Luto antecipatório, quando a morte é eminente

Na ideia de morte está implícita a perda e a irreversibilidade. É sempre difícil lidar com as perdas, ainda que isso possa ser o sinónimo de paz e libertação. Lidar com a perda implica um processo de luto, mais ou menos complexo, mais ou menos doloroso, consoante as características do indivíduo enlutado e as circunstâncias da perda.

As sociedades ocidentais têm por norma uma visão da morte um pouco redutora. Temos tendência a evitar o assunto, arranjamos eufemismos para não pronunciar a palavra morte ou morreu. Em vez disso escolhemos dizer partiu ou desapareceu, no intuito de aligeirar algo que traz consigo dor, drama e por vezes uma enorme dificuldade de aceitação. De facto há mortes trágicas, dolorosas e inesperadas, outras contra natura, essas talvez as mais difíceis de aceitar e com processos de luto mais difíceis e sofridos. Mas a morte pode também ser o caminho para a paz, o alívio e a libertação.

A morte encerra em si um ciclo, uma vida. Os sobreviventes tendem a dar-lhe significado, os crentes tendem a acreditar que a morte não é o fim. Talvez esta seja uma perspetiva mais tranquilizadora, e bem-aventurados sejam aqueles que acreditam na vida eterna. As crenças religiosas e de reencarnação, podem ser muito úteis também para ajudar a lidar com a perda e a tornar menos penoso o processo de luto. Porém, seja como for, a morte trás sempre a falta da pessoa e da vida como a ela nos habituamos, e a perda de alguém que nos é querido dói sempre.

Nos casos em que a pessoa está muito doente, debilitada e que não tem já possibilidade de cura ou recuperação, assim como no caso de pessoas muito idosas, cujas capacidades foram sendo perdidas gradualmente, e que o gosto pela vida deu já lugar ao sofrimento e à súplica por morrer, a morte pode vir em forma de libertação e alívio. Os mais próximos, doridos pelo tormento de alguém que amam, e a quem pouco podem fazer, iniciam um processo complexo de luto antecipatório, desejando por vezes que o seu ente querido não viva o dia seguinte. No entanto, este é um processo de uma ambiguidade também ela dolorosa.

Este luto antecipatório ocorre antes da perda, ou seja, quando a morte é já eminente mas ainda não aconteceu. É um processo em que o enlutado não antecipa apenas a perda da pessoa que lhe é querida mas também perdas passadas e atuais. É no confronto com a falta dessa pessoa, tal como ela era antes, nos seus papéis, qualidade da relação, identidade pessoal, etc., que a pessoa em luto experiencia, ainda no período terminal, sentimentos de ausência, solidão e perda. É a ingrata dor que se vai sentindo e que, no momento da morte, recomeça como se não tivesse existido um período prévio de luto.

O “deixar partir” não significa quebrar o vínculo ou desinvestir na qualidade de vida e nos cuidados ao doente A antecipação da perda pode também servir como uma oportunidade para resolver alguns aspetos que possam ter ficado pendentes ao longo da relação, para fortalecer os laços com a pessoa que está a morrer, para dizer algo que nunca foi dito antes, como o quanto a ama, o quanto com ela aprendeu, o quanto sentirá a sua falta ou que nunca a esquecerá. Assim mesmo, o luto antecipatório deve ser visto como um complexo processo individual, com tudo o que de verdadeiro e seguro existe para cada pessoa e para cada relação. É um processo que encerra em si toda uma história de vida, de relação e que culmina na antecipação de dilemas, pensamentos e emoções.

Que a morte pode ser serena, tranquila e libertadora de um martírio, não afasta o pesar da perda aos que são mais próximos. O tempo, esse pode ser o grande aliado, que com o seu passar vai mitigando a tristeza e a dor, transformando-a em paz, quietude e equilíbrio. As memórias, essas ficarão para sempre, para nos aquecerem a alma.

Praticar a empatia

As relações pessoais são essenciais ao ser humano. Com elas podem vir as maiores alegrias, aprendizagens e partilhas. No entanto, muitas vezes são também fonte de discórdia, tensão, mágoas ou sentimentos de incompreensão. A empatia permite-nos colocar no lugar do outro e melhorar significativamente as relações, as interações e a nossa própria satisfação com os outros e com a vida.

A empatia é a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro, de “calçar os seus sapatos” e o perceber emocionalmente, com o objetivo de estabelecer uma ligação profunda e verdadeira. É a capacidade de nos identificarmos com alguém e partilhar os seus sentimentos e motivações. Só consegue ser empático aquele que desenvolveu a sua inteligência emocional e que, por isso, tem a capacidade de identificar, reconhecer e lidar com os seus sentimentos e com os dos outros.

Nem todas as pessoas conseguem ser espontaneamente empáticas, porém, se quiserem podem aprender a desenvolver essa competência. Há um conjunto de características que definem uma pessoa empática, como por exemplo ser curiosa, observadora, sensível, disponível, saber escutar, ser recetiva às emoções dos outros e ter uma boa capacidade de reflexão. Algumas pessoas são naturalmente mais empáticas que outras mas esta é uma competência que se pode aprender e desenvolver ao longo da vida.

Os três principais passos para o desenvolvimento da empatia são: saber praticar a escuta ativa, evitar “frases feitas” que servem para qualquer situação e tentar pensar e sentir como a outra pessoa. O primeiro passo é sem dívida saber ouvir. Focar-se na conversa sem distrações, adotar uma postura corporal que expresse o seu interesse no outro, evitando por exemplo, cruzar os braços, não interromper o discurso da outra pessoa, fazer apenas perguntas pertinentes, clarificar o que possa não ter entendido bem e ter um interesse real no que a pessoa lhe está a dizer.

Ainda que sejam ditas com a melhor das intenções e para tranquilizar a outra pessoa, frases “cliché” como “não te preocupes”, “vai correr tudo bem” ou “isso resolve-se”, não só não ajudam, como podem criar uma barreira na comunicação impedindo que a pessoa desabafe e expresse os seus sentimentos. Do mesmo modo, os conselhos, em determinados momentos não são recomendados uma vez que podem ser entendidos como um sermão ou uma verdade absoluta. Quando não sabemos o que dizer, o melhor mesmo é não dizer nada, nunca esquecendo que saber ouvir pode ser a melhor ajuda a dar naquele momento.

Pensar e sentir como a outra pessoa, é o terceiro passo para a empatia mas sem dúvida o mais difícil e desafiante. Colocarmo-nos no lugar do outro, perceber a sua perspetiva e procurar compreender e aceitar os seus sentimentos e emoções, pode exigir um enorme esforço da nossa parte. Tendemos a tirar conclusões ou fazer julgamentos sobre o que está a ser dito ou sobre o que está a acontecer, com base no nosso sistema de crenças, história de vida e expectativas. Porém, para sermos empáticos, é fundamental que deixemos de acreditar que os outros devem viver como nós e agir como achamos conveniente, aceitando a diferença, e, se possível, aprendendo com ela.

Regresso às aulas: uma ansiedade natural

A ansiedade é uma reação comum e até certo ponto funcional, na vida de qualquer indivíduo, podendo manifestar-se por comportamentos de fuga ou evitamento. É normal que cada um de nós, em vários momentos da nossa existência, experienciemos o sentimento de ansiedade, sempre que avaliamos cognitivamente uma situação ou um acontecimento que consideramos importante.

O regresso às aulas é para a maioria crianças e jovens, um momento aguardado com alguma ansiedade.  Corresponde ao reinício de rotinas e tarefas, interrompidas pelo período de férias. Principalmente as crianças do primeiro ciclo, tendem a revelar uma grande vontade de recomeçar a escola e de rever colegas e professores, o que de um modo geral, nem sempre é vivido com o mesmo entusiasmo por parte dos adolescentes. De qualquer modo, o momento de se confrontarem com novos professores, distribuição de turmas e horários, bem como novas disciplinas e novas matérias, pode ser sempre acompanhado de alguma ansiedade e outras emoções intensas.

Continue a ler “Regresso às aulas: uma ansiedade natural”

Falar da guerra aos mais novos

As notícias e imagens de guerra que diariamente chegam às nossas casas, podem afetar de forma muito significativa os pensamentos e sentimentos de crianças e adolescentes. Mesmo relativamente longe, assistir aos conflitos armados que acontecem neste momento, pode comprometer a necessidade dos mais novos verem o mundo como um lugar seguro e previsível.

A atual guerra entre a Rússia e a Ucrânia faz com que cheguem diariamente às nossas casas imagens e relatos do conflito, que por um lado nos mantêm informados e por outro lado nos provocam stresse e ansiedade. Sem que muitas vezes consigam compreender o que se está a passar, as crianças/adolescentes podem ser particularmente sensíveis a esta situação, que pode ser verdadeiramente aterrorizadora. As imagens dos bombardeamentos e destruição, dos feridos, das pessoas a fugirem desesperadas e os relatos emocionados quer de repórteres, quer dos refugiados podem provocar medo, sofrimento ou confusão. A nós pais e educadores, cabe-nos procurar proteger as crianças e ao mesmo tempo encoraja-las a serem curiosas em relação ao que se passa no mundo. Como podemos então desempenhar essa tarefa tão difícil?

Continue a ler “Falar da guerra aos mais novos”

Perturbação da Personalidade Esquizoide

A Perturbação da Personalidade Esquizoide expressa-se essencialmente por três características: a falta de interesse nas relações sociais, a tendência para o isolamento e a frieza emocional.

Apesar da semelhança semântica e de alguns sintomas comuns (como o embotamento emocional e o isolamento), a Perturbação da Personalidade Esquizoide não é o mesmo que esquizofrenia. A esquizofrenia caracteriza-se sobretudo, por uma fragmentação da estrutura básica dos processos de pensamento, acompanhada pela dificuldade em estabelecer a distinção entre experiências internas e externas, como é o caso dos sintomas psicóticos de delírio ou alucinação. O termo esquizoide foi criado por Eugen Bleuer, no início do século XX, para definir uma tendência da pessoa para dirigir a sua atenção para o mundo interior, fechando-se ao mundo exterior e á experiência.

A característica central que define esta perturbação da personalidade é o padrão evasivo de distanciamento dos relacionamentos sociais, a par com uma diminuta expressão emocional em termos interpessoais. Este padrão começa tipicamente no início da idade adulta e revela-se nos diversos contextos em que a pessoa se move. Os indivíduos com personalidade esquizoide parecem não ter um desejo de intimidade, preferindo passar o tempo sozinhos em detrimento de estar com outras pessoas, mesmo no contexto familiar. As atividades escolhidas são predominantemente solitárias e mesmo quando se tratam de momentos passados com outras pessoas, a interação é diminuta. Deste modo, identifica-se uma preferência por tarefas mecânicas ou abstratas, assim como uma satisfação reduzida com experiências sensoriais

Um indivíduo com Perturbação da Personalidade Esquizoide parece ser igualmente indiferente às críticas ou elogios. Pode parecer lento e letárgico, com um discurso monocórdico, tendo tendencialmente um humor negativo. Esta perturbação da personalidade pode emergir durante a infância ou adolescência, sob a forma de solidão, fraco relacionamento com os pares e baixo rendimento escolar, o que pode conduzir a situações em que estas crianças/adolescentes sejam vistas como diferentes e como alvos de bullying. A Perturbação da Personalidade Esquizoide é diagnosticada com uma frequência levemente superior em sujeitos do sexo masculino. Pode ainda ter uma prevalência maior entre os familiares de indivíduos com Esquizofrenia ou Perturbação da Personalidade Esquizotípica.

Os critérios de diagnóstico desta perturbação são a existência de um padrão de distanciamento das relações sociais e uma faixa restrita de expressão emocional em contextos interpessoais, que começa no início da idade adulta e está presente numa variedade de contextos, indicado pelo menos por quatro dos seguintes critérios: não deseja nem retira prazer de relações próximas, incluindo fazer parte de uma família; escolhe habitualmente atividades solitárias; manifesta pouco ou nenhum interesse em ter experiências sexuais com outra pessoa; tem prazer em poucas atividades, ou em nenhuma; não tem amigos íntimos ou confidentes sem ser familiares em primeiro grau; mostra-se indiferente a elogios ou críticas dos outros; demonstra frieza emocional, distanciamento ou afetividade embotada.

A psicoterapia, tendo uma forte natureza interpessoal, a partir da qual se estabelece a relação terapêutica, pode inicialmente ser difícil de aceitar por parte dos indivíduos com Perturbação da Personalidade Esquizotípica. Estas pessoas poderão ter algumas dificuldades na colaboração e relação com o psicólogo. A psicoterapia poderá trazer sentimentos ambíguos, havendo o receio por parte do cliente de que a mesma o faça descobrir mais falhas na sua personalidade e aumentar o seu sentido de desadequação. Poderá ainda ser igualmente, difícil definir objetivos terapêuticos de mudança e colaboração. Porém, com validação por parte do terapeuta, será importante o foco da atenção na idiossincrasia do problema, isto é, naquilo que preocupa o cliente num determinado assunto, que será relevante clarificar. Será difícil para o psicólogo, por exemplo, aceitar objetivos terapêuticos que não incluam a integração social e que não vão de encontro destas crenças. Por exemplo, quanto à temática de “não ter amigos”, o psicólogo poderá considerar que seria importante para o cliente ter um amigo ou dois, quando para este, o importante neste tema, poderá ser que a família não esteja sempre a dizer-lhe que devia ter amigos.

A intervenção psicológica com clientes com este tipo de personalidade, cujas crenças e perceções podem contrastar significativamente com as do psicólogo, poderá trazer algumas dificuldades e é sem dúvida um desafio. O cliente poderá ter crenças muito enraizadas como: “as pessoas são cruéis”; “as pessoas são frias”; “as pessoas apenas deverão falar se houver alguma coisa para falar”. Do ponto de vista terapêutico, muito mais do que tentar iniciar processos de mudança comportamental ou de reestruturação cognitiva, é conduzir a intervenção no sentido do estabelecimento de uma relação de empatia e confiança, fortalecida pela sua forma centrada no cliente. O que se pretende é lentamente ir ganhando a confiança do cliente ao mesmo tempo que este adquire segurança e aos poucos vai expressando as suas necessidades e emoções, com o objetivo ir conduzindo a intervenção no sentido da diminuição o seu défice funcional e aumento da sua adaptação aos diversos contextos em que se move.

Fonte:

Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais – Quinta Edição (DSM-V). American Psychiatric Association.

Motivar para aprender

A motivação é o ponto de partida parta uma aprendizagem eficaz. Alunos com capacidades cognitivas normativas, se motivados, estão predispostos a aprender e a dar significado às suas aprendizagens. A par da motivação está a autoestima. Um aluno com boa autoestima, reconhece as suas capacidades e permite-se utilizar estratégias adequadas a uma aprendizagem orientada para o sucesso!

Muitos jovens e até crianças, revelam nos dias de hoje, uma grande desmotivação face à escola e à aprendizagem, com efeitos muito significativos ao nível do decréscimo do rendimento escolar e do seu bem-estar emocional e familiar, O desinteresse e a desmotivação com a escola, habitualmente, não é determinado por uma única causa mas sim, por um conjunto de determinantes que podem englobar fatores temperamentais, ambientais ou contextuais e ainda fatores genéticos. Uma das causas mais frequentemente apontadas para a desmotivação para o estudo é a forma como os conteúdos programáticos são lecionados ou a dificuldade na relação com os professores. Outra razão para o desinteresse, prende-se com o facto de que as crianças e os jovens podem não reconhecer utilidade a alguns dos referidos conteúdos, ou de não entenderem de que forma essas aprendizagens lhe podem ser úteis, quer no presente, quer no futuro.

Continue a ler “Motivar para aprender”

Parto e ansiedade

O momento do parto pode ver visto sob duas perspetivas: a positiva, associada à felicidade e entusiasmo pelo nascimento e pela realização do casal enquanto pais, e a perspetiva mais negativa, habitualmente relacionada com a ansiedade e o medo da vivência desse momento.

O parto é, à medida de cada caso, uma experiência física e emocionalmente exigente. A separação de dois (ou mais!) seres, que viveram aproximadamente 9 meses de modo interdependente em contacto íntimo e permanente, tem um impacto emocional para cada um deles. Numa perspetiva psicodinâmica, no momento do parto a mulher revive inconscientemente o trauma do seu próprio nascimento e a angústia que experienciou ao nascer, pela perda do estado intrauterino e pelo medo do desconhecido. A ansiedade causada pelo medo de cuidar o bebé, associado à sensação de perda ou “esvaziamento”, são os dois fatores cuja interação pode conduzir a um estado de confusão que pode desencadear na mulher a sensação de despersonalização ou perda de identidade.

Continue a ler “Parto e ansiedade”

A criança que tem medo do escuro

O medo do escuro na hora de deitar é uma queixa relativamente comum nas crianças entre os 2 e os 8 anos de idade. O modo como os pais e cuidadores lidam com esse medo da criança poderá afetar o comportamento da criança, a sua capacidade de adormecer e a qualidade do seu sono. Compreenda porque é que as crianças têm medo do escuro e será meio caminho andado para as ajudar!

.

Uma das principais causas do aparecimento do medo do escuro tem a ver com a extrema capacidade imaginativa das crianças mais pequenas. Na escuridão a mente da criança foca-se no mundo imaginário que lhe oferece imagens que ela por vezes não consegue controlar. Sem a clareza da luz, no escuro a criança perde a perceção do que a rodeia e pode ser levada a imaginar seres bizarros que a assustam. Ao invés do universo familiar que a faz sentir-se segura, a mente da criança fica à mercê do seu mundo interior, a sua imaginação, os seus pensamentos, que podem evocar imagens mentais assustadoras. Conforme o seu estado emocional, as representações mentais que lhe ocorrem podem não ser muito tranquilizadoras e provocar na criança uma ansiedade difícil de controlar. As crianças absorvem tudo o que as rodeia, a um ritmo muito rápido, e em virtude disso a sua capacidade de imaginação é enorme e promotora da capacidade criativa para idealizar coisas novas e assustadoras.

Continue a ler “A criança que tem medo do escuro”

Os mais velhos, as memórias e as emoções

O desempenho da memória nas pessoas mais velhas e a sua relação com as emoções, conduz para a possibilidade de haver um enviesamento para as memórias positivas. Parece haver evidência de que os adultos mais velhos apresentam uma tendência para recordar mais facilmente imagens associadas a emoções positivas do que a emoções negativas.

De um modo geral, quando se discutem tarefas relacionadas com a utilização da memória, a população idosa parece demonstrar alguns défices na sua realização quando comparada com a população de adultos mais jovens. No entanto, ao proceder-se ao estudo de tarefas relacionadas com formas de bem-estar e regulação emocional, os idosos, em comparação com os jovens adultos, revelam melhorias e não o declínio que seria esperado. Este declínio seria esperado uma vez que a nível fisiológico se dá uma redução do volume da massa cerebral com o avançar da idade. Porém, apesar dessa redução, as estruturas cerebrais relacionadas com o processamento das emoções e memória, em concreto a amígdala cerebral, não sofrem alterações estruturais significativas.

Continue a ler “Os mais velhos, as memórias e as emoções”

Perturbação histriónica da personalidade

A perturbação histriónica da personalidade caracteriza-se principalmente por uma emocionalidade persistente e exacerbada, em que os indivíduos apresentam comportamentos invasivos e excessivos que visam sobretudo a chamada da atenção. Quando não a conseguem, estas pessoas sentem que os outros não lhes têm a devida estima e em regra ficam tristes e desanimadas.

Os indivíduos com perturbação histriónica da personalidade são de um modo geral pessoas muito vivaças e dramáticas que tendem a atrair novos conhecimentos pelo seu entusiasmo, simpatia, aparente abertura ou encanto pessoal. No entanto, estas “qualidades” desgastam-se pela ação persistente e continuada em serem o centro das atenções, assumindo com frequência o papel de “alma da festa”. Quando não se sentem o centro das atenções, procuram frequentemente fazer algo dramático (ex. partir propositadamente um copo no restaurante, passar do choro convulsivo para o riso exagerado, inventar histórias mirabolantes, tec…) para focalizarem em si todos os olhares. Esta necessidade é habitualmente aparente em contexto clínico pelo seu comportamento (ex. elogiar, o psicólogo ou outro técnico, oferecer presentes ou descrever dramaticamente sintomas psicológicos e físicos que são habitualmente distintos em cada consulta em que são referidos).

O comportamento e a aparência dos indivíduos com perturbação histriónica da personalidade é muitas vezes inapropriadamente sedutor ou provocante do ponto de vista sexual, e é dirigido não só às pessoas pelas quais tem interesse sexual ou amoroso, como também pode estar presente noutros contextos (profissional, social, familiar…) e tendem frequentemente a considerar as relações mais íntimas do que na realidade são. Estas pessoas utilizam consistentemente a sua aparência física para atrair atenções, no entanto a sua expressão emocional pode alterar-se rapidamente, sendo por norma superficial. Andam constantemente à procura de elogios quanto à sua aparência e podem por exemplo, com muita facilidade, ficar excessivamente aborrecidas por comentários críticos acerca do seu aspecto.

Em termos de discurso, os indivíduos com perturbação histriónica da personalidade tendem a ser excessivamente impressionistas mas com ausência de pormenor. Expressam opiniões fortes em tom dramático, teatral, mas as razões subjacentes são habitualmente vagas e difusas e em regra isentas de fundamento. Exageram tanto na dramatização, teatralidade e expressividade emocional que podem embaraçar amigos e conhecidos. Estes sentimentos parecem ligar-se e desligar-se demasiado rapidamente para serem sentidos profundamente, o que pode levar muitas vezes à acusação de serem pessoas falsas ou fingidas. Por outro lado, são pessoas bastante sugestionáveis, ou seja, deixam-se influenciar facilmente, quer pelos outros, quer pelas circunstâncias.

Parece não haver evidência de que o risco de suicídio seja aumentado por este tipo de perturbação, no entanto, a experiência clínica sugere que estes indivíduos (principalmente mulheres) têm um risco aumentado de ameaças e gestos suicidários com o intuito de obterem mais atenção e melhor exercerem coação sobre os que lhes estão próximos. A expressão comportamental na perturbação histriónica da personalidade pode ser influenciada pelos estereótipos dos papéis sexuais. Os homens com esta perturbação podem apresentar comportamentos “machistas” e as mulheres exacerbarem a sua “vulnerabilidade feminina”, não hesitando em revelarem frágeis ou dependentes para obterem atenção e cuidados.

Esta perturbação começa a manifestar-se no início da idade adulta e tem uma prevalência de 1,84%. As normas das relações interpessoais, expressão de sentimentos, vestuário e aparência variam conforme a cultura, o género e a idade. O facto de uma pessoa apresentar como traço de personalidade um estilo mais dramático ou uma emocionalidade mais efusiva, não significa necessariamente que seja alguém com uma perturbação histriónica da personalidade. Esta deverá ser considerada apenas se os referidos comportamentos forem causadores de défice ou mal-estar clinicamente significativos.

Fonte: Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais – Quinta Edição (DSM-V). American Psychiatric Association.