Ativação comportamental: combater a depressão

As pessoas deprimidas sentem uma diminuição da vontade de executar tarefas, bem como dificuldade em obter satisfação com atividades que anteriormente lhes agradavam. A estruturação comportamental pode ser o primeiro passo, numa caminhada para combater a depressão.

A depressão pode contribuir para a redução do numero de atividades que realiza e com as quais está comprometido/a. Ao mesmo tempo, estar deprimido/a retira a vontade de realizar tarefas que são do seu agrado e que lhe podem trazer bem-estar. Assim, uma forma de lidar com essa dificuldade de agir, é precisamente estruturar o seu dia-a-dia. Sozinho/a ou com o apoio do seu psicólogo/a, a implementação de um plano de estruturação comportamental e o comprometimento com o mesmo, são fundamentais para que possa aos poucos sair dessa “escuridão” que é o estado depressivo.

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O difícil confronto

Alberto entrou na sala devagar. Fechou distraidamente a porta e com passos pesados e lentos dirigiu-se a ela. Mariana, a esposa, estava sentada com um jornal que não conseguia ler, pois os seus pensamentos vagueavam. Estava nervosa, e ao ouvir a porta fechar-se sentiu um baque no peito. As mãos frias estavam húmidas e a sua face de pele branca e fina ruboresceu. Ele dirigiu-se a ela e apenas perguntou: “O que é o jantar?”

Há já algum tempo que Mariana se questionava sobre o que se passaria. Os felizes 40 anos de vida em comum com Alberto permitiam-lhe conhecê-lo como achava que não se conhecia a si mesma. No entanto, as últimas semanas ou talvez meses tinham-lhe trazido uma angústia difícil de explicar. Alguns comportamentos do marido deixavam-na desconcertada. O seu olhar vazio começava a perturba-la, e aos poucos ia-o sentindo distante e inacessível. Questionou-o, e ele apenas lhe disse algo como “não se passa nada, está tudo bem”, porém ela sentia que alguma coisa tinha mudado. Alberto saía vezes sem conta dizendo que ia “apanhar ar”. Por vezes voltava ao fim de várias horas, com um olhar tão perdido como os pensamentos que pairavam, sobre a cabeça de Mariana.

Há cerca de 2 meses, Alberto procurou o médico. Falou-lhe das suas preocupações e dúvidas e o clínico avaliou-o. Prescreveu-lhe exames, que ele fez de imediato, e, quando voltou à consulta, achando que a falta de estímulos e de ocupação decorrentes da sua recente situação de reforma, poderiam estar na origem do seu mal-estar, equacionando até poder estar deprimido, foi surpreendido com um diagnóstico que não esperava. Saíu do consultório confuso, triste e assustado. Não lhe ocorreu fazer ao médico nenhuma pergunta. Ouviu tudo o que este lhe disse, ou quase tudo, e com esforço tentou assimilar o máximo de informação. O choque tinha-se apoderado de si mas ecoavam-lhe na cabeça as palavras do clínico: “Sr. Alberto, lamento dizer-lhe mas a sua situação vai piorar, temos que tomar medidas”. Foi para casa, dizendo a Mariana quando esta o questionou acerca da sua saída, que tinha ido apenas espairecer. Saber que dentro de algum tempo já não a reconheceria e que as memórias das suas vidas felizes se estavam a dissipar, deixou-o sem ânimo, sem forças e sem coragem para lhe contar.

Dia após dia, Alberto foi-se fechando em si. Conseguiu esconder de Mariana o que se estava a passar mas sentia-se cada vez mais atormentado. Sofria em silencio os momentos de clara lucidez, e os outros, mais enevoados e difusos e que até então eram esparsos, ia conseguindo driblar com algum engenho, pensando que a estava a enganar e adiando o momento em que teria de a confrontar com a difícil situação. Não a queria fazer sofrer. Naquele dia, Mariana esperava-o para jantar, na dolorosa certeza de que aquele era o momento. A penosa conversa que se seguiria fê-la tremer e cambalear quando se levantou da cadeira e se dirigiu a ele. Tinha que o confrontar com o telefonema que tinha recebido de um consultório do qual nunca tinha ouvido falar. A secretária do médico apenas pretendia informar que a consulta do Sr. Alberto teria que ser adiada dois dias, mas Mariana, com o seu jeito meigo e curioso, conseguiu ouvir o que não esperava e sentir o que jamais imaginaria sentir quando atendeu o telemóvel que Alberto havia esquecido no quarto, antes de sair. A conversa do casal foi dura, os sentimentos sombrios, mas Mariana, abraçou-o demoradamente e tal como em alguns outros momentos da sua longa vida em comum, conseguiu acalmar o turbilhão de emoções confusas que pairavam na cabeça de Alberto. E foram jantar.

Previna a demência e estimule o seu cérebro. A leitura é um bom exercício, mas também o cálculo e os jogos de palavras. Ocupe a sua mente com atividades de estimulação cognitiva de forma a preservar o seu desempenho, a facilitar a realização das suas atividades do dia-a-dia, a gerir a sua saúde e a potenciar a sua qualidade de vida!

Uma disfunção sexual no feminino

Até há algum tempo, os assuntos relacionados com disfunções sexuais eram considerados tabu e poucos ousavam expressar as suas dificuldades a esse nível ou pedir ajuda. Hoje em dia, há muita investigação acerca deste tipo de perturbações e é-lhes atribuída uma importância maior, no sentido de que a sua abordagem e intervenção, podem constituir uma melhoria significativa na qualidade de vida do indivíduo.

Dentro do quadro das disfunções sexuais podem ser descritos vários tipos de perturbação, que podem afetar tanto o homem, como a mulher. Estas incluem a disfunção erétil, a perturbação de dor genitopélvica (penetração) a perturbação do interesse sexual feminino ou masculino ou a perturbação do orgasmo feminino, entre outras. Esta é uma área da saúde mental que também pode ter na sua origem fatores orgânicos e fisiológicos, no entanto, tanto psiquiatras como psicólogos, têm atualmente ao seu dispor, formação especializada, no sentido de permitir uma avaliação e intervenção eficaz de ajuda à pessoa que de uma perturbação deste tipo padece. Quaisquer que sejam as causas e/ou consequências destas perturbações, o sofrimento emocional pode ser muito perturbador e levar a m decréscimo acentuado da felicidade e bem-estar do indivíduo.

Uma das perturbações do foro sexual muito comum é a perturbação do orgasmo feminino. Considera-se que a mulher tem uma perturbação deste tipo se em cerca de 75% a 100% das vezes em que há atividade sexual, o orgasmo é marcadamente atrasado (ou inexistente) ou a intensidade das sensações orgásticas é marcadamente reduzida. Para que seja considerado o diagnóstico, as referidas dificuldades devem persistir pelo menos há 6 meses e causar um mal-estar clinicamente significativo à mulher. Excluem-se dos critérios de diagnóstico os casos em que estas dificuldades ocorrem por dificuldades relacionais graves (ex. violência do parceiro) ou de outros fatores de stresse significativos, ou ainda efeitos de substâncias/medicamentos ou outra condição médica.

A perturbação do orgasmo feminino pode ocorrer ao longo da vida se está presente desde que a mulher se tornou sexualmente ativa, ou pode ser adquirida, se iniciou após um período de função sexual considerado normal. Pode ainda caracterizar-se como generalizada, se não se limita a certos tipos de estimulação, de situação ou de parceiro, ou situacional, quando ocorre apenas com certos tipos de estímulos, situações ou parceiros. Em termos de gravidade, a perturbação pode ir de ligeira a extrema, dependendo do nível de mal-estar e sofrimento causado pela dificuldade em experienciar o orgasmo. As mulheres apresentam uma enorme variabilidade no que diz respeito ao tipo ou intensidade da estimulação que desencadeia o orgasmo. Do mesmo modo, as descrições subjetivas do orgasmo são muito variadas, sugerindo a existência de múltiplas formas de o atingir, tanto por mulheres diferentes como pela mesma mulher mas em circunstâncias diferentes.

Para um diagnóstico de perturbação do orgasmo feminino, as dificuldades deverão ser experienciadas em todas ou quase todas as ocasiões de atividade sexual. O uso de critérios mínimos de gravidade e de duração serve para diferenciar as dificuldades que podem ser transitórias, de uma disfunção mais persistente. Em alguns casos desta perturbação, as causas são multifatoriais ou não se conseguem determinar. Se se consegue provar que a perturbação apresentada é mais bem explicada por outra perturbação do foro mental, pelo efeito de uma substância ou medicamento ou ainda por outra condição médica, então não deve ser feito o diagnóstico como perturbação do orgasmo feminino. Se estiverem presentes fatores contextuais ou interpessoais significativos, como problemas relacionais graves ou outros importantes fatores de stresse, também não será um caso deste tipo de perturbação. Se se verificar que a mulher não atinge o orgasmo devido a uma estimulação sexual inadequada, poderá haver necessidade de intervenção, contudo, não deve ser feito o diagnóstico de perturbação do orgasmo feminino.

De um modo geral, não se encontra associação entre traços de personalidade específicos ou psicopatologia e disfunção orgásmica. Comparativamente às mulheres sem disfunção sexual, as mulheres com perturbação do orgasmo feminino podem apresentar maior relutância em falar abertamente acerca destas questões. No entanto, a satisfação sexual global parece não estar totalmente relacionada com a experiencia orgástica. Muitas mulheres referem elevados níveis de satisfação sexual, apesar de raramente atingirem o orgasmo. As dificuldades a este nível, nas mulheres, estão muitas vezes relacionadas com o interesse e a excitação sexuais.

Ao avaliarem-se estes casos, devem também ser levados em consideração outros fatores que podem ser relevantes para a etiologia ou tratamento. Entre eles, os problemas sexuais do parceiro, fatores médicos relevantes, fatores relacionais como uma comunicação pobre, discrepâncias quanto ao desejo de atividade sexual, fatores de vulnerabilidade emocional como fraca imagem corporal, presença de problemas de ansiedade ou depressão, história prévia de abuso sexual e ainda fatores culturais ou religiosos. Em mulheres com perturbação do orgasmo, cada um dos referidos fatores pode contribuir de forma distinta para a apresentação dos sintomas. Em termos de prevalência, as taxas relatadas para esta perturbação vão desde os 10% aos 42%, dependendo de múltiplos fatores como a idade, a cultura a duração ou a gravidade dos sintomas. Porém, estas estimativas não levam em linha de conta a presença de mal-estar, pois apenas uma pequena proporção de mulheres que experienciam dificuldades ao nível do orgasmo, refere também mal-estar associado. Estudos apontam para que cerca de 10% das mulheres não experienciam o orgasmo ao longo da sua vida.

Quanto aos fatores de risco podemos considerar os temperamentais, ambientais e genéticos ou fisiológicos. Os primeiros prendem-se com questões relacionadas por exemplo com ansiedade ou preocupação em engravidar. Os fatores ambientais mais relevantes serão os problemas relacionais ou a saúde física ou mental. De referir ainda os fatores socioculturais como expetativas quanto aos papéis de género ou convicções religiosas. Os fatores fisiológicos são muito diversos e podem incluir condições médicas e efeitos dos medicamentos. Mulheres com lesão dos nervos pélvicos, lesão da espinal-medula ou atrofia vulvovaginal podem ter maior dificuldade ou mesmo incapacidade para experienciar o orgasmo. Por outro lado, a menopausa não está consistentemente associada a dificuldades deste tipo. A contribuição genética pode ser significativa para a variabilidade da função orgástica feminina, contudo, parece haver uma forte evidência de que os fatores psicológicos, socioculturais e fisiológicos interajam de forma complexa de modo a influenciar de forma negativa a experiencia feminina do orgasmo.

Fonte: DSM-V – Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (Quinta edição) de American Pshychiatric Association.

Falar da guerra aos mais novos

As notícias e imagens de guerra que diariamente chegam às nossas casas, podem afetar de forma muito significativa os pensamentos e sentimentos de crianças e adolescentes. Mesmo relativamente longe, assistir aos conflitos armados que acontecem neste momento, pode comprometer a necessidade dos mais novos verem o mundo como um lugar seguro e previsível.

A atual guerra entre a Rússia e a Ucrânia faz com que cheguem diariamente às nossas casas imagens e relatos do conflito, que por um lado nos mantêm informados e por outro lado nos provocam stresse e ansiedade. Sem que muitas vezes consigam compreender o que se está a passar, as crianças/adolescentes podem ser particularmente sensíveis a esta situação, que pode ser verdadeiramente aterrorizadora. As imagens dos bombardeamentos e destruição, dos feridos, das pessoas a fugirem desesperadas e os relatos emocionados quer de repórteres, quer dos refugiados podem provocar medo, sofrimento ou confusão. A nós pais e educadores, cabe-nos procurar proteger as crianças e ao mesmo tempo encoraja-las a serem curiosas em relação ao que se passa no mundo. Como podemos então desempenhar essa tarefa tão difícil?

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Terapia Cognitivo-Comportamental e Mindfulness

 A Terapia Cognitivo-Comportamental, desde a sua origem, vem a ser considerada como uma modalidade de tratamento muito eficaz nos mais variados tipos de perturbações psicológicas. Este tipo de terapia prevê a possibilidade da utilização de várias técnicas e “ferramentas” que complementam e auxiliam a ação do psicólogo, nomeadamente a prática de mindfulness.

 A atenção plena ou mindfulness, segundo Goleman e Davidson (2017), é um dos métodos de meditação mais utilizados e divulgados no mundo ocidental, dentro de uma ampla variedade de métodos. Alguns especialistas utilizam o termo mindfulness para definir todo e qualquer tipo de meditação. A prática de mindfulness deriva da filosofia oriental budista, sendo considerada uma das técnicas de meditação mais antigas da Índia. Na filosofia oriental, a atenção plena pode ser definida como uma qualidade mental adquirida e cultivada através da prática da meditação com o intuito de se chegar a um desenvolvimento psicoemocional e espiritual. A meditação, é portanto, uma “ferramenta” capaz de produzir uma conexão completa entre a mente, o corpo e o espírito (Goleman & Davidson, 2017). Meditar é sentir a respiração, com a atenção plena ao que está a acontecer no momento presente, observar e aceitar sem julgamentos as experiências internas, sem avaliar ou tentar modificá-las.

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Anorexia nervosa, uma doença silenciosa

Dentro do espectro das perturbações do comportamento alimentar, também descritas como perturbações da alimentação e da ingestão, podemos encontrar vários tipos, cada qual com as suas especificidades e critérios de diagnóstico. A anorexia nervosa é uma das perturbações mais conhecidas, a par da bulimia ou da perturbação de compulsão alimentar.

A anorexia nervosa é uma perturbação do foro mental e deve ser tratada como tal. O estigma associado (cada vez menos) à saúde mental, pode levar à falta de acompanhamento e a um atraso na avaliação e correto encaminhamento do caso. Em casos muito ligeiros, por vezes, a psicoterapia pode ser eficaz por si só, no entanto, muitas vezes é necessária uma intervenção multidisciplinar, que inclui pelo menos o médico psiquiatra, o psicólogo e o nutricionista. Habitualmente não é o doente que procura ajuda mas sim os seus familiares, após acentuada perda de peso. Quando é o próprio doente a procurar ajuda profissional, fá-lo frequentemente devido ao mal-estar que decorre das sequelas somáticas e fisiológicas do jejum. Raramente uma pessoa que sofre de anorexia nervosa se queixa do emagrecimento por si, uma vez que em regra, não tem consciência do problema ou nega-o. Por esta razão, a família pode constituir-se como uma importante fonte de informação na avaliação da história da perda de peso e das outras características da doença.

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A depressão no idoso

A depressão tardia refere-se ao aparecimento de estados depressivos depois dos 65 anos. A sintomatologia depressiva está frequentemente associada à presença de doença física ou neurológica e à incapacidade ou às limitações decorrentes de estados de doença, que levam ao declínio do estado geral do indivíduo.

As queixas mais frequentes nos indivíduos mais idosos são as dores de cabeça, dores reumatológicas ou músculo-esqueléticas bem como a sintomatologia gastrointestinal. Feito o despiste de doença orgânica que explique a referida sintomatologia, a presença da mesma pode ser explicada pela depressão, se combinada com alguma da sintomatologia típica desta doença. Os fatores de risco para a depressão no idoso prendem-se com questões de género, sendo mais prevalente nas mulheres do que nos homens. Outros fatores de risco para o desenvolvimento de patologia depressiva estão relacionados com o sistema endócrino e o sistema vascular. O diagnóstico de doenças médicas não psiquiátricas, nomeadamente doença oncológica, demência, doenças cardiovasculares, hipotiroidismo ou artrite, entre outras, constitui-se como um fator de risco relevante para a depressão, bem como o tipo de personalidade e as experiências de vida do sujeito. De referir ainda como potenciador de sintomatologia depressiva o stresse crónico a que o indivíduo possa estar sujeito, quer seja familiar, social ou económico.

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Depressão, como e quando tratar

Na depressão, ou de uma forma mais generalizada, nas síndromes depressivas, o humor fica necessariamente alterado e observa-se no indivíduo uma reação disfórica, habitualmente caracterizada por uma tristeza permanente, por falta de respostas de humor positivas. Desde a forma mais ligeira, até á forma mais profunda, a sintomatologia depressiva não deve ser ignorada ou desvalorizada, sob pena de se poder tornar crónica.

Para que se possa identificar um quadro depressivo, é necessário que, em primeiro lugar identifiquemos períodos de tempo marcados pelo humor depressivo, mas não só. É necessário avaliar outros sintomas afetivos, cognitivos e comportamentais. Em relação aos primeiros, a presença de sentimentos de culpabilização, o sentimento de desamparo e auto desvalorização, a falta de confiança em si mesmo e a baixa autoestima, são exemplos concretos de sintomas depressivos. No que diz respeito aos sintomas cognitivos, salientam-se as dificuldades de concentração, atenção, memória, o pessimismo, uma visão negativa acerca do passado, presente e perspetiva de futuro, bem como os pensamentos intrusivos ou até mesmo os pensamentos suicidas.  Os sintomas comportamentais que caracterizam a depressão são essencialmente o isolamento, o choro fácil, a tensão muscular, as alterações do apetite, por excesso ou por defeito, e, em casos mais extremos, a automutilação e as tentativas de suicídio.

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Adolescência, relações entre pares e o papel dos pais

Ao longo da infância, as relações sociais, nomeadamente com outras crianças, desempenham um papel importante no desenvolvimento infantil. Contudo, é na adolescência que a relação com os pares se torna mais relevante, tanto na aprendizagem de competências sociais como na expressão emocional ou até na construção da personalidade.

As relações de amizade e de igualdade que se estabelecem entre os adolescentes, a grande quantidade de tempo que partilham, bem como as atividades conjuntas, aproximam colegas e amigos, fazendo com que estes tenham uns nos outros um espaço privilegiado de cooperação, intimidade, confidencialidade, interajuda e até de “porto seguro”, apesar da competitividade que por vezes está presente. Ao integrar-se num grupo, ou seja, ser aceite pelos pares, o adolescente sente-se reconhecido pelo grupo e passa a participar e a contribuir para a existência desse mesmo grupo, desenvolvendo em si o sentimento de pertença, tão importante para as suas vivências dessa fase da vida.

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Qualidade de vida

O conceito de qualidade de vida tem vindo a ser referenciado desde a segunda metade do século XX e aplicado em diversos contextos, desde a saúde, a política ou o meio académico, entre outros, no sentido de se poder “medir” os níveis de vida das diversas populações mundiais. Nos dias de hoje, este conceito tem ainda uma definição imprecisa, no entanto, com toda a subjetividade que encerra, o conceito de qualidade de vida tem assumido um cada vez maior relevo, quando se fala de saúde e bem-estar.

Inicialmente, a investigação associava a qualidade de vida a um conceito quantitativo, ligado principalmente aos recursos materiais disponíveis para um sujeito ou sociedade. Com o passar do tempo, esta associação foi perdendo alguma força e passou a haver uma tendência para se entender a qualidade de vida através de uma abordagem mais ampla e integrativa. Assim, a Organização Mundial da Saúde (OMS) propôs atribuir uma natureza multifatorial a e pluridimensional a este conceito. Deste modo, passou a medir-se a qualidade de vida em termos de saúde física, saúde mental, nível de independência, qualidade das relações sociais e ambiente. Trata-se de uma perspetiva global e abrangente, que leva em consideração as várias dimensões do ser humano, na determinação dos níveis de qualidade de vida de cada indivíduo.

Entendendo o conceito como a sensação de bem-estar do indivíduo, este baseia-se tanto em fatores subjetivos, mais difíceis de quantificar e comparar, como objetivos, mais palpáveis e específicos. Deste modo, alguns autores consideram a qualidade de vida como uma condição complexa e multifatorial sobre a qual é possível desenvolver algumas formas de medidas objetivas, através de uma série de indicadores. Porém, a experiência que o indivíduo tem de si mesmo, tem também um papel muito significativo. O facto de o indivíduo ter recursos materiais ótimos de sobrevivência, não é garantia de que o seu nível de qualidade de vida seja elevado, uma vez que o que a determina, é a forma e a capacidade do indivíduo em perceber e se apropriar dessas condições e de outras. A própria conjuntura política ou cultural, influenciam a forma como o indivíduo percebe a sua vivência e a classifica como mais ou menos satisfatória.

Maslow, ao construir a sua pirâmide das necessidades, cujos sistemas de necessidades podem ser tomados também como parâmetros de promoção da qualidade de vida, defende que uma vez satisfeitas as necessidades relacionadas à simples sobrevivência (fisiológicas), outros grupos de necessidades dominariam o indivíduo hierarquicamente (segurança, amor, estima, etc.), fazendo-o avançar nas suas condições de bem-estar. Assim, conclui-se que a qualidade de vida se eleva através de uma escala de valores que avança desde a satisfação das necessidades básicas do ser humano, em direção ao sentimento de bem-estar subjetivo e social, levando a uma definição possível como sendo a condição biopsicossocial de bem-estar, relativa a experiências humanas objetivas e subjetivas e considerada dentro das particularidades individuais e sociais de cada caso particular. Trata-se de uma definição de caráter contextual, devendo ser entendida dentro das especificidades de cada situação, e multidimensional, considerando os vários determinantes da condição humana.

A intervenção psicológica tem múltiplos objetivos, porém visa sempre o aumento da qualidade de vida do indivíduo. Neste contexto, as ações dirigidas à saúde em particular, adquirem grande relevância. Uma boa saúde é o melhor recurso para o progresso pessoal, económico e social, sendo uma dimensão muito importante da qualidade de vida. Se compreendermos a saúde como elemento fundamental no conjunto de condições indispensáveis à qualidade de vida, a sua promoção deve ser uma prioridade. Um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença, potencia a elevação da qualidade de vida do indivíduo.

Cuide da sua saúde física e mental. Ambas concorrem para o aumento dos seus recursos, quer materiais e palpáveis, quer subjetivos e particulares, que farão de si uma pessoa com maior qualidade de vida e consequentemente, uma pessoa mais feliz!