Só queria ver o meu pai uma vez, só uma…

Pai ausente.jpegO Filipe tem 12 anos e é um menino muito meigo, tranquilo e sossegado. Não gosta de barulho, de confusão, de locais muito movimentados e de grandes reboliços. Prefere estar em casa, não lida bem com o imprevisto e escolhe brincar sozinho em vez de ir jogar à bola com o seu grupo de colegas da escola.

O Filipe não vê o pai desde os seus 5 anos. Por essa altura, os pais divorciaram-se e o pai apenas o procurou um par de vezes para estar com ele. Saíram, foram para a casa do pai e o Filipe recorda um jantar que não terá corrido muito bem, pois diz que o pai tinha a casa cheia de amigos e pouco lhe ligou. Foi a última vez que o viu. Do pai nada sabe, se está vivo, onde vive, o que faz… nada. Sofre muito com essa ausência na sua vida mas parece que nada pode ser feito para alterar a sua realidade. Pelo menos para já.

Em sessão com a psicóloga, onde anda em acompanhamento por apresentar elevada sintomatologia ansiosa, o Filipe verbaliza: “Só queria ver o meu pai uma vez, só uma, para lhe dizer que estou muito zangado com ele. E depois, nunca mais o quero ver na vida”.

Quem cuida do cuidador?

Cuidadores informais

Ser Cuidador Informal implica uma enorme sobrecarga a nível físico, psíquico, social e financeiro. Todos os benefícios que possam ser atribuídos a estas pessoas irão ajudar na manutenção da sua saúde, do seu bem-estar e da sua qualidade de vida.

São considerados Cuidadores Informais, os cônjuges ou unidos de facto, parentes ou afins até ao quarto grau da linha reta ou da linha colateral da pessoa cuidada, que acompanham e cuidam dela de forma permanente ou regular. Estima-se que em Portugal existam entre 230 mil a 240 mil pessoas cuidadas em situação de dependência. O Estatuto do Cuidador Informal foi aprovado em 2019 por uma lei que tem como objetivo regular os direitos e os deveres do cuidador e da pessoa cuidada, estabelecendo as respetivas medidas de apoio, entre as quais a atribuição de um subsídio de apoio, o descanso a que têm direito e medidas especificas relativamente à sua carreira contributiva ou proteção laboral, no caso do cuidador não principal, isto é, aquele que cuida de forma regular mas não permanente.

Cuidador informalO Cuidador Informal Permanente é aquele que vive em comunhão de habitação com a pessoa cuidada e que por esse motivo não pode exercer uma atividade profissional nem receber qualquer remuneração decorrente da mesma, ou pelos cuidados que presta à pessoa cuidada. Por outro lado, o Cuidador Informal Regular poderá ou não auferir uma remuneração por atividade profissional ou pelo apoio prestado à pessoa cuidada. Assim, qualquer que seja o tipo de cuidados informais que presta, permanentes ou regulares, o Cuidador Informal é alguém que dedica o seu tempo e os seus recursos enquanto pessoa, no cuidado ao outro, abdicando por vezes de uma carreira profissional ou limitando a progressão da mesma, quase sempre por amor e muitas vezes com pouco reconhecimento por parte da sociedade.

Estatuto de cuidador informalSendo a pessoa cuidada total ou parcialmente dependente, por motivos de doença, quer física, quer mental ou muitas vezes a conjugação de ambas, o papel do cuidador é de extrema importância, responsabilidade, dedicação e exigência. Cuidar de um doente não é tarefa fácil, nem em termos físicos mas sobretudo em termos emocionais. Entre os principais problemas sentidos pelos Cuidadores Informais destacam-se o stresse, o isolamento, a exaustão física e/ou psicológica, as dificuldades financeiras ou a instabilidade laboral, porque trabalham sem horário, sem dias de descanso, sem vencimento, e na maioria das vezes sem a formação adequada para fazerem face à situação em que se encontram. A estas pessoas falta também o tempo para si mesmos,  a disponibilidade para as atividades lúdicas e para a manutenção das suas relações sociais, o que contribui para a degradação do seu bem-estar físico e psicológico.

Cuidar de quem cuidaE então o que vai acontecer com essas pessoas que dedicam as suas vidas a cuidar dos outros? Deixam de ter vida própria, colocam em causa a sua própria saúde física e emocional por carregarem um fardo tão pesado? Pois é, há que dar a essas pessoas as ferramentas necessárias ao desempenho de tão nobre função mas também fornecer-lhes acompanhamento e capacitação para que se possam preservar enquanto indivíduos e manter alguma da sua qualidade de vida. A par dos apoios financeiros que possam ser atribuídos pelo estado, a participação em workshops e formações acerca da doença/problemática da pessoa cuidada, poderá fornecer aos cuidadores, meios de compreensão mas também de uma atuação mais adaptativa perante a realidade que vivenciam. O apoio psicológico e a promoção de apoio social poderão ser benéficos, quer no alívio da sintomatologia depressiva ou ansiosa tão comum nos cuidadores, como na sua reintegração na sociedade, quando em caso de morte da pessoa cuidada, o seu papel termina.

Cuidadores informaisVoltar a estar laboral e socialmente ativo pode ser mais difícil do que possa parecer. Após um longo período, por vezes muitos anos, a cuidar de alguém que está completamente dependente obriga a uma exclusividade total e à renúncia de muitas atividades salutares. As rotinas instalam-se e as pessoas perdem alguns hábitos que por opção própria lhes traziam felicidade. Retomar hábitos perdidos, relações interrompidas por falta de disponibilidade, atividades suspensas por falta de recursos financeiros ou tempo, pode ser tarefa difícil quando a situação de repente se altera. Por vezes, aliado ao sentimento de alívio de ver terminar o sofrimento de alguém de quem se cuidou, pode estar um sentimento de culpa. De repente o cuidador vê-se sem a pessoa de quem cuidava, sem as tarefas que lhe preenchiam o dia e por vezes a noite. Há casos em que o retomar da “normalidade” é difícil, não só porque se perdeu o “fio condutor” mas também porque a pessoa fica numa situação de enorme fragilidade emocional.

Cuidar de quem cuidouA intervenção psicológica pode dar uma boa ajuda. Programas de estruturação comportamental juntamente com o apoio à expressão emocional podem fazer toda a diferença, no retomar de uma vida que se quer feliz.

Procure a Sua Psicóloga!

 

 

Lei n.º 100/2019 – Diário da República n.º 171/2019, Série I de 2019-09-06

 

 

Videojogos: uso, abuso ou adição?

VideojogosNos tempos modernos, o desenvolvimento das tecnologias deu origem aos videojogos e à possibilidade de interação através dos meios digitais online. Essa interação, assim como os comportamentos associados, podem trazer tanto benefícios como ser bastante prejudiciais, consoante se trate de uso, abuso ou adição.

Apelativos pelo seu aspeto gráfico, pelas cores, pela música, pela recompensa imediata do somar dos pontos, do passar de níveis, enfim, seja pelo que for, os videojogos são efetivamente uma realidade cada vez mais cedo presente nas vidas das nossas crianças e jovens. Alguns pais, por sua vez, sentem grandes dificuldades para entenderem esta realidade e para lidarem com os comportamentos dos seus filhos mas também com as consequências que deles advêm. Perguntas como “quanto tempo pode o meu filho jogar por dia sem que seja prejudicial”? Ou “que tipo de jogo é adequado ou desadequado para a idade do meu filho”? são frequentes, numa tentativa de conciliar vontades, evitar conflitos ou lidar com dificuldades que podem advir desta realidade.

EletrónicoOs videojogos não são eleitos apenas pelos mais novos, ou seja, as tecnologias que já não são assim tão novas como isso, acompanham já algumas gerações levando a que hoje em dia hajam já pais com comportamentos idênticos aos dos seus filhos, ou seja, pais que servem como modelos aos seus filhos no que diz respeito à utilização dos dispositivos eletrónicos, nomeadamente dos videojogos. Assim, qualquer conselho ou dica que possam retirar deste texto, poderá ajudar os pais a orientar as suas crianças mas também podem servir como linhas orientadoras para si mesmos.

VideojogosAntes de mais convém referir que os videojogos não são apenas perigosos e nocivos. Pelo contrário, podem até ser bastante educativos, estimulantes e podem ajudar a desenvolver algumas competências. Por exemplo, em termos de benefícios cognitivos, jogar poderá melhorar a capacidade de concentração da criança. A capacidade de detetar objetos num campo cheio de distratores de cor e movimento, pode ajudar à atenção ou até a controlar a impulsividade. O funcionamento executivo poderá também ser melhorado, por exemplo através do desenvolvimento da capacidade de realizar mais do que uma tarefa ao mesmo tempo. A competência de resolver problemas e a flexibilidade intelectual podem ser dimensões do funcionamento mental a serem favorecidas pela realização de jogos digitais, já para não falar da prevenção ou atraso do aparecimento de quadros demenciais.

ConsolasNa dimensão social, os videojogos podem também trazer benefícios aos seus utilizadores. Estes podem desenvolver competências como a cooperação que tende a generalizar-se para as suas relações na vida real. No campo das emoções, os videojogos são “peritos” na sua estimulação, podendo aumentar o humor, estimular sentimentos positivos mas também permitir o treino da autorregulação de sentimentos mais desadaptativos.

VideojogosMas atenção, os benefícios podem facilmente ser “abafados” pelos prejuízos de uma utilização desadequada. Sintomas como a perda de interesse por outras atividades próprias da etapa do desenvolvimento em que a criança/adolescente se encontra, perda de interações pessoais, de relações afetivas, isolamento, desinteresse pela escola e pelo estudo  (ou pelo trabalho no caso dos adultos) pela dedicação quase exclusiva aos videojogos, dificuldade em controlar o humor sem ser através da prática do jogo, sintomas de abstinência perante a impossibilidade de jogar ou o uso contínuo e excessivo destas atividades mesmo  tendo conhecimento dos riscos, são sinais de alerta aos quais os pais deverão estar atentos, quer nos seus filhos, quer em si mesmos, se for o caso. Estes sintomas não podem ser vistos de modo isolado e deverão sempre ser confirmados por um profissional de saúde, nomeadamente da área da psicologia ou da psiquiatria.

VideojogosHá dois fatores primordiais a ter em conta para o controlo e prevenção de uma perturbação de adição aos videojogos. Um dos fatores é o tempo. O tempo que cada indivíduo passa a jogar depende do modo como a sua vida diária está estruturada e poderá ser variável de pessoa para pessoa. No entanto, no caso das crianças/adolescentes, o tempo deverá sempre ser controlado de acordo com as novas normas da Organização Mundial de Saúde (OMS) para o tempo de écran. O equilíbrio entre o tempo despendido com atividades de jogos digitais e as outras atividades de vida saudável de uma criança pode ser o segredo. Colocar limites temporais para a utilização dos écrans e saber fazer cumprir as regras estabelecidas, de forma harmoniosa, pode fazer toda a diferença. A par do tempo de utilização estão os conteúdos, isto é, definir quais os jogos adequados para cada faixa etária e respeitar as normas de utilização deverá também ser uma preocupação para os pais e cuidadores.

Gamming

Por outro lado, perceber a vulnerabilidade da criança ou do sujeito para a adição, pode também ajudar a preveni-la. A ciência diz-nos que não são os videojogos que viciam as pessoas, mas sim as pessoas é que se viciam nos videojogos, e, que os mecanismos neurobiológicos são semelhantes em qualquer tipo de adição, mesmo que seja química. Á semelhança de outras adições, a causa parece não ser a atividade em si mesma mas sim a sua prática excessiva e prejudicial que acontece, frequentemente associada às necessidades psicológicas do sujeito, criança ou adulto, como sentimentos de falta de competência, de pouca autonomia ou da manutenção de relações sociais insatisfatórias que podem ter como consequência uma enorme tristeza e insatisfação com a vida, perante a qual os videojogos possam ser utilizados como mecanismo de fuga.

AdiçõesAssim, o uso das tecnologias e dos videojogos é uma inevitabilidade hoje em dia, sobretudo para as gerações mais jovens. A questão que se coloca é se conseguimos todos nós evitar que o uso se torne abuso, disfuncional e prejudicial em qualquer idade ou condição, e, pior ainda evitar que a utilização abusiva possa conduzir à adição, situação em que a dificuldade de se lidar com o problema aumenta significativamente. Identifique os riscos, aja o mais cedo possível e se não conseguir obter resultados satisfatórios, procure ajuda junto à sua psicóloga!

 

Pensar o Natal

NatalEntrámos uma vez mais na quadra natalícia! De uma forma ou de outra, cada um de nós vive o Natal à sua maneira. Mas que maneiras são essas de vivermos o Natal? As crenças cristãs, a festa da família ou o momento das compras e dos presentes, são modos de se vivenciar esta quadra, de forma mais ou menos adaptativa, mais ou menos feliz e que merece alguma reflexão.

Entre o final de Outubro e o início do mês de Novembro, começam a ver-se as lojas enfeitadas, as ruas iluminadas, as grandes superfícies movimentadas e as pessoas, mais ou menos entusiasmadas com a aproximação do Natal! Mas que significado atribuem ao Natal todas essas pessoas? Pois bem, parecem haver três formas distintas ou complementares de se vivenciar a quadra natalícia: o Natal cristão, o Natal do convívio e da confraternização e o Natal do consumismo. Á semelhanças de outras situações, a vivência do Natal deveria ser pautada pelo equilíbrio entre cada uma destas formas de se lhe atribuir importância. A palavra Natal deriva do latim natalis, que vem de nascor, que significa nascimento e que tem como referência o nascimento de Jesus que se celebra todos os anos no dia 25 de Dezembro. Esta data tem o valor simbólico da esperança e da possibilidade de mudança para melhor, que poderá advir do novo ano que se avizinha.

NatalSe retirarmos ao Natal a simbologia cristã, este poderá ser vivido como a festa da família, não tão virada para a celebração do nascimento mas para o convívio e para a confraternização, daqueles que durante o resto do ano poderão ter poucas possibilidades de se reunirem. É certo que Natal é nascimento mas porque não celebrar o renascimento das emoções que o reencontro evoca? Esta é sempre uma época aguardada pela maioria das pessoas para se juntar á volta da mesa, da árvore de Natal, do presépio… e de partilhar. Partilhar memórias, relembrar a infância, recordar os que já partiram, partilhar experiências que foram sendo vividas ao longo do ano e também partilhar presentes. As celebrações natalícias podem em alguns casos perder o caráter religioso e adquirir um caráter social e de afetos. Não será menos importante. Por vezes, é nesta celebração e reencontro que se tem a possibilidade de apaziguar ou resolver qualquer questão ou dificuldade que tenha surgido durante o ano. Podem-se reestabelecer laços quebrados, resolver conflitos familiares, introduzir novos elementos no seio familiar e fazer desta época festiva um momento de conciliação e amor.

Época natalíciaDepois temos as compras, os presentes, o consumismo e lá vem o Pai-Natal. Este tema poderá ser sensível se cairmos no extremo do comprar porque sim, por obrigação, por dever ou para ostentar. Mas também pode ser visto como um momento de oferecer como forma de expressar afeto, de agradar a quem se ama, de partilhar com quem tem menos ou de dar algo de nós, como quando fazemos nós mesmos o presente. A própria sociedade, nomeadamente a organização laboral prevê o subsídio de Natal e a tolerância de ponto, para que este possa ser um momento de maior abundância e de disponibilidade para o outro. Para além disso há as promoções, tão características desta quadra, que apelam ao consumo e que muitas famílias aproveitam, não apenas para comprar presentes para oferecer mas também para melhorarem a sua qualidade de vida.

NatalQualquer que seja a sua forma de viver o Natal, cristã, de confraternização ou de consumo, ou se se revê numa forma mista, talvez a mais comum, em que o simbolismo cristão se alia à união, convívio e troca de presentes, desejo-lhe um feliz Natal e um Novo Ano cheio de esperança, prosperidade e amor.

Outra birra!

Comportamentos de birraPodemos definir uma birra como sendo a expressão de sentimentos diversificados e intensos através de um comportamento ou reação exagerada, por vezes sem motivação racional.

Para o entendimento do que é uma birra deverão ser levados em consideração fatores como a relação entre a birra e os sentimentos, as características individuais e temperamentais da criança, o contexto, a idade e a etapa do desenvolvimento em que esta se encontra. As birras ocorrem quase inevitavelmente na infância, variando de frequência e intensidade de criança para criança, não havendo á partida distinção por género. Salvo algumas exceções, a idade mais comum para a expressão das birras é entre o ano e meio e os três anos. Esta corresponde a uma fase em que as crianças adquirem autonomia, principalmente na forma como se movimentam, o que lhes permite explorar e tentar dominar o ambiente que as rodeia. Para algumas pessoas pode parecer pouco compreensível o facto de, se a criança já iniciou a marcha e já consegue de alguma forma comunicar pela fala, ainda que de forma restrita, expressar-se “em forma de birra” parece não fazer sentido e habitualmente atribuem a um temperamento difícil o facto de as birras ocorrerem.

BirraMas a comunicação com a criança pode ser difícil uma vez que esta não possui ainda um vocabulário que lhe permita exprimir corretamente os seus sentimentos, ao mesmo tempo que os recursos para lidar com a frustração podem ser ainda limitados. A dificuldade que a criança nesta etapa do desenvolvimento tem para perceber o conceito de futuro e adiar o seu desejo, em conjunto com as fracas competências de resolução de problemas, competem entre si, desaguando por vezes em valentes birras, que tanto desesperam pais e educadores. Por vezes, a única forma que a criança conhece para agir e chamar a atenção do adulto é fazendo birra.

Psicólogo infantilAs birras manifestam-se sobretudo por gritos, choro, agitação motora e por vezes agressão a si mesmo ou aos outros, na forma de pontapés, mordidas ou outras manifestações, numa forma descontrolada onde falha a autorregulação e o controlo das emoções. Perante este quadro, quem é o adulto que nunca perdeu a cabeça e reagiu também ele de forma impulsiva, no sentido de controlar a criança naquele momento? Mesmo parecendo um dos piores dos comportamentos que a sua criança pode apresentar, certo é que as birras, apesar de desagradáveis e frustrantes, não são motivo para alarme, uma vez que não são mais do que a expressão de emoções vindas de um cérebro ainda imaturo e que tendem a desaparecer com o tempo, ou seja, com o decorrer do desenvolvimento da criança. Esta vai adquirindo novas capacidades e passa aos poucos a expressar-se de forma mais adequada.

Birra

No decorrer de uma birra, parece não ser muito eficaz tentar repreender, chamar a atenção ou castigar a criança, muito menos recompensa-la. No momento em que está descontrolada, a criança não vai ter capacidade de ouvir, entender e responder àquilo que lhe é pedido. O ideal será conseguir agir logo no início da birra, momento em que a criança ainda não perdeu o controlo sobre ela mesma, contendo-a para que não se magoe, desviando-lhe a atenção para outra coisa ou levando-a para outro lugar. É muito importante que em presença de uma birra, o adulto se consiga manter calmo, evitar reagir de forma emotiva com gritos, palavras ou gestos bruscos. “Sair de cena” pode ser uma boa opção, desde que a segurança da criança esteja assegurada. Por outro lado, distrair a criança mudando de assunto, de lugar ou utilizando o efeito surpresa, pode ser bastante eficaz. Deverá ser dado tempo à criança para que se aclame e só depois falar com ela de forma calma e clara, no sentido de a entender e de lhe explicar como se poderia ter comportado em vez de fazer uma birra. Não basta parar a situação e repreender a criança, é necessário ensinar-lhe uma alternativa ao comportamento desadequado.

Birra

E nunca deverá ceder! Por muito que possa parecer a melhor opção, não é com certeza. A criança tem que compreender que a birra, os gritos, a desorganização emocional, a falta de controlo e de lucidez do momento não é a forma correta de resolver problemas nem de obter o que pretende. E como em muitas outras coisas da vida, não há nada melhor que a prevenção. Avise antecipadamente a criança quando algo que sai da rotina vai acontecer. Fale de forma assertiva e meiga, explicando o que é esperado dela em termos de comportamento. Por outro lado, por vezes não levar a criança pequena para certos eventos ou situações pode mesmo ser a melhor opção.

Birras

Sempre que aconteçam situações de birra, deixe bem claro à sua criança que o seu amor por ela é incondicional e que do que não gosta é do seu comportamento. Deixe claro que o rigor, a disciplina e as regras que utiliza na educação do seu filho são uma forma de expressar o seu amor por ele. É inevitável que, por vezes, as crianças tentem “esticar a corda” e exceder os limites que lhes foram anteriormente definidos. Porém, com calma, persistência e amor, tudo se consegue… há que nunca desistir.

 

Educar, ensinar e respeitar

Disciplinar e educarFalar da educação dos nossos filhos é falar de um tema sensível e por vezes difícil, uma vez que todos queremos fazer o melhor mas nem sempre sabemos como. Se por um lado não existem pais perfeitos, por outro lado também não existem crianças perfeitas. No entanto, pais e filhos podem relacionar-se de forma harmoniosa, amorosa e feliz, respeitando-se mutuamente.

Para que mantenha com os seus filhos uma relação tranquila, agradável e prazerosa, há que nunca esquecer a palavra equilíbrio, e para que haja equilíbrio, é necessário haver disciplina, regras e limites. Disciplinar significa ensinar: ensinar o que fazer, como fazer e quando fazer. Corrigir comportamentos desadequados, dar alternativas e ao mesmo tempo respeitar a perspetiva da criança ou do adolescente, pode ser a chave para o sucesso. Porém, estabelecer limites e fazer cumprir as regras pode não ser tarefa fácil. Uma das formas que pode tornar a tarefa mais acessível é dar o exemplo. As crianças também aprendem por imitação e os pais são os seus modelos mais próximos. Será muito difícil exigir que um filho mantenha o telemóvel fora da mesa do jantar, se os próprios pais passarem a hora da refeição ligados aos seus aparelhos. Este é apenas um exemplo, mas modelar um comportamento pode ser muito mais do que isto. Modelar é dar o exemplo, é fazer bem e ensinar como fazer bem, para que a criança possa aprender com o que vê fazer. Continuar a ler

Pais de adolescentes: Atenção à autoestima!

Auto estimaA adolescência é uma fase da vida extremamente importante no sentido em que é durante este período que o jovem constrói a sua identidade e que adquire autonomia. Para que estas duas tarefas sejam bem-sucedidas, é muito importante que a autoestima se mantenha positiva e estável.

A autoestima pode ser definida como a avaliação subjetiva e a valorização que o sujeito faz de si mesmo e que é fortemente influenciada pelas contingências de reforço positivo socialmente oferecidas ao longo do desenvolvimento. As modificações do corpo são visíveis mas as outras nem tanto… A maneira de pensar, de sentir e de se comportar muda consoante a criança vai entrando na adolescência, sendo este um período de grandes ambiguidades e por vezes inseguranças. Estes fatores poderão fazer com que a perceção que o jovem tem acerca de si mesmo mude e a autoestima baixe.

A autoestima parece baixar sensivelmente a meio do período da adolescência, em ambos os sexos, estando em parte relacionada com aspetos de ordem física e relacional com destaque para fatores como a imagem, o desempenho e a popularidade em contexto de pares. Um adolescente com baixa autoestima é um adolescente com maior risco de depressão, de isolamento, de desenvolvimento de problemas de ansiedade e de ter dificuldades no desempenho escolar, entre outros. Por outro lado, o jovem com a autoestima comprometida tem uma maior vulnerabilidade para os comportamentos de risco, como é o caso, por exemplo, do consumos de substâncias como o álcool ou o tabaco.

Auto estimaPara ajudar a sua criança ou adolescente a manter uma boa autoestima comece por evitar a utilização de uma linguagem negativa. Criticar, ridicularizar ou insultar perante um comportamento negativo vão potenciar a diminuição da autoestima.  Procure explicar do que é que não gostou e acima de tudo, ensine à criança como deverá fazer de futuro. Evite também fazer comparações com as outras crianças ou jovens. Cada um tem a sua identidade e o seu modo de ser e de pensar. Evite chamar à atenção ou criticar um comportamento em público, isso fará com que a criança se sinta envergonhada e humilhada, podendo comprometer a sua autoestima.

Auto eficáciaPor outro lado, faça por passar tempo de qualidade com o seu filho/a não se preocupando tanto com a quantidade. Esteja presente na sua vida, dê atenção às suas atividades e às suas preferências. Seja participativo e envolva-se com os seus filhos no estabelecimento de metas e objetivos. Ajude-os a tomar decisões e a fazer escolhas, respeitando a sua perspetiva. Perceber que algo correu bem em virtude de uma escolha própria, vai com certeza fazer o adolescente sentir-se mais confiante. Peça a opinião do seu filho/a para assuntos relacionados com a vida familiar. Poder opinar nos assuntos mais tipicamente dos adultos fá-lo sentir-se “crescido” e aumenta-lhe a autoestima.

Auto confiançaNunca se esqueça do elogio. Elogiar é reforçar, e os comportamentos reforçados provavelmente ocorrerão mais vezes. Mesmo naquelas situações em que o seu filho/a parece não estar a dar-lhe atenção, ou se ele/a é dos que se sente envergonhado com elogios, não deixe de dizer uma palavra de incentivo ou de apreço. No fundo, ele/a está a “captar” tudo. Ao sentir orgulho por algo que fez, a sua autoestima estará no bom caminho. Tenha muito cuidado com as críticas destrutivas pois elas não conduzem a “bom porto” e farão com que o adolescente se iniba, se sinta incapaz e se desvalorize. Tente criticar de forma positiva, dando de preferência sempre uma alternativa para que o seu filho/a possa aprender e corrigir algo que não fez bem.

AutoestimaIncentive o seu filho/a falar sobre si próprio de forma positiva. Frases como “eu vou conseguir chegar ao fim” ou “eu sou capaz de fazer isto” ajudam a que o jovem se sinta mais confiante e que por conseguinte, aja no sentido de alcançar o que pretende. Por fim mas não menos importante é a contribuição do amor para a manutenção de uma boa autoestima. Quando expressamos amor, compreensão e carinho pelos nossos filhos estamos também a contribuir para a construção de uma identidade mais segura e de uma autoestima mais positiva.

 

Sugestão:

http://www.scielo.mec.pt/pdf/aps/v16n2/v16n2a06.pdf

 

 

OncoSexologia

OncoSexologiaDecorreu nos passados dias 3 e 4 do corrente, no Instituto Português de Oncologia Francisco Gentil em Lisboa )IPO), o Congresso Nacional de OncoSexologia, cujo foco incidiu sobre o impacto do cancro na sexualidade.

O referido evento contou com a participação de palestrantes e formadores com “cartas dadas” na área da oncologia em Portugal, nomeadamente em urologia, ginecologia, endocrinologia, cirurgia plástica e reconstrutiva, enfermagem, psiquiatria e psicologia, entre outros. Participaram também outros oradores representantes de áreas distintas como a representação ou o jornalismo, com intervenções igualmente relevantes. Este congresso com caráter formativo abordou numa área tão específica como importante para o bem-estar e qualidade de vida dos indivíduos. Aberto à comunidade médica mas também a outros técnicos de saúde, nomeadamente enfermeiros e psicólogos, este foi um momento de formação, informação, sensibilização, reflexão e partilha. O curso abarcou temas como a sexualidade humana no Século XXI – do normal ao disfuncional; o sexo, a sexologia e a comunicação; a sexualidade na perspetiva do envelhecimento e da sobrevivência; inovação e reabilitação em OncoSexologia e ainda os workshops sobre treino de comunicação em OncoSexologia e os problemas sexuais no homem e na mulher com cancro.

CancroOs formadores/oradores têm formação e vasta experiência nesta matéria, tendo alguns deles sido os fundadores da Clínica de OncoSexologia do IPO de Lisboa, em funcionamento desde 2009. Esta consulta destina-se à comunidade de doentes do IPO Lisboa e colabora de modo formativo e informativo com outras entidades de saúde nacionais. A necessidade de desenvolvimento de trabalhos nesta área específica prende-se com o facto de os doentes oncológicos poderem manifestar perturbações do desejo ou do interesse sexual e dificuldades nas relações sexuais, durante ou após os tratamentos. No entanto, constrangimentos ou inibições de ordem social e as dificuldades na comunicação com os vários profissionais de saúde, em parte pela falta de formação dos mesmos nesta área específica, podem levar a que esse tipo de perturbações não sejam abordadas, com prejuízo na qualidade de vida dos doentes e dos seus companheiros/as.

OncosexologiaA prevenção dos problemas sexuais dos doentes de cancro e o seu tratamento carecem de sensibilização e de formação por parte dos profissionais de saúde que o acompanham, tanto nas unidades de oncologia como nos diversos serviços de saúde. Para isso, ações deste nível são de extrema importância para que a comunidade médica e outros técnicos de saúde se sintam aptos a acompanhar e ajudar os doentes oncológicos e as suas famílias, com foco na abordagem dos problemas e disfunções sexuais secundários à doença e aos tratamentos.

Sexualidade e cancroA sexualidade é um ponto central do ser humano durante toda sua vida, abarcando o sexo, a identidade e os papéis de género, a orientação sexual, o erotismo, o prazer, a intimidade e a reprodução. A sexualidade é vivenciada nos pensamentos, nas fantasias, nos desejos, nas atitudes, nos valores, nos comportamentos, no papel que cada um representa e nos relacionamentos. Embora a sexualidade possa englobar todas estas dimensões, nem todas são sempre experimentadas ou vividas. A sexualidade é influenciada pela interação de fatores biológicos, psicológicos, sociais, económicos, políticos, culturais, éticos, legais, históricos, religiosos e espirituais. (WHO, 2007).

OncologiaTendo por base tão grande diversidade de dimensões e abordagens, a sexualidade tende a ser demasiado focada na genitalidade e na sua funcionalidade. No caso dos doentes de cancro, estes podem ver comprometida essa mesma funcionalidade genital, quer provisória, quer definitivamente, o que pode causar a perceção de perda de identidade e de papéis. o que implica um luto e potencialmente um grande sofrimento. É nestes casos que o papel do profissional de saúde, nomeadamente o psicólogo, pode ser extremamente importante e fazer toda a diferença na forma como o indivíduo vai viver quer a fase de tratamento, quer a fase de reabilitação e eventual adaptação a algumas perdas ou limitações que possam ocorrer. A possibilidade de falar com alguém que entende o problema, que conhece os seus determinantes e consequentes, e, que, acima de tudo tem formação adequada na área da OncoSexologia, será uma mais-valia para o doente.

OncosexologiaA intervenção em OncoSexologia pressupõe vários níveis de atuação. O primeiro nível foca-se na aceitação e compreensão das limitações do doente, bem como na desculpabilização em relação àquilo que é normativo. O doente deverá encontrar um contexto de segurança para expor as suas preocupações, nomeadamente ao nível dos seus pensamentos, fantasias, sentimentos e comportamentos. O segundo nível, consiste no fornecimento de informação básica em relação à função sexual e ao ciclo de resposta sexual, bem como em relação ás limitações do doente e às suas potencialidades. O terceiro nível refere-se à apresentação de sugestões específicas relacionadas com a prática sexual, que passam por orientações de mudança comportamental, que possam levar o doente a atingir os seus objetivos, sempre com base numa sólida história clínica. Por fim, o quarto nível pressupõe uma intervenção com um profissional especializado em sexologia e consiste num plano personalizado, podendo envolver não só o doente mas também o seu parceiro (a).

Fontes:

Annon, J. (1981). PLISSIT Therapy. In: Corsini, R. Handbook of Innovative Pshychotherapies. New York. John Wiley & Sons Inc., pp 626-639.

O.M.S. (2001). Relatório Mundial da Saúde – Saúde Mental: Nova concepção, nova esperança. Lisboa: Direcção-Geral da Saúde.

Bullying ou intimidação: o que fazer?

Bullying e intimidação

“Ultimamente a Mariana diz que não quer ir à escola e anda muito calada e triste. Tem oito anos, tem um peso bastante acima da média e é muito tímida. Questionada acerca da razão pela qual não quer ir a escola a Mariana diz que as crianças na escola a estão a atormentar, a ridicularizar e a gozar – A Mariana está a ser vítima de bullying!”

Há certas crianças que se sentem mais importantes, melhores e mais fortes do que as outras. Isso confere-lhes uma segurança que utilizam para intimidar ou maltratar outras crianças que veem como piores, mais fracas, logo mais indefesas. A intimidação permite a algumas crianças dominar e maltratar outras, e assim conseguirem o que querem e quando querem. E o que podemos nós, os adultos, fazer perante uma situação como esta? Pois bem, em primeiro lugar devemos conseguir entender o que é a intimidação, ou seja, que o bullying consiste no uso frequente e regular de agressão física ou verbal, neste caso de uma criança, para dominar ou para se vingar de outra. Esta intimidação ocorre quando não há supervisão por parte de adultos, quer seja em casa, quer seja na escola e sempre que há diferenças de poder, isto é, uma criança mais velha, fisicamente mais forte ou mais popular, quer dominar, maltratar ou humilhar outra criança mais nova, mais fraca ou socialmente mais isolada. Continuar a ler

A escola e o desejo de saber

A escola e o saberO desejo de saber e a capacidade para aprender são inatos no ser humano. Os bebés começam desde os primeiros dias de vida, a utilizar as suas capacidades motoras, percetuais e sensoriais, para exercerem influência sobre os outros e sobre tudo o que os rodeia. É assim que identificam e compreendem os contextos onde se inserem, desenvolvendo as suas competências físicas, cognitivas e sociais.

Por volta dos 4 anos, as crianças entram na “idade dos porquês,” que não é mais do que a exploração da sua curiosidade, do seu desejo de saber. Ao entrar para a escola, todo um novo mundo se abre às crianças. Mas será que a escola dos dias de hoje, mata, aproveita ou incentiva o desejo de saber das crianças dos nossos dias? Supostamente a escola é uma fonte privilegiada de informação, onde as crianças têm acesso ao conhecimento e onde se dá um importante processo de aprendizagem. Os professores são os grandes atores deste teatro de aprendizagens, mas também os pares e todas as experiências que decorrem em contexto escolar, são efetivamente aprendizagens. No entanto, sem vontade não se aprende, não há conhecimento. A motivação da criança é o elemento chave para que ela apreenda a informação, a assimile e a transforme em conhecimento. E se por um lado o professor é o veículo mais evidente de fornecimento de informação, por outro lado pode não ser suficiente. O aluno não está dependente da informação que o professor possui, há muitas outras formas de obtenção de informação. Continuar a ler