As férias escolares representam, para muitas crianças, um período de alívio, descanso e liberdade. No entanto, este tempo de pausa do calendário letivo nem sempre é vivido com a mesma leveza pelas famílias. Para os pais e cuidadores, especialmente aqueles com responsabilidades profissionais exigentes ou com poucos recursos, as férias escolares podem representar um verdadeiro desafio logístico, emocional e financeiro. Nesta fase, é importante refletir sobre os impactos psicológicos desta realidade, tanto para os adultos como para os próprios filhos.
Do ponto de vista das crianças, as férias são geralmente associadas a sensações positivas: ausência de rotinas rígidas, tempo livre para brincar, possibilidade de viajar ou visitar familiares. Contudo, nem todas as crianças vivem este período da mesma forma. Em famílias onde os recursos são limitados, a falta de acesso a atividades estruturadas, como colónias de férias ou campos de verão, pode resultar em isolamento social, sedentarismo e até aumento de conflitos familiares. A ausência de estímulos regulares também pode ter impacto no desenvolvimento cognitivo, especialmente em crianças mais vulneráveis ou com necessidades educativas especiais (Silva & Moura, 2020).

Por outro lado, para os pais, as férias escolares podem representar um acréscimo significativo de stress. A tentativa de conciliar horários de trabalho com o acompanhamento dos filhos implica, frequentemente, recorrer a avós, vizinhos ou serviços pagos. Este esforço constante para garantir segurança e entretenimento às crianças pode gerar sentimentos de culpa, frustração e exaustão emocional. Segundo um estudo conduzido pela Ordem dos Psicólogos Portugueses (2022), cerca de 47% dos pais referiram sentir níveis elevados de ansiedade durante os períodos de férias escolares, sobretudo devido à dificuldade em garantir uma rotina equilibrada para os filhos.

A pressão financeira é outro fator crítico. Para muitas famílias, o custo de programas de férias, deslocações ou mesmo o aumento do consumo doméstico (alimentação, eletricidade, internet) durante este período torna-se uma fonte de preocupação constante. Esta instabilidade económica pode afetar negativamente o ambiente familiar, gerando tensão e conflitos entre os membros do agregado.

No entanto, é possível encarar este período como uma oportunidade. Quando bem planeadas e ajustadas à realidade de cada família, as férias podem ser uma ocasião de reforço dos laços afetivos. Passar tempo de qualidade com os filhos, mesmo em atividades simples como cozinhar juntos, fazer caminhadas ou contar histórias, pode ter um impacto positivo duradouro no bem-estar emocional de todos os envolvidos (Fonseca, 2019). O importante é que as expectativas sejam realistas e que se promova um equilíbrio entre momentos de lazer, descanso e pequenas responsabilidades que ajudem a manter uma certa estrutura.

Do ponto de vista psicológico, é fundamental que se reconheça a importância do apoio às famílias durante este período. As escolas e autarquias podem desempenhar um papel relevante ao disponibilizar atividades extracurriculares acessíveis, espaços de lazer seguros e recursos educativos para os pais. Mais do que nunca, é necessário que as políticas públicas considerem as férias escolares como um momento que impacta profundamente a saúde mental das famílias e que, por isso, deve ser alvo de planeamento estratégico e atenção social.

As férias escolares não são apenas uma pausa do ensino formal, mas uma fase com forte impacto emocional e psicológico na vida familiar. Com compreensão, empatia e apoio adequado, este período pode transformar-se num momento de crescimento, união e bem-estar para todos.
Referências:
- Silva, T. & Moura, C. (2020). “Crianças em Tempo de Férias: Desafios para Famílias com Baixos Recursos”. Revista de Psicologia da Infância e Adolescência, 36(2), 57-68.
- Ordem dos Psicólogos Portugueses. (2022). Relatório sobre Saúde Psicológica e Parentalidade em Contexto Escolar.
- Fonseca, A. (2019). “Parentalidade e Rotinas Familiares: O Valor dos Momentos Simples”. Psicologia & Educação, 15(1), 23-35.
- Instituto Nacional de Estatística (INE). (2021). Despesa Familiar em Período de Férias Escolares. Boletim Estatístico.