Desafios e Mudanças no Tratamento das Perturbações do Comportamento Alimentar

Em psicologia clínica, no acompanhamentos de indivíduos com Perturbações do Comportamento Alimentar (PCA), são muitos os desafios lançados à pessoa doente. Nenhum é fácil de aceitar, uma vez que implicam mudanças comportamentais difíceis de implementar, principalmente devido à típica inflexibilidade cognitiva do doente, mas também aos padrões rígidos de funcionamento que “cimentaram” hábitos desajustados e difíceis de reverter.

O pensamento rígido, fortemente associado aos indivíduos com PCA, dificulta que estes consigam contemplar perspetivas diferentes acerca de si próprios, da doença e do processo de tratamento, que visa sobretudo modificar a forma de pensar, de sentir e de se comportar. Por isso, não há “volta a dar” e sem mudança não há melhorias… O processo de mudança tem como objetivo final o reconhecimento e a consciência da sensação de fome e saciedade de modo a permitir que a pessoa possa fazer uma alimentação mais intuitiva, ao invés de seguir uma regra rígida que imponha os momentos de comer e do que comer.

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Crianças, tecnologias e Internet

Atualmente, a Internet está presente em todos os contextos das nossas vidas, para o bem e para o mal. Se algumas pessoas têm mais facilidade em controlar a sua utilização e fazê-la de forma adequada, outras tendem a deixar-se levar mais facilmente pela diversidade de temas e atividades a que ela dá acesso. E como é com as crianças?

Se para muitos adultos, pode ser difícil dar bom uso à Internet e ao que ela permite, para as crianças será certamente mais difícil. Os mais novos têm tendencialmente maior dificuldade em controlar o tempo despendido em atividades online, bem como a selecionar conteúdos adequados á sua faixa etária. Quem tem filhos ou crianças pequenas a seu cargo, poderá seguir algumas recomendações muito úteis e que, se levadas a sério e de forma consistente, podem ajudar prevenir situações de dependência da Internet. Este é um tema que preocupa cada vez mais pais, educadores e outros profissionais que lidam diariamente com essa problemática.

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Bem-Estar e Saúde Psicológica

Organização Mundial de Saúde (OMS) define Saúde Psicológica como um estado de bem-estar que permite que a pessoa realize as suas capacidades e o seu potencial, que lide com o stresse normal do dia-a-dia e que trabalhe produtivamente e contribua ativamente para a sua comunidade.

A Saúde Psicológica é parte integrante da Saúde do ser humano, considerando-se que não há Saúde sem Saúde Psicológica. Relaciona-se com a capacidade de utilizarmos as nossas competências e capacidades para gerir os desafios do quotidiano, nos diferentes contextos em que vivemos (ex. familiar, escolar ou profissional). A Saúde Psicológica está associada também com o modo como pensamos, sentimos, avaliamos as situações, nos relacionamos com os outros e tomamos decisões. Quando estamos psicologicamente saudáveis, sentimo-nos confiantes e capazes de lidar com a nossa vida e de nos relacionarmos com os outros.

A felicidade e o bem-estar são frequentemente utilizados como sinónimos de Saúde Psicológica. A forma como avaliamos positivamente os acontecimentos de vida, em termos de experiências agradáveis e emoções positivas (ex. amor, alegria, tranquilidade, gratidão, esperança…), vai influenciar a nossa Saúde Psicológica. Quando nos sentimos felizes e de bem com a vida e conosco mesmos, enérgicos e disponíveis para os outros, podemos dizer que temos uma boa Saúde Psicológica e que esta contribui para a nossa satisfação com a vida.

Os estilos de vida saudáveis, o autocuidado, o equilíbrio entre a vida pessoal e a vida familiar e as relações positivas e de qualidade, são fatores determinantes para a nossa Saúde Psicológica. Adotar uma alimentação racional e a prática de exercício físico, pode ser o primeiro passo para nos tornarmos mais saudáveis, através do benefício que estas duas práticas têm para a saúde física e consequentemente para a Saúde Psicológica. Por outro lado, não nos podemos esquecer de nos mimar. Realizar atividades que nos dão prazer ou dedicarmos algum do nosso tempo a passatempos que nos são agradáveis, como por exemplo a leitura, a escrita, a música, passeios ao ar livre, realizar ações de voluntariado, etc., também contribui para o bem-estar pessoal.

A socialização é fundamental para que nos sintamos bem e permite uma série de interações prazerosas que irão contribuir para o aumento da nossa satisfação com a vida. Relações positivas e saudáveis, ajudam por meio da partilha, da diversão e do apoio que nos podem trazer, a sentirmo-nos bem e a atribuirmos á nossa existência positividade, alegria e até um propósito. A família e os amigos têm um papel essencial na nossa Saúde Psicológica. O equilíbrio entre a vida pessoal e profissional consegue-se muitas vezes, com a ajuda dos que connosco partilham histórias, experiencias e preferências.

Reveja a sua vida e faça um balanço de como a está a gerir. Procure introduzir momentos de autocuidado para que se consiga reequilibrar e recentrar. Não descure a sua Saúde Psicológica pois sem ela não poderá ser feliz!

Saúde mental: atenção aos sinais e aja precocemente

Não há nada exterior a nenhum de nós que nos possa garantir ausência de sofrimento. Ainda que muitos possamos ter todas as coisas que tipicamente utilizamos para medir o sucesso externo (ex. boa aparência, pais carinhosos, filhos incríveis, estabilidade financeira, bons amigos, uma relação conjugal satisfatória, etc.) isso pode não ser suficiente para garantir o nosso bem-estar psicológico.

 Os seres humanos podem usufruir de várias formas de conforto, entusiasmo e diversão, e mesmo assim experimentar grande sofrimento emocional. Os investigadores na área da psiquiatria e psicologia estão familiarizados com as sombrias estatísticas que confirmam uma dura realidade de indivíduos com enorme dor emocional, desespero e angustia. Estudos promovidos pela Associação Americana de Psiquiatria (APA), por exemplo, revelam que as taxas de prevalência de perturbação mental ao longo da vida rondam atualmente os cerca de 50%.Muitas pessoas apresentem sofrimento emocional em consequência de problemas no trabalho, nos relacionamentos, na parentalidade e com as transições naturais do curso de vida, entre outros (Kessler et al., 2005).

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Depressão depois dos 65

Podemos definir a “depressão tardia” como o aparecimento de sintomatologia depressiva, clinicamente significativa, depois dos 65 anos de idade. Este estado depressivo está muitas vezes associado à presença de doença física ou neurológica, mas também às mudanças decorrentes da situação de reforma.

As queixas somáticas mais frequentes nos doentes mais velhos são as dores de cabeça, dores reumatológicas ou músculo-esqueléticas, bem como a sintomatologia gastrointestinal. Feito o despiste de doença fisiológica que explique a referida sintomatologia, a persistência dos sintomas pode ser explicado pela depressão, se combinada com outros sintomas típicos desta doença. Estes sintomas incluem a tristeza prolongada e profunda, sentimentos de vazio, dificuldade em retirar prazer de atividades anteriormente prazerosas, falta de energia, dificuldades de sono, alterações do apetite, choro recorrente, sentimentos de culpa ou de inutilidade, entre outros.

Os fatores de risco para a depressão no idoso prendem-se com questões de género, sendo mais prevalente nas mulheres do que nos homens. No entanto, outros fatores de risco para o desenvolvimento de patologia depressiva podem estar relacionados com o sistema endócrino ou o sistema vascular. O diagnóstico de doenças médicas não psiquiátricas, nomeadamente doença oncológica, demência, doenças cardiovasculares, hipotiroidismo ou artrite, entre outras, constitui-se também como um fator de risco relevante para o desenvolvimento da depressão. O tipo de personalidade do indivíduo pode também influenciar a propensão para estados depressivos, bem como as experiências de vida e o stresse crónico a que está ou esteve sujeito (familiar, social ou económico).

Alguns fatores psicológicos podem também constituir um risco acrescido de depressão. A não-aceitação do envelhecimento, a dificuldade em lidar com a imagem corporal, a redução da atividade ou dos interesses, o apego excessivo aos bens materiais, a incapacidade em lidar com a morte dos entres queridos (que pode levar a processos de luto patológico), a dificuldade em enfrentar a reforma e a consequente redução da exposição social e por vezes até mesmo o isolamento, são fatores de risco muito significativos para o desenvolvimento de sintomatologia depressiva grave.

Associada aos múltiplos fatores de risco anteriormente mencionados, junta-se a frequente dificuldade que alguns mais velhos têm em fazer um balanço de vida positivo, em aceitar as alterações das relações com alguns familiares muito significativos (ex. filhos e netos por vezes distantes) e a dificuldade em lidar com expectativas de reciprocidade ou dependência económica, desses mesmos familiares, que por vezes podem ficar muito aquém do idealizado.

As pessoas mais velhas tendem a dar relevância às adversidades (maiores ou menores) que as preocupam, focando-se mais no que perderam do que naquilo que ainda têm e podem conseguir. A depressão nesta faixa etária parece estar frequentemente sub-diagnosticada e sub-tratada, principalmente ao nível dos cuidados de saúde primários. À semelhança das outras faixas etárias, a depressão no idoso pode ter vários níveis de gravidade, podendo ser ligeira, moderada ou grave (depressão major). De um modo geral, a depressão ligeira pode ser tratada com sucesso apenas com o recurso à psicoterapia, no entanto, a depressão moderada ou grave, necessita muitas vezes da combinação de psicoterapia com medicação (antidepressivos) como forma de intervenção. A terapia cognitivo-comportamental, combinada ou não com a medicação, tem-se revelado muito eficaz no tratamento da depressão tanto no idoso como em qualquer outra faixa etária.

A depressão não é uma consequência natural do envelhecimento. Os idosos saudáveis, independentes e principalmente ativos, apresentam uma taxa de prevalência de depressão muito inferior à da população em geral. Porém, juntamente com outras problemáticas que possam existir, a depressão reduz consideravelmente a qualidade de vida da pessoa idosa pode aumentar de forma significativa o risco de suicídio. Deste modo torna-se fundamental ficar atento aos sinais e agir de forma precoce. Uma boa e atempada avaliação psicológica e uma adequada intervenção, pode evitar consequências funestas e tratamentos mais complexos e prolongados.

Volte a sorrir, procure apoio! Procure a Sua Psicóloga!

Para quê ir ao psicólogo/a?

Por mais que se fale de saúde mental e da importância da mesma para a manutenção da qualidade de vida do indivíduo, parece haver ainda algum preconceito associado à procura de ajuda, nomeadamente de um psicólogo/a. Ideias pré-concebidas erróneas, podem dificultar a tomada de decisão na hora de procurar apoio, ainda que muito dele se possa necessitar.

Reconhece-se hoje em dia que, entre muitas outras patologias, a perturbação de ansiedade e a perturbação de depressão são as doenças do foro mental mais comuns, com elevada prevalência tanto em crianças e adolescentes, como em adultos e idosos. Em alguns casos, uma intervenção de caráter preventivo, pode fazer a diferença entre desenvolver a doença, por vezes até à cronicidade, ou aprender a lidar com a sintomatologia, impedindo que a doença evolua e se instale, comprometendo a funcionalidade e o bem-estar do indivíduo. Deste modo, é fundamental que o psicólogo/a seja visto como alguém que pode fazer a diferença, na vida de uma pessoa, de uma família ou de uma comunidade.

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Fumar ou parar? Eis a perturbação!

É sabido que o consumo de tabaco é responsável por inúmeros danos na nossa saúde, desde o aumento do risco de cancro ao aumento da propensão para os acidentes  vasculares cerebrais, entre outros malefícios. No entanto, embora deixar de de fumar traga muitos benefícios para a saúde e para a “carteira”, muitas pessoas têm grande dificuldade em fazê-lo.

O Tabaco é uma planta do género nicotínico, existindo cerca de cinquenta espécies diferentes. A Nicotina Tabacum, planta originária do continente americano, é a que ao longo do tempo tem despertado maior interesse. Historicamente, a sua utilização é difundida por toda a Europa, sobretudo por causa do grande e suposto valor terapêutico que lhe era atribuído. No entanto, aos dias de hoje, embora fumar seja uma prática socialmente aceite, ela envolve sérios riscos para a saúde, não só do fumador mas de quem com ele priva. O tabaco pode ser fumado ou mascado, tendo em qualquer uma das formas um potencial patogénico significativo. O grau de toxicidade do tabaco deve-se em grande parte à maneira como é consumido, assim como à intensidade da inalação que se faz desta substância. Quer pela inalação de monóxido de carbono através do tabaco fumado, quer pela absorção da nicotina e outros agentes carcinogéneos pelas mucosas, o consumo de tabaco é altamente nocivo.

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Qualidade do sono na adolescência

Pode considerar-se a qualidade do sono como boa, se corresponder a um período de sono reparador que atende às necessidades do indivíduo de modo a permitir-lhe um funcionamento diário ideal (Walker, Johnson, Miaskowski, Lee, &Gedaly-Duff, 2010).

Um adolescente com uma boa qualidade de sono deverá ir para a cama sem apresentar dificuldades na hora de dormir, transitar sem esforço do estado de vigília para o sono, ter um sono sem interrupções e tranquilo, manter o sono ou não apresentar dificuldades em reiniciar após o despertar noturno e de manhã fazer a passagem do sono para a vigília sem dificuldade (LeBourgeois, Giannotti, Cortesi, Wolfson, & Harsh, 2005). Assim, para uma avaliação da qualidade do sono, é necessário avaliar 5 dimensões essenciais: hora de deitar, adormecer, manutenção do sono, reinício do sono e despertar.

A qualidade do sono é afetada por vários fatores, entre os quais o stresse psicológico, problemas afetivos, hábitos de sono desadequados e parasónias (sonambulismo, pesadelos, bruxismo, etc.) (Manni, Ratti, Marchioni, Castelnovo, Murelli, Startori et al., 1997). Num estudo em que participaram adolescentes portugueses com idades compreendidas entre os 14 e os 18 anos, concluiu-se que as maiores dificuldades se prendem com a preparação da hora de deitar, a passagem do sono para a vigília, e o controlo das preocupações do dia-a-dia na hora de ir dormir (Cortez, 2014).

 De um modo geral, a má qualidade do sono é um preditor significativo de maiores limitações na atividade diária dos jovens (Palermo, Fonareva & Janosy, 2008). Em termos comportamentais, parece haver evidência de que a má qualidade do sono está associada a uma maior apatia e menor autoestima, bem como a um tempo de reação mais lento (Telzera, Fulignib, Lieberman. & Galvánb, 2013), o que pode justificar uma maior propensão para comportamentos de risco assim como o comprometimento das capacidades de tomada de decisão.

Em termos de duração, o tempo de sono recomendado para os adolescentes corresponde a uma média de nove horas de sono diárias (Carskadon, Acebo, & Jenni, 2004), no entanto são vários os estudos que indicam que muitos adolescentes não atingem esta média, o que contribui para um sono de má qualidade (Johnson et al., 2006; Liu et al., 2000; R. Roberts, C. Roberts, & Chen, 2002; Terman & Hocking, 1913; Tynjala, Kannas,& Valimaa, 1993; Wolfson & Carskadon, 1998).

Dormir bem é essencial em qualquer momento da vida. No entanto, durante a infância e a adolescência e atendendo ao rápido desenvolvimento físico, cognitivo e emocional, a importância de um sono de qualidade é maior. Se o seu filho revela dificuldades relacionadas com o sono, procure ajuda-lo e se a tarefa se revelar complicada, procure a Sua Psicóloga!

Sugestão: Matos, M. G. de, Santos, T. G. S. dos, Guedes, F. A. B., Branquinho, C., Cerqueira, A., Marques, A., Simões, C., Tomé, G., Gómez-Baya, D., & Paiva, T. (2019). Os adolescentes portugueses dormem pouco e bem, ou pouco e mal? E então?. Revista De Psicologia Da Criança E Do Adolescente, 10(1), 159–171. Obtido de http://revistas.lis.ulusiada.pt/index.php/rpca/article/view/2639

Psicologia, solidariedade e apoio social

Nesta fase tão conturbada de conflito armado e com o número de refugiados de guerra na Europa a aumentar diariamente, torna-se pertinente falar de solidariedade e apoio social. A psicologia social estuda os processos inerentes ao apoio social e explica as diversas formas e fatores com ele relacionados, bem como os seus benefícios.

O relacionamento com os outros está omnipresente na vida e no quotidiano dos indivíduos. Ao conjunto de pessoas com quem temos uma relação significativa podemos chamar rede de apoio social. Em psicologia, as redes de apoio social mais estudadas são as redes egocêntricas, isto é, as redes centradas numa pessoa específica que é alvo de interesse. Existem várias formas para definir apoio social, uma delas é dizermos que corresponde à quantidade e coesão das relações sociais que rodeiam de um modo dinâmico um indivíduo (Vaz Serra, 1999). É um processo interativo que visa o bem-estar físico e psicológico. O contacto social promove a saúde e o bem-estar e tem provavelmente uma função de regulação da resposta emocional perante os vários fatores causadores de stresse (Coan, J. A., Schaefer, H. S., & Davidson, R. J., 2006).

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Quando a criança não dorme sozinha…

Filhos a dormir no meio dos pais, mães ou pais a dormir na cama com o filho, o pai a dormir no sofá da sala porque o filho dorme com a mãe, a mãe a dormir na cama de um filho e o pai na cama com o outro… tantas possibilidades de cenários e tão reais e até frequentes.

Vários são os argumentos utilizados pelos pais para justificarem algumas destas situações. “Se eu não for para a cama dele, ele não dorme”, “se não a deixar aconchegar-se no meio de nós ela passa a noite a acordar e ninguém tem sossego”, “eu deixo-o dormir comigo porque também gosto desse miminho” ou “é uma boa maneira de não ter que dormir com o meu marido”. São todos argumentos possíveis, e eu já os ouvi a todos! Geralmente aconselha-se que a criança durma sozinha, se possível a partir dos seis meses de vida, de preferência no seu próprio quarto, no sentido de favorecer a sua capacidade de estar só e de promover o desenvolvimento da sua autonomia.

A situação de filhos a dormirem com os pais pode arrastar-se ao longo de muitos anos e o impacto que esse facto tem na vida das crianças e dos casais pode ser muito perturbador. Por vezes tudo começa com apenas uns minutos para que a criança adormeça, que depois se estendem por mais tempo e se repete por uns dias, semanas e por vezes anos. Acontece também o pai ou a mãe trocarem de forma definitiva a sua cama pela cama do filho, ou o contrário, o filho permanece na cama dos pais, expulsando definitivamente um dos progenitores do seu lugar. A duração deste comportamento, quando prolongada, tende a ser banalizada pelos intervenientes e as consequências podem ser de grande gravidade, não apenas na perspetiva do desenvolvimento da criança, mas também na ameaça que o referido comportamento constitui para a intimidade do casal e para a saúde e qualidade da sua relação.

As crianças devem para o seu próprio bem, adquirir autonomia em relação ao momento do sono nos primeiros anos de vida, de modo a potenciarem o seu adequado desenvolvimento  e a tornarem-se adultos autónomos e saudáveis. Adormecer por rotina na cama dos pais não é uma prática adequada. Numa situação de exceção pode ser compreendido mas só mesmo excecionalmente. Se a criança está doente, se está a ultrapassar um momento particularmente difícil, se está num contexto diferente, poderão ser motivos para que se abra a tal exceção mas logo que a situação regularize as rotinas que envolvem o deitar e o dormir deverão também elas ser reestabelecidas.

Na origem destes hábitos menos recomendáveis está por vezes a dificuldade que alguns pais têm em estabelecer regras e limites, e em fazê-los cumprir. Definir um horário regular para deitar a criança é recomendável. Deverá ser explicada à criança a importância do dormir. Dormir faz bem porque descansa o corpo e o cérebro. As células regeneram-se com maior rapidez durante o sono. A criança vai crescer e desenvolver-se também enquanto dorme. Dormir bem faz com que se cresça bem. Uma cabeça bem descansada terá melhor capacidade de atenção, concentração e aprendizagem, logo, uma boa noite de sono promove um dia de escola mais produtivo. Se dormirem bem e o suficiente (cerca de 9 a 10 horas/noite em idade escolar) as crianças também vão brincar mais, ficam mais despertas e curiosas para as aprendizagens informais e mais predispostas para as relações sociais.

Por outro lado, alguns pais acham que dormindo com os filhos os estão a proteger. Certo é, que o excesso de proteção pode levar a que a criança se torne insegura, dependente e ansiosa e carregar esse fardo ao longo da sua vida adulta. Proteger significa salvaguardar que a criança está num ambiente confortável, seguro e que reúne todas as condições necessárias a um sono descansado (conforto, temperatura, ausência de ruído, etc.). O afeto, tão importante para o desenvolvimento psicossocial de todas as crianças, deve ser também contemplado na hora de deitar. Acompanhar a criança ao quarto, aconchegar-lhe a roupa, contar uma história, falar um pouco acerca dos acontecimentos do dia, completados com uma dose “terapêutica” de beijinhos e abraços, seguidos de um boa noite e até amanhã, são exemplos de boas práticas de final de dia.

Quando um casal tem problemas que se refletem na partilha da cama, por vezes “utilizam” o filho como justificação para se manterem afastados. Colocar o filho a dormir entre os dois ou por outro lado, passar a ir dormir no quarto com o filho, são práticas muito mais comuns do que o que seria desejável, com tudo o que isso implica para o relacionamento do casal, quase sempre jovem, e das implicações para o desenvolvimento da criança, já sobejamente conhecidas. Havendo dificuldades no seu relacionamento, um casal deverá sempre procurar resolvê-las sem que isso envolva dormir com os filhos.

São várias as estratégias a adotar para que as crianças adquiram hábitos de sono saudáveis desde tenra idade. Preparar um quarto para criança ou uma cama num quarto que irá partilhar com um irmão, é o que se aconselha para que a criança conheça e se habitue ao seu espaço de descanso. É importante que se crie o hábito de por a criança a dormir na sua própria cama em idade precoce (4 a 6 meses) pois facilita o processo de adaptação. A criança vai saber que aquele é o seu lugar para dormir e vai mais facilmente aceitar essa regra. Quanto mais coerência e menos exceções houverem, mais facilmente a criança se vai habituar a dormir na sua cama. Por outro lado, pode também ser muito útil a preparação da rotina de dormir, ou seja, poderá prevenir interrupções do sono durante a noite se a criança se deitar após a digestão, se forem evitadas refeições muito fartas ou atividades físicas muito estimulantes. A ingestão de líquidos a partir das 18 horas deverá ser moderada para evitar que a criança urine muito durante a noite e interrompa o sono.

Se o problema está instalado e não está a conseguir tirar o seu filho da sua cama, procure a ajuda da Sua Psicóloga. Ela poderá avaliar devidamente a situação e ensinar-lhe outras estratégias, que poderão fazer toda a diferença para que as noites em sua casa sejam mais tranquilas e felizes!