A importância da intervenção psicológica em crianças e adolescentes

Se uma criança/adolescente conseguir modificar o seu comportamento ou o seu modo de pensar acerca de uma dificuldade, pode por um lado melhorar o seu desempenho, ou por outro lado adaptar-se à sua condição, de modo a aprender a lidar com ela de forma a que ela seja menos perturbadora, ou até mesmo transformar a sua fraqueza em força.

De acordo com a opinião de vários especialistas nesta área, a intervenção psicológica em crianças e adolescentes deve contemplar vários domínios: físico, cognitivo, emocional e social. Qualquer avaliação implicará a inclusão destes 4 domínios, no sentido de perceber o funcionamento da criança e de orientar o plano de intervenção de modo a torna-lo mais completo, atrativo e eficaz. Ainda que as dificuldades apresentadas pela criança/jovem possam manifestar-se essencialmente num dos domínios, certo é que todos eles se interrelacionam e influenciam. Deste modo e a título de exemplo, se um jovem apresenta dificuldades ao nível do sono, o ensino e treino de estratégias de higiene de sono, que ao mesmo tempo incluem mudanças de comportamento e aquisição de hábitos de vida saudáveis, irá não só beneficia-lo no que diz respeito à qualidade do sono como também trazer-lhe vantagens ao nível físico, cognitivo e emocional.

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Hiperatividade e défice de atenção – O processo de avaliação

O processo de avaliação psicológica tem o seu início quando é pedida a resposta a uma questão ou um parecer profissional sobre um determinado caso ou indivíduo. Sendo a Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção uma das mais prevalentes em crianças e adolescentes, uma correta e cuidada avaliação implica especificidades às quais o psicólogo deve atender.

Ao avaliar, é importante ter em consideração que as crianças e os adolescentes estão num processo de desenvolvimento e de mudança contínua muito mais acelerado que o dos adultos e que estão inseridos em contextos educativos, familiares e sociais extremamente determinantes do seu comportamento e com grande influência no seu desenvolvimento, pelo que não devem ser excluídos do processo de avaliação. No entanto, o sujeito em avaliação, em consequência da sua pouca idade, poderá também oferecer um conjunto de dificuldades intrínsecas ao próprio processo, como por exemplo, as suas capacidades de colaboração poderem ser limitadas em maior ou menor grau pelas suas características em termos de linguagem, temperamento, atividade motora, desenvolvimento cognitivo, etc.

Muitas das mudanças que tipicamente ocorrem durante a infância estão relacionadas com a maturação. As diferenças individuais aumentam à medida que a criança cresce e experiencia acontecimentos de vida não-normativos diferenciados e com impacto variável relativamente ao momento em que ocorrem. Dados empíricos evidenciam períodos críticos para certos tipos de desenvolvimento físico precoce, no entanto, para o desenvolvimento cognitivo e psicossocial parece haver maior plasticidade. A avaliação psicológica atende a vários domínios e níveis específicos. Em termos de domínios, são de referir o cognitivo, o emocional, o comportamental, o interpessoal/comunicação e o domínio do desenvolvimento. Quanto aos níveis, podemos considerar o individual, a díade (ex. relação mãe/pai-filho/a), a família nuclear, a família alargada, a comunidade e a cultura da criança/adolescente.

A Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA) é a condição psiquiátrica mais frequentemente diagnosticada em crianças e caracteriza-se pela manifestação de um padrão persistente de falta de atenção e/ou impulsividade-hiperatividade, com uma intensidade que é mais frequente e grave que o observado habitualmente nos sujeitos com um nível semelhante de desenvolvimento. Esta perturbação é particularmente grave, porque os jovens tendem a desenvolver uma vasta gama de problemas escolares e de relacionamentos sociais potencialmente desadaptativos. Se não for tratada, esta perturbação pode conduzir a uma extrema frustração, alienação, insucesso escolar, comportamento antissocial ou até mesmo levar ao consumo de substâncias psicoativas. A impulsividade e agressividade podem originar dificuldades na aquisição e manutenção de relacionamentos saudáveis assim como dificultar o envolvimento no grupo de pares.

Para um diagnóstico de PHDA é necessário que sejam identificados na criança/adolescente alguns critérios, e que estes se manifestem com frequência, com intensidade desadaptativa e que persistam pelo menos durante seis meses. Como critérios exemplificativos descrevem-se o não prestar atenção suficiente aos pormenores ou cometer erros por descuido nas tarefas escolares ou outras atividades; ter dificuldade em manter a atenção em tarefas ou atividades; parecer não ouvir quando se lhe fala diretamente; evitar ou estar relutante em envolver-se em tarefas que requeiram um esforço mental mantido; distrair-se facilmente com estímulos irrelevantes; precipitar as respostas antes que as perguntas tenham acabado; falar em excesso; interromper ou interferir nas atividades dos outros; ter dificuldade em organizar tarefas ou atividades; correr ou saltar em situações em que é inadequado fazê-lo (em adolescentes pode limitar-se a sentimentos subjetivos de impaciência), entre outros critérios igualmente relevantes.

Embora a criança possa apresentar critérios tanto de falta de atenção como de hiperatividade, em alguns casos predomina claramente um dos padrões. A PHDA pode ser do tipo misto, do tipo predominante desatento ou do tipo predominante hiperativo-impulsivo. Assim, para o correto diagnóstico deve tomar-se em consideração qual o padrão sintomático predominante nos últimos 3 meses. Para além das manifestações principais de PHDA, há crianças/adolescentes que apresentam outras perturbações, tais como perturbações de comportamento, perturbações emocionais, dificuldades nas aquisições escolares, perturbações da linguagem ou da motricidade. Há situações de comorbilidade com a PHDA, como por exemplo as perturbações de aprendizagem, a perturbação de oposição e desafio, as perturbações do comportamento, a perturbação de ansiedade, a perturbação de Asperger ou as perturbações de tiques.

A avaliação da PHDA deve incluir uma entrevista semiestruturada (pais e criança), de modo a que sejam recolhidos dados relevantes, respeitando as singularidades de cada criança/adolescente. É através desta entrevista que se inicia o estabelecimento da relação terapêutica e a motivação para o processo de avaliação e possível futura intervenção. Também os professores podem ter um papel muito importante no processo de avaliação, nos casos em que as situações problemáticas ocorrem principalmente em sala de aula. A observação, laboratorial ou naturalista (em contexto escolar ou familiar) pode ser outro método avaliativo a considerar, no sentido de se poder verificar a frequência, intensidade e o grau com que os comportamentos se manifestam. É muito útil e informativa na avaliação da relação do avaliado com os pais, irmãos, outros familiares, professores e o grupo de pares.  Serve também para se identificar em que ambientes se mantêm, agravam ou diminuem os comportamentos desadaptativos.

Outro método de grande utilidade na avaliação da PHDA são os questionários ou inventários de auto e hétero-relato. Estes destinam-se à recolha estruturada e detalhada de informação complementar à fornecida pelas entrevistas e observação, permitindo uma visão mais aprofundada e completa das problemáticas apresentadas pela criança/adolescente. Quando os resultados das técnicas anteriormente descritas se revelam inconclusivos, poder-se-á recorrer à avaliação das funções executivas, na tentativa de clarificar a direção que os seus resultados nos indicam. As funções executivas referem-se à capacidade de um indivíduo em se focar em comportamentos orientados para objetivos, realizar ações voluntárias de forma independente, auto-organizada e direcionada a um fim específico.

Para isso poderá ser necessário o recurso a instrumentos de avaliação psicológica como o Teste de Stroop, que avalia a atenção seletiva; os Testes de Memória de Trabalho Auditiva e de Memória de Trabalho Visual ou o Teste de Fluência Verbal. Estes instrumentos podem ser informatizados e por isso oferecerem vantagens na análise de medidas temporais, como tempos de reação e duração da resposta, permitindo um registo preciso do tempo, aumentando a sensibilidade dos testes. Para além disso, a informatização promove a padronização das condições de apresentação de estímulos e a recolha das respostas, permitindo maior rigor no controlo das condições de avaliação. Estes instrumentos avaliam as funções executivas e têm revelado evidências de validade na sensibilidade a alguns aspetos da PHDA, reconhecendo a hipótese de que as funções executivas devem ser consideradas nos seus diversos componentes, como a atenção seletiva, o planeamento, o controlo inibitório, a memória de trabalho e a flexibilidade.

Posteriormente, o psicólogo deverá devolver ao cliente os resultados da avaliação, tendo o cuidado em integrar os vários resultados e fornecer a informação o mais clara e completa possível, de modo a permitir uma compreensão do caso, revelando respeito e compreensão pela questão em avaliação e pela criança avaliada. A discussão do relatório deverá ser feita com o cliente numa tentativa de analisar até que ponto as circunstâncias preocupantes iniciais se mantem, cessaram ou se agravaram, tendo em vista o possível encaminhamento para uma intervenção. As perturbações do neurodesenvolvimento devem ser levadas em consideração e tratadas para evitar consequências futuras certamente mais difíceis de gerir e de tratar em idade adulta.

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O desenho da família

AvaliaçãoA avaliação psicológica deve contemplar um leque tão alargado quanto possível de testes, técnicas e informadores. Em psicologia pediátrica, o teste do Desenho de Família de Corman é um dos mais utilizados, não só pela facilidade da sua aplicação como também pela boa recetividade que tem por parte das crianças e também pela riqueza da informação que esta técnica permite.

O teste do Desenho de Família de Corman é um teste gráfico que tem como finalidade a exploração do funcionamento interno da criança, da sua perceção em relação à família, do lugar que ocupa na mesma, do relacionamento com os diversos elementos que a constituem e do modo como os vários elementos se relacionam entre si, entre outras dimensões passíveis de serem avaliadas. A técnica consiste em solicitar à criança que desenhe uma família e não a sua família: “Imagina uma família e desenha-a”. No decorrer do teste, o examinador, habitualmente um psicólogo, vai registando alguns pontos como a orientação do desenho, a posição da folha de papel, o detalhe, a ordem em que as várias personagens aparecem no desenho, a duração da tarefa, a firmeza do traço, o tamanho dos desenhos mas também a linguagem verbal e não-verbal da criança durante a prova assim como as suas verbalizações. Continue a ler “O desenho da família”

Ano Novo, ansiedade velha…

AnsiedadeSentir ansiedade em determinadas situações pode ser comum e normativo. A ansiedade e o medo protegem-nos e podem ser adaptativos, no entanto, se forem em excesso limitam-nos, interferem no nosso dia-a-dia, impedem-nos de cumprir as nossas rotinas, baixam a nossa qualidade de vida e podem mesmo conduzir a outras perturbações como por exemplo a depressão.

Importa diferenciar a ansiedade “normal” de perturbação de ansiedade, uma vez que ter medo ou ficar ansioso é em muitas situações muito adaptativo. Termos medo que um automóvel nos possa atropelar ajuda-nos a dar mais atenção quando atravessamos uma estrada. Ficarmos levemente ansiosos perante um exame académico leva-nos a sermos mais cuidadosos na preparação do mesmo e possivelmente a obter um melhor resultado. No entanto, medo e ansiedade em excesso podem chegar ao ponto de nos impedir de sair à rua com medo de sermos atropelados ou a deixarmos de comparecer no dia do exame por medo de não o conseguirmos fazer. Este tipo de comportamentos são típicos de uma perturbação de ansiedade e não de ansiedade normativa. Deve ser encarado como um problema de saúde psicológica, que de maior ou menor gravidade, sempre que interfere com a funcionalidade do indivíduo, deve ser tratado e não ignorado. Continue a ler “Ano Novo, ansiedade velha…”

O psicólogo e o desenho

Avaliação psicológica e o desenhoHá pouco tempo atrás ouvi alguém que dizia “o meu filho vai ao psicólogo só para fazer desenhos”. O tom de crítica era evidente, e, de facto, se a criança é acompanhada por um psicólogo apenas com o intuito de desenvolver as suas competências artísticas, pode realmente ser algo redutor… mas o desenho não é só arte.

O desenho, em contexto de avaliação ou de intervenção psicológica, assume um valor e uma importância que transcendem a mera revelação dos dotes artísticos da criança. O desenho é para o psicólogo um instrumento muito útil na sua prática clínica, quer se trate de avaliação, seleção ou intervenção psicológica. Através do desenho, o psicólogo consegue obter informação acerca do funcionamento da criança, do seu modo de estar perante os outros, do modo como projeta através dos elementos que desenha, o seu temperamento, as suas áreas de conflito, etc. Ao mesmo tempo, com recurso ao desenho, consegue-se facilitar o estabelecimento e a manutenção da relação entre a criança e o psicólogo. A criança por vezes consegue mais facilmente desenhar do que verbalizar. O pormenor ou a falta dele, o modo como adere à tarefa e se empenha nela, o tipo de traço que apresenta, a descrição dos detalhes, entre outros, representados através do desenho, podem fornecer informação relevante acerca da problemática em foco. Continue a ler “O psicólogo e o desenho”