Crianças e castigos corporais

Disciplinar e ensinar
A violência pode estar presente nas vidas das crianças de três formas distintas: os atos de violência a que assistem, os atos de violência de que podem ser vítimas e os atos de violência que elas próprias perpetram.

Uma das principais formas de violência presente nas vidas de algumas crianças são os castigos corporais. Os castigos corporais referem-se ao uso da força física por parte, habitualmente de adultos, com a intenção de corrigir ou controlar um comportamento desadequado, causando dor à criança. São exemplos de castigos corporais as palmadas, empurrões, beliscões, puxões de cabelo ou de orelhas, assim como o uso de produtos agressivos como por exemplo pimenta na língua, entre outros. Estes castigos corporais que não são menos que atos de violência utilizados contra as crianças, são muitas vezes justificados pela necessidade de disciplinar. Disciplinar é ensinar, e ao tentar disciplinar-se uma criança por meio de castigos corporais vai levar a que ela aprenda a resolver os seus problemas com base na violência. A criança agredida aprende a agredir como forma de lidar com os seus problemas e dificuldades, correndo o risco de ela própria se tornar agressora.

castigos corporais

Os castigos corporais, mais do que corrigir comportamentos, servem para ensinar à criança um modelo de violência e podem conduzir a situações de grave perturbação física e/ou psicológica. Esta forma de punição pode causar nas crianças lesões graves como hematomas, arranhões ou escoriações que colocam em risco a sua integridade física, de acordo com a frequência e intensidade com que são aplicados. Para além da saúde física, a saúde psicológica da criança é igualmente afetada. Esta por vezes não tem um efeito imediatamente visível mas sim a longo prazo. Situações de atraso no desenvolvimento cognitivo, decréscimo do rendimento escolar, desenvolvimento de perturbações de ansiedade ou futuro abuso de substâncias, podem ser exemplos de situações justificadas por abusos físicos continuados na infância.

ViolenciaA evidência científica comprova que os castigos corporais, para alem dos efeitos altamente nocivos na vida das crianças, não são eficazes como forma de corrigir comportamentos desadequados. Uma palmada pode parar um comportamento naquele momento mas não ensina à criança como se deve comportar, ou seja, não oferece um comportamento alternativo e adequado, assim como não ensina à criança o que é certo ou errado. Assim, se não ensina nada de bom à criança, não é um método aceitável de disciplina. Para além disso, ser agredido pelas pessoas que são as figuras de referência da criança, aquelas que são por definição o seu porto seguro (pais, outros cuidadores e educadores) faz com que a criança perca a confiança e a segurança nessas mesmas figuras, o que vai influenciar de forma negativa a sua autoestima e aumentar o sentido de desamparo.

Castigos corporaisPorém, muitas pessoas utilizam a velha máxima de que “uma palmada no tempo certo só faz bem” ou “eu também apanhei muitas e estou aqui sem problemas”. O facto é que os efeitos da violência não são lineares e não se refletem em todos da mesma maneira. O grau de violência, a intensidade e agressividade dos atos, a frequência com que são aplicados, assim como a vulnerabilidade da criança, constituem-se como variáveis que vão influenciar de forma dispare  os seus efeitos negativos na criança e/ou no futuro adulto. Por outro lado, ao contrário dos inúmeros estudos científicos que mostram que este tipo de abuso físico tem efetivamente um impacto negativo na vida da criança, não há estudos que indiquem o contrário, ou seja, nenhum estudo até hoje consegue provar que a violência tem efeitos benéficos na saúde ou na vida de quem quer que seja.

DisciplinarÉ tarefa dos pais e cuidadores ensinarem aos filhos os comportamentos adequados e adaptativos para poderem viver em sociedade de forma harmoniosa. As regras e os bons comportamentos devem ser ensinados de forma positiva, isto é, sendo os próprios pais os modelos, dando alternativas, explicando às crianças as consequências diretas dos seus comportamentos, de acordo com a fase do desenvolvimento em que a criança se encontra e com o seu nível de entendimento. A negociação e o estabelecimento de limites e de consequências lógicas é muito importante para que a criança saiba exatamente o que esperar do comportamento que apresenta, sendo o reforço o melhor preditor de que os bons comportamentos se mantenham. Sem recorrerem á violência, os pais e educadores apoiam e protegem o desenvolvimento das suas crianças, diminuem o risco de que elas se venham a envolver em comportamentos de risco ao mesmo tempo que facilitam na promoção da sua autoestima, autorregulação e autocontrolo.Disciplinar e ensinar

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