O difícil confronto

Alberto entrou na sala devagar. Fechou distraidamente a porta e com passos pesados e lentos dirigiu-se a ela. Mariana, a esposa, estava sentada com um jornal que não conseguia ler, pois os seus pensamentos vagueavam. Estava nervosa, e ao ouvir a porta fechar-se sentiu um baque no peito. As mãos frias estavam húmidas e a sua face de pele branca e fina ruboresceu. Ele dirigiu-se a ela e apenas perguntou: “O que é o jantar?”

Há já algum tempo que Mariana se questionava sobre o que se passaria. Os felizes 40 anos de vida em comum com Alberto permitiam-lhe conhecê-lo como achava que não se conhecia a si mesma. No entanto, as últimas semanas ou talvez meses tinham-lhe trazido uma angústia difícil de explicar. Alguns comportamentos do marido deixavam-na desconcertada. O seu olhar vazio começava a perturba-la, e aos poucos ia-o sentindo distante e inacessível. Questionou-o, e ele apenas lhe disse algo como “não se passa nada, está tudo bem”, porém ela sentia que alguma coisa tinha mudado. Alberto saía vezes sem conta dizendo que ia “apanhar ar”. Por vezes voltava ao fim de várias horas, com um olhar tão perdido como os pensamentos que pairavam, sobre a cabeça de Mariana.

Há cerca de 2 meses, Alberto procurou o médico. Falou-lhe das suas preocupações e dúvidas e o clínico avaliou-o. Prescreveu-lhe exames, que ele fez de imediato, e, quando voltou à consulta, achando que a falta de estímulos e de ocupação decorrentes da sua recente situação de reforma, poderiam estar na origem do seu mal-estar, equacionando até poder estar deprimido, foi surpreendido com um diagnóstico que não esperava. Saíu do consultório confuso, triste e assustado. Não lhe ocorreu fazer ao médico nenhuma pergunta. Ouviu tudo o que este lhe disse, ou quase tudo, e com esforço tentou assimilar o máximo de informação. O choque tinha-se apoderado de si mas ecoavam-lhe na cabeça as palavras do clínico: “Sr. Alberto, lamento dizer-lhe mas a sua situação vai piorar, temos que tomar medidas”. Foi para casa, dizendo a Mariana quando esta o questionou acerca da sua saída, que tinha ido apenas espairecer. Saber que dentro de algum tempo já não a reconheceria e que as memórias das suas vidas felizes se estavam a dissipar, deixou-o sem ânimo, sem forças e sem coragem para lhe contar.

Dia após dia, Alberto foi-se fechando em si. Conseguiu esconder de Mariana o que se estava a passar mas sentia-se cada vez mais atormentado. Sofria em silencio os momentos de clara lucidez, e os outros, mais enevoados e difusos e que até então eram esparsos, ia conseguindo driblar com algum engenho, pensando que a estava a enganar e adiando o momento em que teria de a confrontar com a difícil situação. Não a queria fazer sofrer. Naquele dia, Mariana esperava-o para jantar, na dolorosa certeza de que aquele era o momento. A penosa conversa que se seguiria fê-la tremer e cambalear quando se levantou da cadeira e se dirigiu a ele. Tinha que o confrontar com o telefonema que tinha recebido de um consultório do qual nunca tinha ouvido falar. A secretária do médico apenas pretendia informar que a consulta do Sr. Alberto teria que ser adiada dois dias, mas Mariana, com o seu jeito meigo e curioso, conseguiu ouvir o que não esperava e sentir o que jamais imaginaria sentir quando atendeu o telemóvel que Alberto havia esquecido no quarto, antes de sair. A conversa do casal foi dura, os sentimentos sombrios, mas Mariana, abraçou-o demoradamente e tal como em alguns outros momentos da sua longa vida em comum, conseguiu acalmar o turbilhão de emoções confusas que pairavam na cabeça de Alberto. E foram jantar.

Previna a demência e estimule o seu cérebro. A leitura é um bom exercício, mas também o cálculo e os jogos de palavras. Ocupe a sua mente com atividades de estimulação cognitiva de forma a preservar o seu desempenho, a facilitar a realização das suas atividades do dia-a-dia, a gerir a sua saúde e a potenciar a sua qualidade de vida!

A depressão no idoso

A depressão tardia refere-se ao aparecimento de estados depressivos depois dos 65 anos. A sintomatologia depressiva está frequentemente associada à presença de doença física ou neurológica e à incapacidade ou às limitações decorrentes de estados de doença, que levam ao declínio do estado geral do indivíduo.

As queixas mais frequentes nos indivíduos mais idosos são as dores de cabeça, dores reumatológicas ou músculo-esqueléticas bem como a sintomatologia gastrointestinal. Feito o despiste de doença orgânica que explique a referida sintomatologia, a presença da mesma pode ser explicada pela depressão, se combinada com alguma da sintomatologia típica desta doença. Os fatores de risco para a depressão no idoso prendem-se com questões de género, sendo mais prevalente nas mulheres do que nos homens. Outros fatores de risco para o desenvolvimento de patologia depressiva estão relacionados com o sistema endócrino e o sistema vascular. O diagnóstico de doenças médicas não psiquiátricas, nomeadamente doença oncológica, demência, doenças cardiovasculares, hipotiroidismo ou artrite, entre outras, constitui-se como um fator de risco relevante para a depressão, bem como o tipo de personalidade e as experiências de vida do sujeito. De referir ainda como potenciador de sintomatologia depressiva o stresse crónico a que o indivíduo possa estar sujeito, quer seja familiar, social ou económico.

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Solidão

Em tempos como os que vivemos desde há aproximadamente um ano e meio, o conceito de solidão tem estado muito presente na vida de muitos de nós. Uma das faixas etárias que mais terá sofrido as consequências do afastamento social é a dos idosos, uma população já de si mais vulnerável, por várias ordens de razão.

O conceito de solidão tem vindo a ser estudado por diversas áreas da ciência e do conhecimento, como a psicologia e a sociologia. A perceção de solidão é algo subjetiva, uma vez que, algumas pessoas convivem tranquilamente com o facto de estarem sós e outras se sentem sós e infelizes mesmo quando estão rodeadas de outras pessoas. Cada indivíduo sente a solidão à sua maneira e daí a dificuldade de se chegar a uma definição única e abrangente. As representações sociais da solidão incluem uma enorme heterogeneidade de significados, caindo em especificidades que dificultam a sua interpretação e entendimento. Em psicologia, o conceito de solidão pode ser caracterizado pela ausência afetiva do outro e com a sensação de se estar só. Ainda que próximo do ponto de vista geográfico, pode não haver aproximação psicológica devido à falta de interação e comunicação emocional entre os indivíduos.

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Os mais velhos, as memórias e as emoções

O desempenho da memória nas pessoas mais velhas e a sua relação com as emoções, conduz para a possibilidade de haver um enviesamento para as memórias positivas. Parece haver evidência de que os adultos mais velhos apresentam uma tendência para recordar mais facilmente imagens associadas a emoções positivas do que a emoções negativas.

De um modo geral, quando se discutem tarefas relacionadas com a utilização da memória, a população idosa parece demonstrar alguns défices na sua realização quando comparada com a população de adultos mais jovens. No entanto, ao proceder-se ao estudo de tarefas relacionadas com formas de bem-estar e regulação emocional, os idosos, em comparação com os jovens adultos, revelam melhorias e não o declínio que seria esperado. Este declínio seria esperado uma vez que a nível fisiológico se dá uma redução do volume da massa cerebral com o avançar da idade. Porém, apesar dessa redução, as estruturas cerebrais relacionadas com o processamento das emoções e memória, em concreto a amígdala cerebral, não sofrem alterações estruturais significativas.

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Rede de apoio social – pedir ajuda

Rede socialO relacionamento com os outros está omnipresente na vida e no dia-a-dia de todos nós. Ao conjunto de pessoas com quem temos uma relação significativa podemos chamar rede de apoio social. O apoio social pode ser definido como a quantidade e coesão das relações sociais que nos rodeiam.

É um processo interactivo que visa o bem-estar físico e psicológico. O contacto social pode promover a saúde e o bem-estar e tem provavelmente uma função de regulação da resposta emocional perante os vários factores causadores de stress. De acordo com Uchino, Uno & Holt-Lustad (1999) o apoio social pode ter várias funções: apoio informativo, apoio emocional, apoio de pertença e apoio tangível, desempenhando assim um importantíssimo papel nas nossas vidas, manifestando-se na nossa saúde física e psicológica.

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Doença de Parkinson

Doença neuro-degenerativaA Doença de Parkinson é a segunda doença neuro-degenerativa mais comum na população e resulta na acumulação anormal de proteínas no cérebro e na morte progressiva de neurónios. Pensa-se que uma grande parte das dificuldades motoras apresentadas pelos doentes derivam da perda de neurónios produtores de Dopamina.

Doença de Parkinson foi descrita em 1817 por James Parkinson e é uma das doenças neurológicas mais frequentes dos nossos dias. Apresenta uma distribuição universal, sendo transversal aos vários grupos étnicos e classes socioeconómicas. Estima-se uma prevalência de 100 a 200 casos por 100.000 habitantes e a sua prevalência aumenta com o avançar da idade. Esta doença é de um modo geral conhecida pelas suas características motoras como os tremores, rigidez, face pouco expressiva, lentificação dos movimentos e alterações da marcha. Também a presença de manifestações neuropsiquiátricas é frequente e conduzem à diminuição do funcionamento global do doente e consequentemente, da sua qualidade de vida. Destas manifestações destacam-se a depressão, ansiedade, dificuldades de sono, disfunção sexual ou demência. Continue a ler “Doença de Parkinson”

Intervenção no luto

Luto e psicologiaO luto éuma reação à perda de um ente querido ou de algo mais abstrato em seu lugar, como por exemplo, o trabalho, um relacionamento, a pátria ou até mesmo uma ideologia.

O modelo dual de intervenção no luto proposto por Stroebe & Schut (1999) tenta compreender as reações dos indivíduos às perdas, sugerindo um modelo de compreensão do processo de se lidar com a perda e de adaptação ao luto. Neste modelo os autores propõem a coexistência de três dimensões ou componentes: (a) orientação para a perda, (b) orientação para o restabelecimento e (c) oscilação. Este processo de adaptação ao luto defende a existência de uma dinâmica de oscilação do indivíduo enlutado entre o confronto orientado para a perda e o confronto orientado para o restabelecimento.

Intervenção psicológica no lutoNo conforto orientado para a perda o enlutado disponibiliza-se para elaborar a perda, vivenciar a dor, a ausência, os medos, traduzindo-se numa abertura para trabalhar estes aspetos. O confronto orientado para o restabelecimento diz respeito ao investimento na vida e na realidade que o rodeia, traduzindo-se na reorganização da vida. Este processo dinâmico é fundamental para uma adaptação satisfatória, funcionando como um mecanismo regulatório que integra e organiza internamente, quer o confronto orientado para a perda, quer o confronto orientado para o restabelecimento.

Psicologia no apoio ao lutoConsiderar em simultâneo as duas dimensões é muito difícil, mas como é necessário atender a ambas, a oscilação é um processo indispensável e, muito possivelmente, um dos melhores informativos do desenvolvimento da experiência do luto. O valor que os autores atribuem ao processo de oscilação, tratando-se de um processo de ‘coping’ (lidar com), que regula os esforços de adaptação do indivíduo, em paralelo com a proposta de que um ‘coping’ adaptativo seria constituído tanto por stressores de perda como de restabelecimento, que se traduz numa oscilação enquanto indicador do processo.

LUTOA tomada de decisão por parte do enlutado, está sempre presente na medida em que pode optar pela atenção dada ao stresse gerado pela perda ou pela supressão da dor e centrar-se na adaptação a uma realidade externa alterada. Partindo deste modelo, o psicoterapeuta assume o papel de facilitador, sensibilizando os seus clientes na tomada de decisão inerente a este processo ativo, ajudando-os a discriminar as implicações que advêm de cada uma das suas decisões, que podem ser tomadas de uma forma consciente ou inconsciente.

A elaboração do luto continua a ser necessária e o tipo de vinculação à pessoa falecida constitui um fator altamente determinante nas intervenções com enlutados. O indivíduo enlutado deve tornar-se capaz de aceitar a realidade da perda e reorganizar a sua vida sem o objeto perdido. Vários autores defendem que, quanto mais complicado for o processo de luto, maiores serão as hipóteses de que a psicoterapia contribua para resultados satisfatórios.

Apoio psicológico no lutoAssim, as intervenções com pessoas enlutadas devem ser principalmente dirigidas para pacientes com riscos sociodemográficos e circunstanciais, sejam elas pessoas sem apoio familiar, social e financeiro, que vivam sós ou cujo luto seja consequência de mortes violentas, traumáticas ou em massa. Parece também relevante dar especial atenção a situações de mães e esposas, sobretudo se a relação com o falecido tiver características de dependência. Indivíduos que apresentem ideação suicida devem ser considerados prioridade, assim como os que manifestaram transtornos psiquiátricos prévios à perda. Sujeitos que tenham sido vítimas de abuso ou negligência parental na infância podem igualmente obter grandes benefícios com a psicoterapia.

Processos de luto

“Para além da felicidade e do rir, também a tristeza e o chorar, são elementos intrínsecos ao facto de estar vivo, bem como na elaboração das perdas significativas”.

 

 

Bibliografia

Barbosa, A., (2013). Olhares sobre o Luto. Lisboa: AIDMFL.

Parkes, C.M. (2006). Love and loss: The roots of grief and its complications. London: Routledge.

Stroebe, M. S., & Schut, H. (1999). The dual process model of coping with bereavement: Rationale and description. Death Studies, 23, 197-224.

 

Cérebro – o órgão onde tudo acontece!

Cérebro

O cérebro e o corpo são inseparáveis e ligam-se um ao outro através de circuitos bioquímicos e neuronais, envolvendo-se numa relação de reciprocidade. Os  nervos motores e sensoriais periféricos transportam sinais das diversas partes do corpo para o cérebro, e do cérebro para todas as partes do corpo. O cérebro lê os sinais, interpreta-os e responde, como pode.

No ser humano, de todos os sistemas de que é composto, o Sistema Nervoso (SN) é sem dúvida o mais complexo e sofisticado. A unidade funcional e estrutural deste sistema, também conhecida como célula neural ou neuronal, é o neurónio. É a unidade base do SN sendo o seu diâmetro de uma dimensão extremamente reduzida e existindo na ordem dos biliões no cérebro humano. Os neurónios diferem entre si no que diz respeito à sua localização, dimensão e funções. Cada neurónio tem uma morfologia adaptada à receção, integração, transmissão e ao processamento de sinais. Estes sinais são transmitidos por meio de estruturas altamente especializadas, que fazem a transmissão de um impulso nervoso de um neurónio para outro – as sinapses. Este impulso pode ser integrado, bloqueado e modificado de duas formas diferentes: as sinapses químicas, que são as mais frequentes no ser humano, e as elétricas. As sinapses químicas pressupõem a presença de neurotransmissores que são compostos químicos produzidos pelos neurónios e comunicados pelas sinapses, os quais são responsáveis por transmitir as informações necessárias para as diversas partes do corpo.

NeurotransmissãoO SN é o nosso grande comandante e é responsabilidade sua, a coordenação de toda e qualquer ação voluntária ou não, assim como a transmissão de sinais a todos os outros sistemas presentes no organismo, como o sistema motor, sensorial, cognitivo e a integração entre todos eles. O SN divide-se em 3 partes e são elas o Sistema Nervoso Central (SNC), o Sistema Nervoso Periférico (SNP) e o Sistema Nervoso Autónomo (SNA). Fazem parte do SNC o cérebro e a espinal medula. O SNP é formado principalmente por nervos (cranianos e espinais), gânglios e recetores sensoriais. O SNP divide-se ainda noutros dois subsistemas, o sistema nervoso somático (nervos sensoriais e motores) e o sistema nervoso autónomo que por sua vez engloba outros dois constituintes, o simpático e o parassimpático. Descrito assim mesmo de uma forma simplificada, percebe-se que o assunto é realmente complexo. Coloquemos então o foco no SNC, mais precisamente no cérebro – o órgão onde tudo acontece!

Neurónio

O cérebro divide-se em 4 partes, os lobos. O lobo frontal é o maior e é responsável pelos movimentos físicos, assim como pelas funções da aprendizagem, do pensamento, da memória e da fala. O lobo parietal é responsável pela perceção espacial e pela transmissão da informação sensorial como a dor, o calor ou o frio. O lobo temporal responde pelos estímulos auditivos e o lobo occipital recebe e processa as imagens visuais. Dividindo o cérebro ao meio, este apresenta uma função contra lateral, ou seja, a metade esquerda do cérebro controla o lado oposto do corpo (lado direito) e as funções do lado esquerdo do organismo são comandadas pela metade direita do cérebro. A lateralidade cerebral define que cada hemisfério controla determinadas funções (ex. o hemisfério direito confere a capacidade de reconhecer rostos e objetos e o esquerdo comanda a capacidade de leitura e escrita). Assim, o cérebro é o comandante de todas as funções e sentimentos, como os movimentos corporais, a memória e emoções. É a ação conjunta das várias partes do cérebro que permite ao ser humano capacidades como a marcha, a fala e a capacidade de pensar, sentir e amar.

Neurotransmissão

O cérebro é um órgão muito curioso e tem características e particularidades muito suas. Embora seja o responsável pela transmissão dos sinais e pela interpretação da sensação de dor, o cérebro em si é indolor. Sendo um orgão que pesa menos de 2 quilos, tem cerca de 160 000 quilómetros de vasos sanguíneos. O cérebro consome muita energia, embora o seu peso represente apenas cerca de 2% do peso total do corpo, ele gasta cerca de 25% de toda a energia de que o corpo humano necessita para funcionar. Este grande consumo de energia parece dever-se à manutenção dos processos relacionados com o pensamento e os processos corporais, sendo parte dela possivelmente investida na manutenção da saúde das células cerebrais.

Neurotransmissão

Estudos acerca do funcionamento cerebral por género revelam que o cérebro das mulheres é diferente do dos homens, ou seja, parece estar efetivamente comprovado que o cérebro das mulheres é mais orientado para as emoções e para a subjetividade, enquanto o dos homens parece ser mais racional e objetivo. O cérebro dorme mas não para. É durante os períodos de sono que o cérebro humano mais trabalha, conseguindo mesmo assimilar informação. Esse trabalho cerebral está relacionado com a atividade onírica, ou seja o sonhar. Com o avançar da idade, observam-se determinadas alterações no cérebro humano e algumas das suas partes começam a diminuir de forma natural, à qual se associa uma perda neuronal. As zonas cerebrais responsáveis pela regulação dos processos cognitivos como a memória, começam a diminuir por volta dos 65 /70 anos de idade o que pode conduzir à redução da plasticidade cerebral e da capacidade de adaptação dos indivíduos.

CérebroVoltando aos neurónios, a ideia de que estes não se reproduzem nem se dividem e que são insubstituíveis, foi durante muito tempo uma verdade absoluta. No entanto, alguns estudos mais recentes têm vindo a apontar para a possibilidade de haver um processo de neurogénese adulta, ou seja, a capacidade de se criar e reforçar os neurónios em idade mais tardia, através de uma série de práticas relacionadas aos hábitos vida saudáveis ao longo do tempo. A prática de exercício físico de corrida ou resistência, a dieta mediterrânica e a estimulação cognitiva, podem ajudar a manter o cérebro saudável. A aprendizagem facilita as conexões entre as diferentes áreas do cérebro e por isso pode constituir-se como um fator protetor contra a neuro degeneração. Porém, a neurogénese adulta, a ser uma realidade, tem um papel limitado incapaz de corrigir lesões cerebrais graves. A investigação e a ciência estarão decerto atentas a este problema e irão continuar a fazer esforços no sentido do prolongamento da saúde neuronal.

Cérebro

Até lá e pelo sim, pelo não, cuide-se para envelhecer melhor!

 

 

 

S

Porque cortas os teus braços?

DepressãoA adolescência é uma fase do desenvolvimento humano marcada pela mudança, vulnerabilidade, ambivalência e por vezes incompreensão, angústia e rebeldia. Crescer é difícil e nesta fase os jovens têm por vezes dificuldades de expressão emocional, de estabelecerem relacionamentos positivos e de lidarem com algumas questões próprias desta etapa da vida, que marca a transição entre a infância e a idade adulta.

Por vezes, os adolescentes utilizam estratégias não adaptativas e traumáticas que incluem cortar-se, queimar-se ou morder-se, entre outras, numa tentativa de se libertarem da tristeza, dor emocional, desespero, desesperança, culpa, ansiedade ou raiva que sentem, depois de já terem utilizado todas as estratégias que conhecem, para comunicar o seu estado emocional. Os comportamentos auto lesivos são fenómenos multicausais, resultado de complexas interacções entre factores genéticos, biológicos, psicológicos, sociais e culturais. Por essa razão não são actos que possam ser olhados isoladamente, sem que seja enquadrada a realidade da vida do jovem, no que diz respeito aos vários contextos em que se insere.

PsicopatologiaÉ relativamente frequente, os pais destes jovens não terem conhecimento do que se está a passar com os seus filhos. Alguma dificuldade na comunicação, que caracteriza a relação pais-filhos adolescentes, pode explicar este desconhecimento. Mesmo quando estão a par desta realidade, alguns pais têm dificuldade em nomear e lidar com os comportamentos auto lesivos dos filhos, ou porque lhes provocam um bloqueio emocional ou como mecanismo de defesa, acabam por desvalorizar ou ignorar. Há muitas vezes um desencontro entre as narrativas dos adolescentes em relação aos comportamentos de auto lesão e as dos seus pais, o que por um lado traduz um choque por terem tomado conhecimento do problema mas por outro lado, porque o procuram esconder.

Depressão

O conflito familiar, as discussões repetidas e mantidas entre o casal, a violência física e/ou psicológica, as dificuldades na comunicação entre os vários elementos da família, a separação/divórcio marcada pelo litígio, o sentimento de abandono, o conflito entre os pares, o bullying ou as zangas e desencontros na vida amorosa, constituem-se entre muitos outros, como determinantes para os comportamentos auto lesivos. Num relato marcado pela emoção, J. P., uma jovem de 16 anos dizia: “O meu irmão parece que não liga, nada o perturba mas eu, não suporto a forma como o meu pai fala com a minha mãe. Ele grita com ela a toda a hora e desvaloriza-a constantemente por ser mulher. Eu evito chorar para que ela não sofra ainda mais mas depois, não aguento a dor no peito que me sufoca, fecho-me na casa de banho e faço cortes nos braços para abafar essa dor. Nada é pior do que a tristeza que sinto no meu peito”. Quando a dor emocional se torna insuportável, por vezes os adolescentes sentem a necessidade de sentir dor física, como única forma de alívio. O que fazer, como ajudar?

SuicídioA prevenção é a palavra-chave. Alertar a comunidade escolar para este tipo de problemas e desenvolver programas de prevenção bem estruturados, pode ser um bom princípio. Estes programas deverão contemplar variáveis como a detecção precoce e tratamento dos problemas mentais, assim como a redução do estigma a eles associado. A restrição do acesso a armas ou medicamentos e o controlo do consumo de bebidas alcoólicas é certamente um caminho para prevenção. É também necessária a formação dos profissionais dos meios de comunicação para os perigos do efeito de contágio. A criação de linhas telefónicas de apoio, maior acessibilidade aos serviços de saúde e a formação dos pares para a identificação dos sinais de alerta, têm também o seu papel na prevenção destas práticas auto destrutivas.

Fatores protetores suicídioPara além disso, a promoção e a manutenção de relações próximas saudáveis pode aumentar a resiliência individual e actuar como um factor de protecção. Jovens pertencentes a famílias com elevado grau de coesão, com capacidade de envolvimento mútuo, interesses comuns e suporte emocional têm menor risco de vir a adoptar este tipo de comportamentos auto destrutivos. Escolhas saudáveis de estilo de vida que promovam o bem-estar físico e mental (exercício físico regular, hábitos de higiene de sono, alimentação adequada, não utilização de álcool e drogas). A par destes hábitos saudáveis, a manutenção de relacionamentos saudáveis, a integração social, e uma gestão eficaz do stress, são também factores protectores para comportamentos auto lesivos. O sentimento de pertença a uma família, a uma escola, a um grupo, a uma instituição ou a uma comunidade, pode também proteger os adolescentes desta problemática.

SuicídioEm casos extremos, em que os comportamentos auto lesivos entram numa escalada que pode levar a tentativas de suicídio, pode ser necessário o internamento do jovem em contexto hospitalar. Pode ser necessária a intervenção psiquiátrica com prescrição de fármacos no sentido de estabilizar o jovem. Posteriormente, após uma avaliação cuidada, a intervenção psicológica individual, familiar ou uma abordagem mista, poderá ser o indicado. A maioria dos comportamentos auto lesivos acontecem em casa e muitas vezes estão relacionados com acontecimentos do meio intrafamiliar. Assim, o envolvimento familiar é essencial, no sentido de falarem sobre o problema, de o compreenderem e de saírem eventualmente da negação ou de ultrapassarem o choque inicial da tomada de conhecimento. A saúde mental deve ser uma prioridade e os adolescentes não são excepção. Muitos dos problemas emocionais e psicológicos têm inicio nesta fase da vida. As perturbações de ansiedade e depressão, por exemplo, são bastante prevalentes nesta faixa etária.

Comportamentos autolesivosO não tratamento destas patologias pode levar tanto à sua cronicidade, como a evoluir para outras situações que podem levar a desfechos trágicos. Sabe-se hoje que os comportamentos auto lesivos são um forte preditor para as tentativas de suicídio. É fundamental que os pais e cuidadores se mantenham atentos aos comportamentos dos seus jovens e que estabeleçam e mantenham com eles, relações de afecto e proximidade. Ensinar aos jovens estratégias de resolução de problemas, de comunicação assertiva e facilitar-lhes a expressão emocional, assim como desmistificar crenças erróneas e fantasias, por vezes tão frequentes nesta idade, pode fazer a diferença entre a vida, e a morte.

Se o seu caminho está difícil de trilhar sozinho, procure ajuda. É também para isso, que serve um Psicólogo.

Saber envelhecer e aprender a envelhecer

VelhiceO processo de envelhecimento e a heterogeneidade da velhice constituem-se como um dos temas mais desafiadores da Psicologia enquanto ciência do comportamento e dos fenómenos mentais, particularmente após a segunda metade do século XX, principalmente devido ao envelhecimento da população no mundo ocidental.

Costuma-se dizer que temos duas opções na vida: envelhecer ou morrer. De um modo geral, o envelhecimento não é visto com bons olhos. As rugas, os cabelos brancos, as falhas de memória, as limitações físicas, enfim, características do processo de envelhecimento que de um modo geral  não são desejadas e nem sempre são bem aceites pelos indivíduos. No entanto, a melhor opção parece ser mesmo envelhecer, até porque, em circunstâncias normais, não podemos escolher morrer. E se assim é, nada como fazê-lo da melhor forma. O processo de envelhecimento pode ser um feliz processo de independência, integração e auto-desenvolvimento. Se virmos bem, é apenas mais uma fase num percurso de vida, que por vezes nem começa da melhor maneira mas que pode ter na velhice um período de paz, harmonia e bem-estar. Continue a ler “Saber envelhecer e aprender a envelhecer”