Bullying ou intimidação: o que fazer?

Bullying e intimidação

“Ultimamente a Mariana diz que não quer ir à escola e anda muito calada e triste. Tem oito anos, tem um peso bastante acima da média e é muito tímida. Questionada acerca da razão pela qual não quer ir a escola a Mariana diz que as crianças na escola a estão a atormentar, a ridicularizar e a gozar – A Mariana está a ser vítima de bullying!”

Há certas crianças que se sentem mais importantes, melhores e mais fortes do que as outras. Isso confere-lhes uma segurança que utilizam para intimidar ou maltratar outras crianças que veem como piores, mais fracas, logo mais indefesas. A intimidação permite a algumas crianças dominar e maltratar outras, e assim conseguirem o que querem e quando querem. E o que podemos nós, os adultos, fazer perante uma situação como esta? Pois bem, em primeiro lugar devemos conseguir entender o que é a intimidação, ou seja, que o bullying consiste no uso frequente e regular de agressão física ou verbal, neste caso de uma criança, para dominar ou para se vingar de outra. Esta intimidação ocorre quando não há supervisão por parte de adultos, quer seja em casa, quer seja na escola e sempre que há diferenças de poder, isto é, uma criança mais velha, fisicamente mais forte ou mais popular, quer dominar, maltratar ou humilhar outra criança mais nova, mais fraca ou socialmente mais isolada. Continuar a ler

Crianças com comportamentos difíceis: compreenda e controle a sua raiva

raivaMuitas vezes os comportamentos das crianças conseguem deixar os pais muito zangados, à beira do desespero e com muita raiva. Perceber o que se está a sentir e porquê, é extremamente importante para o que se vai seguir: conseguir manter a calma e evitar o conflito ou entrar numa escalada de argumentos, gritos ou até de violência física. O que podem então os pais fazer para se controlarem perante os comportamentos desesperantes dos seus filhos?

A raiva é uma emoção normal que o indivíduo pode experimentar em várias situações e com diversos determinantes. Enquanto pais, a raiva pode ser sentida perante uma birra, uma teimosia, a desobediência, etc. Por vezes não é preciso que a situação seja muito grave para que a zanga se comece a apoderar de nós, que a raiva comece a crescer. Por vezes sentimo-nos como um balão que enche, enche, enche… até que rebenta e lá sai um grito ou uma reação mais violenta, que depois nos vai fazer sentir realmente mal. Confrontados com alguns comportamentos das nossas crianças, começamos a sentir rubor na face, calor, os batimentos cardíacos mais acelerados e lá estamos nós prontos a explodir. É a expressão física da raiva. Este sentimento pode também expressar-se pela forma como pensamos na situação ou no comportamento da nossa criança, que nos está a fazer “sair do sério” mas também tem uma expressão comportamental que se refere à forma como agimos quando estamos com raiva. Continuar a ler

Perturbações alimentares na infância

Alimentação das criançasNa primeira infância, as perturbações alimentares são situações clínicas relativamente comuns. No entanto, este tipo de problemas provoca aos pais e cuidadores uma grande preocupação, ao mesmo tempo que dificultam a sua relação com a criança.

As perturbações alimentares da primeira infância podem ser identificadas num contínuo, que vai desde as ligeiras flutuações do apetite devidas a causas menos relevantes, como por exemplo a reação à entrada para a cresce ou o nascimento de um irmão, até situações graves de recusa alimentar que podem colocar em risco a própria vida da criança. A estas perturbações alimentares pode estar associado o aparecimento de outros comportamentos fora do comum. Segundo do Manual de Diagnóstico das Perturbações Mentais (DSM-5), as perturbações alimentares definem-se como situações em que se observa uma alteração na ingestão de alimentos, quer em termos quantitativos, quer em termos qualitativos. São exemplos a ruminação ou mericismo (regurgitação repetida de alimentos), a pica (ingestão persistente de substâncias não alimentares), e a perturbação alimentar da primeira infância, que corresponde a uma falha persistente de ingestão adequada de alimentos, com acentuada falta de aumento ou mesmo perda de peso, sem causa orgânica conhecida e com a duração de mais de um mês. Continuar a ler

Burnout e férias de verão

EsgotamentoVerão! Sinónimo de férias escolares para uns e de férias profissionais para muitos outros.  O tão desejado período de descanso e lazer, de convívio, de festa, praia, campo ou tudo aquilo que no dia-a-dia, a azáfama não permite fazer.

As férias são uma necessidade do ser humano. Perante o desgaste físico e psicológico decorrente de um quotidiano rotineiro e por vezes com excesso de solicitações, torna-se fundamental o repouso, para o restabelecimento do corpo e da mente. A falta de descanso pode conduzir os indivíduos a situações de esgotamento físico e psicológico – o Burnout. O Burnout resulta do stresse crónico mal gerido associado principalmente ao trabalho. É caracterizado por uma enorme falta de energia ou exaustão, distanciamento mental face à atividade profissional, sentimentos negativos e perda de eficiência relativamente ao próprio trabalho. Um inquérito da DECO PROTESTE (2018) apontou para a existência de cerca de 30% de pessoas em situação de Burnout em Portugal, ou seja, uma percentagem bastante expressiva. Continuar a ler

Psicossomática: afinal estou doente de quê?

SomatizaçãoA somatização caracteriza-se pela apresentação de sintomas físicos em indivíduos, sem causa orgânica óbvia. É uma problemática que está associada a uma incapacidade funcional e a um grande recurso aos cuidados de saúde.

A presença persistente de sintomatologia física sem explicação médica constitui-se como um enorme desafio quer para médicos, quer para psicólogos. Estes sintomas apresentam-se num continuum e podem ir de ligeiros e transitórios a intensos, constantes e severos. Os sintomas físicos mais comuns na somatização são a fadiga, as dores de cabeça, as dores nas costas, a insónia, as dores de barriga, as tonturas, o aumento dos batimentos cardíacos ou a falta de ar. O doente psicossomático tende a procurar sistematicamente uma causa orgânica para as suas queixas e por isso recorre frequentemente aos cuidados de saúde, no sentido de pedir ao médico a prescrição de exames auxiliares de diagnóstico ou medicamentos para o alívio dos sintomas, de uma doença que não tem. Nesta procura excessiva pelos cuidados de saúde, a relação com o médico pode ficar afetada se este não entender o problema do paciente, ou seja, se não levar em consideração os fatores psicossociais que o envolvem. Além do mais, a banalização da toma de medicação para alívio da referida sintomatologia pode conduzir a uma dependência que não é de todo recomendada.

PsicossomáticaOs resultados apresentados pela investigação sobre esta matéria sugerem uma prevalência de doentes psicossomáticos na ordem dos 20% a 50%, no entanto, nem todos os indivíduos que apresentam sintomatologia física sem explicação médica, preenchem todos os critérios de referenciação para os cuidados de saúde mental. É de salientar que muito frequentemente, a apresentação deste tipo de sintomatologia está associado a casos de ansiedade e/ou depressão, sendo que a intervenção psicológica poderá trazer um enorme benefício para estes indivíduos. Porém, muitas vezes, estes pacientes recusam a necessidade de apoio psicológico mesmo quando é sugerida pelo médico, dando preferência a uma intervenção médica sobre os sintomas. O estigma ainda presente em muitos grupos sociais, pode ajudar a explicar essa dificuldade em aderir ao acompanhamento psicológico, mesmo que indiretamente, possam demonstrar o desejo de apoio emocional.

PsicossomáticaPodem-se referir como determinantes da sintomatologia psicossomática o stresse e a ansiedade, sendo que estes provocam um aumento da atividade cerebral e a produção de cortisol e adrenalina. Estas hormonas podem afetar outros órgãos do corpo como o estômago, os intestinos, o coração ou a pele.  O stresse profissional, os traumas por acontecimentos de vida significativos, a dificuldade em expressar as emoções ou um elevado grau de perfeccionismo, constituem-se como algumas das causas possíveis para o desenvolvimento desta patologia. As perturbações psicossomáticas, ou seja, com causa emocional, não tratadas, podem conduzir elas próprias ao aparecimento de doenças como por exemplo a gastrite ou a hipertensão arterial. Em casos mais graves, a sintomatologia mais intensa poderá mesmo confundir-se com situações graves como o enfarte do miocárdio ou o acidente vascular cerebral, como é o caso dos ataques de pânico, em que o indivíduo experimenta sensações tão desagradáveis que o podem fazer pensar que vai morrer.

SomatizaçãoEm termos de tratamento, o doente psicossomático poderá como já foi referido, beneficiar de acompanhamento psicológico, uma vez que este pode ajudar o indivíduo a identificar o motivo do seu stresse e da sua ansiedade e, deste modo, aprender a lidar com a situação e conseguir treinar estratégias promotoras da redução da ansiedade e do aumento do bem-estar. Alguns casos poderão beneficiar de um tratamento misto, ou seja, intervenção psicológica combinada com medicação. Esta é habitualmente feita através de analgésicos ou anti-inflamatórios, para alívio dos sintomas, mas também ansiolíticos e antidepressivos. A psicossomática coloca a doença numa dimensão psicológica abrangente e integral, proporcionando uma abordagem onde a relação entre médico, paciente e psicólogo se constituem como um recurso muito relevante para que o indivíduo seja olhado como um todo, e não penas com vista ao tratamento dos sintomas. Assim, qualquer doença pode ser alvo de uma abordagem como se de psicossomática se tratasse, pois o que precisa de tratamento não é apenas a doença mas sim o doente.

 

PsicossomáticaPense que pode ter na Sua Psicóloga uma aliada importante para o ajudar a lidar com os seus problemas. Procure apoio!

Sugestão:

https://rfs.emnuvens.com.br/rfs/article/view/14/12

http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-37722016000300245&script=sci_arttext&tlng=pt

 

Vou ter teste, e agora!?

Ansiedade de desempenho

A ansiedade desempenha um papel importante no comportamento humano. Em contexto escolar, a ansiedade dos alunos perante a perspetiva de um teste é um fenómeno particularmente difícil. A ansiedade gerada pela avaliação, quer seja formal ou informal é sempre mais ou menos perturbadora.

Ser avaliado corresponde a uma situação complexa que reúne várias dimensões (cognitiva, emocional, fisiológica e comportamental). Em termos teóricos, a ansiedade de desempenho face a um teste pode assumir duas formas distintas: como traço ou como estado. Enquanto traço, a ansiedade corresponde a uma predisposição psicológica para reagir com o mesmo nível de ansiedade (alto ou baixo) a um conjunto indiscriminado de situações. Enquanto estado (ou sobrecarga) a ansiedade acontece em situações esporádicas, como um exame particularmente difícil ou para o qual o aluno não se sente devidamente preparado. Continuar a ler

A criança deprimida não está só triste, está doente…

DepressãoUma criança deprimida não é o mesmo que uma criança triste. A tristeza é um sentimento normal que surge em consequência de um acontecimento relacional, físico ou outro. A tristeza tem uma duração curta não tendo efeitos significativos na funcionalidade da criança. A depressão é outra coisa…

A tristeza decorrente de um estado depressivo é duradoura, intensa e perturbadora da funcionalidade normal da criança e do seu equilíbrio. A criança deprimida apresenta habitualmente falta de vontade para brincar, queixas frequentes de cansaço, dores de cabeça ou de barriga, irritabilidade, choro fácil, problemas de sono, problemas alimentares, dificuldades de concentração e atenção, enurese, tendência para o isolamento, baixa autoestima, entre outros sintomas como a culpa e a inferiorização, podendo em casos mais extremos conduzir ao suicídio. Estes sintomas podem passar despercebidos ou serem confundidos com birras ou timidez, no entanto, se os sintomas persistirem por mais de 2 semanas é aconselhável que a criança seja avaliada, quer em termos fisiológicos, pelo pediatra, quer em termos psicológicos e emocionais, pelo psicólogo. Continuar a ler

Este cigarro é o último…

Dependência do tabacoSegundo dados resultantes da Análise comparativa dos Inquéritos Nacionais de Saúde (2017) o consumo diário de tabaco em Portugal revela tendências distintas por género. Nos homens, a prevalência parece estar a diminuir ao passo que estará a aumentar no género feminino. Cientes dos malefícios do tabaco, muitos são os fumadores que querem deixar de fumar, contudo, a tarefa pode não ser fácil.

O referido estudo consiste numa análise que compara hábitos tabágicos desde 1987 até 2014. Ao longo deste período de tempo, observou-se que nos homens o consumo de tabaco ocorre essencialmente nos grupos com menor escolaridade, tendo o seu oposto sido observado em relação às mulheres, numa fase inicial. Mais recentemente estes resultados tiveram uma alteração e passou a observar-se o mesmo tipo de consumo também nas mulheres menos escolarizadas. Observa-se ainda quer nos homens, quer nas mulheres, um consumo diário importante e consistente em grupos de maior vulnerabilidade, como por exemplo desempregados e divorciados. Os resultados apresentados neste estudo podem ser relevantes para o planeamento de estratégias e para a implementação de programas de cessação tabágica.

Cessação tabágicaDeixar de fumar pode ser uma das mais difíceis decisões a tomar na vida de uma pessoa. Não fumar um cigarro implica trocar a certeza de uma gratificação imediata e garantida, por um sofrimento que se percebe longo e difícil de querer aceitar. Fumar um cigarro pode ser uma companhia, uma distração, um alívio para o stresse, um gesto social ou um hábito de tal forma inculcado que se tornou efetivamente uma necessidade. A perspetiva da não satisfação dessa necessidade causa tal sofrimento que mesmo a consciência do quão prejudicial ele pode ser, não chega para o evitar.

Cessação tabágicaQue mecanismos serão então necessários acionar para que a pessoa tome a decisão de deixar de fumar? A palavra-chave é motivação. A motivação define-se como o impulso que nos faz agir para atingir um objetivo. Envolve fenómenos emocionais, biológicos e sociais e é o processo responsável por iniciar, direcionar e manter os comportamentos relacionados com o cumprimento desse objetivo. Para levar a cabo com sucesso a árdua tarefa de deixar de fumar é necessário que a pessoa esteja realmente motivada a fazê-lo, ou seja, motivada a empreender ações de mudança, mas principalmente a mantê-las, no sentido de evitar retrocessos. Muitos fumadores motivados cedem ao desejo de fumar, quer perante adversidades e circunstâncias do dia-a-dia, quer como forma de evitar o desconforto causado pelos sintomas da privação. Frequentemente, a abstinência total de fumar apenas acontece depois de várias tentativas e de várias recaídas.

DependênciasA motivação para a cessação tabágica e para a sua manutenção dependem de diversos fatores. Entre eles podemos destacar o sentimento de competência e autocontrolo, a tolerância à frustração, o controlo dos impulsos ou a capacidade de planeamento de comportamentos alternativos ao de fumar. A pessoa precisa de ter confiança em si mesmo de que vai conseguir obter sucesso na difícil tarefa a que se propõe. Para além da confiança em si mesma, a pessoa também necessita de compreender a importância da mudança, bem como dos motivos pelos quais esta se apresenta como necessária. É comum observarem-se casos em que estas duas dimensões não se encontram, ou seja, a pessoa pode confiar nas suas capacidades mas não considera que o tabaco tenha um efeito particularmente nocivo na sua vida, ou pelo contrário, pode ter uma forte consciência dos malefícios de fumar mas faltar-lhe a confiança para o conseguir fazer.

Cessação tabágicaEstima-se que cerca de 80% dos fumadores gostaria de parar de fumar e que a cada ano, 50% dos fumadores o tentem fazer, no entanto apenas cerca de 25% das tentativas para parar de fumar duram mais de uma semana, e, sem acompanhamento especializado, menos de 3% conseguem ter sucesso. Atualmente a dependência do tabaco/nicotina é tão forte como a dependência de qualquer outro tipo de substância. Trata-se de uma dependência psicológica e farmacológica. A dependência psicológica e comportamental é constante e associa-se a rituais de manuseamento e a hábitos sociais e individuais que levam a verdadeiros reflexos condicionados. No que se refere à dependência fisiológica, a adição à nicotina segue o clássico modelo de adição também aplicado a outras substâncias: o consumo regular da nicotina leva ao desenvolvimento de tolerância e a cessação abrupta conduz a sintomas de abstinência. Assim, os programas de cessação tabágica devem contemplar essa dupla dependência e devem considerar uma vertente farmacológica e uma vertente psicológica e comportamental.

Terapia nas dependênciasA intervenção em cessação tabágica deve contemplar a avaliação da motivação para a mudança, abordar e questionar os fumadores acerca dos seus hábitos tabágicos, isto é, identificar sistematicamente os fumadores e determinar o consumo de tabaco. Deve também ter uma dimensão educativa em termos de aconselhamento acerca da importância de parar de fumar e dos riscos que o tabaco representa para a saúde, do próprio e dos que com ele coabitam, bem como se deve deixar bem clara a informação sobre as vantagens da cessação tabágica. A monitorização da implementação de ações de mudança através de sessões regulares e frequentes é essencial para a avaliação dos sintomas de privação e implementação de estratégias para lidar com os mesmos, bem como para a prevenção da recaída.

 

A tarefa é difícil, peça ajuda à Sua Psicóloga para trilhar esse caminho!

 

Fontes:

http://repositorio.insa.pt/bitstream/10400.18/4117/5/INSA_Relatorio-Consumo-de-tabaco_INS%201987-2014.pdf

https://www.fundacaoportuguesadopulmao.org/apoio-ao-doente/cessacao-tabagica#81

 

Xixi na cama! Outra vez…

Enurese noturna

A enurese é uma disfunção que se manifesta pela perda involuntária de urina, diurna ou noturna, não normativa em relação à idade da criança e que não surge como consequência de falta de controlo da bexiga por doença neurológica, anomalia do trato urinário ou convulsão epilética, por exemplo.

A enurese noturna corresponde a perdas de urina durante o sono. Apesar de ser um problema comum, tem um forte impacto no dia-a-dia da criança e da sua família, constituindo-se como uma enorme fonte de stresse. O controlo dos esfíncteres corresponde a uma tarefa do desenvolvimento da criança, que decorre naturalmente mas que pode ser facilitada por atitudes educacionais. O contexto relacional e cultural onde decorre este processo, nomeadamente no que se refere ao ensino da higiene e às diferentes fases de aprendizagem e treino dos hábitos de higiene, é de extrema importância. A enurese pode ser primária, se a criança nunca chegou a adquirir o controlo da urina durante a noite ou secundária quando se observou um período de pelo menos seis meses de continência. A prevalência da enurese primária varia com a idade, sendo mais comum nos meninos (cerca de 9%) aos sete anos de idade, do que nas meninas (cerca de 6%) na mesma idade. Sendo o controlo dos esfíncteres um processo complexo, que envolve a ação coordenada de músculos, nervos, espinal medula e cérebro, pode resultar de vários fatores. Parece ser mais frequente em crianças que urinam mais vezes durante o dia, apresentam disfunção da bexiga ou têm dificuldades de sono (sono muito profundo e dificuldade em despertar). Ainda em termos de causas, parece existir também alguma predisposição genética.

EnuresePerante um caso de enurese, o primeiro passo é contactar o pediatra para o despiste de algum problema fisiológico (ex. renal) ou causa orgânica (ex. infeção urinária). Em termos de tratamento, habitualmente este só se aplica em casos de crianças com mais de seis anos de idade. A abordagem ao tratamento da enurese pode ser medicamentosa ou comportamental. A abordagem comportamental envolve estratégias de reforço, treino de retenção urinária ou pela utilização de sistemas de condicionamento com reforço positivo.

Enurese noturna

Os pais e cuidadores têm a grande responsabilidade de ajudar a criança a ultrapassar a  situação de enurese ao invés de a transformarem numa experiência traumatizante, o que pode ser fácil, não por má intenção mas por desconhecimento das características do problema. Para ajudar a criança a lidar com a enurese, os pais deverão normalizar a situação, explicando à criança que não está sozinha e que há muitas crianças da sua idade, que também passam pelo mesmo problema e que conseguem ultrapassá-lo. Outra estratégia passa por limitar a ingestão de líquidos a partir do final da tarde. Deverá também ser estabelecida uma rotina de sono, com horários regulares e que contemple uma ida à casa de banho, mesmo antes de ir para a cama. Se os pais sentirem dificuldade em lidar com o problema e com o impacto deste na sua vida e na sua família, devem recorrer à ajuda profissional de um psicólogo.

Enurese

Na consulta de psicologia, deverá ser feita a avaliação do impacto emocional da enurese na criança e na família, bem como devem ser identificadas algumas situações que possam ser responsáveis pela perturbação do equilíbrio emocional e psicológico da criança, como por exemplo a perda de um familiar, o nascimento de um irmão, algum tipo de abuso ou uma dificuldade de adaptação à escola. De acordo com a criança em questão e com a familia, será selecionada a estratégia a implementar. E como cada caso é uma caso e cada criança tem as suas particularidades, quando um método não for eficaz, haverão outros métodos a serem implementados até ao sucesso da intervenção.

EnureseÉ de extrema importância que os pais ou cuidadores não punam nem culpem a criança por urinar a cama. Esse comportamento por parte dos adultos, não só irá contribuir para a baixa da autoestima da criança, desenvolvimento do sentimento de vergonha, aumento da ansiedade e possíveis dificuldades de socialização e decréscimo do rendimento escolar, assim como dificulta o processo de tratamento. Pelo contrário, a criança deverá ser reforçada a cada sucesso que alcança. Este problema também constitui um grande desafio para os pais, não sendo fácil lidar com a enurese. Dependendo dos casos, alguns adultos podem, em consequência desta perturbação dos filhos, desenvolver problemas de sono, ansiedade, aumento da tensão emocional, agressividade e stresse familiar.

Ultrapasse as suas dificuldades com ajuda especializada. Procure a Sua Psicóloga!

 

 

Sugestão:

Barros, L. (2004). Perturbações da eliminação na criança e no adolescente: da prevenção ao controlo. Lisboa: Climepsi.

 

 

Obsessões e compulsões

Perturbação obsessivo-compulsivaQuando o seu pensamento se prende repetidamente a uma ideia ou a uma imagem e não o consegue afastar, por muito que não o queira ter e por mais absurdo que ele lhe pareça ser, e quando a esse pensamento se junta uma sensação de mal-estar, nervosismo ou ansiedade, que apenas consegue ver reduzida após efetuar determinados comportamentos ou rituais, então poderá estar perante uma Perturbação Obsessivo-Compulsiva (POC).

Exemplos comuns deste tipo de perturbação são as lavagens frequentes das mãos e os banhos ultra prolongados por medo da contaminação, ou a verificação vezes repetidas de que se desligou o fogão antes de sair de casa ou se fechou bem a porta. O indivíduo não quer ter esses pensamentos ambíguos pois se por um lado lhe parecem não ter sentido, por outro lado eles são muito intensos e parecem verdadeiros. Todos os comportamentos associados a estes pensamentos repetitivos, intrusivos e persistentes fazem com que o individuo os sinta como necessários para reduzir o estado de ansiedade que os pensamentos provocam. Do mesmo modo, os comportamentos relacionados com a verificação ou contaminação, são repetidos podendo levar a um elevado consumo do tempo e da energia do sujeito.

POCC A POC é uma perturbação grave que se caracteriza por dois fenómenos: as obsessões e as compulsões. As obsessões definem-se como pensamentos, imagens ou impulsos recorrentes, intensos e persistentes e que provocam grande ansiedade e mal-estar. O sujeito pode tentar ignorar estes pensamentos com algum outro pensamento ou através de comportamentos compulsivos ou ritualizados. Definem-se como compulsões os comportamentos repetitivos geralmente executadas em resposta às obsessões, ou seja, aos pensamentos. Para além dos exemplos de compulsões já referidos, repetir palavras, números ou frases assim como organizar objetos segundo uma determinada ordem podem ilustrar comportamentos característicos da POC e que têm como finalidade a diminuição do desconforto causado pelos pensamentos obsessivos.

POCNo entanto, muitas pessoas gostam de ser muito organizadas, de ter bons cuidados de higiene ou de se certificarem se realmente fecharam todas as janelas antes de saírem de casa, sem que por isso reúnam critérios de diagnóstico de POC. A avaliação deverá ser feita com cuidado e com recurso a instrumentos rigorosos e por um psicólogo com  boas competências de avaliação psicológica, para que se possa diferenciar de forma inequívoca o normal do patológico. Apenas poderá ser considerado que o sujeito tem POC quando as obsessões ou as compulsões interferem significativamente com as suas rotinas diárias e quando as mesmas ocupam um tempo considerável do seu dia, isto é, pelo menos uma hora. Esta é uma perturbação que pode reduzir acentuadamente a funcionalidade dos indivíduos nos vários contextos em que se move, o que se vai refletir num decréscimo na sua qualidade de vida.

StressEmbora a POC habitualmente tenha o seu início durante a adolescência ou no início da idade adulta, em alguns casos poderá começar a manifestar-se na infância, sendo a prevalência desta perturbação de cerca de 2%. A idade de início é geralmente mais precoce no género masculino (entre os 6 e os 15 anos) do que no género feminino (20 e os 29 anos), aparecendo por norma gradualmente e quase sempre de forma aguda. Na maioria dos casos observa-se um curso crónico de melhoria alternada com períodos de agravamento dos sintomas, em que muitas vezes o agudizar dos sintomas  se prende com situações relacionadas com a ansiedade. A POC pode ser ligeira a grave em termos de incapacidade, podendo mesmo em casos extremos, causar incapacidade absoluta ao ponto do paciente poder ter que ser internado.

relax.jpegEm termos de tratamento, a intervenção baseada no modelo cognitivo-comportamental tem mostrado grande eficácia. Esta intervenção tem como objetivo ensinar o indivíduo a lidar com a ansiedade produzida pelas obsessões e a reduzir ou eliminar os rituais compulsivos. O ensino e treino de um conjunto de técnicas e estratégias estruturadas, leva a que o indivíduo aprenda a utiliza-las em situações de ansiedade e em momentos em que o mal-estar causado pelas obsessões e compulsões se torna disfuncional. A intervenção visa a mudança de comportamento através de estratégias de enfrentamento, de confronto e de exposição, inicialmente em ambiente controlado e posteriormente em contexto natural. As técnicas de relaxamento, entre outras, são também ensinadas e treinadas no sentido da redução da ansiedade. Por vezes, em casos mais graves, a medicação pode ser necessária. Os medicamentos que afetam a serotonina parecem ser os mais eficazes no tratamento desta doença, obedecendo a sua escolha a critérios médicos, de acordo com o perfil de cada doente. Porém, para uma maior eficácia, mesmo o tratamento medicamentoso beneficia, se associado ao tratamento psicológico.

 

 

Fonte: DSM-V – Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (Quinta edição) de American Pshychiatric Association.

 

Sugestão: Ferreira e colaboradores (2017)Perfeccionismo, pensamento repetitivo negativo e sintomatologia do espectro obsessivo-compulsivo.

http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?pid=S1645