Os mais velhos, as memórias e as emoções

O desempenho da memória nas pessoas mais velhas e a sua relação com as emoções, conduz para a possibilidade de haver um enviesamento para as memórias positivas. Parece haver evidência de que os adultos mais velhos apresentam uma tendência para recordar mais facilmente imagens associadas a emoções positivas do que a emoções negativas.

De um modo geral, quando se discutem tarefas relacionadas com a utilização da memória, a população idosa parece demonstrar alguns défices na sua realização quando comparada com a população de adultos mais jovens. No entanto, ao proceder-se ao estudo de tarefas relacionadas com formas de bem-estar e regulação emocional, os idosos, em comparação com os jovens adultos, revelam melhorias e não o declínio que seria esperado. Este declínio seria esperado uma vez que a nível fisiológico se dá uma redução do volume da massa cerebral com o avançar da idade. Porém, apesar dessa redução, as estruturas cerebrais relacionadas com o processamento das emoções e memória, em concreto a amígdala cerebral, não sofrem alterações estruturais significativas.

A amígdala desempenha um papel fulcral no processamento de estímulos emocionais para armazenamento na memória através das suas ligações neuronais ao hipocampo (fundamental na construção da memória), entre outros. Estando ligadas a estímulos emocionais, todas as memórias com valência ou conteúdo emocional passam pela amígdala no seu processamento. Se esta é uma parte do cérebro que sofre poucas alterações com o aumento da idade quando comparada com outras regiões do cérebro, especula-se que seja uma das explicações fisiológicas para os idosos relembrarem mais eficazmente as memórias com valência emocional do que as memórias que necessitam mais de atenção e julgamento. De qualquer forma, a redução das respostas fisiológicas nos idosos não parece afetar as suas experiências e reações emocionais.

O facto de se registar uma menor deterioração das áreas do cérebro associadas às emoções e ao seu processamento, acaba por tornar evidente o aumento do bem-estar emocional com o passar dos anos. Este bem-estar deriva das experiências emocionais do dia-a-dia poderem até mesmo melhorar ao longo do curso de vida. A satisfação com a vida pode chegar mesmo a aumentar com a idade, isto porque a frequência e duração das emoções negativas do quotidiano tendem a diminuir com o envelhecimento enquanto as emoções positivas permanecem estáveis e constantes.

Com o avançar da idade a recordação de acontecimentos negativos será menos intensa relativamente à recordação de acontecimentos neutros ou positivos. Para que tal aconteça, está presente uma ferramenta importante que os idosos manobram melhor do que a população de adultos jovens: a regulação emocional. A capacidade de regular as emoções aumenta com a idade: os idosos conseguem manter mais e de melhor forma os estados emocionais positivos. As estratégias de coping e de defesa emocional tendem a demostrar um maior controlo dos seus impulsos do que os adultos jovens demonstrando uma maior capacidade de controlo das suas emoções, sendo assim um fenómeno geral entre a população idosa. Isto leva a um maior controlo também na recordação e na forma como os idosos recordam os acontecimentos, proporcionando mais estados de humor positivos e menos estados de humor depressivos.

A limitação de tempo faz os idosos reverem as suas perspetivas emocionais, ou seja, leva a uma seleção cognitiva dos acontecimentos conforme a sua relevância ou necessidade emocional. A regulação emocional destaca-se na construção das memórias que aumentam a qualidade de vida ao ser o mecanismo com que os idosos regulam as emoções neutras e positivas, e lidam com as emoções negativas tentando dar-lhes menor importância através de estratégias centradas na emoção. Esta seleção tem um impacto direto no comportamento perante a presença de informação negativa ou a sua recordação (por exemplo, adquirindo um comportamento de recordar os eventos negativos de forma a modelá-los como mais positivos do que realmente seriam).

A memória e a atenção são assim focadas para o objetivo emocional de bem-estar, e a regulação emocional torna-se numa estratégia fundamental e das mais utilizadas pelos idosos. O impacto da diferença do papel da emoção entre os adultos jovens e os adultos mais velhos baseia-se na compensação emocional, estimando que os processos emocionais bem mantidos podem ajudar os idosos a lembrarem-se de informação que de outra maneira seria esquecida; e na memória emocional focada para o objetivo, em que a memória dos idosos é mais emocionalmente gratificante (positiva) sendo uma forma de regulação emocional que não está presente nos adultos mais jovens. Para estes, esta informação negativa é mais difícil de infirmar, e as emoções negativas têm mais impacto, o que não acontece nos idosos devido à sua capacidade de supressão de acontecimentos negativos e à sua forma de tornar a intensidade emocional dos eventos em algo menos intenso. Embora os resultados de estudos semelhantes sejam ambíguos no que toca a alguns tipos de informação positiva, tem aumentado as evidências de que com o aumento de idade há uma maior tendência para favorecer, na memória, a informação positiva em vez da informação negativa.

Fontes:

Mather, M. (2006). Why memories may become more positive with age. In B. Uttl, N. Ohta, & A. L. Siegenthaler (Eds.), Memory and Emotion: Interdisciplinary Perspectives (pp. 135-158). Malden, MA: Blackwell Publishing.

Mather, M. (2004). Aging and emotional memory. In D. Reisberg and P. Hertel, (Eds.) Memory and Emotion (pp. 272-307). NY: Oxford University Press.

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