O Poder da Música na Saúde Mental

A música é um fenómeno universal que atravessa culturas, épocas e geografias, acompanhando a humanidade desde os seus primórdios. Mais do que um entretenimento ou arte, a música é uma força capaz de transformar o estado de espírito, de unir pessoas e de promover bem-estar. Num tempo em que as perturbações de saúde mental atingem números recorde, é urgente olhar para a música como uma aliada na promoção da saúde psicológica — não apenas como passatempo, mas como intervenção séria e eficaz.

Do ponto de vista científico, os benefícios da música estão bem documentados. Estudos de neurociência demonstram que ouvir ou criar música estimula a libertação de dopamina, substância associada ao prazer e à motivação, e reduz os níveis de cortisol, a hormona do stresse. Esta combinação favorece o relaxamento e melhora o humor, funcionando quase como um “ansiolítico natural”, mas sem efeitos secundários. A prática musical regular, além disso, desenvolve a plasticidade cerebral, reforçando memória e concentração. São evidências que sustentam a inclusão da música em estratégias de prevenção e tratamento de problemas como ansiedade, depressão e insónia.

Mas a força terapêutica da música não se revela apenas para quem ouve. Para quem cria, compõe ou interpreta, o impacto pode ser ainda mais profundo. O processo de composição e performance oferece uma via de expressão emocional única, permitindo processar sentimentos complexos e experiências traumáticas de modo não verbal. O treino regular exige disciplina, foco e perseverança, qualidades que contribuem para o desenvolvimento de resiliência e autoconfiança. Além disso, tocar em grupo — seja numa orquestra, banda ou coro — promove um forte sentido de pertença e apoio social, fatores reconhecidos como protetores contra a depressão.

Também para o público a experiência é rica. Ouvir música é, muitas vezes, um ato de autorregulação emocional. Quem nunca recorreu a uma canção suave para relaxar ou a um ritmo enérgico para ganhar ânimo? Concertos e festivais reforçam ainda o laço social, criando momentos de partilha e empatia que reduzem a sensação de isolamento. Não é por acaso que hospitais e lares de idosos recorrem cada vez mais à musicoterapia, demonstrando benefícios em pacientes com demência, depressão ou em reabilitação neurológica.

Perante este corpo robusto de evidência, a pergunta impõe-se: por que razão a música continua a ser vista, muitas vezes, apenas como entretenimento e não como parte integrante de estratégias mais amplas de saúde pública? Se sabemos que atividades musicais regulares podem reduzir sintomas de depressão e ansiedade, porque não incentivar programas comunitários de canto, aprendizagem de instrumentos ou musicoterapia?

A música é um recurso acessível, barato e profundamente humano. Ignorar o seu potencial terapêutico é desperdiçar uma ferramenta poderosa para enfrentar um dos maiores desafios da atualidade: a saúde mental. Integrar a música em escolas, centros comunitários e programas sociais não é um luxo cultural, é uma necessidade.

A melodia que nos embala pode, afinal, ser também a que nos ajuda a curar.

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