Psicólogos clínicos no SNS: Precisam-se!

Psicologia no SNSNos cuidados de saúde primários, a intervenção em psicologia clínica consiste na prestação de serviços psicológicos aos indivíduos, ás famílias e à comunidade, fazendo a integração da promoção da saúde e da prevenção da doença, assim como o apoio assistencial.

A intervenção do psicólogo clínico em contexto de cuidados de saúde primários implica a adoção de um paradigma holista no entendimento da pessoa bem como dos processos de saúde e/ou doença. Pressupõe também a integração numa equipa multidisciplinar, no sentido de poder fazer um trabalho responsável, integrativo e colaborativo, entre o utente, a família e a comunidade, e os restantes profissionais dos cuidados de saúde primários, em articulação com os cuidados de saúde especializados, se necessário. Compreender o indivíduo e o seu contexto, requer a aplicação de um modelo multidimensional, centrado no indivíduo e nas suas particularidades que vise essencialmente a promoção da sua autonomia e do seu bem-estar, não só psicológico mas consequentemente físico e relacional.

Psicologia da SaúdeHumanizar os serviços de saúde é urgente. Os avanços da tecnologia e da ciência podem por vezes levar a um “esquecimento” da pessoa humana. Há que mudar atitudes, típica e tradicionalmente adotadas por alguns profissionais e que se relacionam com um modelo de natureza biomédica – o médico ou outro profissional de saúde como figura de autoridade absoluta. A  American Psychological Association (APA) defende a substituição da hierarquia pelo equilíbrio, onde o profissional de saúde assume maior evidencia na sua relação com o utente quando apresenta maior contingência nas situações que ocorrem, face às reais necessidades do indivíduo. Só deste modo se torna possível um trabalho colaborativo e cooperante, em que o profissional em posse de conhecimento, de técnicas e de estratégias de intervenção, poderá conseguir uma verdadeira parceria na sua relação com o utente mas também com a restante equipa.

Psicologia  e saúdeSendo os cuidados de saúde primários, por definição, aqueles que estão mais próximos e mais acessíveis aos indivíduos, o psicólogo clínico e da saúde, ao desempenhar as suas funções neste contexto, constitui-se como a primeira linha de intervenção. Assim, deverá adotar um modelo bioecológico que lhe permita compreender os comportamentos relacionados com a saúde, em função de um determinado contexto familiar, social e cultural. As áreas de intervenção psicológica prioritárias em contexto de cuidados de saúde primários, são essencialmente promover a saúde, prevenir a doença/incapacidade, detetar precocemente a doença e trata-la. Deste modo, tanto o psicólogo como os restantes elementos da equipa de saúde deverão levar em consideração não só o doente mas a sua família e os contextos em que este se movimenta. As competências do psicólogo da saúde nestes contextos clínicos incluem o conhecer e compreender as variáveis envolvidas na vida do doente mas também a tomada de consciência face às suas próprias limitações, aquando do planeamento das intervenções. Tudo isto se prende com a avaliação, não só do doente/caso mas também dos seus próprios recursos e habilidades.

Psicologia da saúdeO psicólogo clínico e da saúde nos cuidados de saúde primários, tem como principais funções a avaliação psicológica, o planeamento, desenvolvimento, implementação e monitorização de programas de promoção da saúde, de prevenção e de tratamento da doença, assim como o desenvolvimento de investigação e a participação em atividades formativas e psicoeducativas. As suas funções envolvem  ainda o apoio ao doente na aceitação do diagnóstico, na adesão a realização de exames auxiliares de diagnóstico ou práticas e tratamentos mais invasivos e na adesão à medicação, bem como ao fornecimento de recomendações referentes a práticas de autocuidado e de reabilitação. A facilitação de estratégias para lidar com o stresse decorrente de toda a envolvência da situação de doença, quer ao próprio, quer aos familiares e cuidadores, é outra das funções do psicólogo clínico e da saúde, assim como o auxílio na comunicação com outros elementos da equipa de saúde. O psicólogo poderá ter também um papel importante na racionalização dos comportamentos de procura e de utilização dos cuidados de saúde, e como já foi referido, na promoção da qualidade e da humanização dos serviços. É ainda de salientar a importância do psicólogo no apoio aos profissionais de saúde de outras áreas (enfermeiros, médicos, administrativos) para os ajudar a lidarem com as possíveis situações de stresse decorrentes do exercício da profissão.

Serviços de saúdeA investigação mais recente aponta para os enormes benefícios para o bem-estar da comunidade, da integração de psicólogos clínicos nas equipas de cuidados de saúde primários. Considerando o impacto do aumento da prevalência dos problemas de saúde mental, principalmente as perturbações de ansiedade e as perturbações depressivas, e o crescente aumento da prescrição de ansiolíticos e antidepressivos, torna-se fundamental determinar e concretizar o nível de penetração da psicologia da saúde, nos centros  de cuidados de saúde primários, de clarificar o papel específico do psicólogo da saúde nestes mesmos locais e de considerar seriamente o impacto do visível aumento dos problemas de saúde mental, quer em termos de qualidade de vida dos indivíduos e da sociedade quer pela sua repercussão em termos orçamentais, ou seja, no peso que estes representam para o também já “doente” Serviço Nacional de Saúde.

 

Sugestão:

https://pdfs.semanticscholar.org/1470/034dcdd3c39319174ae5b6ca86c86625a8f4.pdf

 

 

 

Psicossomática: afinal estou doente de quê?

SomatizaçãoA somatização caracteriza-se pela apresentação de sintomas físicos em indivíduos, sem causa orgânica óbvia. É uma problemática que está associada a uma incapacidade funcional e a um grande recurso aos cuidados de saúde.

A presença persistente de sintomatologia física sem explicação médica constitui-se como um enorme desafio quer para médicos, quer para psicólogos. Estes sintomas apresentam-se num continuum e podem ir de ligeiros e transitórios a intensos, constantes e severos. Os sintomas físicos mais comuns na somatização são a fadiga, as dores de cabeça, as dores nas costas, a insónia, as dores de barriga, as tonturas, o aumento dos batimentos cardíacos ou a falta de ar. O doente psicossomático tende a procurar sistematicamente uma causa orgânica para as suas queixas e por isso recorre frequentemente aos cuidados de saúde, no sentido de pedir ao médico a prescrição de exames auxiliares de diagnóstico ou medicamentos para o alívio dos sintomas, de uma doença que não tem. Nesta procura excessiva pelos cuidados de saúde, a relação com o médico pode ficar afetada se este não entender o problema do paciente, ou seja, se não levar em consideração os fatores psicossociais que o envolvem. Além do mais, a banalização da toma de medicação para alívio da referida sintomatologia pode conduzir a uma dependência que não é de todo recomendada.

PsicossomáticaOs resultados apresentados pela investigação sobre esta matéria sugerem uma prevalência de doentes psicossomáticos na ordem dos 20% a 50%, no entanto, nem todos os indivíduos que apresentam sintomatologia física sem explicação médica, preenchem todos os critérios de referenciação para os cuidados de saúde mental. É de salientar que muito frequentemente, a apresentação deste tipo de sintomatologia está associado a casos de ansiedade e/ou depressão, sendo que a intervenção psicológica poderá trazer um enorme benefício para estes indivíduos. Porém, muitas vezes, estes pacientes recusam a necessidade de apoio psicológico mesmo quando é sugerida pelo médico, dando preferência a uma intervenção médica sobre os sintomas. O estigma ainda presente em muitos grupos sociais, pode ajudar a explicar essa dificuldade em aderir ao acompanhamento psicológico, mesmo que indiretamente, possam demonstrar o desejo de apoio emocional.

PsicossomáticaPodem-se referir como determinantes da sintomatologia psicossomática o stresse e a ansiedade, sendo que estes provocam um aumento da atividade cerebral e a produção de cortisol e adrenalina. Estas hormonas podem afetar outros órgãos do corpo como o estômago, os intestinos, o coração ou a pele.  O stresse profissional, os traumas por acontecimentos de vida significativos, a dificuldade em expressar as emoções ou um elevado grau de perfeccionismo, constituem-se como algumas das causas possíveis para o desenvolvimento desta patologia. As perturbações psicossomáticas, ou seja, com causa emocional, não tratadas, podem conduzir elas próprias ao aparecimento de doenças como por exemplo a gastrite ou a hipertensão arterial. Em casos mais graves, a sintomatologia mais intensa poderá mesmo confundir-se com situações graves como o enfarte do miocárdio ou o acidente vascular cerebral, como é o caso dos ataques de pânico, em que o indivíduo experimenta sensações tão desagradáveis que o podem fazer pensar que vai morrer.

SomatizaçãoEm termos de tratamento, o doente psicossomático poderá como já foi referido, beneficiar de acompanhamento psicológico, uma vez que este pode ajudar o indivíduo a identificar o motivo do seu stresse e da sua ansiedade e, deste modo, aprender a lidar com a situação e conseguir treinar estratégias promotoras da redução da ansiedade e do aumento do bem-estar. Alguns casos poderão beneficiar de um tratamento misto, ou seja, intervenção psicológica combinada com medicação. Esta é habitualmente feita através de analgésicos ou anti-inflamatórios, para alívio dos sintomas, mas também ansiolíticos e antidepressivos. A psicossomática coloca a doença numa dimensão psicológica abrangente e integral, proporcionando uma abordagem onde a relação entre médico, paciente e psicólogo se constituem como um recurso muito relevante para que o indivíduo seja olhado como um todo, e não penas com vista ao tratamento dos sintomas. Assim, qualquer doença pode ser alvo de uma abordagem como se de psicossomática se tratasse, pois o que precisa de tratamento não é apenas a doença mas sim o doente.

 

PsicossomáticaPense que pode ter na Sua Psicóloga uma aliada importante para o ajudar a lidar com os seus problemas. Procure apoio!

Sugestão:

https://rfs.emnuvens.com.br/rfs/article/view/14/12

http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-37722016000300245&script=sci_arttext&tlng=pt

 

Será que o meu filho já tem idade para ir ao psicólogo?

Psicólogo infantilSou questionada algumas vezes sobre a partir de que idade, pode uma criança beneficiar de acompanhamento psicológico. Pais e cuidadores preocupam-se frequentemente com o bem-estar das suas crianças mas têm ainda alguma relutância em procurar o psicólogo.

A razão mais frequente para se evitar procurar a ajuda do psicólogo prende-se com questões sociais, pois há ainda o mito de que o psicólogo serve para ajudar apenas as “pessoas perturbadas”, no entanto, essa tendência está a diminuir uma vez que as pessoas estão cada vez mais informadas. Porém, reconhecer que se precisa de ajuda pode significar para os pais alguma incapacidade no desempenho do seu nobre papel. Por outro lado, os pais por vezes tendem a pensar que os problemas se resolvem por si só. E não estão completamente enganados. Alguns comportamentos típicos das crianças e que deixam os pais com os “nervos em franja” têm a ver com a imaturidade do bebé e de facto, numa perspetiva desenvolvimentista, resolvem-se simplesmente com o passar do tempo. Porém, há outros comportamentos ou situações que podem ser indicadores de algum tipo de perturbação, que pode ser séria, ou que não sendo propriamente muito grave, tem um impacto muito negativo na vida criança e da família e que pode ser resolvida com uma intervenção breve e precoce. Continuar a ler