Perturbação de movimentos estereotipados

A perturbação de movimentos estereotipados caracteriza-se por comportamentos motores repetitivos, não atribuíveis a efeitos fisiológicos de uma substância ou condição neurológica, aparentemente dirigidos sem propósito, que interferem com as atividades sociais, académicas ou outras, e que pode resultar em lesões do próprio indivíduo.

A perturbação de movimentos estereotipados pode incluir comportamentos como sacudir ou agitar as mãos, balançar o corpo, bater com a cabeça, bater a si próprio ou até mesmo morder-se, podendo resultar ou não em comportamentos autolesivos, consoante a gravidade do caso. Consideram-se autolesivos todos os comportamentos que podem resultar em lesões se não forem tomadas medidas preventivas. Deverá especificar-se se estes comportamentos estão associados a alguma condição médica ou genética conhecida, perturbação do neurodesenvolvimento ou fator ambiental (ex. exposição intrauterina ao álcool). A gravidade desta perturbação pode ser ligeira, se os sintomas são facilmente suprimidos por distração ou estímulos sensoriais, ou moderada, se os sintomas requerem medidas protetoras e modificação explícita do comportamento.

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Psicologia da saúde

A psicologia estuda os processos mentais e o comportamento humano no sentido de os avaliar, compreender, organizar, classificar, prever e modificar, no sentido da otimização dos recursos internos e do aumento da qualidade de vida.

A Psicologia da Saúde é a área disciplinar da psicologia que se refere ao estudo do comportamento humano em contexto de saúde ou da falta dela. Corresponde a um conjunto de contribuições técnicas, educacionais e cientificas da psicologia, para a promoção da saúde, a sua manutenção e a prevenção da doença, ou, no caso de esta estar instalada, trabalhar a aceitação do diagnóstico, a adaptação à situação de doença e ao tratamento da mesma. Nesta área da psicologia, o psicólogo assume um papel de profissional da saúde como um todo e não apenas da saúde mental e oferece uma intervenção de cuidados inclusivos, ou seja, ao longo do tempo e sempre que necessário em articulação com uma equipa multidisciplinar, como por exemplo o pediatra, o nutricionista ou o fisioterapeuta, ou outros.

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Isolamento profilático, ficar em casa…

Nestes tempos de pandemia a expressão “isolamento profilático” tornou-se muito comum. Todas as pessoas que tiveram contacto considerado de risco com pessoas infetadas com Covid-19, devem, por indicação das autoridades de saúde, ficar em isolamento profilático no domicílio, com todo o transtorno e os desafios que isso implica.

O isolamento profilático pressupõe que se fique em casa, mantendo o distanciamento social, o que significa que o quotidiano fica temporariamente alterado (cerca de 10 a 14 dias), sendo necessária uma adaptação à situação mas com uma limitação das atividades disponíveis. Sair para passear, ver um espetáculo, visitar amigos, partilhar refeições com familiares ou outras atividades que impliquem a socialização estão temporariamente desaconselhadas. Assim, há que ser criativo, resiliente e paciente e descobrir em si mesmo a capacidade de reorganizar o seu dia-a-dia, de acordo com as limitações e de descobrir novas formas de estar e de se relacionar com os outros.

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Ansiedade de separação na infância

Os problemas relacionados com ansiedade são muito prevalentes na população pediátrica. Os medos fazem parte do contexto infantil e são em certa medida adaptativos e protetores, porém, há casos em que o medo se torna impeditivo do funcionamento “normal” da criança, com um impacto potencialmente negativo no seu desenvolvimento socio-emocional.

Das várias dimensões que a ansiedade pode abarcar, a ansiedade de separação é talvez a mais típica do universo infantil. As crianças com esta perturbação apresentam um sofrimento excessivo e recorrente em situações de separação das figuras de referência, principalmente os pais. A enorme preocupação destas crianças com a perda, possíveis danos como acidentes ou até mesmo a morte dos que lhes são próximos, é muito perturbadora do seu quotidiano, com repercussões na tranquilidade familiar. Do mesmo modo, o medo intenso de se perderem ou de serem raptadas é outro sentimento comum a estas crianças. Esta perturbação pode verificar-se em crianças a partir dos 9 meses e estender-se à adolescência ou até mesmo à idade adulta, no entanto, é entre os 5 e os 9 anos que se observa maior incidência.

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O isolamento forçado

Em tempos de pandemia, situação que já não vai sendo nova e com os números de infetados a aumentar, podemo-nos ver a qualquer momento obrigados a entrar em isolamento, quer por apresentarmos sintomatologia suspeita de Covid-19, quer por termos tido conhecimento de ter havido contacto próximo com alguém infetado.

No sentido de ajudar as pessoas que se possam encontrar nesta situação, deixo aqui algumas dicas, que podem ser úteis, quer a nível da manutenção da nossa saúde física, quer para a preservação da nossa saúde mental. Assim, torna-se necessário dar atenção á alimentação. Uma alimentação equilibrada é sempre recomendável em todas as fases da vida. Numa situação de recolhimento, em que a atividade física e as rotinas habituais inevitavelmente se veem alteradas, a alimentação assume um papel ainda mais importante. Privilegie os alimentos naturais, frutas e legumes, que pelo facto de serem ricos em fibras, minerais, antioxidantes e vitaminas, vão certamente contribuir para o bom funcionamento do seu corpo e para uma mais rápida recuperação, no caso de estar doente.

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Perturbação de pesadelos

O espectro de perturbações do foro mental é vasto e diversificado. As perturbações do sono, para além de terem grande prevalência na população, transversal a todas as faixas etárias, tem implicações sérias ao nível das funções cognitivas, assim como na funcionalidade global do indivíduo.

De entre as várias tipologias de perturbações do sono, a perturbação de pesadelos é relativamente frequente e aumenta desde a infância até à adolescência. Em termos de prevalência, cerca de 1,3 a 3,9% dos pais relatam que os seus filhos em idade pré-escolar, têm frequentemente pesadelos (Manual de diagnóstico e estatística das perturbações mentais – DSM-V). A predominância desta perturbação aumenta por norma entre os 10 e aos 13 anos, em ambos os géneros, continuando tendencialmente a aumentar, entre os 20 e os 29 anos, principalmente no género feminino, enquanto, para o género masculino, a tendência é inversa. Nos adultos, a prevalência de pesadelos no mínimo mensais é de cerca de 6% e dos pesadelos frequentes é de aproximadamente 1 a 2 %. Estes pesadelos combinam indiscriminadamente as causas pós-traumáticas com pesadelos sem causa direta.

Em termos de características distintivas dos pesadelos em relação a outros sonhos, estes são tipicamente longos, elaborados, com uma sequência de imagens sonhadas do tipo história, que parecem reais e que provocam ansiedade, medo ou outras emoções perturbadoras. Os conteúdos dos pesadelos evocam habitualmente tentativas de evitamento ou de enfrentamento de perigos eminentes. No entanto, podem ocorrer pesadelos que evocam outros temas causadores de outras emoções negativas ou pesadelos que ocorrem após acontecimentos altamente stressantes ou traumáticos, podendo replicar a situação de ameaça.

Ao despertar, os pesadelos conseguem ser habitualmente recordados com facilidade e descritos em pormenor. Os pesadelos, por norma, terminam quando o indivíduo acorda, porém, as emoções por ele provocadas podem persistir e dificultar o retomar do sono, assim como causar um mal-estar diurno duradouro. Alguns pesadelos podem não induzir o acordar e serem recordados pelo indivíduo, apenas mais tarde.

Pode dizer-se que um indivíduo sofre de uma perturbação de pesadelos quando estes sonhos ocorrem repetidamente, são prolongados, são altamente perturbadores e envolvem, de um modo geral, esforços para evitar ameaças à sobrevivência, à segurança ou à integridade física do indivíduo ou outros. Outro critério de diagnóstico para esta perturbação é o facto de esta causar no indivíduo uma sensação de mal-estar clinicamente significativo, ou seja, que implique uma disfunção social, ocupacional ou que tenha impacto negativo noutra área do funcionamento individual. É ainda fator de diagnóstico o facto de o pesadelo não ser explicado por outras causas fisiológicas, como por exemplo o consumo de substâncias psicoativas ou outra condição médica coexistente.

No que diz respeito aos fatores de risco para o desenvolvimento de uma perturbação de pesadelos, podemos incluir os fatores temperamentais, ou seja, relacionados com a presença de uma perturbação da personalidade ou de um diagnóstico de doença mental. Destacam-se os fatores ambientais, como a privação ou a fragmentação do sono em horários irregulares de sono-vigília, que alteram o tempo e a qualidade do sono. Parece haver também evidencia para a influência de fatores genéticos na disposição parta os pesadelos.  Como fator de proteção para esta perturbação é de referir o comportamento parental adequado, ou seja, acalmar a criança à cabeceira quando esta acorda perturbada pode protege-la de desenvolver pesadelos crónicos.

Os pesadelos, de modo geral, causam mais um mal-estar significativo do que propriamente disfuncionalidade social ou ocupacional. Contudo, se os pesadelos forem muito frequentes ou levarem ao evitamento do sono, os indivíduos podem experienciar uma sonolência diurna excessiva, dificuldades de atenção e concentração, irritabilidade, ansiedade ou sintomatologia depressiva. A prática de bons hábitos de higiene do sono pode ter um impacto muito positivo na diminuição dos pesadelos, no entanto, pode não ser suficiente. Uma vez que os sonhos espelham frequentemente preocupações e angustias do indivíduo, a intervenção psicológica pode ter um papel muito importante nesta problemática. Procure ajuda, consulte a Sua Psicóloga!

Fonte: Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais – Quinta Edição (DSM-V). American Psychiatric Association.

Stresse! O mau e o bom…

Segundo Selye (1976) o stresse é um conjunto de respostas fisiológicas adaptativas que mobilizam o organismo para a ação. Considera-se que o stresse é um processo de adaptação e não propriamente uma doença, embora a exposição repetida a fatores causadores de stresse possa levar a um estado patológico pelo desgaste que provoca no indivíduo.

Existem vários tipos de stressores. Podem ser internos (representação mental ou memória) ou externos (viver uma situação). O indivíduo reage aos fatores causadores de stresse através da resposta emocional (ex. ansiedade ou medo), da resposta fisiológica (ex. roer as unhas), das respostas comportamentais (ex. agitação motora) ou as respostas cognitivas(ex. o pessimismo ou a dificuldade em tomar decisões). O stresse tem habitualmente no indivíduo consequências muito negativas. No entanto, também pode ser positivo pois leva-o à ação. Sendo muitas vezes inevitável, pois está presente nas situações do dia-a-dia, o stresse é também de certo modo desejável na medida em que funciona como o motor que nos conduz à resolução dos problemas. Pode ser a oportunidade de adquirirmos competências práticas e de nos tornarmos capazes.

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Não, nem tudo vai ficar bem…

Face a esta inesperada pandemia, todos nós de um modo ou outro, estamos a sofrer com as alterações a que ela nos obriga. A adaptação ás situações adversas é uma capacidade que uns terão mais do que outros, mas é sempre difícil entender e aceitar os efeitos destes tempos conturbados nas nossas vidas.

As alterações de quotidiano impostas pela pandemia vão desde a inibição total ou parcial da expressão emocional, as dificuldades em manter o ritmo e as rotinas escolares e laborais, as limitações  nas tarefas do dia-a-dia que implicam contacto com outras pessoas, entre muitas outras que cada um poderá particularizar, consoante a sua experiência. Estas alterações obrigam a uma adaptação cognitiva, emocional e comportamental. Temos que pensar sistematicamente onde é que tocámos, que temos que desinfetar ou lavar as mãos, que temos que usar a máscara em quase todos os contextos e situações, com tudo o que o seu uso implica, quer a nível do desconforto, quer a nível da imagem ou do que falta dela.

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Para que servem os Psicólogos?

Para que serve o psicólogo?

Se por vezes alguns adultos revelam dúvidas sobre o que faz um Psicólogo, as crianças poderão ter maior dificuldade em perceber qual a função destes profissionais. Quem são, para que servem e o que fazem é aquilo que me proponho esclarecer neste texto dedicado aos mais pequenos, para que possam saber o que contar se precisarem de recorrer à ajuda psicológica.

É relativamente frequente, em consulta, à pergunta “Sabes o que faz um psicólogo?”, algumas crianças ainda responderem algo do tipo “Tratam os malucos” ou “ajudam as pessoas que não são boas da cabeça”. Estes estereótipos são para eliminar de uma vez por todas. Primeiro porque não há malucos mas sim pessoas com perturbações mentais ou défices nas suas diversas capacidades, e depois, porque qualquer pessoa dita “normal” poderá beneficiar do apoio de um Psicólogo, em algum momento da sua vida. Continue a ler “Para que servem os Psicólogos?”

Adolescentes e competências sociais

Quando um adolescente tem boas competências sociais, isso quer dizer que o seu desempenho no que diz respeito às relações que estabelece e mantém com os outros é bem-sucedido. Este sucesso deve-se essencialmente a uma aprendizagem relacional e comportamental positiva que reflete um saudável desenvolvimento.

A adolescência é uma fase da vida em que as relações interpessoais assumem especial relevância. Os jovens estabelecem novas relações nos vários contextos em que se movimentam e o grupo de pares nesta fase da vida adquire uma maior relevância. Espera-se que durante a adolescência os jovens alcancem capacidades sociais que os venham a tornar adultos socialmente competentes. Embora a maioria dos jovens tenha potencial para desenvolver essas competências, nem sempre assim acontece de uma forma natural. Alguns jovens, quer por características de personalidade, quer por fatores ambientais e contextuais, têm dificuldades nas suas relações com os outros, nomeadamente com os seus colegas e companheiros de escola e atividades.

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