Um comportamento, duas adições

Vera é uma mulher de 41 anos com um problema de adição. Tem um consumo abusivo de álcool e tabaco, que por várias vezes diz ter tentado curar. A vida não lhe tem sido fácil e numa consulta verbaliza “por vezes tenho tanto medo de ouvir o meu corpo, de sentir as minhas emoções que prefiro anestesiar-me bebendo só mais um copo, só que depois vem outro e outro…” Num momento de sobriedade, deu um passo em frente e pediu ajuda. Acredita pouco em si para conseguir mudar sozinha, mas tem boas expectativas em relação ao acompanhamento que há semanas decidiu iniciar. Assinamos um compromisso por escrito. “Mesmo à séria” disse ela.

Eu, acredito que ela vai conseguir!

Dê o passo que lhe falta. Procure ajuda!

Uma disfunção sexual no feminino

Até há algum tempo, os assuntos relacionados com disfunções sexuais eram considerados tabu e poucos ousavam expressar as suas dificuldades a esse nível ou pedir ajuda. Hoje em dia, há muita investigação acerca deste tipo de perturbações e é-lhes atribuída uma importância maior, no sentido de que a sua abordagem e intervenção, podem constituir uma melhoria significativa na qualidade de vida do indivíduo.

Dentro do quadro das disfunções sexuais podem ser descritos vários tipos de perturbação, que podem afetar tanto o homem, como a mulher. Estas incluem a disfunção erétil, a perturbação de dor genitopélvica (penetração) a perturbação do interesse sexual feminino ou masculino ou a perturbação do orgasmo feminino, entre outras. Esta é uma área da saúde mental que também pode ter na sua origem fatores orgânicos e fisiológicos, no entanto, tanto psiquiatras como psicólogos, têm atualmente ao seu dispor, formação especializada, no sentido de permitir uma avaliação e intervenção eficaz de ajuda à pessoa que de uma perturbação deste tipo padece. Quaisquer que sejam as causas e/ou consequências destas perturbações, o sofrimento emocional pode ser muito perturbador e levar a m decréscimo acentuado da felicidade e bem-estar do indivíduo.

Uma das perturbações do foro sexual muito comum é a perturbação do orgasmo feminino. Considera-se que a mulher tem uma perturbação deste tipo se em cerca de 75% a 100% das vezes em que há atividade sexual, o orgasmo é marcadamente atrasado (ou inexistente) ou a intensidade das sensações orgásticas é marcadamente reduzida. Para que seja considerado o diagnóstico, as referidas dificuldades devem persistir pelo menos há 6 meses e causar um mal-estar clinicamente significativo à mulher. Excluem-se dos critérios de diagnóstico os casos em que estas dificuldades ocorrem por dificuldades relacionais graves (ex. violência do parceiro) ou de outros fatores de stresse significativos, ou ainda efeitos de substâncias/medicamentos ou outra condição médica.

A perturbação do orgasmo feminino pode ocorrer ao longo da vida se está presente desde que a mulher se tornou sexualmente ativa, ou pode ser adquirida, se iniciou após um período de função sexual considerado normal. Pode ainda caracterizar-se como generalizada, se não se limita a certos tipos de estimulação, de situação ou de parceiro, ou situacional, quando ocorre apenas com certos tipos de estímulos, situações ou parceiros. Em termos de gravidade, a perturbação pode ir de ligeira a extrema, dependendo do nível de mal-estar e sofrimento causado pela dificuldade em experienciar o orgasmo. As mulheres apresentam uma enorme variabilidade no que diz respeito ao tipo ou intensidade da estimulação que desencadeia o orgasmo. Do mesmo modo, as descrições subjetivas do orgasmo são muito variadas, sugerindo a existência de múltiplas formas de o atingir, tanto por mulheres diferentes como pela mesma mulher mas em circunstâncias diferentes.

Para um diagnóstico de perturbação do orgasmo feminino, as dificuldades deverão ser experienciadas em todas ou quase todas as ocasiões de atividade sexual. O uso de critérios mínimos de gravidade e de duração serve para diferenciar as dificuldades que podem ser transitórias, de uma disfunção mais persistente. Em alguns casos desta perturbação, as causas são multifatoriais ou não se conseguem determinar. Se se consegue provar que a perturbação apresentada é mais bem explicada por outra perturbação do foro mental, pelo efeito de uma substância ou medicamento ou ainda por outra condição médica, então não deve ser feito o diagnóstico como perturbação do orgasmo feminino. Se estiverem presentes fatores contextuais ou interpessoais significativos, como problemas relacionais graves ou outros importantes fatores de stresse, também não será um caso deste tipo de perturbação. Se se verificar que a mulher não atinge o orgasmo devido a uma estimulação sexual inadequada, poderá haver necessidade de intervenção, contudo, não deve ser feito o diagnóstico de perturbação do orgasmo feminino.

De um modo geral, não se encontra associação entre traços de personalidade específicos ou psicopatologia e disfunção orgásmica. Comparativamente às mulheres sem disfunção sexual, as mulheres com perturbação do orgasmo feminino podem apresentar maior relutância em falar abertamente acerca destas questões. No entanto, a satisfação sexual global parece não estar totalmente relacionada com a experiencia orgástica. Muitas mulheres referem elevados níveis de satisfação sexual, apesar de raramente atingirem o orgasmo. As dificuldades a este nível, nas mulheres, estão muitas vezes relacionadas com o interesse e a excitação sexuais.

Ao avaliarem-se estes casos, devem também ser levados em consideração outros fatores que podem ser relevantes para a etiologia ou tratamento. Entre eles, os problemas sexuais do parceiro, fatores médicos relevantes, fatores relacionais como uma comunicação pobre, discrepâncias quanto ao desejo de atividade sexual, fatores de vulnerabilidade emocional como fraca imagem corporal, presença de problemas de ansiedade ou depressão, história prévia de abuso sexual e ainda fatores culturais ou religiosos. Em mulheres com perturbação do orgasmo, cada um dos referidos fatores pode contribuir de forma distinta para a apresentação dos sintomas. Em termos de prevalência, as taxas relatadas para esta perturbação vão desde os 10% aos 42%, dependendo de múltiplos fatores como a idade, a cultura a duração ou a gravidade dos sintomas. Porém, estas estimativas não levam em linha de conta a presença de mal-estar, pois apenas uma pequena proporção de mulheres que experienciam dificuldades ao nível do orgasmo, refere também mal-estar associado. Estudos apontam para que cerca de 10% das mulheres não experienciam o orgasmo ao longo da sua vida.

Quanto aos fatores de risco podemos considerar os temperamentais, ambientais e genéticos ou fisiológicos. Os primeiros prendem-se com questões relacionadas por exemplo com ansiedade ou preocupação em engravidar. Os fatores ambientais mais relevantes serão os problemas relacionais ou a saúde física ou mental. De referir ainda os fatores socioculturais como expetativas quanto aos papéis de género ou convicções religiosas. Os fatores fisiológicos são muito diversos e podem incluir condições médicas e efeitos dos medicamentos. Mulheres com lesão dos nervos pélvicos, lesão da espinal-medula ou atrofia vulvovaginal podem ter maior dificuldade ou mesmo incapacidade para experienciar o orgasmo. Por outro lado, a menopausa não está consistentemente associada a dificuldades deste tipo. A contribuição genética pode ser significativa para a variabilidade da função orgástica feminina, contudo, parece haver uma forte evidência de que os fatores psicológicos, socioculturais e fisiológicos interajam de forma complexa de modo a influenciar de forma negativa a experiencia feminina do orgasmo.

Fonte: DSM-V – Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (Quinta edição) de American Pshychiatric Association.

Controlar a ansiedade

A ansiedade é uma reação natural do nosso corpo que faz parte do desenvolvimento humano. É uma expectativa apreensiva relacionada com as mudanças (naturais e/ou imprevistas) que o indivíduo experiencia no seu quotidiano e nos diversos contextos em que se movimenta.

A ansiedade manifesta-se de diferentes formas, sendo o nosso corpo o primeiro a reagir e a dar os primeiros sinais. Sintomas como aceleração dos batimentos cardíacos, rubor, tremores, dor de cabeça, dificuldade em respirar, tensão muscular, tonturas, aperto no peito ou dificuldade em se concentrar, são sinais de alerta que não devem ser ignorados. A ansiedade pode também manifestar-se por pensamentos derrotistas e ruminantes, sensação de que algo de mal nos vai acontecer, irritabilidade, dificuldade em adormecer e/ou manter o sono, entre outros sintomas que podem variar de pessoa para pessoa. Uma perturbação de ansiedade pode mesmo conduzir o indivíduo a sentimentos de medo irracional, vergonha isolamento social, tristeza, desespero, insegurança, angústia constante, sentimentos de frustração, falta de sentido de humor ou ressentimento.

Todos nós, em vários momentos das nossas vidas já vivenciamos situações em que os níveis de ansiedade subiram mais do que o desejável, tendo em alguns casos até escalado para um ataque de pânico. Para evitar essa escalada e as respetivas consequências, há que saber identificar os sinais do nosso corpo e agir, utilizando estratégias de coping. Chama-se coping aos esforços cognitivos e comportamentais adaptativos que utilizamos face a uma determinada situação de stresse, que ultrapassa as nossas capacidades e que constitui numa sobrecarga aos nossos recursos, perante uma ameaça ao nosso bem-estar. Estas estratégias, por sua vez, podem ser orientadas para o problema ou para a emoção. As primeiras visam atuar sobre o fator de stresse, procurando alterar a situação ou o problema que está a provocar desajustamentos (ex. agir sobre a origem da situação, procurar formas para resolver o problema). As segundas estratégias são direcionadas à resposta emocional ao evento stressante, adequando essa resposta quando não é possível controlar ou modificar a situação. São estratégias que procuram regular as emoções desajustadas, associadas ou resultantes de acontecimentos geradores de tensão (ex. choro, autocensura, evitamento, recusa, agitação ou fuga).

De entre as estratégias focadas no problema, destacam-se a procura de informação (serviços, apoios…), a definição de objetivos concretos e reais de resolução do problemas e a identificação das respostas alternativas. No que diz respeito às estratégias focadas nas emoções, é de referir a procura de significados para o problema (no passado, ou antecedentes das ações stressantes), bem como a identificação das emoções e a aprendizagem e treino de mecanismos eficazes de regulação das mesmas (exercícios de relaxamento, treino cognitivo de técnicas como a paragem do pensamento, a racionalização, entre outras).

A ansiedade pode afetar transversalmente todos os indivíduos. Não escolhe género nem idade e pode ser um problema ligeiro, com o qual a pessoa consegue lidar facilmente, ou, pelo contrário, tornar-se numa perturbação grave que necessita de ajuda especializada. Mesmo os casos mais ligeiros, não devem ser desvalorizados, principalmente tratando-se de crianças ou jovens, uma vez que corre o risco de se agravar e de se tornar um problema crónico e perturbador da funcionalidade da criança ou do adolescente. Faça uma avaliação do seu estado de ansiedade e procure ajuda, se sentir que ela o está a perturbar e a diminuir a sua qualidade de vida.

A Sua Psicóloga, poderá ser uma boa aliada para o/a ajudar a controlar a sua ansiedade!

Terapia Cognitivo-Comportamental e Mindfulness

 A Terapia Cognitivo-Comportamental, desde a sua origem, vem a ser considerada como uma modalidade de tratamento muito eficaz nos mais variados tipos de perturbações psicológicas. Este tipo de terapia prevê a possibilidade da utilização de várias técnicas e “ferramentas” que complementam e auxiliam a ação do psicólogo, nomeadamente a prática de mindfulness.

 A atenção plena ou mindfulness, segundo Goleman e Davidson (2017), é um dos métodos de meditação mais utilizados e divulgados no mundo ocidental, dentro de uma ampla variedade de métodos. Alguns especialistas utilizam o termo mindfulness para definir todo e qualquer tipo de meditação. A prática de mindfulness deriva da filosofia oriental budista, sendo considerada uma das técnicas de meditação mais antigas da Índia. Na filosofia oriental, a atenção plena pode ser definida como uma qualidade mental adquirida e cultivada através da prática da meditação com o intuito de se chegar a um desenvolvimento psicoemocional e espiritual. A meditação, é portanto, uma “ferramenta” capaz de produzir uma conexão completa entre a mente, o corpo e o espírito (Goleman & Davidson, 2017). Meditar é sentir a respiração, com a atenção plena ao que está a acontecer no momento presente, observar e aceitar sem julgamentos as experiências internas, sem avaliar ou tentar modificá-las.

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Perturbação da Personalidade Esquizoide

A Perturbação da Personalidade Esquizoide expressa-se essencialmente por três características: a falta de interesse nas relações sociais, a tendência para o isolamento e a frieza emocional.

Apesar da semelhança semântica e de alguns sintomas comuns (como o embotamento emocional e o isolamento), a Perturbação da Personalidade Esquizoide não é o mesmo que esquizofrenia. A esquizofrenia caracteriza-se sobretudo, por uma fragmentação da estrutura básica dos processos de pensamento, acompanhada pela dificuldade em estabelecer a distinção entre experiências internas e externas, como é o caso dos sintomas psicóticos de delírio ou alucinação. O termo esquizoide foi criado por Eugen Bleuer, no início do século XX, para definir uma tendência da pessoa para dirigir a sua atenção para o mundo interior, fechando-se ao mundo exterior e á experiência.

A característica central que define esta perturbação da personalidade é o padrão evasivo de distanciamento dos relacionamentos sociais, a par com uma diminuta expressão emocional em termos interpessoais. Este padrão começa tipicamente no início da idade adulta e revela-se nos diversos contextos em que a pessoa se move. Os indivíduos com personalidade esquizoide parecem não ter um desejo de intimidade, preferindo passar o tempo sozinhos em detrimento de estar com outras pessoas, mesmo no contexto familiar. As atividades escolhidas são predominantemente solitárias e mesmo quando se tratam de momentos passados com outras pessoas, a interação é diminuta. Deste modo, identifica-se uma preferência por tarefas mecânicas ou abstratas, assim como uma satisfação reduzida com experiências sensoriais

Um indivíduo com Perturbação da Personalidade Esquizoide parece ser igualmente indiferente às críticas ou elogios. Pode parecer lento e letárgico, com um discurso monocórdico, tendo tendencialmente um humor negativo. Esta perturbação da personalidade pode emergir durante a infância ou adolescência, sob a forma de solidão, fraco relacionamento com os pares e baixo rendimento escolar, o que pode conduzir a situações em que estas crianças/adolescentes sejam vistas como diferentes e como alvos de bullying. A Perturbação da Personalidade Esquizoide é diagnosticada com uma frequência levemente superior em sujeitos do sexo masculino. Pode ainda ter uma prevalência maior entre os familiares de indivíduos com Esquizofrenia ou Perturbação da Personalidade Esquizotípica.

Os critérios de diagnóstico desta perturbação são a existência de um padrão de distanciamento das relações sociais e uma faixa restrita de expressão emocional em contextos interpessoais, que começa no início da idade adulta e está presente numa variedade de contextos, indicado pelo menos por quatro dos seguintes critérios: não deseja nem retira prazer de relações próximas, incluindo fazer parte de uma família; escolhe habitualmente atividades solitárias; manifesta pouco ou nenhum interesse em ter experiências sexuais com outra pessoa; tem prazer em poucas atividades, ou em nenhuma; não tem amigos íntimos ou confidentes sem ser familiares em primeiro grau; mostra-se indiferente a elogios ou críticas dos outros; demonstra frieza emocional, distanciamento ou afetividade embotada.

A psicoterapia, tendo uma forte natureza interpessoal, a partir da qual se estabelece a relação terapêutica, pode inicialmente ser difícil de aceitar por parte dos indivíduos com Perturbação da Personalidade Esquizotípica. Estas pessoas poderão ter algumas dificuldades na colaboração e relação com o psicólogo. A psicoterapia poderá trazer sentimentos ambíguos, havendo o receio por parte do cliente de que a mesma o faça descobrir mais falhas na sua personalidade e aumentar o seu sentido de desadequação. Poderá ainda ser igualmente, difícil definir objetivos terapêuticos de mudança e colaboração. Porém, com validação por parte do terapeuta, será importante o foco da atenção na idiossincrasia do problema, isto é, naquilo que preocupa o cliente num determinado assunto, que será relevante clarificar. Será difícil para o psicólogo, por exemplo, aceitar objetivos terapêuticos que não incluam a integração social e que não vão de encontro destas crenças. Por exemplo, quanto à temática de “não ter amigos”, o psicólogo poderá considerar que seria importante para o cliente ter um amigo ou dois, quando para este, o importante neste tema, poderá ser que a família não esteja sempre a dizer-lhe que devia ter amigos.

A intervenção psicológica com clientes com este tipo de personalidade, cujas crenças e perceções podem contrastar significativamente com as do psicólogo, poderá trazer algumas dificuldades e é sem dúvida um desafio. O cliente poderá ter crenças muito enraizadas como: “as pessoas são cruéis”; “as pessoas são frias”; “as pessoas apenas deverão falar se houver alguma coisa para falar”. Do ponto de vista terapêutico, muito mais do que tentar iniciar processos de mudança comportamental ou de reestruturação cognitiva, é conduzir a intervenção no sentido do estabelecimento de uma relação de empatia e confiança, fortalecida pela sua forma centrada no cliente. O que se pretende é lentamente ir ganhando a confiança do cliente ao mesmo tempo que este adquire segurança e aos poucos vai expressando as suas necessidades e emoções, com o objetivo ir conduzindo a intervenção no sentido da diminuição o seu défice funcional e aumento da sua adaptação aos diversos contextos em que se move.

Fonte:

Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais – Quinta Edição (DSM-V). American Psychiatric Association.

Qualidade de vida

O conceito de qualidade de vida tem vindo a ser referenciado desde a segunda metade do século XX e aplicado em diversos contextos, desde a saúde, a política ou o meio académico, entre outros, no sentido de se poder “medir” os níveis de vida das diversas populações mundiais. Nos dias de hoje, este conceito tem ainda uma definição imprecisa, no entanto, com toda a subjetividade que encerra, o conceito de qualidade de vida tem assumido um cada vez maior relevo, quando se fala de saúde e bem-estar.

Inicialmente, a investigação associava a qualidade de vida a um conceito quantitativo, ligado principalmente aos recursos materiais disponíveis para um sujeito ou sociedade. Com o passar do tempo, esta associação foi perdendo alguma força e passou a haver uma tendência para se entender a qualidade de vida através de uma abordagem mais ampla e integrativa. Assim, a Organização Mundial da Saúde (OMS) propôs atribuir uma natureza multifatorial a e pluridimensional a este conceito. Deste modo, passou a medir-se a qualidade de vida em termos de saúde física, saúde mental, nível de independência, qualidade das relações sociais e ambiente. Trata-se de uma perspetiva global e abrangente, que leva em consideração as várias dimensões do ser humano, na determinação dos níveis de qualidade de vida de cada indivíduo.

Entendendo o conceito como a sensação de bem-estar do indivíduo, este baseia-se tanto em fatores subjetivos, mais difíceis de quantificar e comparar, como objetivos, mais palpáveis e específicos. Deste modo, alguns autores consideram a qualidade de vida como uma condição complexa e multifatorial sobre a qual é possível desenvolver algumas formas de medidas objetivas, através de uma série de indicadores. Porém, a experiência que o indivíduo tem de si mesmo, tem também um papel muito significativo. O facto de o indivíduo ter recursos materiais ótimos de sobrevivência, não é garantia de que o seu nível de qualidade de vida seja elevado, uma vez que o que a determina, é a forma e a capacidade do indivíduo em perceber e se apropriar dessas condições e de outras. A própria conjuntura política ou cultural, influenciam a forma como o indivíduo percebe a sua vivência e a classifica como mais ou menos satisfatória.

Maslow, ao construir a sua pirâmide das necessidades, cujos sistemas de necessidades podem ser tomados também como parâmetros de promoção da qualidade de vida, defende que uma vez satisfeitas as necessidades relacionadas à simples sobrevivência (fisiológicas), outros grupos de necessidades dominariam o indivíduo hierarquicamente (segurança, amor, estima, etc.), fazendo-o avançar nas suas condições de bem-estar. Assim, conclui-se que a qualidade de vida se eleva através de uma escala de valores que avança desde a satisfação das necessidades básicas do ser humano, em direção ao sentimento de bem-estar subjetivo e social, levando a uma definição possível como sendo a condição biopsicossocial de bem-estar, relativa a experiências humanas objetivas e subjetivas e considerada dentro das particularidades individuais e sociais de cada caso particular. Trata-se de uma definição de caráter contextual, devendo ser entendida dentro das especificidades de cada situação, e multidimensional, considerando os vários determinantes da condição humana.

A intervenção psicológica tem múltiplos objetivos, porém visa sempre o aumento da qualidade de vida do indivíduo. Neste contexto, as ações dirigidas à saúde em particular, adquirem grande relevância. Uma boa saúde é o melhor recurso para o progresso pessoal, económico e social, sendo uma dimensão muito importante da qualidade de vida. Se compreendermos a saúde como elemento fundamental no conjunto de condições indispensáveis à qualidade de vida, a sua promoção deve ser uma prioridade. Um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença, potencia a elevação da qualidade de vida do indivíduo.

Cuide da sua saúde física e mental. Ambas concorrem para o aumento dos seus recursos, quer materiais e palpáveis, quer subjetivos e particulares, que farão de si uma pessoa com maior qualidade de vida e consequentemente, uma pessoa mais feliz!

Ano Novo, Vida Nova!

Mais um ano que se aproxima do fim, mais um ano que vai começar. Esta é tipicamente, uma fase em que se faz um balanço do que foi o ano que termina e se fazem planos para o ano que inicia. As “famosas” resoluções de Ano Novo!

Como é sabido, a situação pandémica que temos vivido nos últimos quase dois anos, em muito contribuiu para agravar problemas de saúde mental a quem já deles padecia, ao mesmo tempo que despoletou o surgimento desse mesmo tipo de perturbações, em pessoas anteriormente saudáveis. As súbitas mudanças que se observaram no nosso quotidiano, como é o caso do isolamento social, da utilização de máscara e outras medidas de proteção individual, a obrigatoriedade de teletrabalho ou telescola, entre outras alterações que o nosso dia-a-dia sofreu, têm sido responsáveis por uma instabilidade emocional, que em muitos casos deu origem a problemas relacionados com ansiedade ou depressão. Algumas pessoas, pelas suas características de personalidade, tiveram maior capacidade de adaptação a uma realidade outrora inimaginável. Outras pessoas, com maiores dificuldades de adaptação, sofrem desde há muito com todas as modificações a que se viram obrigadas e que tiveram um impacto muito negativo no seu quotidiano e nas suas vidas.

A pandemia tem sido muito difícil para todos e tem trazido consigo muita dor e muitas emoções negativas, como o medo, a tristeza, a angústia, a solidão, etc. Todas estas emoções e algumas das mudanças a que fomos obrigados, geraram em algumas pessoas uma incapacidade para a ação, ou seja, algumas pessoas sentem que não estão bem mas não conseguem iniciar esforços que as ajudem a melhorar. Tratam-se de situações em que a ansiedade, o medo ou os sintomas depressivos as impedem de agir, no sentido da mudança, para que possam melhorar o seu bem-estar e serem mais felizes. Algumas pessoas conseguem adaptar-se de tal forma a esta atual realidade, que parece que apesar das alterações que aconteceram nas suas vidas, continuam a “caminhar” com alegria e otimismo. Outras, não conseguem ver a “luz ao fundo do túnel” e fecham-se em si mesmas, descendo nessa espiral negativa que é a doença mental.

Num momento de viragem do ano, em que tipicamente se fazem planos para o ano que vai entrar, algumas pessoas não conseguem sequer imaginar que a sua vida poderá melhorar, uma vez que não acreditam na mudança delas próprias. Quando algo está mal, ou nos adaptamos e seguimos vivendo em harmonia, ou, na maioria dos casos, temos que empreender esforços de mudança para conseguirmos ser pelo menos funcionais, senão felizes. O processo de mudança começa dentro de cada um de nós, no momento em que reconhecemos que efetivamente temos um problema ou uma dificuldade. A partir desse momento, com ou sem ajuda profissional, a pessoa pode preparar-se para agir. A ação pode passar por um conjunto de comportamentos a abolir, a iniciar ou a transformar, com o intuito de se tornarem mais adaptativos. Modificar comportamentos pode não é tarefa fácil e por vezes pode ser necessário apoio, acompanhamento e compromisso, para que cada pequeno esforço, cada pequeno passo no sentido daquilo que se deseja, não seja nunca um retrocesso mas sim uma conquista sólida e consistente.

Numa época em que a saúde mental está na “ordem do dia”, a sua prevenção, manutenção ou o seu tratamento pode passar por pedir ajuda a um técnico especializado. O primeiro passo pode estar na mão dos cuidados de saúde primários, que havendo disponibilidade, o médico assistente pode encaminhar o indivíduo para a consulta de psicologia. Infelizmente, o nosso Serviço Nacional de Saúde, não dispõe de psicólogos em número suficiente para atender a todos os que desse apoio necessitam. Assim sendo, na maioria das situações, esse apoio terá que ser prestado por profissionais independentes, em clínica privada. No entanto, este não deve ser um motivo para deixar de procurar ajuda.

Há a ideia generalizada de que os serviços privados de avaliação e acompanhamento psicológico são muito dispendiosos, não é de todo uma realidade. É claro que cada pessoa tem as suas limitações em termos de orçamento, porém, muitas vezes os custos das consultas não são assim tão elevados, havendo até muitos profissionais que atendem e cobram as suas consultas, levando em consideração os casos de maior vulnerabilidade económica, numa vertente de responsabilidade social. Assim, recomenda-se que se quebre em primeiro lugar o estigma de que a saúde mental é menos importante do que a saúde física, pois ambas estão interligadas. Por outro lado, não é vergonha nem embaraço para ninguém, recorrer á ajuda de um psicólogo, num momento de maior instabilidade emocional. O reestabelecimento ou a manutenção da saúde mental é extremamente importante e repercute-se também na saúde física e no bem-estar individual, familiar e social.

Se sente que pode estar a sofrer de problemas ao nível da ansiedade, se apresenta sintomatologia depressiva ou se apenas não está a saber lidar com as suas emoções ou com os seus relacionamentos, não deixe de colocar nas resoluções de Ano Novo, a procura de apoio psicológico. Uma correta avaliação do seu caso e um plano de intervenção adequado, poderão fazer toda a diferença no seu bem-estar pessoal e nas suas relações sociais e familiares. O autoconhecimento, a aprendizagem e treino de estratégias para lidar com a sua ansiedade, a estruturação comportamental em casos de depressão, são exemplos de intervenções que podem modificar a sua vida e torna-la mais fácil e mais feliz. A par com os típicos planos para iniciar a prática desportiva, iniciar a reeducação alimentar para controlar o peso, porque não iniciar um acompanhamento psicológico, para melhorar a sua qualidade de vida, aprendendo a conhecer-se melhor e permitindo-se abrir-se a diferentes perspetivas?

Ano Novo, Vida Nova! Comece o Ano de 2022 a pensar em si e procure ajuda. A Sua Psicóloga, estará ao dispor para a (o) orientar na descoberta de si mesma (o) e do que a (o) pode tornar numa pessoa mais feliz!

Narcolepsia, uma perturbação do sono

As perturbações do sono-vigília englobam várias perturbações ou grupos de perturbações, entre as quais a perturbação de insónia, a perturbação do hipersonolência, a perturbação de pesadelos, as perturbações do sono relacionadas com a respiração ou a narcolepsia, entre outras. O mal-estar e os défices funcionais diurnos que resultam destas perturbações são características nucleares comuns a todas elas.

A narcolepsia faz parte do quadro de perturbações do sono-vigília e caracteriza-se por períodos recorrentes de necessidade irreprimível de dormir, adormecer ou fazer sestas. Para que possa chegar ao diagnóstico desta perturbação, deverá estar presente pelo menos um dos critérios que de seguida se descrevem. O sintoma/critério deverá ter ocorrido pelo menos 3 vezes por semana nos últimos 3 meses. Esses critérios são a cataplexia e que, em indivíduos com doença de longa duração, se referem à perda súbita bilateral do tónus muscular (breves segundos a minutos), com manutenção da consciência e que são precipitados pelo divertimento ou o riso. Noutros casos, podem ocorrer episódios de caretas espontâneas, abrir a boca com deglutição atípica ou até a hipotonia global, sem quaisquer desencadeadores emocionais. Há ainda outros critérios de diagnóstico que se prendem com défices de neurotransmissores, como por exemplo a hipocretina, responsável pela regulação da excitação, vigília e apetite. Outros exames médicos complementares para o diagnóstico podem ainda incluir o estudo da latência do sono.

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Perturbação de uso de tabaco

Segundo o Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais – DSM-V, as perturbações relacionadas com substâncias e perturbações aditivas englobam 10 classes de drogas, entre as quais se inclui o tabaco. À semelhança de outras substâncias, o tabaco ativa diretamente o sistema de recompensa do cérebro, que está envolvido no reforço de comportamentos e na produção de memórias.

O uso de substâncias psicoativas ativa diretamente o sistema de recompensa e produz uma sensação de prazer. Os indivíduos com níveis mais baixos de autocontrolo, podem estar particularmente vulneráveis ao desenvolvimento de perturbações do uso de substâncias, ao invés de conseguirem a ativação do sistema de recompensa, apenas por meio de comportamentos adaptativos, como seria desejável. Foquemo-nos então na substância tabaco. O tabaco é uma droga legal e socialmente aceite o que a torna mais perniciosa do que à partida se poderia pensar. Habitualmente de início precoce, o consumo de tabaco faz parte da integração de alguns adolescentes no grupo, bem como da sua afirmação enquanto indivíduos. Parece haver uma diferenciação de género, sendo que tendencialmente as raparigas iniciam hábitos tabágicos para expressarem rebeldia e autoconfiança, enquanto os rapazes parecem utilizar esses hábitos como mecanismo compensatório para a sua insegurança social. Estes hábitos adquiridos em idade precoce, para além das conhecidas consequências negativas ao nível respiratório e cardiovascular, entre outros, podem ainda escalar para um problema de saúde mental – um comportamento aditivo.

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Ansiedade e faculdade, uma associação normativa

O momento em que os jovens terminam o enino secundário é um marco nas suas vidas. Aqueles que optam por continuar a sua formação em meio académico, enfrentam um grande desafio, desde o momento em que se candidatam, já para não falar, da por vezes difícil tomada da decisão acerca do curso e da instituição de ensino superior que irão escolher mas também até saberem se foram colocados, onde e em que curso. Tudo isto pode ser naturalmente, gerador de ansiedade.

A ansiedade é uma resposta natural do organismo a uma situação de alarme, medo, surpresa, desafio ou novidade. Por norma, aquilo que não conhecemos ou controlamos, pode provocar-nos ansiedade. É uma emoção normativa e por vezes muito protetora e adaptativa, no entanto, a ansiedade intensa e associada a sensações de angústia e a sintomas fisiológicos, pode tornar-se incapacitante e conduzir a patologia, causando um mal-estar significativo e pondo em causa a funcionalidade do indivíduo. A eminência da mudança, de um meio escolar conhecido e na maioria das vezes confortável, para ingressar no ensino universitário, novo e desconhecido, pode levar a uma expetativa apreensiva e causar sentimentos de ansiedade relacionados com a necessidade de adaptação ao contexto e ás vivências académicas.

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