O meu filho parece a minha sombra…

Ansiedade de separaçãoA perturbação de ansiedade de separação caracteriza-se por manifestações de ansiedade excessiva e inadequada para o nível de desenvolvimento da criança/adolescente, relativa à separação da casa ou das pessoas a quem está vinculada.

O medo ou a angustia de separação de figuras de vinculação, ou seja, das figuras mais significativas para a criança, aparece aproximadamente por volta 8 meses. Em amostras comunitárias cerca de 41% de crianças relatam preocupações relativamente à separação dos pais (Costello & Angold, 1995). Alguma reacção negativa à separação em idades precoces pode ser normativa e passageira, no entanto, algumas crianças podem vir a desenvolver mais tarde uma perturbação de ansiedade de separação. Este tipo de perturbação tem habitualmente o seu início na infância, entre os 7 e os 12 anos, sendo a sua prevalência de cerca de 3 a 13% em crianças e de 1,8 a 2,4% em adolescentes, manifestando-se principalmente no género feminino.

Ansiedade de separaçãoAs manifestações desta perturbação compreendem um mal-estar excessivo e persistente quando ocorre ou é antecipada a separação da casa ou das figuras de maior vinculação (e. g. pais), uma preocupação excessiva e constante pela possível perda dos pais ou cuidadores ou por possíveis males que possam acontecer a essas pessoas, uma preocupação persistente e exagerada pela possibilidade de que um acontecimento adverso possa levar à separação das pessoas significativas (por exemplo, perder-se ou ser raptado), uma relutância persistente ou recusa em ir à escola ou outro local por medo da separação, um medo persistente e excessivo de estar em casa sozinha ou noutro lugar sem os pais, uma relutância persistente ou recusa em adormecer sozinho ou em adormecer fora de casa, pesadelos repetidos que envolvem o tema da separação e/ou ainda queixas repetidas de sintomas físicos (como dores de cabeça, dores de estômago, náuseas ou vómitos) sempre que acontece ou se antecipa a separação em relação ás figuras significativas.

Ansiedade de separaçãoPara que seja possível o diagnóstico, a perturbação tem que ter uma duração de pelo menos quatro semanas, e, como já foi referido, o seu início ter-se dado antes dos 18 anos. Esta perturbação causa um mal-estar clinicamente significativo ou um défice social, escolar (laboral) ou noutras áreas importantes da vida do sujeito. Em termos cognitivos a perturbação de ansiedade de separação conduz a uma vulnerabilidade pessoal em relação a acontecimentos catastróficos que possam causar dano pessoal ao próprio ou aos pais ou abandono por parte dos mesmos. No que diz respeito aos aspectos fisiológicos, esta perturbação pode levar a crises de ansiedade aguda (ataques de pânico) perante situações de separação ou à antecipação das mesmas. Sintomas como dores de cabeça, dores de barriga, cansaço, tonturas, sentir-se mal ou doente, podem estar presentes em crianças com esta perturbação. Em termos comportamentais, estas crianças tendem a evitar situações de separação e recusam frequentemente ficar sozinhas, mostrando por vezes receio de ficar a sós em certas zonas da casa, mesmo quando os pais estão noutra divisão.  O medo de serem abandonadas faz com que estas crianças evitem determinados locais a não ser que lhes seja garantida a proximidade dos pais ou de uma pessoa significativa. Por vezes recusam-se a ir à escola, às actividades extra-curriculares ou até mesmo a casa de amigos ou festas. Revelam frequentemente preocupações acerca de acontecimentos catastróficos, como de  poderem adoecer gravemente ou  de desastres. É comum estas crianças ficarem alarmadas com pequenos atrasos dos pais ou quando estes têm que se ausentar em viagem, com receio de que tenham um acidente.

Ansiedade de separaçãoAs crianças com perturbação de ansiedade de separação podem sentir necessidade de realizar determinadas acções para aumentar o seu sentimento de segurança e restaurar o controlo pessoal em situações que são geradoras de ansiedade. Muitas vezes exigem que os pais estejam sempre acessíveis ou contactáveis e questionam de forma recorrente sobre horários. Em termos escolares, estas crianças podem ver comprometido o seu desempenho, principalmente se houverem pedidos frequentes para deixar as aulas mas também quando existe um grande sofrimento e preocupação com as questões da separação, sendo que a ansiedade gerada nestas situações pode afectar o seu funcionamento cognitivo. As recusas em participar nas actividades extra-curriculares e sociais podem levar a dificuldades nas suas relações com os pares.

Ansiedade de separaçãoAs causas desta perturbação podem ser de múltiplas origens, nomeadamente genética, psicológica, neurológica ou ambiental. Filhos de pais muito ansiosos tendem a ser crianças mais ansiosas. Medos ou condicionamentos anteriores podem estar na origem do desenvolvimento desta perturbação. O contexto em que a criança cresce, principalmente o meio familiar, pode ter um forte contributo no desenvolvimento de perturbações de ansiedade de separação. Factores como a pobreza afectiva, o estilo parental (e. g. pais super protectores podem potenciar uma vinculação insegura),  as desavenças parentais, a violência doméstica  ou a doença física ou psicológica de um dos pais, podem também ter o seu papel na etiologia desta perturbação.

Ansiedade de separaçãoA perturbação de ansiedade de separação pode ser preditiva de perturbações psiquiátricas no adulto, em especial a perturbação de pânico, pelo que não deve ser desvalorizada mas sim tratada. O tratamento pode assumir várias abordagens. A psicofarmacologia tem a sua palavra a dizer em alguns casos, a psicoterapia tem apresentado também grande eficácia  ou a combinação de ambas, em casos mais graves. Em termos de intervenção psicológica, esta poderá passar pela psicoeducação, pelas técnicas cognitivo-comportamentais ou outras. O psicólogo/a deverá escolher a opção terapêutica mais adequada para cada caso em particular, levando em consideração a severidade do problema, a duração do mesmo e o grau de interferência na vida não só da criança mas da família. À semelhança de muitas outras problemáticas infantis, a intervenção deverá contar com o envolvimento da família e da escola (professor). Assim, é importante que todos possam, por exemplo, compreender a natureza da ansiedade e de como foi experienciada pela criança, no sentido de poderem criar empatia, ouvindo a criança e colocando-se no seu lugar.

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