As crianças e os meios electrónicos de comunicação

Dispositivos eletrònicosA presença dos meios electrónicos de comunicação na vida das nossas crianças é hoje em dia uma inevitabilidade. A televisão, o tablet, o computador e o telemóvel, são presenças assíduas na vida dos nossos filhos desde cedo. Estes dispositivos são frequentemente diabolizados, mas podem ter uma utilização útil e favorável se disponibilizados de forma equilibrada, como tudo na vida. Tornar-mo-nos reféns deles ou pior ainda, tornar as crianças dependentes desses meios é que me parece perigoso e desadequado e com efeitos prejudiciais, quer a curto, quer a longo prazo.

O que me parece preocupante é o facto de as crianças, a partir dos 2 anos, passarem cada vez mais tempo a ver televisão, a jogar e a interagir com a máquina, por vezes em detrimento de outras actividades mais saudáveis, do ponto de vista físico e social. Muitos dos conteúdos aos quais as crianças têm acesso fácil são violentos e desadequados. Ora, se as crianças aprendem por imitação, não é difícil entender que a probabilidade de aprenderem comportamentos agressivos através desses conteúdos e de os reproduzir é elevada. Usar a violência quando acontece algo que os contraria, ser agressivo para ganhar a alguém e usar a força física para resolver um problema, não é com certeza o modelo que queremos para os nossos filhos.

Dispositivos eletrònicosOs desenhos animados, por exemplo, não dizem a verdade acerca da violência. Falta-lhes habitualmente, mostrarem as consequências físicas do uso da violência. Quem é que nunca viu um personagem ficar espalmado numa parede ou ser passado a ferro por um comboio e no momento seguinte já estar a correr atrás do seu inimigo? Pois é, e os heróis? Quem são eles afinal? De um modo geral, os heróis são apresentados como alguém que usa a força para derrotar outra pessoa, normalmente uma pessoa conotada como má. Será esse o exemplo mais inteligente e seguro de se ganhar ao outro…

Meios de comunicação eletrònicosQuando deixamos as nossas crianças entregues aos meios de comunicação electrónicos de forma descontrolada (em termos de tempo e de conteúdos), corremos o risco de que aquele tempo em que estão tão sossegadas em frente ao écran, tenha um impacto muito negativo nas suas vidas. Esse impacto pode observar-se a vários níveis: físico, comportamental e emocional. Ao ficarem muito tempo sentadas, as crianças não utilizam os músculos, não gastam a energia nem as calorias que têm armazenadas e podem correr o risco de terem problemas de peso (perda de massa muscular e aumento de massa gorda). Na televisão, e não só, os anúncios de comidas processadas e ricas em açúcares mas também de brinquedos electrónicos, têm um efeito de bola de neve. O risco de obesidade, diabetes, problemas cardiovasculares e distúrbios alimentares, parece ser uma realidade entre as faixas etárias mais baixas, que em parte pode ser explicada por este tipo de hábitos.

Dispositivos eletrònicosA nível comportamental, poderá haver uma mudança na forma de pensar e de se comportarem baseada no que aprendem com o que vêm na televisão e jogos de vídeo. Por outro lado, as crianças que passam muito tempo sozinhas, perdem a interacção com os outros e as aprendizagens que teriam através dessas experiências. Menor tempo de brincadeira com outras crianças reduz o uso da imaginação e da criatividade e pode impedir que as crianças aprendam outras formas de resolução de conflitos, mais adaptativas.

Dispositivos eletrònicosEm termos emocionais, as crianças pequenas ainda não conseguem perceber a diferença entre realidade e fantasia, tendem a acreditar no que vêm e podem ficar com medo e desenvolver problemas de ansiedade. Os conteúdos de alguns desenhos animados e jogos estimulam emoções fortes como o medo e a raiva e podem influenciar o modo como a criança vai expressar as suas emoções.

Jogos eletrrònicosE agora, dirão os meus leitores atentos, afinal a utilização destes meios pelas crianças só tem aspectos negativos? Não, claro que não. Tem também vantagens e como já referi anteriormente, acompanham a evolução dos tempos e são uma realidade à qual não podemos, nem devemos fugir. O uso moderado de alguns jogos, por exemplo, podem estimular a coordenação visuo-motora, o que pode ser útil noutras áreas da vida, como por exemplo, quando se quer aprender a tocar um instrumento. Podem também melhorar o raciocínio e tornar mais rápido o pensamento e a tomada de decisões. É importante também estimular as crianças e os jovens à utilização de jogos que promovem interacções e resolução criativa de problemas.

Meios de comunicação eletrònicos

Assim, a ideia é ficarmos atentos e dosear a utilização dos meios electrónicos. É muito importante controlar e evitar a exposição das crianças a programas de televisão com conteúdos violentos, noticiários e jogos agressivos e desadequados à sua idade. Os pais e outros cuidadores podem reduzir o impacto dos meios electrónicos nas suas crianças ao oferecerem outras actividades divertidas de modo a que as elas possam usar a imaginação, a criatividade e gastar a sua energia, como actividades ao ar livre, jogos de tabuleiro, leitura, pintura, culinária ou mesmo a participação em tarefas domésticas, adequadas à idade da criança. Também podem monitorizar os conteúdos do que as crianças vêm (existem filtros de controlo parental para serem utilizados em alguns dispositivos).

Jogos de vídeoEstabelecer regras de utilização como por exemplo o tempo permitido, e serem consistentes no cumprimento dessas regras, estendendo-as à família alargada, parece ser o mais sensato. Não vamos impedir que as crianças tenham acesso à informação e ao divertimento electrónico, vamos sim controlar o tipo de conteúdos e o tempo que dedicam a tais actividades, e sobretudo, talvez o mais importante é dar o exemplo. Com que moral podemos repreender e zangar-mo-nos com as nossas crianças por passarem demasiado tempo a jogar na consola ou no computador, se nós próprios o fizemos?

 

3 thoughts on “As crianças e os meios electrónicos de comunicação

  1. “Pacheco e a lei de Murphy” era o título de uma proposta de trabalho para os meus alunos do 6º ano (…) de “Estudo Acompanhado” na viragem do século.
    O Sr. Deputado Pacheco Pereira dissertava à época sobre o tema, sempre atual, que a Sra. Psicóloga hoje tão bem retoma – Pacheco Pereira dizia-nos “O que pode correr mal na escola e a alternativa a um mundo a preto e branco”… no XVI Encontro Nacional de Professores, em Braga (DN – 02/02/1999).
    Estávamos a tenter sensibilizar os alunos para a importância de “aprender a ver televisão” e hoje, uns anitos depois, a Dra. “subindo a parada” diz-nos: eles que aprendam também a usar o tablet, o computador, o telemóvel e o que mais virá… Não podia estar mais de acordo!

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    • Muito obrigada pelo seu simpático comentário.
      Vi a proposta de ficha trabalho feita aos seus alunos, no já “distante” ano de 1999 e achei muito pertinente, interessante e actual.
      Ainda em relação aos conteúdos violentos, aos quais as crianças podem ter acesso através dos diversos meios de comunicação electrónica, penso que um dos grandes perigos pode ser a sua banalização, o que pode conduzir à interiorização de que a violência contida em certas imagens, passe a a ser vista como uma “normalidade” do mundo em que vivemos, o que decerto não irá contribuir para que se evidenciem esforços no sentido de acabar com essa violência.
      Cabe-nos a nós, pais, avós, professores, psicólogos entre outros, sensibilizar os mais distraídos para a importância de colocarmos “filtros” ao que as nossas crianças têm acesso e no limite, assistir, acompanhar e explicar tudo aquilo que não conseguimos evitar que elas tenham acesso.

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  2. Pingback: As crianças e os meios electrónicos de comunicação — Gracinda e a Psicologia – Joseana Sousa

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