Medir a criatividade

A criatividade envolve a produção de ideias originais. É um constructo abstrato que para ser estimulado tem que ser definido, avaliado e que exige uma reflexão critica uma vez que é multifatorial.

A criatividade é um processo que envolve a combinação do conhecimento já existente, numa nova forma através da aplicação de ideias antigas a novos contextos ou através da perspetivação inovadora de conhecimentos antigos, ou ainda, através de um rompimento com o passado, emprestando o que já se conhece a novos conceitos. A raiz etimológica da palavra criatividade vem do termo latim creare que significa criar, produzir, formar. Há cerca de 100 anos o estudo ou reflexão sobre a criatividade fazia-se apenas com base nas biografias de figuras eminentes. As primeiras abordagens científicas à criatividade eram abordagens dinâmicas inspiradas na teoria de Freud e a psicanálise abriu portas a interpretações criativas.

Segundo Wallas (1926) a criatividade é um processo que envolve quatro fases distintas: preparação, incubação, iluminação e verificação. A primeira fase consiste na tentativa preliminar de resolução de um problema. A segunda fase, incubação, refere-se ao facto de que mesmo pondo de lado o problema e passando a outras tarefas, inconscientemente se tem sempre latente uma tentativa de resolução do referido problema. A Iluminação é a fase em que a solução para a resolução do problema surge como um insight. A última fase, ou seja a verificação, tem a ver com a confirmação da solução encontrada, isto é, a verificação de que esta resolve efetivamente o problema. Em 1950 Guilford impulsiona o estudo científico da criatividade em oposição às reflexões especulativas o que leva à abordagem psicométrica que visa o estudo das diferenças individuais. Mais tarde, Guilford (1986) define a criatividade como um processo mental através do qual a pessoa produz informação que não possuía e afirma que todas as pessoas são criativas embora em diferentes graus.

No que diz respeito aos processos cognitivos que envolvem o pensamento criativo estes assemelham-se aos processos cognitivos envolvidos nas atividades quotidianas, o que pode contrariar a tendência de pensarmos que as contribuições mais criativas vêm de apenas alguns indivíduos com capacidades intelectuais excecionais. Mas como podemos então avaliar a criatividade? A grande dificuldade de se poder avaliar a criatividade deve-se ao facto desta ser uma característica multifatorial, contudo a sua avaliação é necessária quer se trate de investigação ou intervenção. 

Para avaliar a criatividade, Torrence implementou os Testes de Pensamento Criativo TTCT (Torrence’s Tests of Creative Thinking), que consistem num conjunto de 10 provas figurativas e verbais com um grau de elaboração relativamente fácil envolvendo competências de pensamento divergente e outras de resolução de problemas. Estes testes têm como critérios de avaliação a fluência, que corresponde ao número total de respostas; a flexibilidade, que tem a ver com o número de diferentes categorias das respostas; a originalidade que é a frequência estatística de respostas originais e a elaboração, ou seja a quantidade de pormenores nas respostas. Para além destes critérios, ultimamente têm sido considerados outros “extras” de modo a tornar possível a avaliação da expressividade emocional, ideias, humor, fantasia, abstração, etc.

Os critérios de cotação utilizados nestes testes revelam uma parte apenas do todo sendo que os critérios “extras” são indispensáveis para uma visão holística do quadro da criatividade. A criatividade pode também avaliar-se através das produções criativas do sujeito desde que estas sejam adequadas, originais e relevantes (Nickerson et al., 1985). Embora ao longo do tempo tenham surgido outros tipos de testes de avaliação da criatividade, os TTCT continuam a ser o instrumento mais utilizado mundialmente, logo, o mais conceituado. De acordo com Torrance (1966) o pensamento criativo é um processo de experimentar dificuldades, lacunas na informação e elementos em falta e de adivinhar e formular hipóteses sobre a solução para essas dificuldades, avaliar e testar essas hipóteses, reformular e finalmente apresentar os resultados.

Os resultados dos testes podem ser avaliados de uma forma parcelar ou global sendo que na primeira é avaliado cada teste e cada critério e na segunda é feita uma comparação em relação a uma média pré-estabelecida. Esta última tem que estabelecer uma relação entre os vários critérios. Uma apreciação global permite um indicador relevante principalmente se forem incluídos alguns dos critérios “extras.” Avaliar a criatividade parece ser tão difícil quanto útil pois embora as medidas obtidas com os resultados dos testes possam ser um pouco subjetivas por outro lado permitem verificar o potencial do indivíduo levando a que este o possa aproveitar da melhor forma, tanto nos seus desempenhos escolares e académicos como ao longo da sua vida profissional, familiar e social.

Quanto melhor os indivíduos conhecerem os seus talentos e pontos fortes melhor se conhecem e compreendem a si próprios.

Fontes:

Bahia, S. (2007). Quadros que compõe a criatividade: Uma análise do Teste de Torrance. Sobredotação, pp. 91-120.

Eysenck, M.W., & Keane, M.T., (2008). Criatividade e descoberta. Manual de Psicologia Cognitiva (p. 444-459). Porto Alegre: ARTMED.

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