Positividade Tóxica na Saúde Mental: Perigos e Alternativas

A psicologia é a ciência que estuda o comportamento humano e os processos mentais dos indivíduos, procurando compreender a forma como pensamos, sentimos e agimos. Dentro deste campo, a saúde mental é uma área de extrema importância, abordando questões como a ansiedade, a depressão, o stresse e outras condições psicológicas. Nos últimos anos, um fenómeno conhecido como positividade tóxica tem vindo a ganhar destaque, revelando-se uma área de preocupação para psicólogos e investigadores nesta área.

A positividade tóxica refere-se à imposição de uma atitude excessivamente otimista e positiva, independentemente das circunstâncias, desvalorizando as experiências negativas ou difíceis que são parte natural da vida. Esta abordagem pode enganar as pessoas, levando-as a acreditar que devem suprimir as suas emoções negativas e transmitir aos outros e a si mesmos, uma ideia de felicidade constante. Embora a intenção por detrás da positividade seja frequentemente bem-intencionada, pode resultar em sentimentos de culpa e inadequação naqueles que não conseguem manter esse estado de espírito.

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Bem-estar psicológico no trabalho: o impacto do regresso pós-férias

O bem-estar psicológico é um estado de equilíbrio emocional, mental e social que permite ao indivíduo lidar eficazmente com as exigências da vida diária. Esse estado de saúde mental não se resume apenas à ausência de doenças, mas envolve uma sensação de satisfação, resiliência e realização pessoal. No contexto do trabalho, o bem-estar psicológico é crucial para garantir um desempenho eficaz, boas relações interpessoais e, em última análise, uma vida profissional satisfatória.

O regresso ao trabalho após um período de férias pode ser um momento crítico para o bem-estar psicológico dos trabalhadores. As férias desempenham um papel fundamental na restauração do equilíbrio mental e físico, permitindo uma pausa necessária das pressões e rotinas diárias. No entanto, o regresso ao trabalho, embora muitas vezes desejado, pode também trazer uma série de desafios emocionais e psicológicos.

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Desafios e Mudanças no Tratamento das Perturbações do Comportamento Alimentar

Em psicologia clínica, no acompanhamentos de indivíduos com Perturbações do Comportamento Alimentar (PCA), são muitos os desafios lançados à pessoa doente. Nenhum é fácil de aceitar, uma vez que implicam mudanças comportamentais difíceis de implementar, principalmente devido à típica inflexibilidade cognitiva do doente, mas também aos padrões rígidos de funcionamento que “cimentaram” hábitos desajustados e difíceis de reverter.

O pensamento rígido, fortemente associado aos indivíduos com PCA, dificulta que estes consigam contemplar perspetivas diferentes acerca de si próprios, da doença e do processo de tratamento, que visa sobretudo modificar a forma de pensar, de sentir e de se comportar. Por isso, não há “volta a dar” e sem mudança não há melhorias… O processo de mudança tem como objetivo final o reconhecimento e a consciência da sensação de fome e saciedade de modo a permitir que a pessoa possa fazer uma alimentação mais intuitiva, ao invés de seguir uma regra rígida que imponha os momentos de comer e do que comer.

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Cansaço, Choro e Desalento: Como Identificar Sinais de Depressão

O cansaço, o choro, a tristeza, o desalento e as alterações no apetite são aspectos interligados e que frequentemente refletem um estado emocional ou psicológico delicado. Cada um destes sintomas pode ser um sinal de que algo mais profundo está a afetar o bem-estar mental e emocional de um indivíduo.

O cansaço persistente é frequentemente associado a problemas de saúde mental, como a depressão. Embora o cansaço possa ser causado por fatores físicos, como a falta de sono ou a sobrecarga de trabalho, quando se torna crónico e não responde a mudanças no estilo de vida, pode indiciar uma condição mais séria. A fadiga mental e emocional é comum em casos de depressão e ansiedade, onde o esforço constante para lidar com pensamentos negativos e sentimentos de desesperança pode ser extenuante.

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Psicologia da Música: Impacto na Saúde Mental e Emocional

A interseção da psicologia com a música oferece um campo rico e fascinante, para explorar o impacto que esta tem sobre a mente e o comportamento humano. A psicologia da música estuda o modo como os diferentes aspectos musicais: ritmo, melodia e harmonia, influenciam as nossas emoções, a cognição e a saúde mental. Este campo revela como a música não é apenas uma forma de entretenimento, mas também uma ferramenta poderosa na promoção do bem-estar psicológico e emocional.

A música tem impacto no cérebro de formas complexas e variadas. Quando ouvimos música, são ativadas diferentes áreas do cérebro, incluindo as áreas associadas ao prazer, á memória, e á emoção. Estudos de neurociência demonstraram que a música pode desencadear a libertação de dopamina, um neurotransmissor associado à sensação de prazer. Isso explica por que é que a música nos pode fazer sentir eufóricos, relaxados ou até mesmo nostálgicos, dependendo do tipo de música que estamos a ouvir.

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Como Lidar com o Burnout: Estratégias para Enfrentar a Exaustão no Trabalho

A síndrome de Burnout é uma condição de exaustão emocional, mental e física causada pelo stress prolongado e excessivo no trabalho. É uma condição psicológica de causas multifatoriais e que por isso requer uma abordagem multifacetada.

O burnout deriva de uma situação de stress crónico no trabalho, frequentemente associada a exigências excessivas, falta de controlo sobre as tarefas ou os prazos, suporte inadequado, conflitos interpessoais, desequilíbrio entre vida pessoal e vida profissional, expectativas irrealistas, reconhecimento insuficiente por parte das chefias, ambiente de trabalho tóxico e pressão constante para o alto desempenho. Estes fatores combinados podem levar à exaustão emocional e física. Para lidar de forma adaptativa com a síndrome de burnout, deverão ter-se em consideração os seguintes pontos chave:

1. Reconhecer os Sinais

Identificar os sinais de burnout é o primeiro passo. Estes podem incluir cansaço extremo, falta de motivação, irritabilidade, problemas de concentração e diminuição da produtividade laboral, entre outros.

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Benefícios das Férias de Verão na Saúde Mental e Bem-Estar

A ansiedade é uma condição psicológica que afeta milhões de pessoas em todo o mundo, manifestando-se frequentemente em períodos de grande exigência e pressão devido ao trabalho. As obrigações profissionais constantes podem levar ao burnout, um estado de exaustão física e emocional, causado pelo stresse sentido em contexto de trabalho. Este fenómeno afeta não só o desempenho e a produtividade, mas também a vida pessoal dos indivíduos, podendo prejudicar seriamente a convivência familiar e a saúde mental.

Com a chegada do verão, muitas pessoas veem a oportunidade ideal para tirar férias e aliviar o stresse acumulado. O período de descanso pode ser um momento fundamental para ajudar à diminuição da ansiedade e dos sintomas de burnout. Férias em família, em especial, podem proporcionar momentos de prazer e descontração, essenciais para a recuperação do bem-estar físico e psicológico. Passar tempo de qualidade com os entes queridos, longe das obrigações profissionais, contribui para reequilibrar a energia física e o estado emocional.

Durante as férias de verão, a prática de atividades ao ar livre, como por exemplo caminhadas na praia, natação e passeios em parques, pode revelar-se altamente benéfico para a o restabelecimento da saúde física e mental. Essas atividades promovem a liberação de endorfinas, neurotransmissores que proporcionam sensação de prazer e de bem-estar. Além disso, a exposição ao sol aumenta a produção e absorção de vitamina D, importante para a regulação do humor.

É recomendável que as férias sejam bem planeadas para maximizar os seus benefícios. Desconectar-se das responsabilidades profissionais, ainda que temporariamente, favorece o verdadeiro descanso. Estabelecer limites claros entre trabalho e lazer é essencial para que o tempo de férias seja realmente reparador. Aproveitar para se dedicar a hobbies, ler um bom livro ou simplesmente relaxar sem pressões, pode ajudar a fazer a diferença e consequentemente melhorar a saúde e a satisfação com a vida.

Ao regressar ao trabalho, é comum que a sensação de bem-estar perdure, ajudando a enfrentar as obrigações profissionais com mais serenidade. Deste modo, investir nas férias de verão não é apenas uma questão de lazer. Poderá ser uma estratégia vital para manter estável, a sua saúde mental. O equilíbrio entre trabalho, descanso e prazer é a chave para uma vida mais saudável e feliz. Boas férias!

Flexibilidade Psicológica na Terapia de Aceitação e Compromisso (TAC)

O modelo de flexibilidade psicológica proposto pela Terapia de Aceitação e Compromisso (TAC) envolve seis processos centrais: desfusão cognitiva, aceitação, contacto com o momento presente (atenção plena), o self enquanto contexto, valores e ação comprometida. Cada um desses processos desempenha a importante função do comportamento humano, de se adaptar às mudanças e às circunstâncias desafiadoras da vida.

A desfusão cognitiva representa um processo através do qual se pretende modificar o modo como tendemos a relacionarmo-nos e a interagir com os nossos pensamentos, o que, por vezes pode ser fonte de ansiedade e de sofrimento. O foco está em considerar os pensamentos, apenas como isso mesmo, pensamentos e não factos reais. São ideias que ocorrem de forma automática num determinado momento, sem que sejam verdades absolutas, concretas e literais, sobre nós próprios, sobre os outros ou sobre o mundo. A desfusão é uma forma de alterar a função dos pensamentos, e podemos fazer isso distanciando-nos deles e não evitando-os. Passamos de uma postura de fusão, que nos “cola” ao pensamento, para uma postura de indivíduo, que observa aquilo que pensa.

Podemos dar atenção a um pensamento incómodo que surja quando nos relacionamos ou nos comparamos com outra pessoa. “Eu não sou bom” ou “eu não sou capaz”. Por vezes temos tendência a nos fusionarmos com este pensamento, passando a acreditar que não somos suficientemente bons ou capazes para determinada tarefa, relação ou situação. Na desfusão cognitiva, o movimento é o de entrar em contacto com esse pensamento, observar que o estamos a ter, e aos poucos, com esse distanciamento, deixar cair a noção literal, e interpretarmos e lidarmos com esse pensamento, tal qual ele é: um pensamento.

A aceitação implica “abrir um espaço” para que os nossos pensamentos, que frequentemente julgamos como indesejáveis, sejam sentidos do modo como eles são apresentados. A aceitação é diferente do conformismo, uma vez que envolve uma postura ativa a que nos podemos permitir, identificando os nossos pensamentos, sentimentos, impulsos e emoções, como surgem de forma idiossincrática em cada situação, sem nos tentarmos livrar deles, sem tentarmos modificar a frequência da sua ocorrência ou a sua intensidade. Este processo requer uma consciência não julgadora sobre os pensamentos tal como emergem, experienciando e explorando as sensações corporais que estres desencadeiam, com um sentimento de auto compaixão, concebendo que não temos controlo sobre esses pensamentos, e entendendo a sua fluidez. Aceitar não implica gostar, implica perceber que há uma razão para o que estamos a sentir e que não precisamos de “fugir” a esse sentimento.

O contacto com o presente ou a atenção plena (mindfulness) é um processo que contribui para nos conectarmos ao aqui e agora, distanciando-nos das redes relacionais estabelecidas arbitrariamente. Este processo é caracterizado pela observação e percepção do que está presente no contexto e no nosso pensamento, e descrever sem julgar ou avaliar aquilo que vemos e sentimos. Esta prática procura trazer intencionalmente a nossa atenção para o aqui e agora, experienciar o mundo diretamente, tal como ele se apresenta, estabelecendo “um sentido de self (eu/identidade) como um processo de consciência contínua de eventos e experiências.

O self como contexto é uma de perspectiva na qual o eu se posiciona e observa as experiências que estão a ser vividas no momento. Este processo envolve a necessidade de distanciamento, ou seja, a habilidade de “observar de fora” os nossos pensamentos, sentimentos, sensações corporais, emoções e memórias, com atenção plena e aceitação. Consiste em notar os pensamentos e sentir as emoções, no aqui e agora, tal como estes se nos apresentam, observando-os com autocompaixão.

Na TAC os valores são como uma bússola que nos orienta para as nossas ações. A partir do momento em que conseguimos descrever aquilo que é importante para nós, o que valorizamos, o tipo de pessoa que gostaríamos de ser e a relevância da escolha desses valores para a nossa vida, podemos agir em direção a eles. A TAC incentiva o indivíduo a desenvolver novos repertórios, alinhados com seus valores. O desenvolvimento desses repertórios pode ser inicialmente um pouco desconfortável, uma vez que a exposição do indivíduo a algumas situações e contextos, pode despertar sensações e pensamentos dos quais teria tendência de evitar (evitamento experiencial). Porém, a ação comprometida envolve dar os passos em direção aos seus valores, não evitando a emissão dessas respostas, mesmo que isso traga algum desconforto.

Escolher ou definir valores claros e objetivos para guiarmos as nossas ações e aceitar os pensamentos que emergem neste processo, são alguns dos elementos mais relevantes para a nossa flexibilidade psicológica. A partir destas considerações, podemos dizer que o modelo de flexibilidade psicológica proposto pela TAC, não se refere a “livrarmo-nos” de  pensamentos, sentimentos, sensações, memórias e emoções, mas sim aceitar a ocorrência desses eventos privados, tal como eles são, enquanto agimos em direção aquilo que realmente valorizamos!

Fontes:

Luoma, J. B., Hayes, S. C., & Walser, R. D. (2007). Learning ACT: an acceptance & commitment therapy skills-training manual for therapists. New Harbinger Publications.

Wilson, K.G., Strosahl, K.D., Hayes, S.C. (2012). Acceptance and commitment therapy: the process and practice of mindful change. 2 Ed. New York: The Guilford Press

Intimidade e Afeto na Relação Terapêutica

Em psicologia, a relação terapêutica é uma relação de ajuda, assimétrica e colaborativa, entre o psicólogo/a e o cliente ou paciente. Esta relação vai evoluindo ao longo do tempo, à medida que o cliente vai percepcionando a mudança e o benefício obtido pela intervenção, o que frequentemente corresponde ao modo como este se vai sentindo confiante, compreendido, seguro e contido na sua relação com o psicólogo/a.

Enquanto psicóloga clínica, a minha relação com o cliente/paciente, tem início com um pedido de ajuda/apoio feito por parte do próprio cliente ou por alguém em seu nome, motivado por problemas, dificuldades ou perturbações relacionadas com a saúde mental ou psicológica. As dificuldades podem ser de origem diversa e múltipla, e os vários pedidos de ajuda, embora por vezes tão distintos entre si, têm sempre um objetivo comum e muito específico – promover a mudança, de modo a aumentar a saúde, o bem-estar, a qualidade e a satisfação com a vida, da pessoa em sofrimento.

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O possível efeito terapêutico da Banda Desenhada

A arte em geral, e a Banda Desenhada em particular, têm várias funcionalidades, entre elas a diversão, a educação, a libertação de tensões e até mesmo a catarse. Será correto afirmar que a Banda Desenhada, à semelhança de outras formas de arte ou de literatura, tem um poder terapêutico sobre o seu criador e sobre quem a aprecia?

A Banda Desenhada, designada por alguns como “a 9ª arte” e também conhecida como “arte sequencial”, é uma forma de arte que conjuga texto e imagens, com o objetivo de narrar histórias dos mais variados géneros, sendo estas em geral, publicadas no formato de revistas, livros, ou em tiras publicadas em revistas e jornais. O objetivo do artista, consiste essencialmente na transmissão de uma mensagem que vai ser percepcionada pelo leitor, através da descodificação e interpretação de estímulos visuais. Com base em conhecimentos anteriores e envolvendo vários recursos cognitivos, o leitor vai tomar consciência, através da emoção e dos efeitos que lhe provoca a apreciação da obra, sendo que a sua expectativa e o contexto irão também determinar o modo como este a vai interpretar.

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