Psicóloga Clínica Especialista - Mestrado em Psicologia Clínica e da Saúde (Núcleo Saúde e Doença) pela Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa e formação em Psico-Oncologia pela Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental e em Oncosexologia pela European School of Lifestyle Oncology.
Avaliação e acompanhamento psicológico a adolescentes e adultos (individual ou casal).
Ansiedade, Depressão, Dificuldades Relacionais, Dificuldades na Parentalidade, Perturbações do Comportamento Alimentar, Dificuldades de Adaptação à Doença Crónica e Processos de Luto.
Sim, a psicóloga também vai à psicóloga. E não é sinal de fraqueza, nem de incoerência profissional. É apenas humanidade — a mesma que tento lembrar aos outros quando lhes digo que não têm de aguentar tudo sozinhos.
Há dias em que carrego histórias pesadas, lágrimas que não são minhas mas que, de algum modo, ficam ali a ecoar. E há momentos em que percebo que, para continuar a cuidar, também preciso de me cuidar. Ir à psicóloga é o meu espaço para pousar algumas das malas invisíveis que trago de cada sessão.
É curioso estar do outro lado da cadeira. Trocar o papel de quem escuta pelo de quem tenta pôr em palavras o que sente. Há sempre um pequeno embaraço inicial — afinal, passamos anos a treinar o silêncio atento, e de repente somos nós a procurar as frases certas. Mas, com o tempo, torna-se libertador.
Naquele espaço, volto a ser apenas pessoa. Sem técnicas, sem teorias, sem necessidade de ter todas as respostas. Apenas alguém que também se cansa, que também se perde, e que, tal como os outros, tenta encontrar equilíbrio no meio do turbilhão da vida.
Ir à psicóloga não me torna menos profissional; torna-me mais autêntica. Lembra-me que cuidar dos outros começa, inevitavelmente, por saber cuidar de mim.
E talvez seja isso que mantém viva a essência de ser psicóloga — a consciência de que, antes de tudo, somos humanos.
Separar-se nunca é um processo fácil. Desde o momento em que nascemos, a vida é uma sucessão de pequenas separações — do colo da mãe, do primeiro dia de escola, de uma amizade que se afasta, de um amor que termina, ou até da casa onde crescemos. Cada separação traz consigo um misto de medo, saudade e adaptação. A ansiedade de separação, quando surge de forma intensa, é precisamente a expressão emocional dessa dificuldade em lidar com o afastamento das pessoas ou lugares que representam segurança e afeto.
Nas crianças, este fenómeno é comum e até esperado. É natural que um filho chore quando os pais o deixam na escola, que sinta receio do desconhecido ou que tema que algo lhes aconteça. Faz parte do processo de desenvolvimento e da construção da autonomia emocional. Com o tempo, e com experiências de separação seguras e previsíveis, a criança aprende que o reencontro é certo e que o amor não desaparece com a distância. No entanto, quando o medo se torna desproporcionado, persistente e interfere com o dia-a-dia, pode evoluir para uma perturbação de ansiedade de separação — uma condição que merece atenção e acompanhamento.
As compras impulsivas são um fenómeno frequente na sociedade contemporânea e consistem em adquirir produtos sem planeamento prévio, motivado por uma resposta emocional imediata. Do ponto de vista psicológico, este comportamento é influenciado por uma combinação de fatores internos – como emoções, traços de personalidade e necessidades psicológicas – e externos, incluindo estímulos de marketing e ambiente social. Embora possa proporcionar prazer momentâneo, a compra impulsiva pode conduzir a arrependimento, dificuldades financeiras e sentimentos de culpa.
Um dos principais motores da compra impulsiva é a regulação emocional. Muitas pessoas recorrem ao consumo como estratégia para lidar com stresse, ansiedade ou tristeza, procurando uma gratificação instantânea que alivie o mal-estar. A dopamina, neurotransmissor associado à recompensa, desempenha um papel central: a antecipação da compra ativa circuitos cerebrais de prazer semelhantes aos da alimentação ou do jogo. Este processo explica porque a decisão de compra, em momentos de tensão ou euforia, ocorre de forma rápida e pouco racional, mesmo quando o indivíduo reconhece que o produto não é necessário.
Pode o nosso estado de espírito ser influenciado pela comédia e pelo riso? Acredito que sim — e talvez mais do que imaginamos. Rir não é apenas uma reação espontânea a algo engraçado; é um ato profundamente humano, com efeitos surpreendentes na mente e no corpo.
A ciência tem vindo a demonstrar que o riso ativa várias áreas cerebrais e estimula a libertação de neurotransmissores como a dopamina, a serotonina e a oxitocina — substâncias associadas ao prazer, à ligação afetiva e à redução do stress. Ou seja, o riso não é apenas uma consequência da alegria: é também uma das suas causas.
Quando rimos, aproximamo-nos dos outros. Criamos uma ponte invisível de empatia e pertença. O riso partilhado quebra barreiras, suaviza tensões e recorda-nos que, apesar de tudo, fazemos parte do mesmo lado da vida. Há quem diga que rir em grupo é um ato de sobrevivência — e talvez seja verdade. Desde os primórdios, o humor ajudou-nos a enfrentar o medo e a construir laços sociais que tornaram a existência menos pesada.
Mas ter sentido de humor é algo mais complexo do que apenas rir. Envolve interpretar o mundo de forma flexível, reconhecer o absurdo e, muitas vezes, encontrar leveza no meio do caos. O humor não ignora os problemas — apenas lhes muda o enquadramento. É a arte de ver a sombra sem deixar de reparar na luz.
Nem todos rimos das mesmas coisas, e isso é parte da sua beleza. O humor é moldado pela cultura, pela personalidade e até por traços genéticos. O que provoca gargalhadas a uns pode deixar outros indiferentes. No entanto, há algo universal no riso: o poder de libertar. Rir é, em certo sentido, uma forma de respiração emocional — um modo de aliviar a tensão e devolver equilíbrio ao corpo e à mente.
Numa época marcada por pressas, preocupações e ecrãs luminosos, rir tornou-se quase um ato de resistência. Rir de nós próprios, dos nossos erros e das contradições do quotidiano é uma maneira de não nos deixarmos esmagar pela seriedade da vida. Rir não apaga os problemas, é verdade. Mas torna-os mais suportáveis. E talvez seja precisamente isso o que precisamos: não um remédio mágico, mas um instante de leveza que nos recorde que ainda somos capazes de sentir alegria.
No fim de contas, rir não resolve tudo. Mas, convenhamos, ajuda bastante a tornar tudo um pouco mais leve…
Outubro é, em muitos países, o mês dedicado à saúde mental, um tema que, felizmente, tem vindo a ganhar cada vez mais espaço no debate público. Falar de saúde mental já não é, ou não devia ser, um tabu. E, no entanto, ainda há muito por fazer para que o cuidado com a mente seja visto com a mesma naturalidade com que cuidamos do corpo.
Durante décadas, os problemas de saúde mental foram associados à fraqueza, à falta de força de vontade ou a algo que “não se devia contar”. O resultado foi o silêncio, e o silêncio, em matéria de sofrimento psicológico, é um terreno fértil para a dor crescer. Felizmente, a ciência e a sensibilização social têm vindo a mudar essa realidade. Hoje sabemos que a saúde mental é parte integrante da saúde global e que o bem-estar emocional influencia a forma como pensamos, sentimos, trabalhamos e nos relacionamos.
A música é um fenómeno universal que atravessa culturas, épocas e geografias, acompanhando a humanidade desde os seus primórdios. Mais do que um entretenimento ou arte, a música é uma força capaz de transformar o estado de espírito, de unir pessoas e de promover bem-estar. Num tempo em que as perturbações de saúde mental atingem números recorde, é urgente olhar para a música como uma aliada na promoção da saúde psicológica — não apenas como passatempo, mas como intervenção séria e eficaz.
Do ponto de vista científico, os benefícios da música estão bem documentados. Estudos de neurociência demonstram que ouvir ou criar música estimula a libertação de dopamina, substância associada ao prazer e à motivação, e reduz os níveis de cortisol, a hormona do stresse. Esta combinação favorece o relaxamento e melhora o humor, funcionando quase como um “ansiolítico natural”, mas sem efeitos secundários. A prática musical regular, além disso, desenvolve a plasticidade cerebral, reforçando memória e concentração. São evidências que sustentam a inclusão da música em estratégias de prevenção e tratamento de problemas como ansiedade, depressão e insónia.
O início de um novo ano letivo é, para muitos jovens, um período de expetativa e de renovação, mas também um momento marcado por ansiedade de desempenho. Do ponto de vista psicológico, este tipo de ansiedade surge quando a pessoa sente que o seu valor depende de resultados, temendo falhar perante os outros ou perante si própria. A transição para um novo ciclo de estudos, seja no ensino secundário ou universitário, intensifica este fenómeno: há novas rotinas, metas académicas mais exigentes e comparações inevitáveis com colegas.
Nos estudantes universitários, a ansiedade de desempenho manifesta-se frequentemente através da pressão para corresponder ao investimento financeiro e emocional da família e para construir um currículo competitivo. As primeiras semanas do ano letivo trazem desafios como a adaptação a uma maior autonomia, a gestão de horários mais complexos e a convivência em novos contextos sociais. Muitos jovens enfrentam receios de não estarem à altura das expectativas, o que pode provocar sintomas como insónia, tensão muscular, dificuldade de concentração e pensamentos autocríticos. Quando não acompanhada, esta ansiedade pode levar a procrastinação ou a evitamento, reforçando um ciclo de stresse.
O ciúme, frequentemente interpretado como uma resposta emocional instintiva ou reativa, é na realidade um fenómeno psicológico complexo que emerge da interação entre estruturas cognitivas profundas, normas internas e processos de pensamento disfuncionais. A sua manifestação não é aleatória, mas sustentada por padrões de funcionamento mental que se autoalimentam e reforçam, dificultando a autorregulação emocional e comprometendo o equilíbrio relacional.
No cerne deste sistema encontram-se as crenças centrais, entendidas como esquemas cognitivos nucleares que estruturam a perceção do self, do outro e das relações interpessoais. Estas crenças são frequentemente formadas em fases precoces do desenvolvimento e tornam-se automáticas e inconscientes, operando como lentes que distorcem a realidade. Quando negativas, estas crenças moldam uma visão autodepreciativa ou desconfiada do mundo relacional. Por exemplo, a convicção “eu não sou digno de ser amado” pode conduzir a interpretações distorcidas de comportamentos neutros do parceiro, ativando estados emocionais como insegurança, ansiedade e medo de abandono (Beck, 1979).
O mês de Setembro transporta consigo uma simbologia particular. Não sendo o início oficial de um novo ano, é frequentemente vivido como um marco de recomeço, quase um segundo Janeiro no calendário pessoal e colectivo. Este carácter simbólico deriva do facto de Setembro encerrar a fase estival, marcada pelas férias, pela descontração e pelo prolongamento dos dias, e introduzir uma etapa que exige organização, disciplina e regresso às rotinas. É um mês de transição que, por isso mesmo, tanto pode gerar entusiasmo e motivação, como pode acentuar fragilidades emocionais e resistências à mudança.
Do ponto de vista social e cultural, Setembro representa o regresso às aulas para milhares de crianças e jovens, a reentrada no ensino superior para estudantes universitários e a retoma do trabalho para grande parte dos adultos. Estas transições mobilizam recursos pessoais, exigem ajustamentos e colocam desafios que, se por um lado são oportunidades de crescimento e renovação, por outro podem constituir fonte de ansiedade e stress.
Um dos elementos que contribui para a carga emocional de Setembro é a própria alteração do clima. Os dias tornam-se mais curtos, a luminosidade decresce, a temperatura baixa gradualmente e o ambiente começa a perder a leveza associada ao verão. Este fenómeno, aparentemente natural, tem impacto direto no humor e na disposição das pessoas. A redução das horas de sol pode afectar a regulação do ritmo circadiano, interferindo no sono e na energia, além de poder contribuir para um aumento da vulnerabilidade a estados depressivos, sobretudo em indivíduos mais sensíveis às oscilações sazonais. Assim, o regresso às rotinas ocorre num contexto em que o próprio corpo é chamado a adaptar-se a uma nova cadência, menos luminosa e mais exigente em termos de resistência psicológica.
No regresso ao trabalho, é frequente emergirem sentimentos ambivalentes. Por um lado, há a sensação de perda da liberdade conquistada nas férias, a nostalgia dos momentos de descanso, de convívio familiar e de ócio criativo. As férias permitem, em regra, uma quebra com as pressões quotidianas, oferecendo ao corpo e à mente espaço para recuperar. O seu término pode reativar a sobrecarga mental, reacender conflitos laborais ou expor de novo as dificuldades de gestão de tempo entre vida profissional e pessoal. O chamado “stress pós-férias” é um fenómeno real, caracterizado por irritabilidade, fadiga e dificuldades de concentração, e que resulta, em parte, da brusca mudança de ritmo.
Por outro lado, o regresso ao trabalho traz também benefícios e não deve ser encarado apenas como um fardo. Representa a possibilidade de retomar projectos interrompidos, de reencontrar colegas, de recuperar a sensação de utilidade e produtividade. Em muitas pessoas, a rotina funciona como estrutura organizadora que sustenta o equilíbrio psicológico, evitando a dispersão e a falta de objectivos claros. A retoma laboral, quando acompanhada de propósito e sentido, pode traduzir-se numa oportunidade de reafirmação pessoal e de planeamento para o futuro.
Por outro lado, o regresso ao trabalho traz também benefícios e não deve ser encarado apenas como um fardo. Representa a possibilidade de retomar projectos interrompidos, de reencontrar colegas, de recuperar a sensação de utilidade e produtividade. Em muitas pessoas, a rotina funciona como estrutura organizadora que sustenta o equilíbrio psicológico, evitando a dispersão e a falta de objectivos claros. A retoma laboral, quando acompanhada de propósito e sentido, pode traduzir-se numa oportunidade de reafirmação pessoal e de planeamento para o futuro.
É neste equilíbrio entre aspetos positivos e negativos que reside a riqueza do mês de Setembro. O seu simbolismo de recomeço pode ser apropriado como oportunidade de renovação pessoal. Depois de um período de descanso, ainda que curto, o indivíduo pode encarar este mês como o momento ideal para definir novas metas: iniciar uma prática de exercício físico, reorganizar hábitos de sono, investir em novas aprendizagens ou até repensar a sua trajectória profissional. O impulso do “novo ciclo” pode funcionar como catalisador de mudanças significativas e sustentáveis.
Para mim, Setembro tem ainda um significado mais íntimo e pessoal: é o mês do meu aniversário. Talvez por isso o viva de forma tão especial, como se nele convergissem não apenas os regressos e os recomeços coletivos, mas também um renascer individual. Setembro é, para mim, a síntese perfeita entre a despedida da leveza do verão e a promessa de novos horizontes. É o mês em que me reencontro com a minha própria história e em que sinto, com mais intensidade, que cada fim encerra em si a possibilidade luminosa de um novo começo.
No entanto, é fundamental reconhecer e validar o impacto negativo que este mês pode ter. A nostalgia das férias, a redução da luminosidade, o aumento das responsabilidades e a pressão do regresso não devem ser desvalorizados. A consciência destas fragilidades permite preparar respostas mais adaptativas, como a gestão gradual do regresso ao trabalho, a prática regular de atividades prazerosas e o investimento em estratégias de autocuidado.
Em síntese, Setembro é, simultaneamente, um mês de despedida e de boas-vindas. Despede-se da leveza do verão, dos dias longos e da despreocupação, e acolhe a exigência das rotinas, dos compromissos e das responsabilidades. Mas é também um mês que oferece a cada pessoa a possibilidade de recomeçar, de se reorganizar e de projectar o futuro. Cabe a cada um equilibrar o peso da nostalgia com a leveza da esperança, transformando o recomeço num movimento de crescimento, em vez de numa prisão de obrigações. Talvez seja essa a maior lição de Setembro: recordar que cada fim é, em si mesmo, um convite a recomeçar.
O tema do consumo de cannabis por adolescentes em Portugal é, na minha opinião, um daqueles assuntos que nos obriga a sair dos extremos e a procurar uma abordagem mais sensata. Ao longo dos últimos anos, tem-se falado muito sobre a legalização da cannabis e os seus possíveis efeitos na sociedade, mas nem sempre se ouve um debate honesto sobre os riscos específicos para os mais jovens — um grupo particularmente vulnerável.
É importante começar por dizer o óbvio: a adolescência é uma fase do desenvolvimento marcada por intensas transformações físicas e mentais, o que a torna num período particularmente sensível e vulnerável. É também uma fase de descoberta e de definição da identidade. O cérebro adolescente está ainda em desenvolvimento e isso torna-o especialmente sensível, a qualquer substância que interfira com os seus processos naturais. E sim, a cannabis interfere. Apesar da ideia cada vez mais disseminada de que é uma “droga leve” ou até inofensiva, a verdade é que o seu consumo frequente pode ter efeitos sérios como, dificuldades de concentração, perda da motivação, alterações do humor, e até problemas mais graves como surtos psicóticos em pessoas predispostas. Estes não são cenários fantasiosos mas sim relatos reais, cada vez mais presentes nos serviços de saúde mental juvenil.
Infelizmente, muitos jovens não veem a cannabis como algo perigoso. Há uma certa “romantização” da erva como: “é natural”, “émelhor que o álcool”, “também pode serusada para fins medicinais”, etc. Ora, tudo isto contém alguma dose de verdade, porém, usada fora de contexto, esta informação transforma-se num mito. A cannabis pode até ter alguns benefícios medicinais, mas isso não a torna automaticamente segura para o consumo recreativo, especialmente em idades jovens. O álcool também é legal e socialmente aceite, mas não só não deixa de ser uma substância tóxica, como ninguém sensato recomenda o seu consumo a adolescentes.
Mas não nos deixemos levar pelo pânico moral. Não acredito que o caminho seja o alarmismo, muito menos a criminalização. Portugal deu um passo importante em 2001 ao descriminalizar o consumo de todas as drogas, e isso provou ser uma abordagem mais humana e eficaz do que a repressão. No entanto, a descriminalização não é o mesmo que legalização. E aqui entra o cerne da questão: devemos ou não legalizar o consumo de cannabis em Portugal?
A resposta, na minha opinião, é um cauteloso “sim” desde que feito com responsabilidade. Legalizar não deve significar abrir as portas ao consumo descontrolado. Deve significar sim, retirar o controlo das mãos do mercado ilegal e trazê-lo para um contexto regulado, fiscalizado e informado. Significa permitir que os adultos façam escolhas conscientes e seguras, enquanto se investe seriamente em prevenção, especialmente junto dos mais jovens.
Legalizar pode, paradoxalmente, ajudar a proteger os adolescentes. Ao regular a produção, a venda e a informação sobre a cannabis, seria possível controlar a qualidade da substância, evitar misturas perigosas, limitar o acesso por idade e, acima de tudo, retirar o “fascínio” do proibido. Como sociedade, podemos e devemos explicar claramente que o facto de algo ser legal não o torna automaticamente seguro ou adequado para todos. A educação é aqui o ponto chave.
O perigo real da legalização não está na substância em si, mas na forma como ela é apresentada à sociedade. Se for vendida como um produto inofensivo, semelhante a um suplemento natural, estaremos a abrir espaço para uma nova geração de consumidores impreparados. Mas se for enquadrada num contexto rigoroso, com campanhas informativas, restrições de marketing e foco na saúde pública, então talvez possamos finalmente ter uma conversa adulta sobre o este tema algo controverso.
Pessoalmente, preocupo-me com o crescente número de adolescentes que experimentam a cannabis cada vez mais cedo, na maioria das vezes sem noção dos riscos a que se expõem. Mas preocupo-me igualmente com o moralismo cego que fecha os olhos à realidade. Fingir que a cannabis não existe, ou que todos os seus consumidores estão em perigo, é tão perigoso como normalizá-la sem crítica.
O debate sobre a legalização deve por isso ser feito com equilíbrio. Sim, há perigos, sobretudo para os jovens. Mas a legalização e o controlo da substância também pode trazer benefícios, desde que acompanhados de políticas públicas eficazes, informação rigorosa e investimento em educação. Mais do que decidir entre “proibir” ou “liberalizar”, o que precisamos é de construir uma cultura de consciência, responsabilidade e respeito pela saúde dos nossos adolescentes.