O Natal pode ou não, ser o que cada um de nós quiser?

Tradicionalmente, as famílias cristãs celebram o nascimento de Jesus na noite de 24 para 25 de Dezembro. O Natal carrega em si uma simbologia própria e caracteriza-se pelas reuniões de família, refeições com pratos típicos como o bacalhau, o Perú e as filhós, troca de presentes e em muitos casos a participação em celebrações religiosas, como é o caso da Missa do Galo.

A época do Natal inicia-se cada vez mais cedo, uma vez que é marcada também por um maior consumismo. Os estabelecimentos comerciais enfeitam-se de acordo com as tradições e oferecem promoções para incentivar a aquisição de presentes e assim dinamizar a sua economia. As autarquias e juntas de freguesia empreendem os seus melhores esforços no sentido de dar cor, luz e por vezes música, às ruas de cada bairro e cidade. Cada pessoa à sua maneira, e dentro daquilo que são as suas crenças e possibilidades, vive a época natalícia com maior ou menor entusiasmo. Muitas pessoas vivenciam o espírito da festa religiosa que simboliza esta quadra, outras, não crentes, vivem o Natal com espírito de festa e com um entusiasmo e alegria mais mundanos. Será então “legítimo” que os não cristãos vivenciem o Natal e lhe atribuam outro significado que não propriamente o religioso?

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Resolução criativa de problemas

A criatividade é um conceito abstrato que envolve a produção de ideias originais. É um processo que se desenvolve através da combinação do conhecimento já existente com novas aquisições ou com perspetivas inovadoras de conhecimentos anteriores, ou ainda, através de um rompimento com o passado, emprestando o que já se conhece a novos conceitos.

A criatividade pode ser utilizada para diversos fins e em diferentes contextos de vida. Há quem revele a sua criatividade pela expressão artística, pela forma como se relaciona socialmente com os outros, como desempenha as suas funções laborais ou como resolve os seus problemas. A resolução criativa de problemas encerra em si várias etapas, que devem ser ultrapassadas uma a uma, de forma ordenada, no sentido de potenciar uma resolução adequada e adaptativa. O primeiro passo é a compreensão do problema. Não podemos resolver um problema se não o compreendermos ou não o entendermos como tal. Essa compreensão passa por uma descoberta objetiva dos factos, como por exemplo a gestão do tempo e o estabelecimento de prioridades. Imaginemos que o problema se relaciona com o facto de termos que desempenhar muitas tarefas e muito diversificadas, com limitações de tempo, o que causa muita ansiedade e desconforto. Entendemos o problema, sabemos a sua causa e provavelmente intuímos como seria melhor a nossa qualidade de vida, resolvendo o problema. No entanto, podemos não saber como fazer…

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A ansiedade na infância e a intervenção cognitivo-comportamental

Desde os primórdios da humanidade que nos deparamos com diversos perigos e ameaças à sobrevivência, tendo desenvolvido ao longo dos tempos, estratégias adaptativas de proteção ou de enfrentamento, para lidarmos com as mais variadas situações difíceis ou ameaçadores do quotidiano. Essas situações ocorrem ao longo do ciclo de vida e é desde crianças que devemos aprender a lidar com elas.

Perante uma situação ou acontecimento causador de stresse, o corpo humano está preparado para reagir de forma imediata à ameaça percebida. O cérebro recebe a mensagem de perigo eminente, produz e liberta substâncias químicas que desencadeiam sensações fisiológicas ou psicológicas, como a aceleração do ritmo cardíaco, o aumento da sudação, as alterações ao nível da respiração, os pensamentos de catastrofização e/ou de fuga, entre outras reações possíveis. Essas sensações e cognições têm como finalidade preparar o organismo para se proteger da ameaça e facilitar a reação de fuga ou enfrentamento do problema. Após um determinado período, de duração variável conforme a situação e o indivíduo, estas sensações diminuem por ação do sistema nervoso parassimpático, provocando uma sensação de relaxamento.

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Demências: Alzheimer

A demência pode definir-se como a perda de funções mnésicas, deterioração do nível de funcionamento adaptativo e pela presença de, pelo menos, um outro sinal de um défice cognitivo major. As mudanças características da demência ocorrem a nível cognitivo, funcional e comportamental.

A origem da demência pode ser de causas múltiplas e diversificadas, podendo estar relacionada com doenças psiquiátricas (ex. depressão, esquizofrenia), com intoxicações causadas por químicos ou metais, com doenças inflamatórias dos vasos sanguíneos, como lesões cerebrais (ex. tumores, esclerose múltipla) ou ainda com défices vitamínicos (ex. vitamina B12 ou ácido fólico). Podemos distinguir dois tipos de demências: as subcorticais e as corticais. As demências subcorticais estão associados a disfunções da estrutura da matéria cinzenta subcortical e das projeções do lobo frontal. Estas afetam entre outros, os processos cognitivos (lentificação), revelando-se por défices ao nível da atenção e da memória, com dificuldade na recordação de informação aprendida, apesar da preservação do reconhecimento. As funções executivas ficam afetadas desde a fase inicial, existindo dificuldade na resolução de problemas, diminuição da fluência da linguagem, humor depressivo, apatia, falta de energia e défices ao nível do sistema motor (ex. tremores, alteração da postura, da marcha e da coordenação). Duas perturbações representativas deste tipo de demência são a doença de Pakinson e a doença de Huntigton.

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Relações pessoais… a amizade

O Homem é um ser social, relacional. Desenvolve-se na sua relação com o contexto e com os outros. Uma relação pessoal caracteriza-se pela interação mútua em que o indivíduo reage ao comportamento do outro e pela sua continuidade no tempo. Numa relação pessoal existe uma história passada e uma expetativa de permanência e de futuro.

Se é verdade que os seres humanos são fundamentalmente seres relacionais, será que essa característica pode ser explicada pela teoria da evolução? Levando em consideração a Teoria Evolucionista, podemos dizer que a natureza relacional do Homem está associada à necessidade de preservação da espécie humana, através dos importantes comportamentos reprodutivos. Deste modo, homens e mulheres desenvolvem estratégias para assegurar a continuidade genética. Porém, nem todas as relações pessoais têm como finalidade a manutenção da espécie, existindo diversas formas de relacionamentos, cada qual com as suas características e particularidades. São exemplos disso as relações familiares, relações de amizade, de companheirismo estudantil, as relações meramente profissionais, entre outras.

Falar sobre a amizade é falar sobre um tipo de relação pessoal com regras menos rígidas e definidas, comparativamente à maior parte das outras relações, como por exemplo as relações amorosas. Uma relação de amizade pressupõe um grau de estruturação menor do que uma relação de amor. Para além de não implicar exclusividade, uma relação de amizade está mais dependente de fatores casuais, como a proximidade ou a comunhão de atividades, ideias ou valores. Cada relação de amizade pode assumir características próprias, umas mais frequentes e com elevado grau de partilha, outras mais distantes e esparsas mas sem que por isso sejam menos intensas e importantes. Enfim, desde os amigos inseparáveis, aqueles que raramente se vêm, mas que sempre que isso acontece é como se tivessem estado juntos no dia anterior, sem que o entusiasmo ou a emoção percam a sua força.

Vários autores que se dedicam ao estudo das relações pessoais, apontam diferenças significativas entre as amizades que se desenvolvem entre homens e aquelas que acontecem entre mulheres. As amizades entre homens são tendencialmente decorrentes de situações de proximidade e contacto, muitas vezes isentas de esforço voluntário. Caraterizam-se pela partilha de atividades comuns, hobbies e interesses em determinado tema e desenvolvem-se em redes sociais bastante alargadas, consoante os meios frequentados. Colegas de trabalho, amigos de infância que se mantiveram, contactos na área do desporto, atividade política ou associativismo, são exemplos frequentes de fatores que podem contribuir para o estabelecimento e manutenção de relações de amizade entre indivíduos do género masculino. Por sua vez, as relações de amizade entre mulheres, são tendencialmente mais restritas e quase sempre rodeadas de um núcleo de amigas, do mesmo sexo e mais próximas, com as quais estabelecem relações de tipo mais diádico, em que há maior intimidade, ajuda recíproca, tendência para a ocorrência de autorrevelações e troca de impressões sobre aspetos da vida privada ou até mesmo íntima. Numa fase em que têm filhos, as amigas tendem a aproximar-se, em especial se partilham o mesmo tipo de vivências. Frequentemente, a maternidade aproxima também as mulheres das suas próprias mães, transformando por vezes o tipo de relação que com elas tinham até então, numa relação caracteristicamente mais próxima da relação que têm com as amigas.

A manutenção de uma relação depende do grau de compromisso e de investimento na mesma. A uma relação de amizade, também se aplicam estes princípios, e á semelhança de outro tipo de relações, importam ainda três fatores fundamentais: a satisfação com a relação, o nível de comparação e os investimentos anteriores nessa mesma relação. Ou seja, a satisfação com uma relação de amizade, tal como noutro tipo de relação, é determinada pelos ganhos e custos que esta implica, pelas expectativas do indivíduo face à mesma e ainda pelos investimentos anteriores nessa mesma relação. Estes investimentos podem ser intrínsecos, como o conhecimento, a intimidade, as experiências comuns ou extrínsecos, como a partilha de uma tarefa ou atividade, por exemplo.

Relações de amizade satisfatórias e equilibradas promovem a saúde e o bem-estar físico e emocional. A título de exemplo, é de referir que o apoio social que advém da amizade pode ajudar na prevenção do stresse. Se perante um acontecimento causador de ansiedade o indivíduo sente que não dispõe dos recursos necessários para lidar com o problema, e quando o apoio dos amigos lhe faculta esses recursos, a pessoa passa a encarar a situação causadora de stresse como menos grave. Por outro lado, o convívio com amigos fomenta por norma atividades saudáveis, quer para o físico como para a mente. Fazer atividades físicas com amigos é mais estimulante, assim como seguir um regime alimentar mais saudável pode ser incentivado pelos amigos. Por outro lado, a socialização promove a expressão emocional e o diálogo, a positividade e a promoção da autoestima, melhorando a saúde emocional.

As relações de amizade podem ser iniciadas em qualquer momento do ciclo de vida. Numa fase mais precoce, são importantes para o desenvolvimento de competências, para a descoberta e para a própria construção da personalidade. Em fases mais tardias da vida, fornecem um suporte social que por vezes a família não consegue dar ou que as diferenças geracionais pode perturbar, por vezes por dificuldade de empatia ou de entendimento do que é rer-se “mais velho”. Assim, importa estabelecer, manter e alimentar, relações de amizade em todas as fases do ciclo de vida e retirar delas o que têm de melhor, não esquecendo que são relações de reciprocidade, em que cabem sempre novos elementos, sendo que cada um pode contribuir com o melhor de si.

Há quanto tempo não fala com aquela amiga especial? Alimente as suas amizades e promova a sua saúde física e principalmente emocional!

Motivar para aprender

A motivação é o ponto de partida parta uma aprendizagem eficaz. Alunos com capacidades cognitivas normativas, se motivados, estão predispostos a aprender e a dar significado às suas aprendizagens. A par da motivação está a autoestima. Um aluno com boa autoestima, reconhece as suas capacidades e permite-se utilizar estratégias adequadas a uma aprendizagem orientada para o sucesso!

Muitos jovens e até crianças, revelam nos dias de hoje, uma grande desmotivação face à escola e à aprendizagem, com efeitos muito significativos ao nível do decréscimo do rendimento escolar e do seu bem-estar emocional e familiar, O desinteresse e a desmotivação com a escola, habitualmente, não é determinado por uma única causa mas sim, por um conjunto de determinantes que podem englobar fatores temperamentais, ambientais ou contextuais e ainda fatores genéticos. Uma das causas mais frequentemente apontadas para a desmotivação para o estudo é a forma como os conteúdos programáticos são lecionados ou a dificuldade na relação com os professores. Outra razão para o desinteresse, prende-se com o facto de que as crianças e os jovens podem não reconhecer utilidade a alguns dos referidos conteúdos, ou de não entenderem de que forma essas aprendizagens lhe podem ser úteis, quer no presente, quer no futuro.

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Narcolepsia, uma perturbação do sono

As perturbações do sono-vigília englobam várias perturbações ou grupos de perturbações, entre as quais a perturbação de insónia, a perturbação do hipersonolência, a perturbação de pesadelos, as perturbações do sono relacionadas com a respiração ou a narcolepsia, entre outras. O mal-estar e os défices funcionais diurnos que resultam destas perturbações são características nucleares comuns a todas elas.

A narcolepsia faz parte do quadro de perturbações do sono-vigília e caracteriza-se por períodos recorrentes de necessidade irreprimível de dormir, adormecer ou fazer sestas. Para que possa chegar ao diagnóstico desta perturbação, deverá estar presente pelo menos um dos critérios que de seguida se descrevem. O sintoma/critério deverá ter ocorrido pelo menos 3 vezes por semana nos últimos 3 meses. Esses critérios são a cataplexia e que, em indivíduos com doença de longa duração, se referem à perda súbita bilateral do tónus muscular (breves segundos a minutos), com manutenção da consciência e que são precipitados pelo divertimento ou o riso. Noutros casos, podem ocorrer episódios de caretas espontâneas, abrir a boca com deglutição atípica ou até a hipotonia global, sem quaisquer desencadeadores emocionais. Há ainda outros critérios de diagnóstico que se prendem com défices de neurotransmissores, como por exemplo a hipocretina, responsável pela regulação da excitação, vigília e apetite. Outros exames médicos complementares para o diagnóstico podem ainda incluir o estudo da latência do sono.

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Solidão

Em tempos como os que vivemos desde há aproximadamente um ano e meio, o conceito de solidão tem estado muito presente na vida de muitos de nós. Uma das faixas etárias que mais terá sofrido as consequências do afastamento social é a dos idosos, uma população já de si mais vulnerável, por várias ordens de razão.

O conceito de solidão tem vindo a ser estudado por diversas áreas da ciência e do conhecimento, como a psicologia e a sociologia. A perceção de solidão é algo subjetiva, uma vez que, algumas pessoas convivem tranquilamente com o facto de estarem sós e outras se sentem sós e infelizes mesmo quando estão rodeadas de outras pessoas. Cada indivíduo sente a solidão à sua maneira e daí a dificuldade de se chegar a uma definição única e abrangente. As representações sociais da solidão incluem uma enorme heterogeneidade de significados, caindo em especificidades que dificultam a sua interpretação e entendimento. Em psicologia, o conceito de solidão pode ser caracterizado pela ausência afetiva do outro e com a sensação de se estar só. Ainda que próximo do ponto de vista geográfico, pode não haver aproximação psicológica devido à falta de interação e comunicação emocional entre os indivíduos.

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Nós e os outros

O relacionamento com os outros está presente na vida e no quotidiano de todos nós. Ao conjunto de pessoas com quem temos uma relação significativa podemos chamar rede de apoio social. Em psicologia as redes de apoio social mais estudadas são as redes egocêntricas, isto é, as redes centradas numa pessoa específica que é alvo de interesse.

Existem várias formas para definir apoio social. Uma delas é dizermos que corresponde à quantidade e coesão das relações sociais que rodeiam de um modo dinâmico um indivíduo. O apoio social é um processo interativo que visa o bem-estar físico e psicológico. O contacto social promove a saúde e o bem-estar e tem provavelmente uma função de regulação da resposta emocional perante os vários fatores causadores de stresse. De acordo com alguns autores, o apoio social pode ter várias funções: apoio informativo, apoio emocional, apoio de pertença e apoio tangível, desempenhando assim um importantíssimo papel na vida do indivíduo, com impacto muito significativo na sua saúde física e psicológica. Este apoio poderá mesmo exercer influência sobre a mortalidade, uma vez que a sua presença parece estar associada a um melhor funcionamento dos sistemas cardiovascular, endócrino e imunitário, e com repercussões positivas na saúde física. O principal benefício de receber apoio social é a proteção do indivíduo face às consequências negativas do stresse, quer comportamentais, quer psicológicas. Teoricamente, o apoio social pode diminuir a perceção e a avaliação de stresse do indivíduo, perante um determinado acontecimento. Isto poderá também influenciar positivamente processos psicológicos como, estados de humor negativos, baixa autoestima e baixo autocontrolo e autoeficácia.

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Velhos ou envelhecidos?

O envelhecimento é um processo inexorável que ocorre desde o nascimento até à morte e que pressupõe um conjunto de transformações do organismo, tanto a nível fisiológico como psicológico. Consiste na diminuição progressiva das funções cognitivas, físicas e motoras. A velhice por sua vez, não tem apenas a ver com os efeitos da passagem do tempo no organismo, mas também com a forma como o indivíduo se vai adaptando psicologicamente às transformações inerentes à passagem dos anos.

Parece consensual que distinguir envelhecimento de velhice faz muito sentido. Pode parecer um “lugar-comum” dizer que há velhos de 40 anos e jovens de 80, mas de facto a forma como o indivíduo enfrenta as dificuldades, resolve os problemas, escolhe estratégias que lhe permitem viver melhor e sobretudo, a forma como se relaciona com os outros e como mundo, leva-me a considerar que não é apenas a idade cronológica, as rugas e outras alterações do aspecto físico do indivíduo, que determinam o que é ser um velho. Ser velho, correlaciona-se fortemente com a perda de capacidades que permitam ao individuo manter-se auto suficiente, quer a nível físico como mental, mas também com a perda da capacidade de sonhar e de projetar o futuro.

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