Psicólogos clínicos no SNS: Precisam-se!

Psicologia no SNSNos cuidados de saúde primários, a intervenção em psicologia clínica consiste na prestação de serviços psicológicos aos indivíduos, ás famílias e à comunidade, fazendo a integração da promoção da saúde e da prevenção da doença, assim como o apoio assistencial.

A intervenção do psicólogo clínico em contexto de cuidados de saúde primários implica a adoção de um paradigma holista no entendimento da pessoa bem como dos processos de saúde e/ou doença. Pressupõe também a integração numa equipa multidisciplinar, no sentido de poder fazer um trabalho responsável, integrativo e colaborativo, entre o utente, a família e a comunidade, e os restantes profissionais dos cuidados de saúde primários, em articulação com os cuidados de saúde especializados, se necessário. Compreender o indivíduo e o seu contexto, requer a aplicação de um modelo multidimensional, centrado no indivíduo e nas suas particularidades que vise essencialmente a promoção da sua autonomia e do seu bem-estar, não só psicológico mas consequentemente físico e relacional. Continuar a ler

Psicossomática: afinal estou doente de quê?

SomatizaçãoA somatização caracteriza-se pela apresentação de sintomas físicos em indivíduos, sem causa orgânica óbvia. É uma problemática que está associada a uma incapacidade funcional e a um grande recurso aos cuidados de saúde.

A presença persistente de sintomatologia física sem explicação médica constitui-se como um enorme desafio quer para médicos, quer para psicólogos. Estes sintomas apresentam-se num continuum e podem ir de ligeiros e transitórios a intensos, constantes e severos. Os sintomas físicos mais comuns na somatização são a fadiga, as dores de cabeça, as dores nas costas, a insónia, as dores de barriga, as tonturas, o aumento dos batimentos cardíacos ou a falta de ar. O doente psicossomático tende a procurar sistematicamente uma causa orgânica para as suas queixas e por isso recorre frequentemente aos cuidados de saúde, no sentido de pedir ao médico a prescrição de exames auxiliares de diagnóstico ou medicamentos para o alívio dos sintomas, de uma doença que não tem. Nesta procura excessiva pelos cuidados de saúde, a relação com o médico pode ficar afetada se este não entender o problema do paciente, ou seja, se não levar em consideração os fatores psicossociais que o envolvem. Além do mais, a banalização da toma de medicação para alívio da referida sintomatologia pode conduzir a uma dependência que não é de todo recomendada.

PsicossomáticaOs resultados apresentados pela investigação sobre esta matéria sugerem uma prevalência de doentes psicossomáticos na ordem dos 20% a 50%, no entanto, nem todos os indivíduos que apresentam sintomatologia física sem explicação médica, preenchem todos os critérios de referenciação para os cuidados de saúde mental. É de salientar que muito frequentemente, a apresentação deste tipo de sintomatologia está associado a casos de ansiedade e/ou depressão, sendo que a intervenção psicológica poderá trazer um enorme benefício para estes indivíduos. Porém, muitas vezes, estes pacientes recusam a necessidade de apoio psicológico mesmo quando é sugerida pelo médico, dando preferência a uma intervenção médica sobre os sintomas. O estigma ainda presente em muitos grupos sociais, pode ajudar a explicar essa dificuldade em aderir ao acompanhamento psicológico, mesmo que indiretamente, possam demonstrar o desejo de apoio emocional.

PsicossomáticaPodem-se referir como determinantes da sintomatologia psicossomática o stresse e a ansiedade, sendo que estes provocam um aumento da atividade cerebral e a produção de cortisol e adrenalina. Estas hormonas podem afetar outros órgãos do corpo como o estômago, os intestinos, o coração ou a pele.  O stresse profissional, os traumas por acontecimentos de vida significativos, a dificuldade em expressar as emoções ou um elevado grau de perfeccionismo, constituem-se como algumas das causas possíveis para o desenvolvimento desta patologia. As perturbações psicossomáticas, ou seja, com causa emocional, não tratadas, podem conduzir elas próprias ao aparecimento de doenças como por exemplo a gastrite ou a hipertensão arterial. Em casos mais graves, a sintomatologia mais intensa poderá mesmo confundir-se com situações graves como o enfarte do miocárdio ou o acidente vascular cerebral, como é o caso dos ataques de pânico, em que o indivíduo experimenta sensações tão desagradáveis que o podem fazer pensar que vai morrer.

SomatizaçãoEm termos de tratamento, o doente psicossomático poderá como já foi referido, beneficiar de acompanhamento psicológico, uma vez que este pode ajudar o indivíduo a identificar o motivo do seu stresse e da sua ansiedade e, deste modo, aprender a lidar com a situação e conseguir treinar estratégias promotoras da redução da ansiedade e do aumento do bem-estar. Alguns casos poderão beneficiar de um tratamento misto, ou seja, intervenção psicológica combinada com medicação. Esta é habitualmente feita através de analgésicos ou anti-inflamatórios, para alívio dos sintomas, mas também ansiolíticos e antidepressivos. A psicossomática coloca a doença numa dimensão psicológica abrangente e integral, proporcionando uma abordagem onde a relação entre médico, paciente e psicólogo se constituem como um recurso muito relevante para que o indivíduo seja olhado como um todo, e não penas com vista ao tratamento dos sintomas. Assim, qualquer doença pode ser alvo de uma abordagem como se de psicossomática se tratasse, pois o que precisa de tratamento não é apenas a doença mas sim o doente.

 

PsicossomáticaPense que pode ter na Sua Psicóloga uma aliada importante para o ajudar a lidar com os seus problemas. Procure apoio!

Sugestão:

https://rfs.emnuvens.com.br/rfs/article/view/14/12

http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-37722016000300245&script=sci_arttext&tlng=pt

 

Doença de Parkinson

Doença neuro-degenerativaA Doença de Parkinson é a segunda doença neuro-degenerativa mais comum na população e resulta na acumulação anormal de proteínas no cérebro e na morte progressiva de neurónios. Pensa-se que uma grande parte das dificuldades motoras apresentadas pelos doentes derivam da perda de neurónios produtores de Dopamina.

Doença de Parkinson foi descrita em 1817 por James Parkinson e é uma das doenças neurológicas mais frequentes dos nossos dias. Apresenta uma distribuição universal, sendo transversal aos vários grupos étnicos e classes socioeconómicas. Estima-se uma prevalência de 100 a 200 casos por 100.000 habitantes e a sua prevalência aumenta com o avançar da idade. Esta doença é de um modo geral conhecida pelas suas características motoras como os tremores, rigidez, face pouco expressiva, lentificação dos movimentos e alterações da marcha. Também a presença de manifestações neuropsiquiátricas é frequente e conduzem à diminuição do funcionamento global do doente e consequentemente, da sua qualidade de vida. Destas manifestações destacam-se a depressão, ansiedade, dificuldades de sono, disfunção sexual ou demência. Continuar a ler

Intervenção no luto

Luto e psicologiaO luto éuma reação à perda de um ente querido ou de algo mais abstrato em seu lugar, como por exemplo, o trabalho, um relacionamento, a pátria ou até mesmo uma ideologia.

O modelo dual de intervenção no luto proposto por Stroebe & Schut (1999) tenta compreender as reações dos indivíduos às perdas, sugerindo um modelo de compreensão do processo de se lidar com a perda e de adaptação ao luto. Neste modelo os autores propõem a coexistência de três dimensões ou componentes: (a) orientação para a perda, (b) orientação para o restabelecimento e (c) oscilação. Este processo de adaptação ao luto defende a existência de uma dinâmica de oscilação do indivíduo enlutado entre o confronto orientado para a perda e o confronto orientado para o restabelecimento.

Intervenção psicológica no lutoNo conforto orientado para a perda o enlutado disponibiliza-se para elaborar a perda, vivenciar a dor, a ausência, os medos, traduzindo-se numa abertura para trabalhar estes aspetos. O confronto orientado para o restabelecimento diz respeito ao investimento na vida e na realidade que o rodeia, traduzindo-se na reorganização da vida. Este processo dinâmico é fundamental para uma adaptação satisfatória, funcionando como um mecanismo regulatório que integra e organiza internamente, quer o confronto orientado para a perda, quer o confronto orientado para o restabelecimento.

Psicologia no apoio ao lutoConsiderar em simultâneo as duas dimensões é muito difícil, mas como é necessário atender a ambas, a oscilação é um processo indispensável e, muito possivelmente, um dos melhores informativos do desenvolvimento da experiência do luto. O valor que os autores atribuem ao processo de oscilação, tratando-se de um processo de ‘coping’ (lidar com), que regula os esforços de adaptação do indivíduo, em paralelo com a proposta de que um ‘coping’ adaptativo seria constituído tanto por stressores de perda como de restabelecimento, que se traduz numa oscilação enquanto indicador do processo.

LUTOA tomada de decisão por parte do enlutado, está sempre presente na medida em que pode optar pela atenção dada ao stresse gerado pela perda ou pela supressão da dor e centrar-se na adaptação a uma realidade externa alterada. Partindo deste modelo, o psicoterapeuta assume o papel de facilitador, sensibilizando os seus clientes na tomada de decisão inerente a este processo ativo, ajudando-os a discriminar as implicações que advêm de cada uma das suas decisões, que podem ser tomadas de uma forma consciente ou inconsciente.

A elaboração do luto continua a ser necessária e o tipo de vinculação à pessoa falecida constitui um fator altamente determinante nas intervenções com enlutados. O indivíduo enlutado deve tornar-se capaz de aceitar a realidade da perda e reorganizar a sua vida sem o objeto perdido. Vários autores defendem que, quanto mais complicado for o processo de luto, maiores serão as hipóteses de que a psicoterapia contribua para resultados satisfatórios.

Apoio psicológico no lutoAssim, as intervenções com pessoas enlutadas devem ser principalmente dirigidas para pacientes com riscos sociodemográficos e circunstanciais, sejam elas pessoas sem apoio familiar, social e financeiro, que vivam sós ou cujo luto seja consequência de mortes violentas, traumáticas ou em massa. Parece também relevante dar especial atenção a situações de mães e esposas, sobretudo se a relação com o falecido tiver características de dependência. Indivíduos que apresentem ideação suicida devem ser considerados prioridade, assim como os que manifestaram transtornos psiquiátricos prévios à perda. Sujeitos que tenham sido vítimas de abuso ou negligência parental na infância podem igualmente obter grandes benefícios com a psicoterapia.

Processos de luto

“Para além da felicidade e do rir, também a tristeza e o chorar, são elementos intrínsecos ao facto de estar vivo, bem como na elaboração das perdas significativas”.

 

 

Bibliografia

Barbosa, A., (2013). Olhares sobre o Luto. Lisboa: AIDMFL.

Parkes, C.M. (2006). Love and loss: The roots of grief and its complications. London: Routledge.

Stroebe, M. S., & Schut, H. (1999). The dual process model of coping with bereavement: Rationale and description. Death Studies, 23, 197-224.