Mutismo selectivo, quando ele não fala

Não falaSegundo o Manual Diagnóstico e Estatístico das Doenças Mentais (DSM V), o mutismo selectivo traduz-se na incapacidade persistente do indivíduo para falar em situações sociais específicas, nas quais se espera que o faça (ex. na escola), apesar de conseguir falar noutras situações.

Esta perturbação interfere no percurso educacional, profissional ou ainda na comunicação do indivíduo em contexto social. A duração mínima da perturbação é de um mês (excepto o primeiro mês de escola) e a incapacidade para falar não se deve a um desconhecimento ou desconforto com a língua exigida pela situação social. As características que conduzem ao diagnóstico incluem, não se juntarem com outros indivíduos em interacções sociais e as crianças com mutismo selectivo não iniciam a conversa nem respondem reciprocamente quando os outros falam com elas. A incapacidade para falar acontece em interacções sociais com crianças ou adultos. As crianças com mutismo selectivo falam quando estão em casa na presença de elementos da família mais próximos, mas com frequência não o fazem diante de amigos ou familiares mais afastados.

MutismoA perturbação é com frequência marcada por uma intensa ansiedade social. As crianças com este problema recusam-se frequentemente a falar na escola, o que leva a prejuízos no seu desempenho académico, uma vez que os professores têm dificuldade para avaliar  as suas competências, como por exemplo a leitura. Esta incapacidade de falar pode interferir na comunicação social, embora as crianças com este transtorno optem ocasionalmente por usar meios não verbais (ex. grunhidos, apontar, escrever) para comunicarem e podem mesmo  desejar ou preferir participar em eventos em que a fala não é exigida  (ex. papéis não verbais numa peça de teatro).

MutismoCaracterísticas como timidez excessiva, isolamento social, ansiedade de separação, traços compulsivos, negativismo, birras ou comportamentos de oposição, podem estar associadas ao mutismo selectivo. Em contexto clínico, as crianças com esta perturbação quase sempre recebem um diagnóstico adicional de outra perturbação de ansiedade, sendo a mais comum a fobia social.

A prevalência desta perturbação é baixa (entre 0,03 e 1%) e parece não vaiar em função do género, no entanto, manifesta-se com maior frequência em crianças mais pequenas do que em adolescentes e adultos. O início do mutismo selectivo é habitualmente antes dos 5 anos de idade, mas pode passar despercebido até a entrada para a escola, momento em que existe um aumento das interacções sociais e da realização de tarefas, como a leitura em voz alta.

MutismoO temperamento pode estar na base dos factores de risco para este problema. A afectividade negativa, a timidez, o isolamento e a perturbação de ansiedade social parecem ter alguma influência no desenvolvimento desta perturbação. Factores ambientais como a inibição social por parte dos pais pode servir como modelo para alguma reserva social e para o mutismo selectivo em crianças. Os pais destas crianças  são frequentemente descritos como muito controladores ou protectores. Poderão ainda de existir factores genéticos ou fisiológicos, à semelhança do que acontece com outras perturbações de ansiedade.

Em termos de consequências, o mutismo selectivo pode levar a um défice nas relações sociais uma vez que estas crianças tendem a ficar excessivamente ansiosas e não se envolverem em interacções com outras crianças. Esta dificuldade pode manter-se na idade adulta e conduzir ao isolamento social.

MutismoNo que diz respeito ao desempenho escolar, este pode ficar seriamente prejudicado devido à dificuldade na comunicação com os professores e restantes elementos do contexto. Isto pode levar ao insucesso escolar, reprovação, comprometendo o seu percurso académico e mais tarde, laboral e social. O bullying pode também ser uma consequência uma vez que estas crianças se apresentam com maior vulnerabilidade ao ataque dos pares.

É muito importante que se consiga fazer o diagnóstico diferencial uma vez que esta perturbação pode ser confundida com outras perturbações da fala (ex. perturbação da fluência, perturbação fonológica), sendo que uma das grandes diferenças entre essas perturbações e o mutismo selectivo é que elas não são restritas a uma situação ou contexto específico.

É importante também poder-se diferenciar esta perturbação de outras como as perturbações de espectro do autismo ou perturbação do desenvolvimento intelectual, uma vez que também estas podem ter problemas na comunicação social e não permitirem que a criança fale apropriadamente em situações sociais. Pelo contrário, o mutismo selectivo deve ser diagnosticado apenas quando uma criança tem a capacidade de falar bem em algumas situações sociais, geralmente em casa, com os pais.

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