiedade e/ou depressão que acompanham muitos dos processos de doença fisiológica, interferem com as ações de tratamento. As emoções desadaptativas ou patológicas do doente, podem manifestar-se nas reações ao diagnóstico e/ou ao tratamento, influenciando a progressão da doença, qualquer que seja o seu tipo.

As emoções intensas frequentes e/ou prolongadas de ansiedade e/ou depressão, podem contribuir para a mudança na progressão da doença física, podendo levá-la de transitória a crónica. A grande maioria das intervenções da psicologia da doença têm como objetivo a mudança das emoções desadequadas do doente, pois estas aumentam o seu sofrimento e influenciam os seus comportamentos de prevenção da doença ou de adesão ao seu tratamento. A intervenção visa também impedir que as emoções desadequadas constituam a causa do aparecimento ou reaparecimento da doença, à semelhança de outros determinantes. A inadequação dos processos emocionais inscreve-se num contínuo entre o normal e o patológico, o que implica uma distinção entre depressão ou tristeza ligeira e moderada, observada na maioria dos doentes, quando confrontados quer com os sintomas, quer com o diagnóstico de uma doença, ou até mesmo do próprio tratamento.

Doença e saúdeA doença física constitui-se como um terreno fértil para a expressão de emoções desadaptativas. A depressão está muitas vezes associada à doença crónica. As reações depressivas tendem a manifestar-se mais tarde, em comparação com as reações de ansiedade e posteriormente, ambas podem ocorrer de forma alternada ou em simultâneo. O processo depressivo pode ser anterior à doença física e pode constituir-se como determinante direto ou indireto da mesma (ex. alterações imunológicas e/ou fisiológicas, negligência pessoal etc.). O processo depressivo posterior à doença física pode apresentar-se como sintoma da doença ou como consequência do seu tratamento (ex. efeitos da medicação, baixa da autoestima, possível perda de capacidades ou de papéis sociais, isolamento, etc.).

AnsiedadeÉ difícil saber se é a depressão que contribui mais para o aparecimento e evolução da doença física ou se é esta que contribui para o desenvolvimento da depressão. Isto leva à necessidade de que médicos e psicólogos trabalhem em equipa, no sentido de chegarem ao diagnóstico, quer seja de doença física com sintomatologia depressiva quer seja de depressão com sintomatologia somática. Caso contrário, o médico pode diminuir a sintomatologia do processo depressivo, considerando-o normal e inerente ao processo de doença, ficando o doente sem acesso ao tratamento psicológico, ou, o psicólogo poderá considerar que as reações somáticas do doente fazem parte do processo depressivo, e o doente ficar sem os cuidados médicos de que pode necessitar. Considerar que doença física e depressão se determinam mutuamente poderá permitir que médico e psicólogo formem uma equipa e que trabalhando em conjunto possam dar uma resposta mais adequada ao doente.

Saúde e doençaO stesse, estado reativo do organismo face a situações inesperadas ou de ameaça e hoje em dia também visto como uma resposta de ajustamento do organismo, contingencial a essas situações, é o processo ansiogénio mais comum, tendo sido transformado em sinónimo de todo e qualquer tipo de ansiedade geral ou específica. Sendo o stresse um conceito de grande operacionalidade em psicologia da doença, a intervenção clínica é quase sempre dirigida à sua redução para limites aceitáveis, por diversas razões. Uma delas é o facto de o stresse poder causar doença por interferir no sistema imunitário. Por outro lado, pode estar também associado a hábitos que causam a doença (ex. tabagismo). O stresse pode escalar facilmente para processos ansiogénios mais graves, podendo interferir com a capacidade do indivíduo reagir tanto a um diagnóstico de doença, como à adesão ao tratamento proposto.

Psicologia da saúdeA depressão e a ansiedade têm sido estudadas na sua relação com o mesmo tipo de doenças, o que não significa que sejam abordadas da mesma forma. As reações depressivas tendem a ser consideradas na sua polaridade mais grave (depressão major) e o stresse é mais representativo das reações ansiogénias. Dada a semelhança entre sintomas reais e somatizações, como saber se é a depressão ou o stresse que provocam e/ou agravam os sintomas ou se é a doença, na sua dimensão orgânica que os provoca e/ou agrava? A maior dificuldade do psicólogo para determinar se as emoções excessivas contribuem para o agravamento da condição do paciente advêm de questões metodológicas, que incluem a avaliação da gravidade da doença e a avaliação da gravidade da emocionalidade negativa que a acompanha. Embora esta questão possa parecer circular, ela constitui uma limitação para a intervenção. Uma vez mais se destaca a grande importância do trabalho de equipa ,em psicologia da saúde. Não basta tratar a doença, é fundamental tratar o doente.

Morte e outras perdas

lutoA morte é um assunto que por tendência se procura evitar e uma questão sobre a qual talvez a maioria das pessoas procurem nem pensar. A dificuldade de lidar com a ideia da morte pode complicar a sua elaboração e impedir que se vivenciem com tranquilidade as perdas, que são naturais e ocorrem inevitavelmente, ao longo de todo o ciclo de vida.

Ao longo da vida, o indivíduo é confrontado com perdas nas suas formas mais diversas, tanto pela morte física como pelas perdas parciais vivenciadas no dia-a-dia, ao longo do seu desenvolvimento. Estas perdas podem ser reais, simbólicas ou imaginadas, e são exemplos, a perda da adolescência ou do corpo da infância, de um emprego, da constatação de não se conseguir alcançar determinado objetivo ou a perda definitiva e gradual de capacidades e da autonomia, resultante do avanço da idade ou da deterioração da saúde. Isto significa que a perda e a sua elaboração são aspetos constantes no processo de desenvolvimento humano.

Processo de lutoAo longo do último século, as ciências sociais e humanas aumentaram o seu interesse na investigação do processo de luto, nas suas diversas formas, das complicações e das diferentes abordagens psicoterapêuticas de apoio na realização do trabalho de luto. É reconhecido a Freud (1917), no seu artigo sobre o ‘Luto e melancolia’, a introdução precursora, na literatura psicológica, do trabalho clínico sobre o luto. Freud considerou o luto como uma reação à perda de alguém próximo, que é assimilada sem conflitos significativos, onde o enlutado é capaz de manter a capacidade de se desligar do objeto perdido, de uma forma natural. A energia investida no objeto perdido necessita, através do trabalho de luto, de se ir dissipando progressivamente das recordações, fantasias e expetativas que revestiam essa ligação, e ao fim de algum tempo, o Ego do enlutado estará novamente liberto para investir na realidade.

Processos de lutoOutro estudioso destas matérias, Parkes  postula que o processo de luto se desenvolve em 4 fases, sendo elas: 1) Entorpecimento ou negação, que pode ser considerado um mecanismo de defesa do enlutado, face a uma perda difícil de aceitar; 2) Anseio e protesto, ou seja, um desejo intenso de recuperar a perda, podendo ser acompanhado de sentimentos de culpa ou raiva dirigidos ao próprio ou ao objeto perdido; 3) Desorganização e desespero, isto é, entrada num período em que o indivíduo reconhece a irreversibilidade da perda e que pode levar a um estado de apatia e depressão, visível pela falta de interesse e motivação para novas atividades e um certo isolamento social, e 4) Recuperação ou restituição, em que o enlutado entra num período caracterizado por uma diminuição progressiva do sofrimento que vai permitir que se volte novamente para o mundo em busca de novas relações e atividades. Quando o indivíduo ultrapassa a ultima tarefa de elaboração do luto, deverá ser capaz de falar sobre a perda sem grande sofrimento, fruto da reação adaptativa. Esta reação varia de acordo com a natureza da perda, a personalidade do indivíduo, as experiências passadas, os valores e a ameaça percebida ao seu sentimento de integridade enquanto pessoa.

EnlutadosDe uma forma consensual, o processo de luto apresenta-se como um processo ativo, multidimensional, personalizado e com múltiplos determinantes. Muito se tem escrito sobre o luto, o que evidencia o quanto o tema tem despoletado interesse na comunidade científica, resultando em numerosos estudos de diversas abordagens, tanto sobre questões relativas aos conceitos como sobre as utilizações de terapêuticas e sua eficácia. São vários os modelos de entendimento do processo do luto, como as variáveis que, em vários estudos empíricos, se revelaram fatores facilitadores ou problemáticos do seu curso. Na literatura disponível são diversas as posições assumidas no que respeita à opinião acerca dos modos de intervenção, mas é transversal e consensual que nos casos em que o processo de luto se complexifica, a intervenção psicológica é fundamental.

 

Sugestão:

Barbosa, A., (2013). Olhares sobre o Luto. Lisboa: AIDMFL.

Stresse: o mau e…o bom!

DistressSegundo Selye (1976) o stresse é um conjunto de respostas fisiológicas que mobilizam o organismo para a acção e que são ao mesmo tempo adaptativas. O autor defende ainda que estas respostas ou reacções se alteram ao longo do tempo e que com a exposição repetida a situações de stresse, a reacção de defesa do organismo passa por três fases distintas: alarme, resistência e exaustão, às quais chamou Síndrome de Adaptação Geral.

Podemos considerar que o stresse é um processo de adaptação e não propriamente uma doença, embora a exposição repetida a factores causadores de stresse possa levar a um estado patológico, pelo desgaste que provoca no indivíduo. Existem vários tipos de stressores, que podem ser internos (representações mentais ou memórias) ou externos (vivenciar uma determinada situação). O modo como o indivíduo reage perante os factores causadores de stresse pode ser através de uma resposta emocional (ex. ansiedade ou medo), uma resposta fisiológica (ex. roer as unhas), uma resposta comportamental (ex. agitação motora) ou resposta cognitiva (ex. pessimismo ou dificuldade em tomar uma decisão).O stresse tem no indivíduo consequências negativas mas também pode ter consequências positivas. É algo inevitável, uma vez que está presente nas situações do dia-a-dia. É também de certo modo e em alguns casos desejável, na medida em que funciona como o motor que nos conduz à resolução dos problemas. Nestes casos, é a oportunidade de adquirirmos competências práticas e de nos tornarmos capazes.

EustressPerante um mesmo factor de stresse, cada indivíduo reage e age de forma diferente, sendo que, uns têm tendência a minimizar os custos da situação e torná-la irrelevante e outros, agudizam-nos, tornando a situação ainda mais ameaçadora. É o significado que cada indivíduo atribui a uma determinada situação, com base na avaliação que faz e nos recursos que possui, que vai determinar as suas reacções ao elemento stressor. Segundo o modelo de avaliação cognitiva de Lazarus e Falkman, uma situação é geradora de stresse quando é potencialmente prejudicial e caso o indivíduo considere que os seus recursos são insuficientes para gerir o resultado aversivo. Uma situação indutora de stresse é toda aquela em que a relação estabelecida entre o indivíduo e o meio ambiente é avaliada como excedendo os seus recursos prejudicando por isso, o seu bem-estar. Às estratégias utilizadas para repor o equilíbrio homeostático após uma situação de stresse dá-se o nome de coping. Estas estratégias têm a ver com regulação de emoções, negação e evitamento ou resolução de problemas, sendo as últimas as que tendencialmente têm maior eficácia, sempre que o factor causador de stresse pode ser controlado pelo indivíduo. A regulação de sintomas pode ser funcional quando o stressor não é controlável, sendo neste caso a autorregulação a melhor forma de lidar com o problema. Em relação à negação e evitamento, considera-se a forma menos eficaz de coping, se bem que em alguns casos pode servir para se ganhar tempo e posteriormente adoptar uma estratégia mais adequada para o problema em questão.

EustressO stresse pode ter um impacto directo na saúde, na medida em que a percepção de falta de controlo, que se atribui a causas internas, estáveis e globais pode levar a estados de ansiedade e/ou depressão, bem como a um estado de saúde física precário. Deste modo, o custo do stresse é sentido na saúde e no bem-estar do indivíduo. Dentro das perturbações patológicas causadas por acção do stresse podemos destacar as perturbações do foro digestivo, infecções, doença coronária ou até mesmo o cancro. É ainda de referir as queixas psicossomáticas, em que o indivíduo por má gestão emocional, manifesta queixas a nível físico para as quais não se encontra uma causa orgânica. Para lidar com o inevitável stresse, cada indivíduo dispõe de recursos internos – características da personalidade e externos – apoio social. São exemplos de factores promotores de distress a dificuldade na gestão do tempo, a dificuldade em estabelecer prioridades e de tomada de decisões, as perdas por morte, os conflitos interpessoais ou uma crise financeira. Até agora falámos essencialmente de distress, isto é, a dimensão negativa e prejudicial do stresse mas ao contrário do que vulgarmente se pensa o stresse nem sempre é negativo.

DistressÉ consensual entre psicólogos e outros profissionais que se dedicam a este tema, a divisão do stresse em mau e bom, respectivamente distress e eustress. Denominamos de eustress, o bom stresse, a capacidade que o ser humano tem de realizar uma acção necessária. Este é natural do organismo e é graças a ele que o indivíduo mantém uma relação entre o stresse e a motivação, sendo encarado como afecto positivo e esperança. Chamamos savoring às estratégias que utilizamos para sentir, prolongar regular, manipular e manter as emoções positivas, o eustress. Estas conduzem ao bem-estar, à saúde física e mental, ao bom desempenho profissional e à satisfação nas relações interpessoais. É um modelo que leva ao impulso para a acção, para a auto-eficácia, para as emoções pró-sociais e trás serenidade. Dentro dos factores promotores de eustress, podemos encontrar a aquisição de competências técnicas ou académicas, estar na eminência de ganhar um prémio ou o estabelecimento e manutenção de algumas relações sociais, como por exemplo, estar apaixonado. Uma das principais estratégias de savoring é a partilha de acontecimentos positivos com os outros, o que vai levar ao aumento do bem-estar e satisfação com a vida.

Aprenda a identificar os sinais de alarme e a gerir o seu distress. Acha a tarefa difícil? Peça a ajuda ao seu psicólogo!

 

 

 

 

Fontes:

Selye, H. (1976). The Stress of Life (Revised ed.). New York: McGraw-Hill.

Stroebe, W. & Stroebe, M. (1995). Social Psychology and Health. Buckingham: Open University Press.

Porque cortas os teus braços?

DepressãoA adolescência é uma fase do desenvolvimento humano marcada pela mudança, vulnerabilidade, ambivalência e por vezes incompreensão, angústia e rebeldia. Crescer é difícil e nesta fase os jovens têm por vezes dificuldades de expressão emocional, de estabelecerem relacionamentos positivos e de lidarem com algumas questões próprias desta etapa da vida, que marca a transição entre a infância e a idade adulta.

Por vezes, os adolescentes utilizam estratégias não adaptativas e traumáticas que incluem cortar-se, queimar-se ou morder-se, entre outras, numa tentativa de se libertarem da tristeza, dor emocional, desespero, desesperança, culpa, ansiedade ou raiva que sentem, depois de já terem utilizado todas as estratégias que conhecem, para comunicar o seu estado emocional. Os comportamentos auto lesivos são fenómenos multicausais, resultado de complexas interacções entre factores genéticos, biológicos, psicológicos, sociais e culturais. Por essa razão não são actos que possam ser olhados isoladamente, sem que seja enquadrada a realidade da vida do jovem, no que diz respeito aos vários contextos em que se insere.

PsicopatologiaÉ relativamente frequente, os pais destes jovens não terem conhecimento do que se está a passar com os seus filhos. Alguma dificuldade na comunicação, que caracteriza a relação pais-filhos adolescentes, pode explicar este desconhecimento. Mesmo quando estão a par desta realidade, alguns pais têm dificuldade em nomear e lidar com os comportamentos auto lesivos dos filhos, ou porque lhes provocam um bloqueio emocional ou como mecanismo de defesa, acabam por desvalorizar ou ignorar. Há muitas vezes um desencontro entre as narrativas dos adolescentes em relação aos comportamentos de auto lesão e as dos seus pais, o que por um lado traduz um choque por terem tomado conhecimento do problema mas por outro lado, porque o procuram esconder.

Depressão

O conflito familiar, as discussões repetidas e mantidas entre o casal, a violência física e/ou psicológica, as dificuldades na comunicação entre os vários elementos da família, a separação/divórcio marcada pelo litígio, o sentimento de abandono, o conflito entre os pares, o bullying ou as zangas e desencontros na vida amorosa, constituem-se entre muitos outros, como determinantes para os comportamentos auto lesivos. Num relato marcado pela emoção, J. P., uma jovem de 16 anos dizia: “O meu irmão parece que não liga, nada o perturba mas eu, não suporto a forma como o meu pai fala com a minha mãe. Ele grita com ela a toda a hora e desvaloriza-a constantemente por ser mulher. Eu evito chorar para que ela não sofra ainda mais mas depois, não aguento a dor no peito que me sufoca, fecho-me na casa de banho e faço cortes nos braços para abafar essa dor. Nada é pior do que a tristeza que sinto no meu peito”. Quando a dor emocional se torna insuportável, por vezes os adolescentes sentem a necessidade de sentir dor física, como única forma de alívio. O que fazer, como ajudar?

SuicídioA prevenção é a palavra-chave. Alertar a comunidade escolar para este tipo de problemas e desenvolver programas de prevenção bem estruturados, pode ser um bom princípio. Estes programas deverão contemplar variáveis como a detecção precoce e tratamento dos problemas mentais, assim como a redução do estigma a eles associado. A restrição do acesso a armas ou medicamentos e o controlo do consumo de bebidas alcoólicas é certamente um caminho para prevenção. É também necessária a formação dos profissionais dos meios de comunicação para os perigos do efeito de contágio. A criação de linhas telefónicas de apoio, maior acessibilidade aos serviços de saúde e a formação dos pares para a identificação dos sinais de alerta, têm também o seu papel na prevenção destas práticas auto destrutivas.

Fatores protetores suicídioPara além disso, a promoção e a manutenção de relações próximas saudáveis pode aumentar a resiliência individual e actuar como um factor de protecção. Jovens pertencentes a famílias com elevado grau de coesão, com capacidade de envolvimento mútuo, interesses comuns e suporte emocional têm menor risco de vir a adoptar este tipo de comportamentos auto destrutivos. Escolhas saudáveis de estilo de vida que promovam o bem-estar físico e mental (exercício físico regular, hábitos de higiene de sono, alimentação adequada, não utilização de álcool e drogas). A par destes hábitos saudáveis, a manutenção de relacionamentos saudáveis, a integração social, e uma gestão eficaz do stress, são também factores protectores para comportamentos auto lesivos. O sentimento de pertença a uma família, a uma escola, a um grupo, a uma instituição ou a uma comunidade, pode também proteger os adolescentes desta problemática.

SuicídioEm casos extremos, em que os comportamentos auto lesivos entram numa escalada que pode levar a tentativas de suicídio, pode ser necessário o internamento do jovem em contexto hospitalar. Pode ser necessária a intervenção psiquiátrica com prescrição de fármacos no sentido de estabilizar o jovem. Posteriormente, após uma avaliação cuidada, a intervenção psicológica individual, familiar ou uma abordagem mista, poderá ser o indicado. A maioria dos comportamentos auto lesivos acontecem em casa e muitas vezes estão relacionados com acontecimentos do meio intrafamiliar. Assim, o envolvimento familiar é essencial, no sentido de falarem sobre o problema, de o compreenderem e de saírem eventualmente da negação ou de ultrapassarem o choque inicial da tomada de conhecimento. A saúde mental deve ser uma prioridade e os adolescentes não são excepção. Muitos dos problemas emocionais e psicológicos têm inicio nesta fase da vida. As perturbações de ansiedade e depressão, por exemplo, são bastante prevalentes nesta faixa etária.

Comportamentos autolesivosO não tratamento destas patologias pode levar tanto à sua cronicidade, como a evoluir para outras situações que podem levar a desfechos trágicos. Sabe-se hoje que os comportamentos auto lesivos são um forte preditor para as tentativas de suicídio. É fundamental que os pais e cuidadores se mantenham atentos aos comportamentos dos seus jovens e que estabeleçam e mantenham com eles, relações de afecto e proximidade. Ensinar aos jovens estratégias de resolução de problemas, de comunicação assertiva e facilitar-lhes a expressão emocional, assim como desmistificar crenças erróneas e fantasias, por vezes tão frequentes nesta idade, pode fazer a diferença entre a vida, e a morte.

Se o seu caminho está difícil de trilhar sozinho, procure ajuda. É também para isso, que serve um Psicólogo.

Comportamentos auto lesivos e suicídio

Comportamentos auto lesivosNa adolescência, os comportamentos auto lesivos assumem uma grande relevância, estando associados a patologia psiquiátrica, podendo ser preditores de tentativas de suicídio no futuro.

Podemos entender por comportamentos auto lesivos (CAL), auto mutilação ou auto lesão não suicida, todos os comportamentos com resultado não letal, em que o sujeito se envolve deliberadamente, com o objectivo de causar dano a si mesmo mas sem a intenção de provocar a morte (ex. cortar-se, queimar-se, morder-se, saltar de alturas, ingerir medicamentos em dose excessiva…). Considera-se que hoje em dia, estes comportamentos na adolescência constituam um grave problema de saúde pública. Embora a investigação nesta área aponte Portugal como um dos países com menor taxa de prevalência desta problemática em relação a outros países da Europa, o facto é que mesmo assim, estes comportamentos são graves e relativamente frequentes durante a adolescência, principalmente em jovens do género feminino. Mais preocupante se torna, se acrescentarmos que cerca de 2/3 dos pais não têm conhecimento de que os seus filhos têm comportamentos de auto lesão. Entende-se por tentativa de suicídio, qualquer acto levado a cabo por um sujeito e que tem como objectivo a sua morte mas que por qualquer razão de diversas ordens e normalmente alheia à vontade do sujeito, acaba por não se concretizar. Já o suicídio consumado refere-se à morte provocada por uma acção levada a cabo pelo próprio sujeito, com a intenção de por fim à sua vida. Continuar a ler