Compreendendo a Depressão no Jovem Adulto

A transição da adolescência para a idade adulta é um período crítico do desenvolvimento, marcado por desafios significativos em diversas esferas: académica, profissional, afetiva e identitária. Neste contexto, a depressão surge como uma perturbação mental cada vez mais prevalente entre jovens adultos, interferindo profundamente com a sua qualidade de vida, funcionamento diário e projetos de futuro. A sua manifestação, frequentemente silenciosa, é agravada por fatores sociais, emocionais e cognitivos que tornam a deteção e a intervenção precoce particularmente difíceis. A abordagem cognitivo-comportamental oferece um enquadramento útil e eficaz para compreender e tratar esta problemática complexa.

O jovem adulto — geralmente entre os 18 e os 25 anos — encontra-se numa fase de intensa redefinição do “eu” e de tomada de decisões que influenciam o resto da vida. Esta exigência de adaptação, aliada a fatores externos como pressões académicas, instabilidade económica, conflitos familiares ou rupturas afetivas, pode precipitar quadros depressivos (Arnett, 2000). A depressão neste grupo etário apresenta-se frequentemente com sintomas como desmotivação, cansaço persistente, sentimentos de vazio, baixa autoestima, dificuldades de concentração, alterações do sono e do apetite, e por vezes, ideação suicida. No entanto, muitos jovens não reconhecem estes sinais como perturbação mental, associando-os a “stresse normal” da idade ou tentando minimizá-los com estratégias de evitamento ou comportamentos de risco (Eisenberg, Hunt & Speer, 2013).

Do ponto de vista da psicologia cognitivo-comportamental, a depressão resulta de uma interação complexa entre predisposições individuais, experiências passadas, crenças disfuncionais e padrões comportamentais que mantêm o sofrimento. Esta abordagem vai para além da simples relação entre pensamento e comportamento, integrando fatores emocionais, relacionais e contextuais. Beck (2011), um dos principais teóricos da TCC, identificou que os indivíduos deprimidos tendem a interpretar a realidade com base em esquemas negativos sobre si mesmos (“sou inútil”), o mundo (“ninguém me compreende”) e o futuro (“nada vai melhorar”). Estas crenças alimentam um ciclo de inação, retraimento social e ruminação, que perpetua a sintomatologia depressiva.

A intervenção cognitivo-comportamental procura, assim, trabalhar em várias frentes. A reestruturação cognitiva permite identificar e desafiar distorções cognitivas (como por exemplo a generalização excessiva ou a catastrofização), promovendo uma visão mais equilibrada da realidade. A ativação comportamental, por sua vez, incentiva o jovem a retomar atividades significativas e prazerosas, mesmo em pequena escala, quebrando o ciclo de apatia e isolamento. Simultaneamente, a regulação emocional é promovida através de técnicas de mindfulness, treino de competências e a aceitação, ajudando o jovem a lidar com emoções difíceis de forma mais adaptativa. Finalmente, o trabalho relacional explora o impacto das relações interpessoais, apoiando o desenvolvimento de assertividade, a capacidade de pedir apoio e a criação de limites saudáveis. Esta abordagem integrativa tem-se mostrado particularmente eficaz em populações jovens, adaptando-se à sua realidade e linguagem, e promovendo o envolvimento ativo no processo terapêutico (Cuijpers et al., 2020).

Apesar da disponibilidade de intervenções eficazes, muitos jovens adultos não procuram apoio psicológico. O estigma associado à doença mental, a falta de literacia emocional e a desvalorização dos sintomas são obstáculos comuns. Além disso, os serviços de saúde mental nem sempre estão preparados para acolher esta faixa etária de forma acessível, rápida e empática. É fundamental que instituições de ensino, serviços de saúde e famílias promovam campanhas de sensibilização e estruturas de apoio psicológico ajustadas às necessidades dos jovens adultos. A intervenção precoce, combinada com um modelo integrativo e centrado na pessoa, pode alterar significativamente o percurso de vida de um jovem em sofrimento.

Em síntese, a depressão no jovem adulto representa um desafio de saúde pública, cujas consequências pessoais, sociais e económicas são profundas. A psicologia cognitivo-comportamental, ao considerar as múltiplas dimensões do sofrimento psicológico, oferece ferramentas eficazes para a compreensão e intervenção neste fenómeno. Promover o acesso a cuidados de saúde mental baseados em evidência científica, adaptados ao desenvolvimento do jovem adulto, é essencial para garantir uma geração emocionalmente mais saudável, resiliente e funcional.

Referências Bibliográficas:

Arnett, J. J. (2000). Emerging adulthood: A theory of development from the late teens through the twenties. American Psychologist, 55(5), 469–480. https://doi.org/10.1037/0003-066X.55.5.469

Beck, J. S. (2011). Cognitive behavior therapy: Basics and beyond (2nd ed.). Guilford Press.

Cuijpers, P., Karyotaki, E., Weitz, E., Andersson, G., Hollon, S. D., van Straten, A., & Ebert, D. D. (2020). The effects of psychotherapies for major depression in adults on remission, recovery and improvement: A meta-analysis. Journal of Affective Disorders, 277, 511–517. https://doi.org/10.1016/j.jad.2020.08.057

Eisenberg, D., Hunt, J., & Speer, N. (2013). Mental health in American colleges and universities: Variation across student subgroups and across campuses. The Journal of Nervous and Mental Disease, 201(1), 60–67. https://doi.org/10.1097/NMD.0b013e31827ab077

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