Não, nem tudo vai ficar bem…

Face a esta inesperada pandemia, todos nós de um modo ou outro, estamos a sofrer com as alterações a que ela nos obriga. A adaptação ás situações adversas é uma capacidade que uns terão mais do que outros, mas é sempre difícil entender e aceitar os efeitos destes tempos conturbados nas nossas vidas.

As alterações de quotidiano impostas pela pandemia vão desde a inibição total ou parcial da expressão emocional, as dificuldades em manter o ritmo e as rotinas escolares e laborais, as limitações  nas tarefas do dia-a-dia que implicam contacto com outras pessoas, entre muitas outras que cada um poderá particularizar, consoante a sua experiência. Estas alterações obrigam a uma adaptação cognitiva, emocional e comportamental. Temos que pensar sistematicamente onde é que tocámos, que temos que desinfetar ou lavar as mãos, que temos que usar a máscara em quase todos os contextos e situações, com tudo o que o seu uso implica, quer a nível do desconforto, quer a nível da imagem ou do que falta dela.

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Psicologia e eventos traumáticos

Em psicologia, uma crise corresponde a um período de desequilíbrio psicológico, resultante da vivência de uma situação ou acontecimento que obrigue a um grau de exigência para lidar com essa situação, superior àquele com o qual o indivíduo consegue responder e que resulta na diminuição do seu funcionamento adaptativo.

O desequilíbrio psicológico e as reações ao stresse podem ser resultado das mais variadas situações ou acontecimentos altamente exigentes. O evento traumático poderá ser decorrente de uma catástrofe natural, um acidente de viação, uma doença, uma agressão, uma perda pessoal ou social, enfim, um sem número de situações que se podem constituir como traumas, consoante o grau em que afetam o equilíbrio psicológico do indivíduo. O acontecimento traumático pode ocorrer diretamente com a pessoa ou pode ter o seu impacto através do relato de outra pessoa ou da visualização, por exemplo, de uma notícia nos meios de comunicação social. Por outro lado, o mesmo evento poderá afetar de forma diferente pessoas diferentes, embora todas elas envolvidas na mesma situação. Cada indivíduo possui um conjunto de recursos, internos e externos, que lhes permitem de forma individualizada, lidarem com as situações com maior ou menor grau de adequação e equilíbrio.

Parece haver um padrão de comportamento, biológica e psicologicamente determinado, de respostas sociais, identificado em indivíduos expostos direta ou indiretamente a acontecimentos de vida de alto risco. Esse padrão comportamental de resposta designa-se por reação aguda ao stresse. Esta reação inclui manifestações cognitivas, emocionais, físicas e comportamentais. As manifestações cognitivas podem incluir a negação, as dificuldades de atenção e concentração, os problemas de memória, os sentimentos de confusão, preocupação, os pensamentos intrusivos, a reduzida autoeficácia e a dificuldade nas tomadas de decisão. As manifestações emocionais podem ser caracterizadas por sentimentos de ansiedade, depressão, medo, culpa, raiva, desespero, vulnerabilidade ou até de embotamento afetivo. No que diz respeito às manifestações físicas, estas incluem a aceleração dos batimentos cardíacos, alterações da tensão arterial, falta de ar, fadiga, dificuldades de sono, dores de cabeça, dores abdominais, alterações do apetite, entre outras. Em termos de manifestações comportamentais, estas podem englobar a fuga, o seu oposto, ou seja, o enfrentamento por luta, a imobilização, a obediência, o abandono, a agitação, etc.

A reação aguda ao stresse deve ser normalizada, isto é, é importante que o indivíduo seja ajudado a tomar consciência que aquilo que pensa, sente ou faz perante o evento traumático é normativo e por vezes adaptativo. No entanto, é igualmente importante que o indivíduo tenha a possibilidade de beneficiar de uma intervenção psicológica adequada no sentido de evitar que a situação evolua para a psicopatologia. Segundo os manuais de psicopatologia DSM-5 e CDI, conforme o tempo que medeia entre a ocorrência do evento traumático e as manifestações de perturbação psicológica, esta poderá assumir diversas nomenclaturas, entre elas, reação aguda ao stresse, perturbação aguda de stresse ou perturbação aguda de stresse pós-traumático.

Torna-se, desta forma, importante a monitorização das reações iniciais de stresse, de forma a prevenir a sua escalada e consolidação em síndromes clínicos. Na monitorização deverá ser avaliada a intensidade, a frequência e a duração das reações do indivíduo, que num bom padrão de adaptação diminuem com o passar do tempo. É frequente após ser submetido a uma situação de alto risco de vida, o indivíduo ter dificuldades de sono como insónias ou pesadelos. No entanto, é expectável que essas perturbações vão diminuindo de intensidade, frequência e duração com o passar do tempo. Quando assim não é, torna-se necessária a intervenção psicológica, no sentido de dar “ferramentas” ao indivíduo para lidar com o problema e reduzir os seus efeitos na sua vida.

Segundo a investigação nesta área, a evolução das reações de stresse pode estar relacionada tanto com os antecedentes pessoais como com as experiências pós trauma. Assim, pretende-se que mais estudos nesta área sejam levados a cabo, no sentido de se perceber melhor quais os fatores de risco para o desenvolvimento de psicopatologia posterior e quais os fatores protetores, no sentido de se poderem evitar os primeiros e potenciar os segundos.

O luto normal

O luto é a reação emocional a uma perda e o processo de adaptação a essa perda implica algumas emoções, cognições e comportamentos comuns à maioria dos seres humanos. Sentimentos de tristeza, descrença no sucedido ou o isolamento social, são exemplos de reações padrão da pessoa enlutada.

São várias as emoções normativas presentes num processo de luto, sendo as mais comuns a tristeza, com ou sem manifestações de choro; a raiva, por não ter podido fazer nada para evitar a perda; a culpa, na maioria das vezes irracional por não ter conseguido evitar a morte do ente querido; a ansiedade por ter medo de não conseguir sobreviver sem a pessoa que morreu ou pela tomada de consciência da sua própria finitude ao confrontar-se com a “partida” de alguém próximo; a solidão e o desamparo, principalmente em casos de viuvez após uma relação muito duradoura e feliz; a fadiga, especialmente se o período antecedente à morte de uma pessoa foi física e emocionalmente muito exigente para o enlutado; o alívio ou libertação, por ver terminar um sofrimento muito doloroso de alguém significativo e a saudade, esse termo tão português e que significa sentir dolorosamente a falta de algo ou de alguém que se perdeu.

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Rede de apoio social – pedir ajuda

Rede socialO relacionamento com os outros está omnipresente na vida e no dia-a-dia de todos nós. Ao conjunto de pessoas com quem temos uma relação significativa podemos chamar rede de apoio social. O apoio social pode ser definido como a quantidade e coesão das relações sociais que nos rodeiam.

É um processo interactivo que visa o bem-estar físico e psicológico. O contacto social pode promover a saúde e o bem-estar e tem provavelmente uma função de regulação da resposta emocional perante os vários factores causadores de stress. De acordo com Uchino, Uno & Holt-Lustad (1999) o apoio social pode ter várias funções: apoio informativo, apoio emocional, apoio de pertença e apoio tangível, desempenhando assim um importantíssimo papel nas nossas vidas, manifestando-se na nossa saúde física e psicológica.

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Pais separados, crianças protegidas?

Pais divorciadosA separação e o divórcio são acontecimentos hoje em dia comuns na nossa sociedade. Se para os adultos é difícil lidarem com o fim de uma relação que se acreditou ser para a vida, para as crianças, fruto dessas relações, nem sempre é mais fácil.

Para muitas crianças a separação dos pais é vivida de forma tranquila e natural. Muitos pais, optam pela separação em relação ao seu companheiro e decidem por fim a uma vida em comum, no entanto, têm o cuidado de nunca se separarem dos seus filhos. Se é certo que deixarem de viver na mesma casa pode constituir algo de difícil para as crianças, estas têm a capacidade de se adaptarem e de serem muito felizes, se os pais tiverem certos cuidados e evitarem determinados comportamentos que possam vir a afetar as crianças e de deixar marcas por vezes difíceis de reparar. Embora muitos pais tentem esconder a realidade aos seus filhos no sentido de os protegerem, esta não será a melhor forma de agir. Manter a criança ao corrente dos acontecimentos é essencial. Deve-se conversar com a criança sobre a separação, de acordo com o estádio de desenvolvimento em que ela se encontra, tendo o cuidado de lhe explicar que o amor dos pais por ela é inalterável. É fundamental que a criança entenda que o amor dos pais não será posto em causa com o divórcio, que poderá sempre gostar dos dois e que, sobretudo, não terá de fazer escolhas.

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Sociedade, cultura e mudança de atitudes

Atitudes são avaliações que fazemos de ideias, pessoas ou objetos e traduzem-se numa reação positiva ou negativa a algo. Mudar atitudes e mudar comportamentos é comum e por vezes bastante necessário à nossa adaptação aos vários contextos de vida.

A Psicologia Social tem por base o estudo da influência do meio social e das interações sociais no pensamento, sentimento e comportamento humano. Do nascimento à morte, o ser humano vive em sociedade e sobrevive pela sua interação com os outros, nos vários contextos em que se insere, construídos e modificados de modo a darem respostas às suas necessidades. O meio social interfere no comportamento e nas capacidades humanas como a memória, a personalidade ou a inteligência. Consoante a cultura em que nascem, os indivíduos ocupam-se, vestem-se, alimentam-se e relacionam-se de formas diferentes. Até em termos de valores e de moral, os cânones sociais diferem entre si, em termos de justiça, diversão, conceito de estética ou do que é certo ou errado.

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Perturbação de Stresse Pós-Traumático

Em psicologia, uma crise corresponde a um período de desequilíbrio psicológico, resultante da vivência de um acontecimento, que obriga a um grau de exigência para lidar com ele, superior àquele com o qual o indivíduo consegue responder, resultando na diminuição do seu funcionamento adaptativo.

O desequilíbrio psicológico e as reações ao stresse podem ser resultado das mais variadas situações ou acontecimentos, altamente exigentes. O evento traumático poderá ser decorrente de uma catástrofe natural, um acidente de viação, uma doença, uma agressão, uma perda pessoal ou social, enfim, um sem número de situações que se podem constituir como traumas, consoante o grau em que afetam o equilíbrio psicológico do indivíduo. O acontecimento traumático pode ocorrer diretamente com a pessoa ou pode ter o seu impacto através do relato de outra pessoa ou da visualização, por exemplo, de uma notícia nos meios de comunicação social. Por outro lado, o mesmo evento poderá afetar de forma diferente, pessoas diferentes embora todas elas envolvidas na mesma situação. Cada indivíduo possui um conjunto de recursos, internos e externos, que lhes permitem de forma individualizada, lidarem com as situações com maior ou menor grau de adequação e equilíbrio.

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Quando os filhos “ganham asas”…

Alguns pais vêm os seus filhos como eternas crianças, dependentes de si. A perspetiva de os verem um dia sair de casa pode ser um tormento para muitos. Deixar “voar o passarinho” pode não ser fácil para algumas pessoas e obriga a alguns desafios. No entanto, é necessário aprender a lidar com a situação de autonomia e independência das novas gerações.

Em psicologia, o modo como alguns pais reagem de forma negativa à saída dos seus filhos de casa, denomina-se como “síndrome do ninho vazio”. Esta síndrome corresponde ao sofrimento emocional pelo qual alguns pais passam e que por vezes é bastante perturbador do seu funcionamento.  Perante a inevitabilidade dos jovens se tornarem independentes e por mais ligados que os pais estejam, lidar com essa situação vai ser também inevitável. Em alguns casos, os pais não possuem as ferramentas necessárias para ultrapassarem esta fase de forma adaptativa, podendo para isso recorrer a um psicólogo, no sentido de encontrarem em conjunto os recursos internos e/ou externos que cada um tem ao seu dispor. A fragilidade emocional pode levar por vezes à sensação de abandono, de solidão e de vazio, que pode conduzir a situações de depressão, de maior ou menor gravidade…

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Adolescência e Covid-19

A adolescência é um período da vida humana especialmente complexo e ambíguo. A vontade de crescer e de se tornar adulto e autónomo, colide por vezes com a vontade de se manter criança, livre de responsabilidades ou encargos. “Entre o medo e o desejo de crescer” (Manuela Fleming).

Se para nós adultos a situação de pandemia causada pelo vírus Covid-19 está a revelar-se difícil de ultrapassar, na medida em que encerra em si diversos desafios, principalmente de adaptação a uma nova realidade, para os adolescentes, pelas suas características, o desafio pode estar a ser mais difícil de vivenciar. As súbitas alterações das rotinas e do estilo de vida de muitos jovens, a par com a dificuldade que alguns possam ter em cumprir as regras de conduta adequadas no contexto atual, pode levar a situações de grande sofrimento emocional, de isolamento, aumento dos níveis de ansiedade, depressão ou problemas de comportamento. No futuro, também poderá vir a tornar-se um problema o retomar hábitos, horários e rotinas anteriores.

E como podem os pais ajudar os seus filhos adolescentes a passarem por esta fase com o menor dano possível? Em primeiro lugar deverão informar os seus filhos sobre a realidade atual. Essa informação passa por fornecer informação fidedigna ou orientar os jovens na procura de informação adequada nos meios de comunicação disponíveis. A informação é o ponto de partida para o entendimento da situação e para a adoção de medidas de proteção e segurança para evitar a contaminação. Uma boa informação ajudará certamente na aceitação do problema e esta será a melhor estratégias para se lidar com algo que é inevitável.

Manter as rotinas possíveis é extremamente importante. Com o fecho das escolas houveram muitas alterações em termos de horários. As horas de deitar, de acordar, de fazer as refeições, etc., podem sofrer grandes alterações devido às mudanças inevitáveis causadas pela adaptação à situação e pelo confinamento necessário. No entanto, é muito importante para o bem-estar geral, que o dia-a-dia seja estruturado de modo a que tudo o que for possível seja mantido, programando e executado. Dever-se-á estabelecer uma hora fixa de levantar, fazer a higiene diária e tomar o pequeno-almoço adequada à situação de cada jovem em termos de exigências escolares ou académicas. Nos dias do fim-de-semana esses horários poderão ser flexibilizados, à semelhança do que eram em tempos “normais”, no sentido de manter uma diferenciação entre os dias de semana e os dias de descanso semanal.

Planear as atividades diárias, quer escolares como lúdicas e destinar um tempo para cada uma delas, poderá ser o modo mais fácil de as cumprir e de dar sentido aos dias. No final do dia o jovem terá a possibilidade de verificar de que forma conseguiu cumprir o planeado e refletir sobre as tarefas efetuadas, ao mesmo tempo que tem a possibilidade de reestruturar as suas tarefas de forma mais eficaz, se sentir essa necessidade. Os pais devem ficar atentos às atividades dos jovens, no sentido de os ajudarem e apoiarem em algumas tarefas com as quais eles possam ter maiores dificuldades. Por outro lado, esse acompanhamento deverá ser positivo e reforçador. Elogie cada esforço do seu filho para se adaptar às novas realidades e para cumprir com as exigências escolares. Lembre-se sempre de que esta é uma situação nova e difícil para todos e procure ser tolerante na relação com o adolescente, sem descurar o estabelecimento de regras e limites.

E como ser tolerante quando o comportamento do jovem é difícil, desafiante ou desobediente? Antes de mais expresse sempre o seu amor pelos seus filhos, qualquer que seja a sua idade, adequando as suas palavras e gestos, claro. O que poderá estar em causa e provocar-lhe desagrado é o comportamento do seu filho e não ele. Validar os sentimentos dos jovens é muito importante. Permitir que expressem as suas emoções, que coloquem as suas dúvidas e que manifestem as suas dificuldades, vai certamente ajuda-los a lidarem com os problemas decorrentes da situação atual. A vivência dos afetos é importante em todos os momentos, principalmente quando estes são mais instáveis e difíceis de nos adaptarmos.

Por fim, procure integrar o seu filho adolescente nas atividades da família para promover o convívio e evitar o isolamento. Destine um tempo em família para fazer atividades em conjunto como jogos de tabuleiro, assistir a filmes, partilhar tarefas como a culinária, ou outras que sejam do agrado de todos. Se o seu filho adolescente tem dificuldades ao nível dos relacionamentos sociais, promova o contacto dele com colegas e amigos através dos meios de tecnologia existentes. Isolamento social não significa deixar de comunicar com os outros mas sim manter-se fisicamente afastado dos outros. Hoje em dia, a tecnologia permite inúmeras interações, que na dose certa podem ser muito gratificantes. E tenha muita paciência e calma, aos poucos e com muitos cuidados, a vida irá seguindo o seu curso.

Confinamento, culinária e excesso de peso

Nestes tempos de pandemia, o confinamento em casa parece ter despertado em algumas pessoas um cozinheiro/pasteleiro, anteriormente adormecido. As redes sociais dão notícia de belos petiscos, grandes cozinhados, soberbos bolos e fantásticas sobremesas que saem das mãos daqueles que se encontram em casa e que utilizam a culinária como estratégia de distração e de ocupação de algum tempo que agora lhes sobra.

Mas se por um lado, explorar os dotes culinários pode ser uma excelente forma de ultrapassar esta fase tão difícil para todos nós, por outro lado, e, aliado a um decréscimo na atividade física, está o perigo de engordar! É sabido que o excesso de peso se constitui como um fator de risco para o aparecimento de doenças, nomeadamente doenças cardiovasculares. Por outro lado, também é do conhecimento geral, que muitas vezes se compensam com a ingestão de comida, alguns défices socio-emocionais como a falta de abraços, beijinhos, convívio com familiares e amigos, enfim, a ausência de partilha dos afetos. Do mesmo modo, o medo do que não se sabe estar para vir e a ansiedade causada quer pelas notícias, quer pelo facto de as rotinas e hábitos terem sido completamente alterados, é muitas vezes compensada com “comida de conforto”, expressão que habitualmente designa alimentos altamente calóricos e docinhos…

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