Quem cuida do cuidador?

Cuidadores informais

Ser Cuidador Informal implica uma enorme sobrecarga a nível físico, psíquico, social e financeiro. Todos os benefícios que possam ser atribuídos a estas pessoas irão ajudar na manutenção da sua saúde, do seu bem-estar e da sua qualidade de vida.

São considerados Cuidadores Informais, os cônjuges ou unidos de facto, parentes ou afins até ao quarto grau da linha reta ou da linha colateral da pessoa cuidada, que acompanham e cuidam dela de forma permanente ou regular. Estima-se que em Portugal existam entre 230 mil a 240 mil pessoas cuidadas em situação de dependência. O Estatuto do Cuidador Informal foi aprovado em 2019 por uma lei que tem como objetivo regular os direitos e os deveres do cuidador e da pessoa cuidada, estabelecendo as respetivas medidas de apoio, entre as quais a atribuição de um subsídio de apoio, o descanso a que têm direito e medidas especificas relativamente à sua carreira contributiva ou proteção laboral, no caso do cuidador não principal, isto é, aquele que cuida de forma regular mas não permanente.

Cuidador informalO Cuidador Informal Permanente é aquele que vive em comunhão de habitação com a pessoa cuidada e que por esse motivo não pode exercer uma atividade profissional nem receber qualquer remuneração decorrente da mesma, ou pelos cuidados que presta à pessoa cuidada. Por outro lado, o Cuidador Informal Regular poderá ou não auferir uma remuneração por atividade profissional ou pelo apoio prestado à pessoa cuidada. Assim, qualquer que seja o tipo de cuidados informais que presta, permanentes ou regulares, o Cuidador Informal é alguém que dedica o seu tempo e os seus recursos enquanto pessoa, no cuidado ao outro, abdicando por vezes de uma carreira profissional ou limitando a progressão da mesma, quase sempre por amor e muitas vezes com pouco reconhecimento por parte da sociedade.

Estatuto de cuidador informalSendo a pessoa cuidada total ou parcialmente dependente, por motivos de doença, quer física, quer mental ou muitas vezes a conjugação de ambas, o papel do cuidador é de extrema importância, responsabilidade, dedicação e exigência. Cuidar de um doente não é tarefa fácil, nem em termos físicos mas sobretudo em termos emocionais. Entre os principais problemas sentidos pelos Cuidadores Informais destacam-se o stresse, o isolamento, a exaustão física e/ou psicológica, as dificuldades financeiras ou a instabilidade laboral, porque trabalham sem horário, sem dias de descanso, sem vencimento, e na maioria das vezes sem a formação adequada para fazerem face à situação em que se encontram. A estas pessoas falta também o tempo para si mesmos,  a disponibilidade para as atividades lúdicas e para a manutenção das suas relações sociais, o que contribui para a degradação do seu bem-estar físico e psicológico.

Cuidar de quem cuidaE então o que vai acontecer com essas pessoas que dedicam as suas vidas a cuidar dos outros? Deixam de ter vida própria, colocam em causa a sua própria saúde física e emocional por carregarem um fardo tão pesado? Pois é, há que dar a essas pessoas as ferramentas necessárias ao desempenho de tão nobre função mas também fornecer-lhes acompanhamento e capacitação para que se possam preservar enquanto indivíduos e manter alguma da sua qualidade de vida. A par dos apoios financeiros que possam ser atribuídos pelo estado, a participação em workshops e formações acerca da doença/problemática da pessoa cuidada, poderá fornecer aos cuidadores, meios de compreensão mas também de uma atuação mais adaptativa perante a realidade que vivenciam. O apoio psicológico e a promoção de apoio social poderão ser benéficos, quer no alívio da sintomatologia depressiva ou ansiosa tão comum nos cuidadores, como na sua reintegração na sociedade, quando em caso de morte da pessoa cuidada, o seu papel termina.

Cuidadores informaisVoltar a estar laboral e socialmente ativo pode ser mais difícil do que possa parecer. Após um longo período, por vezes muitos anos, a cuidar de alguém que está completamente dependente obriga a uma exclusividade total e à renúncia de muitas atividades salutares. As rotinas instalam-se e as pessoas perdem alguns hábitos que por opção própria lhes traziam felicidade. Retomar hábitos perdidos, relações interrompidas por falta de disponibilidade, atividades suspensas por falta de recursos financeiros ou tempo, pode ser tarefa difícil quando a situação de repente se altera. Por vezes, aliado ao sentimento de alívio de ver terminar o sofrimento de alguém de quem se cuidou, pode estar um sentimento de culpa. De repente o cuidador vê-se sem a pessoa de quem cuidava, sem as tarefas que lhe preenchiam o dia e por vezes a noite. Há casos em que o retomar da “normalidade” é difícil, não só porque se perdeu o “fio condutor” mas também porque a pessoa fica numa situação de enorme fragilidade emocional.

Cuidar de quem cuidouA intervenção psicológica pode dar uma boa ajuda. Programas de estruturação comportamental juntamente com o apoio à expressão emocional podem fazer toda a diferença, no retomar de uma vida que se quer feliz.

Procure a Sua Psicóloga!

 

 

Lei n.º 100/2019 – Diário da República n.º 171/2019, Série I de 2019-09-06

 

 

Solidão na velhice: compreensão, prevenção e intervenção

RnvelhecerO processo de envelhecimento pressupõe inevitavelmente uma degradação progressiva e diferencial do indivíduo. É um processo que ocorre e se manifesta a vários níveis, pois a velhice associa-se a um conjunto de alterações biológicas, psicológicas, funcionais e sociais que variam de indivíduo para indivíduo.

Não sendo a idade um fator determinante, constitui-se como mais uma variável a levar em consideração no processo de envelhecimento. A par com o passar do tempo, destacam-se também as características individuais como a personalidade, a história e os hábitos de vida do sujeito. Uma pessoa mais ativa será tendencialmente mais funcional, até mais tarde na vida, em suma, terá uma melhor qualidade de vida e autonomia. O envelhecimento ativo é visto como um meio que procura otimizar as oportunidades para a saúde e manter a participação e a segurança, no sentido de aumentar a qualidade de vida ao longo do envelhecimento. Continuar a ler

Ano Novo, ansiedade velha…

AnsiedadeSentir ansiedade em determinadas situações pode ser comum e normativo. A ansiedade e o medo protegem-nos e podem ser adaptativos, no entanto, se forem em excesso limitam-nos, interferem no nosso dia-a-dia, impedem-nos de cumprir as nossas rotinas, baixam a nossa qualidade de vida e podem mesmo conduzir a outras perturbações como por exemplo a depressão.

Importa diferenciar a ansiedade “normal” de perturbação de ansiedade, uma vez que ter medo ou ficar ansioso é em muitas situações muito adaptativo. Termos medo que um automóvel nos possa atropelar ajuda-nos a dar mais atenção quando atravessamos uma estrada. Ficarmos levemente ansiosos perante um exame académico leva-nos a sermos mais cuidadosos na preparação do mesmo e possivelmente a obter um melhor resultado. No entanto, medo e ansiedade em excesso podem chegar ao ponto de nos impedir de sair à rua com medo de sermos atropelados ou a deixarmos de comparecer no dia do exame por medo de não o conseguirmos fazer. Este tipo de comportamentos são típicos de uma perturbação de ansiedade e não de ansiedade normativa. Deve ser encarado como um problema de saúde psicológica, que de maior ou menor gravidade, sempre que interfere com a funcionalidade do indivíduo, deve ser tratado e não ignorado.

AnsiedadeAs perturbações de ansiedade que surgem muitas vezes ainda durante a infância, se não forem alvo de intervenção, tenderão a perpetuar-se no tempo e a agravar-se, podendo tornar-se muito incapacitantes e obrigando muitas vezes a soluções como a toma de ansiolíticos e antidepressivos. As manifestações de ansiedade exagerada e limitativa da funcionalidade do indivíduo por um período de seis meses traduzem seguramente uma situação com significado clínico, sendo estes os casos em que a intervenção fará toda a diferença.

AnsiedadePara ajudar os que sofrem de perturbações de ansiedade, à semelhança de outro tipo de problemas, é necessário avaliar cuidadosamente o caso. A ansiedade tem diversas faces e para cada uma delas, as técnicas e estratégias de intervenção podem ser distintas. Após a avaliação do caso, podemos concluir que a pessoa tem uma perturbação de ansiedade generalizada, ou seja, uma preocupação excessiva perante uma multiplicidade de situações sem que haja um fator específico que a justifique. Frequentemente a pessoa sente-se perturbada e ansiosa em situações do quotidiano que se relacionam com a família, a escola, o trabalho, a saúde ou as finanças, perspetivando sempre o pior cenário. Outra variante das perturbações de ansiedade é a ansiedade social, que se caracteriza pelo sentimento de medo e aflição perante eventos que envolvem exposição ou avaliação do indivíduo. Falar em publico, atuar para uma plateia, colocar questões ao professor numa sala de aula, reunir com a equipa de trabalho ou com as chefias, podem ser exemplos de situações que muitas pessoas sentem com extremamente ansiogéneas e perturbadoras do seu funcionamento.

AnsiedadeA perturbação de stresse pós-traumático é outra variante e pode desenvolver-se após a vivência de um acontecimento que tenha provocado grande distúrbio no indivíduo, descrito como trauma. A recordação do mesmo ou a associação desse acontecimento a outro, pode desencadear reações de extremo sofrimento. As perturbações fóbicas caracterizadas pelo medo irracional de algo que em consciência sabemos não ser perigoso, é outra das faces das perturbações de ansiedade que pode ser muito limitativa. O evitamento é a estratégia habitualmente mais utilizada pelo indivíduo, que chega a fazer grandes alterações na sua vida, muito desadaptativas, de forma a evitar o elemento fóbico. No caso das crianças (mas não só) é muito comum a perturbação de ansiedade de separação. A pessoa ansiosa sente grande desconforto e a exacerbação dos sintomas de ansiedade cada vez que pensa ou que se vê confrontada com a possibilidade de ter que se afastar, ainda que por pequenos períodos de tempo, dos seus elementos de referência, como pais, cuidadores, parceiros, etc. É de referir ainda as situações de pânico (ataques de pânico) que surgem habitualmente sem causa direta e que podem ocorrer em qualquer momento, manifestando-se com sintomas fisiológicos muitas vezes confundidos pelo próprio com um “ataque de coração” em que a pessoa pensa que vai morrer, levando muitas vezes a uma intervenção química na urgência do hospital.

AnsiedadeE afinal o que sente uma pessoa que tem uma perturbação de ansiedade? Os sintomas mais comuns numa perturbação de ansiedade são a tensão muscular, irritabilidade, tremores, sensação de falta de ar, sudação excessiva, dores de cabeça, náuseas, dores de barriga, fadiga, dificuldade de concentração, inquietação e dificuldades de sono, entre outras. Muitas pessoas têm dificuldade em identificar os sintomas e relacioná-los com a ansiedade, no entanto, se aprenderem a reconhecer os sinais do seu corpo poderão evitar uma escalada dos mesmos, que pode conduzir a situações bem mais difíceis de controlar.

AnsiedadeE porque é que algumas pessoas sofrem este tipo de perturbações? Muitas das perturbações de ansiedade não têm ainda identificada a sua causa, principalmente se nos referirmos às perturbações de ansiedade generalizada. Porém, existem alguns fatores que podem contribuir para o seu desenvolvimento como é o caso da vulnerabilidade genética. A ansiedade e os comportamentos a ela associados também se aprendem, ou seja, pais ansiosos têm comportamentos que são modelados pelos filhos, podendo estes “aprender a serem ansiosos”. A “química” do nosso cérebro parece também contribuir para a relação causa-efeito nas perturbações de ansiedade, na medida em que estas têm sido associadas a um funcionamento irregular dos circuitos neuronais e da neuro transmissão, nas áreas cerebrais envolvidas no processamento do pensamento e controlo das emoções. As substâncias que alimentam estes circuitos (neurotransmissores) parecem sofrer uma desregulação e produzir alterações em indivíduos ansiosos. Outros fatores apontados como causas para as perturbações de ansiedade prendem-se com questões do contexto de vida do indivíduo, ou seja, exposição contínua a eventos causadores de stresse ou traumas. Quer o consumo como a privação de substâncias psicoativas como o álcool, a nicotina ou outras, podem também ser incluídos como determinantes de algumas situações de perturbações de ansiedade. Porém, não são raros os casos em que este tipo de perturbação ocorre sem causa conhecida levando a crer que a vulnerabilidade individual não tem uma causa única e identificada.

CérebroSe se identifica com alguma das situações descritas neste artigo, talvez tenha a ideia de incluir nas suas resoluções de Ano Novo, a procura de ajuda.  Sabendo que as perturbações de ansiedade são um dos problemas de saúde mental mais comuns na população em geral, sabe-se também que são causadoras de um grande sofrimento humano levando ao aumento do consumo de medicamentos, com tudo o que estes têm de bom e de mau. Peça apoio à Sua Psicóloga para avaliar o seu caso, ou o do seu filho, para definir um plano de intervenção de acordo com o diagnóstico e junte-se a ela numa caminhada rumo à tranquilidade.

Ano Novo

Feliz Ano de 2020!

Videojogos: uso, abuso ou adição?

VideojogosNos tempos modernos, o desenvolvimento das tecnologias deu origem aos videojogos e à possibilidade de interação através dos meios digitais online. Essa interação, assim como os comportamentos associados, podem trazer tanto benefícios como ser bastante prejudiciais, consoante se trate de uso, abuso ou adição.

Apelativos pelo seu aspeto gráfico, pelas cores, pela música, pela recompensa imediata do somar dos pontos, do passar de níveis, enfim, seja pelo que for, os videojogos são efetivamente uma realidade cada vez mais cedo presente nas vidas das nossas crianças e jovens. Alguns pais, por sua vez, sentem grandes dificuldades para entenderem esta realidade e para lidarem com os comportamentos dos seus filhos mas também com as consequências que deles advêm. Perguntas como “quanto tempo pode o meu filho jogar por dia sem que seja prejudicial”? Ou “que tipo de jogo é adequado ou desadequado para a idade do meu filho”? são frequentes, numa tentativa de conciliar vontades, evitar conflitos ou lidar com dificuldades que podem advir desta realidade.

EletrónicoOs videojogos não são eleitos apenas pelos mais novos, ou seja, as tecnologias que já não são assim tão novas como isso, acompanham já algumas gerações levando a que hoje em dia hajam já pais com comportamentos idênticos aos dos seus filhos, ou seja, pais que servem como modelos aos seus filhos no que diz respeito à utilização dos dispositivos eletrónicos, nomeadamente dos videojogos. Assim, qualquer conselho ou dica que possam retirar deste texto, poderá ajudar os pais a orientar as suas crianças mas também podem servir como linhas orientadoras para si mesmos.

VideojogosAntes de mais convém referir que os videojogos não são apenas perigosos e nocivos. Pelo contrário, podem até ser bastante educativos, estimulantes e podem ajudar a desenvolver algumas competências. Por exemplo, em termos de benefícios cognitivos, jogar poderá melhorar a capacidade de concentração da criança. A capacidade de detetar objetos num campo cheio de distratores de cor e movimento, pode ajudar à atenção ou até a controlar a impulsividade. O funcionamento executivo poderá também ser melhorado, por exemplo através do desenvolvimento da capacidade de realizar mais do que uma tarefa ao mesmo tempo. A competência de resolver problemas e a flexibilidade intelectual podem ser dimensões do funcionamento mental a serem favorecidas pela realização de jogos digitais, já para não falar da prevenção ou atraso do aparecimento de quadros demenciais.

ConsolasNa dimensão social, os videojogos podem também trazer benefícios aos seus utilizadores. Estes podem desenvolver competências como a cooperação que tende a generalizar-se para as suas relações na vida real. No campo das emoções, os videojogos são “peritos” na sua estimulação, podendo aumentar o humor, estimular sentimentos positivos mas também permitir o treino da autorregulação de sentimentos mais desadaptativos.

VideojogosMas atenção, os benefícios podem facilmente ser “abafados” pelos prejuízos de uma utilização desadequada. Sintomas como a perda de interesse por outras atividades próprias da etapa do desenvolvimento em que a criança/adolescente se encontra, perda de interações pessoais, de relações afetivas, isolamento, desinteresse pela escola e pelo estudo  (ou pelo trabalho no caso dos adultos) pela dedicação quase exclusiva aos videojogos, dificuldade em controlar o humor sem ser através da prática do jogo, sintomas de abstinência perante a impossibilidade de jogar ou o uso contínuo e excessivo destas atividades mesmo  tendo conhecimento dos riscos, são sinais de alerta aos quais os pais deverão estar atentos, quer nos seus filhos, quer em si mesmos, se for o caso. Estes sintomas não podem ser vistos de modo isolado e deverão sempre ser confirmados por um profissional de saúde, nomeadamente da área da psicologia ou da psiquiatria.

VideojogosHá dois fatores primordiais a ter em conta para o controlo e prevenção de uma perturbação de adição aos videojogos. Um dos fatores é o tempo. O tempo que cada indivíduo passa a jogar depende do modo como a sua vida diária está estruturada e poderá ser variável de pessoa para pessoa. No entanto, no caso das crianças/adolescentes, o tempo deverá sempre ser controlado de acordo com as novas normas da Organização Mundial de Saúde (OMS) para o tempo de écran. O equilíbrio entre o tempo despendido com atividades de jogos digitais e as outras atividades de vida saudável de uma criança pode ser o segredo. Colocar limites temporais para a utilização dos écrans e saber fazer cumprir as regras estabelecidas, de forma harmoniosa, pode fazer toda a diferença. A par do tempo de utilização estão os conteúdos, isto é, definir quais os jogos adequados para cada faixa etária e respeitar as normas de utilização deverá também ser uma preocupação para os pais e cuidadores.

Gamming

Por outro lado, perceber a vulnerabilidade da criança ou do sujeito para a adição, pode também ajudar a preveni-la. A ciência diz-nos que não são os videojogos que viciam as pessoas, mas sim as pessoas é que se viciam nos videojogos, e, que os mecanismos neurobiológicos são semelhantes em qualquer tipo de adição, mesmo que seja química. Á semelhança de outras adições, a causa parece não ser a atividade em si mesma mas sim a sua prática excessiva e prejudicial que acontece, frequentemente associada às necessidades psicológicas do sujeito, criança ou adulto, como sentimentos de falta de competência, de pouca autonomia ou da manutenção de relações sociais insatisfatórias que podem ter como consequência uma enorme tristeza e insatisfação com a vida, perante a qual os videojogos possam ser utilizados como mecanismo de fuga.

AdiçõesAssim, o uso das tecnologias e dos videojogos é uma inevitabilidade hoje em dia, sobretudo para as gerações mais jovens. A questão que se coloca é se conseguimos todos nós evitar que o uso se torne abuso, disfuncional e prejudicial em qualquer idade ou condição, e, pior ainda evitar que a utilização abusiva possa conduzir à adição, situação em que a dificuldade de se lidar com o problema aumenta significativamente. Identifique os riscos, aja o mais cedo possível e se não conseguir obter resultados satisfatórios, procure ajuda junto à sua psicóloga!

 

A pirâmide das necessidades

NecessidadesSe comer, dormir e respirar são três das necessidades básicas do Homem, estas referem-se apenas a necessidades fisiológicas. No entanto, há outras necessidades nas quais nem sempre pensamos como sendo básicas e essenciais ao funcionamento do ser humano, mas que são importantes e sem as quais não poderá haver equilíbrio, harmonia e plena satisfação com a vida.

Na década de 50 do século passado, o psicólogo norte-americano Abraham H. Maslow teorizou acerca desta temática e criou a Pirâmide de Maslow ou a Hierarquia das Necessidades, tendo como objetivo determinar o conjunto de condições necessárias ao Homem, para que este possa alcançar a satisfação com a vida, quer a nível pessoal como profissional ou social. O autor considera a organização das necessidades de forma hierárquica, ao defender que estas se agrupam conforme o grau de importância e urgência na sua satisfação.

Hierarquia das necessidadesAssim, para Maslow é a perspetiva de satisfação dessas necessidades que se constitui como a motivação no sujeito. A apresentação em pirâmide serve o propósito de hierarquizar as necessidades, ou seja, coloca as mais básicas e indispensáveis à sobrevivência na sua base e à medida que se vai aproximando do topo, são colocadas as necessidades de maior complexidade e elaboração.

Necessidades de MaslowLogo depois das necessidades fisiológicas, que visam a sobrevivência, entrte elas respirar, comer, beber, dormir, sexo e abrigo, o segundo nível refere-se às necessidades de segurança. A segurança física e de saúde, familiar, no trabalho, de propriedade/recursos são fundamentais para que o indivíduo sinta proteção e garantia de ter soluções para lidar com situações que possam ocorrer. O nível seguinte refere-se às necessidades sociais, isto é, as relações de amizade, amor, familiares ou de convívio com colegas que se manifestem por sentimentos de aceitação perante os outros e sentido de pertença a um ou vários grupos.

Pirâmide das necessidades Antes de chegar ao topo da pirâmide encontram-se as necessidades relacionadas com a estima. Estas englobam a autoestima, autoconceito, autoconfiança, respeitabilidade, reconhecimento e conquista. Por fim, o topo da hierarquia integra as necessidades de autorrealização. Estas são primordiais para que a pessoa alcance a verdadeira realização pessoal e profissional. Entre elas estão a moralidade, os valores, a liberdade, a independência, a autonomia, a criatividade, a autenticidade, o controlo das emoções e o autoconhecimento. Para a satisfação destas necessidades o indivíduo terá que ter a capacidade de refletir e ter um bom conhecimento de si próprio, no sentido de obter a plenitude.

Necessidades básicasSegundo o autor, a regra de que um nível deve ter sido atendido antes de o indivíduo avançar para o próximo deveria ser respeitada, porém, hoje em dia a pirâmide é vista como uma estrutura mais flexível, sendo possível que um determinado fator de um dos níveis não seja tão relevante para a motivação de um determinado indivíduo. Por outro lado, é também provável que uma pessoa possa procurar ativamente realizar as suas necessidades, privilegiando um determinado nível em detrimento de outro.

MaslowPosteriormente Maslow identifica outras três necessidades: a necessidade de aprendizagem, a necessidade de satisfação estética e a necessidade de espiritualidade. Para melhor compreender o mundo que o rodeia e a ele se adaptar, o sujeito tem a necessidade de adquirir conhecimento e de aprender ao longo da vida. A beleza, a simetria e a arte buscam a perfeição e orientam para a necessidade relacionada com a estética. A conexão com os elementos da natureza, da espiritualidade e da fé compõem as necessidades de transcendência, fundamentais para que alguns indivíduos vivam a sua integridade enquanto seres humanos.

Necessidades básicasA Pirâmide de Maslow é uma ferramenta com grande potencial pois pode ajudar no processo de autoconhecimento, principalmente na identificação e compreensão dos fatores que despertam a motivação em cada um, de nós. Para nos mantermos motivados e focados nos nossos objetivos temos que saber o que nos impulsiona na sua direção. Assim, recorrendo à Hierarquia de Necessidades podemos identificar em que nível se encontram as nossas metas, entendendo melhor o que procuramos e encontrando mais caminhos para as atingir. Em contexto de trabalho, por exemplo, a Pirâmide de Maslow pode ajudar as empresas a garantir que as suas equipas se mantêm motivadas. Pessoas com as suas necessidades básicas atendidas geram um ambiente mais saudável, criativo e produtivo. A manutenção da motivação é capaz de reduzir custos, potenciar resultados, diminuir a rotatividade e melhorar a otimização dos recursos humanos.

 

Fonte:

http://highgatecounselling.org.uk/members/certificate/CT2%20Paper%201.pdf

 

 

Tricotar, relaxar e não só!

Tricot e psicologia

Tricotar ou a arte de entrelaçar os fios é uma atividade antiga mas que mantém muitos adeptos ainda nos dias de hoje. Útil para fazer roupas e acessórios, por vezes utilizado como passatempo, o tricot pode ter um importante efeito terapêutico, relaxante e não só.

O tricot é uma arte inicialmente desenvolvida por mulheres mas nos dias de hoje, parece ocupar já um espaço considerável na vida de muitos homens. A par da utilidade dos trabalhos tricotados que vão desde cachecóis, gorros, meias, camisolas, casacos ou mantas, entre outros, o tricot tem um efeito muito positivo naqueles que o escolhem como passatempo. Os seus efeitos terapêuticos, bem como de outras técnicas de fazer malha, são diversos e muito eficazes. Por um lado tricotar relaxa, potencia a meditação e descontrai, podendo ajudar a aliviar a tensão acumulada ao longo do dia. Por outro lado, tricotar ajuda a desenvolver as habilidades motoras e promove a capacidade de concentração e de atenção. A criatividade é outra competência que pode ser desenvolvida através do tricot. Planear, desenhar a peça, executar e alterar, são formas importantes de colocar a criatividade em movimento e a cabeça a pensar. O tempo do tricot pode ser um tempo de introspeção, de análise pessoal e de reflexão, potenciando a tomada de decisões ou a resolução de problemas.

Psicologia e tricotTricotar pode ser um acto isolado mas também pode promover a aprendizagem e a socialização, se a prática for executada em grupo. A troca de ideias, de opiniões, de ajuda de peritos nas técnicas mais elaboradas, promovem o convívio e a partilha. Fazer, desmanchar e voltar a fazer, corrigir erros, experimentar novos pontos ou técnicas, são estimulantes do ponto de vista cognitivo e psicomotor. Tecer malhas em grupo permite que se teçam histórias, lembranças, memórias, viagens ao passado, exploração do presente e projeções futuras.

Psicologia e tricotSendo esta uma atividade prazerosa, o cérebro produz substâncias como as endorfinas que são responsáveis pela sensação de bem-estar e redução do stresse. Assim, o tricot pode ser visto como calmante e como forma de controlar a ansiedade. Pessoas com problemas de onicofagia, frequentemente associada a quadros ansiosos, podem beneficiar desta prática uma vez que estando as mãos ocupadas a tecer malhas, inibem os comportamentos de roer as unhas.  À semelhança de outras atividades manuais, o tricot pode contribuir de forma positiva para o bem-estar psicológico. De salientar o sentimento de autoeficácia de quem termina um trabalho, o orgulho de se ter feito “aquela camisola para o filho” ou por terem saído das próprias mãos alguns dos presentes de Natal, é certamente muito gratificante.

Psicologia e tricotTricotar não é apenas um passatempo mas sim o estabelecimento de metas e objetivos. O que se escolhe fazer, o prazo definido, o valor atribuído, os esforços necessários para a conclusão do projeto, podem ser formas de estruturação comportamental, tão importantes por exemplo, nos casos de depressão. Também a estimulação cognitiva que tricotar permite poderá ser benéfica no atraso das demências. Parece também que o facto de nos concentrarmos numa atividade que se baseia na repetição, acalma e pode ajudar a induzir o sono. Perante tantas vantagens e benefícios para as nossas vidas, porque não experimentar? Deixe-se levar pelo conforto da lã macia, escolha uma cor do seu agrado e mãos à obra! A Internet está cheia de tutoriais que ensinam desde os pontos mais básicos aos mais elaborados. Dizer que não sabe fazer não é desculpa. Em alternativa, há sempre uma avó ou uma tia que podem ensinar ou inscreva-se num workshop que muitas vezes decorrem nas lojas de lãs e divirta-se!

Psicologia e tricot

 

 

Delírios, alucinações e outras perturbações

PsicoseAs perturbações do espectro da esquizofrenia e outras perturbações psicóticas referem-se a anomalias em um ou mais domínios, como delírios, alucinações, pensamento desorganizado, comportamento motor anormal ou grosseiramente desorganizado e sintomas negativos.

Os delírios referem-se a crenças fixas que não mudam perante a evidência oposta, ou seja, a pessoa não consegue deixar de acreditar em algo mesmo que lhe seja apresentada evidência concreta do contrário. Por exemplo, o delírio persecutório que corresponde à crença do sujeito em que vai ser prejudicado, perseguido ou incomodado por uma determinada pessoa ou grupo, é um dos mais comuns. O delírio de grandiosidade refere-se a casos em que o sujeito acredita ter habilidades excecionais, fortuna ou fama. O delírio de referência prende-se com o facto de o indivíduo acreditar que determinados comentários, gestos ou estímulos do ambiente são dirigidos a si. Estes parecem ser os delírios mais comuns nas perturbações do espectro da esquizofrenia, no entanto há que referir ainda o delírio erotomaníaco que significa que a pessoa acredita falsamente que alguém está apaixonado por si, o delírio niilístico que corresponde à convicção de que vai ocorrer uma catástrofe e o delírio somático, que é focado em preocupação com a saúde e com as funções orgânicas. Continuar a ler

Resolução de problemas

Tomada de decisãoÉ comum ouvir-se dizer que todos temos problemas. Uns de nós mais dados a “problematizar” e outros menos, o facto é que os problemas existem e andam por aí para serem resolvidos, caso contrário, permanecem como uma nuvem negra que paira sobre as nossas cabeças, incomodando, incomodando…

Há problemas e problemas, ou seja, há problemas de fácil resolução, na medida em que sabemos exatamente o que fazer para nos livrarmos deles, mas há outros, que por várias ordens de razão, são mais difíceis de solucionar pois implicam a tomada de decisões importantes que têm que ser bem ponderadas. Vários são os fatores que contribuem para a dificuldade que possamos ter em resolver um determinado problema. Ou porque o assunto implica gastos inesperados, ou porque nos obriga a alterar as nossas rotinas e vem revolucionar o nosso quotidiano, ou porque pode causar algum tipo de conflito ou mal-entendido com alguém ou porque nos encontramos num período particularmente difícil, em termos emocionais, o que nos condiciona e dificulta a tomada de decisão. Certo é que resolver um problema nem sempre está ao nosso alcance mas também é certo, que muitas vezes está, só não sabemos como. Continuar a ler

OncoSexologia

OncoSexologiaDecorreu nos passados dias 3 e 4 do corrente, no Instituto Português de Oncologia Francisco Gentil em Lisboa )IPO), o Congresso Nacional de OncoSexologia, cujo foco incidiu sobre o impacto do cancro na sexualidade.

O referido evento contou com a participação de palestrantes e formadores com “cartas dadas” na área da oncologia em Portugal, nomeadamente em urologia, ginecologia, endocrinologia, cirurgia plástica e reconstrutiva, enfermagem, psiquiatria e psicologia, entre outros. Participaram também outros oradores representantes de áreas distintas como a representação ou o jornalismo, com intervenções igualmente relevantes. Este congresso com caráter formativo abordou numa área tão específica como importante para o bem-estar e qualidade de vida dos indivíduos. Aberto à comunidade médica mas também a outros técnicos de saúde, nomeadamente enfermeiros e psicólogos, este foi um momento de formação, informação, sensibilização, reflexão e partilha. O curso abarcou temas como a sexualidade humana no Século XXI – do normal ao disfuncional; o sexo, a sexologia e a comunicação; a sexualidade na perspetiva do envelhecimento e da sobrevivência; inovação e reabilitação em OncoSexologia e ainda os workshops sobre treino de comunicação em OncoSexologia e os problemas sexuais no homem e na mulher com cancro.

CancroOs formadores/oradores têm formação e vasta experiência nesta matéria, tendo alguns deles sido os fundadores da Clínica de OncoSexologia do IPO de Lisboa, em funcionamento desde 2009. Esta consulta destina-se à comunidade de doentes do IPO Lisboa e colabora de modo formativo e informativo com outras entidades de saúde nacionais. A necessidade de desenvolvimento de trabalhos nesta área específica prende-se com o facto de os doentes oncológicos poderem manifestar perturbações do desejo ou do interesse sexual e dificuldades nas relações sexuais, durante ou após os tratamentos. No entanto, constrangimentos ou inibições de ordem social e as dificuldades na comunicação com os vários profissionais de saúde, em parte pela falta de formação dos mesmos nesta área específica, podem levar a que esse tipo de perturbações não sejam abordadas, com prejuízo na qualidade de vida dos doentes e dos seus companheiros/as.

OncosexologiaA prevenção dos problemas sexuais dos doentes de cancro e o seu tratamento carecem de sensibilização e de formação por parte dos profissionais de saúde que o acompanham, tanto nas unidades de oncologia como nos diversos serviços de saúde. Para isso, ações deste nível são de extrema importância para que a comunidade médica e outros técnicos de saúde se sintam aptos a acompanhar e ajudar os doentes oncológicos e as suas famílias, com foco na abordagem dos problemas e disfunções sexuais secundários à doença e aos tratamentos.

Sexualidade e cancroA sexualidade é um ponto central do ser humano durante toda sua vida, abarcando o sexo, a identidade e os papéis de género, a orientação sexual, o erotismo, o prazer, a intimidade e a reprodução. A sexualidade é vivenciada nos pensamentos, nas fantasias, nos desejos, nas atitudes, nos valores, nos comportamentos, no papel que cada um representa e nos relacionamentos. Embora a sexualidade possa englobar todas estas dimensões, nem todas são sempre experimentadas ou vividas. A sexualidade é influenciada pela interação de fatores biológicos, psicológicos, sociais, económicos, políticos, culturais, éticos, legais, históricos, religiosos e espirituais. (WHO, 2007).

OncologiaTendo por base tão grande diversidade de dimensões e abordagens, a sexualidade tende a ser demasiado focada na genitalidade e na sua funcionalidade. No caso dos doentes de cancro, estes podem ver comprometida essa mesma funcionalidade genital, quer provisória, quer definitivamente, o que pode causar a perceção de perda de identidade e de papéis. o que implica um luto e potencialmente um grande sofrimento. É nestes casos que o papel do profissional de saúde, nomeadamente o psicólogo, pode ser extremamente importante e fazer toda a diferença na forma como o indivíduo vai viver quer a fase de tratamento, quer a fase de reabilitação e eventual adaptação a algumas perdas ou limitações que possam ocorrer. A possibilidade de falar com alguém que entende o problema, que conhece os seus determinantes e consequentes, e, que, acima de tudo tem formação adequada na área da OncoSexologia, será uma mais-valia para o doente.

OncosexologiaA intervenção em OncoSexologia pressupõe vários níveis de atuação. O primeiro nível foca-se na aceitação e compreensão das limitações do doente, bem como na desculpabilização em relação àquilo que é normativo. O doente deverá encontrar um contexto de segurança para expor as suas preocupações, nomeadamente ao nível dos seus pensamentos, fantasias, sentimentos e comportamentos. O segundo nível, consiste no fornecimento de informação básica em relação à função sexual e ao ciclo de resposta sexual, bem como em relação ás limitações do doente e às suas potencialidades. O terceiro nível refere-se à apresentação de sugestões específicas relacionadas com a prática sexual, que passam por orientações de mudança comportamental, que possam levar o doente a atingir os seus objetivos, sempre com base numa sólida história clínica. Por fim, o quarto nível pressupõe uma intervenção com um profissional especializado em sexologia e consiste num plano personalizado, podendo envolver não só o doente mas também o seu parceiro (a).

Fontes:

Annon, J. (1981). PLISSIT Therapy. In: Corsini, R. Handbook of Innovative Pshychotherapies. New York. John Wiley & Sons Inc., pp 626-639.

O.M.S. (2001). Relatório Mundial da Saúde – Saúde Mental: Nova concepção, nova esperança. Lisboa: Direcção-Geral da Saúde.

Perturbação de Personalidade Paranoide (2)

Perturbação de Personalidade ParanoideA Personalidade Paranoide caracteriza-se por uma forte tendência do indivíduo para interpretar as intenções e ações dos outros como ameaçadoras, sendo difícil adotar outras explicações alternativas para os seus comportamentos. Assim, a suspeição e a insegurança generalizada em relação aos outros, são as características centrais que interferem no modo de pensar, sentir, e consequentemente de agir, dos sujeitos com Perturbação de Personalidade Paranoide.

Perceber a etiologia acerca do desenvolvimento de traços paranoides na personalidade é particularmente desafiador, tendo em conta a dificuldade em determinar a exatidão da informação relativa à sua história de vida. Ainda assim, são interessantes as hipóteses colocadas por alguns investigadores. Sugere-se que a postura associada aos traços de personalidade paranoide deverá ter sido adaptativa em algum momento no passado, numa situação verdadeiramente perigosa, em que as pessoas que rodeavam o individuo se mostravam claramente hostis, exploradoras e enganadoras. Talvez este tenha crescido numa família na qual aprendeu que a vigilância era absolutamente fulcral para sobreviver, que o mundo era um lugar perigoso e que as pessoas eram egoístas. Talvez ainda nas interações precoces com as figuras cuidadoras tenha aprendido que deveria ter cuidado para não cometer erros, era diferente dos outros ou precisaria de ser duro e defensivo para se proteger. Tais ideias poderão ter conduzido a uma elevada preocupação com a avaliação externa, bem como ao desenvolvimento de um sentimento de obrigação em relação às expectativas parentais. Consequentemente, poderá sentir-se não só humilhado, como passar muito tempo a pensar sobre o seu isolamento e maus tratos percebidos. Acaba por concluir que está a ser perseguido porque é alguém especial. Dados adicionais apontam também para a contribuição mútua e interativa do papel da genética. Continuar a ler