Comportamentos auto lesivos e suicídio

Comportamentos auto lesivosNa adolescência, os comportamentos auto lesivos assumem uma grande relevância, estando associados a patologia psiquiátrica, podendo ser preditores de tentativas de suicídio no futuro.

Podemos entender por comportamentos auto lesivos (CAL), auto mutilação ou auto lesão não suicida, todos os comportamentos com resultado não letal, em que o sujeito se envolve deliberadamente, com o objectivo de causar dano a si mesmo mas sem a intenção de provocar a morte (ex. cortar-se, queimar-se, morder-se, saltar de alturas, ingerir medicamentos em dose excessiva…). Considera-se que hoje em dia, estes comportamentos na adolescência constituam um grave problema de saúde pública. Embora a investigação nesta área aponte Portugal como um dos países com menor taxa de prevalência desta problemática em relação a outros países da Europa, o facto é que mesmo assim, estes comportamentos são graves e relativamente frequentes durante a adolescência, principalmente em jovens do género feminino. Mais preocupante se torna, se acrescentarmos que cerca de 2/3 dos pais não têm conhecimento de que os seus filhos têm comportamentos de auto lesão. Entende-se por tentativa de suicídio, qualquer acto levado a cabo por um sujeito e que tem como objectivo a sua morte mas que por qualquer razão de diversas ordens e normalmente alheia à vontade do sujeito, acaba por não se concretizar. Já o suicídio consumado refere-se à morte provocada por uma acção levada a cabo pelo próprio sujeito, com a intenção de por fim à sua vida.

Comportamentos auto lesivosQuer as tentativas, quer o suicídio consumado na adolescência, à semelhança do que acontece na idade adulta, constituem um fenómeno complexo e com determinantes multifactoriais. Em Portugal, tal como em outros países europeus, é considerada a segunda causa de morte dos jovens entre os 15 e os 24 anos, logo a seguir aos acidentes. Embora a prevalência não seja muito elevada, cada morte na adolescência por suicídio, é uma morte obviamente a lamentar e deixa sempre a ideia de que poderia ter sido evitada. Tanto o suicídio como os CAL partilham  factores de risco, individuais e sociodemográficos (ex. género, orientação sexual…). Nos casos de suicídio,  habitualmente os rapazes optam por métodos mais violentos, como por exemplo as armas, já nas raparigas, o método mais usual é a intoxicação por substâncias (ex. psicofármacos).

Suicídio adolescênciaA perturbação mental constitui-se como um factor de elevado risco, quer para o suicídio quer para os CAL, sendo a depressão e o abuso de álcool e/ou outras substâncias psicoactivas, as patologias mais expressivas. Estudos nesta matéria apontam para que 50% dos jovens com tentativas de suicídio apresentem um quadro de depressão. A perturbação bipolar parece ter também associação a alguns casos de suicídio. As perturbações de ansiedade, particularmente em comorbilidade com a depressão, têm igualmente sido identificadas como potenciadoras do risco dos CAL e de tentativas de suicídio. Sobretudo em rapazes, o consumo abusivo de substâncias psicoactivas está fortemente associado a estas problemáticas, principalmente se associado a perturbações do comportamento. Traços ou perturbações da personalidade, como por exemplo borderline ou personalidade antissocial, também parecem estar relacionadas aos comportamentos auto lesivos e suicidários. Características psicológicas como a desesperança, confusão identitária ou pensamento dicotómico, assim como a baixa autoestima e a autoeficácia, podem constituir-se como factores de risco acrescido.

DepressãoEstudos nesta matéria indicam que as tentativas de suicídio prévias são dos mais fortes preditores de risco elevado para a consumação do suicídio. A existência de suicídio ou de tentativas, na história familiar, pode também fazer aumentar o risco, bem como a situação de doença mental parental (ex. depressão, abuso de substâncias) ou de uma estrutura familiar disfuncional, como por exemplo a excessiva autoridade e rigidez, expectativas irrealistas, conflituosidade frequente, dificuldades marcadas na comunicação entre pais e filhos e a não existência de redes de apoio social. Factores como a disputa/alienação parental, o divórcio, a separação ou a morte de um dos pais, poderão também estar associados a esse tipo de comportamentos auto lesivos ou suicidários. Importa ainda referir os factores sociais, como a escola e o grupo de pares. Diversos estudos feitos com jovens com CAL indicam que os mesmos revelam insucesso ou abandono escolar, problemas de comportamento e isolamento. Na relação com o grupo de pares, são marcadas as dificuldades nas relações interpessoais, frequentemente com isolamento ou agressividade. O bullying, seja como vitima ou agressor, está associado ao aumento de risco, apresentando as raparigas, quando vítimas, maior risco. Os abusos físicos e sexuais estão fortemente associados ao suicídio juvenil, sendo que se perpetrados em ambiente intra-familiar continuado, representam um risco acrescido de tentativas de suicídio e CAL.

SuicídioDo mesmo modo, alguns acontecimentos de vida negativos estão fortemente associados ao suicídio nos jovens, nomeadamente as perdas de amigos por morte, namorado/a ou de um familiar directo e significativo. Os problemas disciplinares e académicos, a doença física, os graves problemas financeiros na família e os actos suicidas nos colegas ou amigos, são exemplos de outros factores de risco importantes. A investigação aponta que, tal como nos adultos, a influência dos diversos meios de comunicação social, nos relatos sobre o suicídio e na forma como o fazem, aumenta o risco de actos suicidas e/ou de CAL nos adolescentes. Este é um factor de risco por imitação/contágio que pode ser particularmente elevado, envolvendo geralmente adolescentes e jovens adultos especialmente vulneráveis devido a perturbações psicológicas anteriores. Outro importante factor de risco é o acesso a meios potencialmente letais, principalmente em casos de marcada impulsividade, que caracteriza muitos dos actos suicidários da adolescência. A presença de armas de fogo em casa e de outros meios letais como por exemplo medicamentos, aliados a uma supervisão parental desadequada, podem constituir um perigo grave no aumento do risco.

Perante tão vasto número de factores de risco, como podemos então prevenir estes comportamentos nos nossos adolescentes?

Suporte familiarAssim como existem diversos factores de risco, existem também factores protectores para estes comportamentos, que na verdade são os mesmos que se recomendam à população em geral. Assim, no que diz respeito aos factores familiares, destaca-se a manutenção dos cuidados parentais, a coesão familiar, o envolvimento afectivo mútuo, a partilha de interesses no seio familiar e o suporte emocional aos jovens. Em relação aos factores individuais, os adolescentes deverão aprender e desenvolver competências de resolução de problemas, trabalhar as questões relacionadas com a autoestima e autoeficácia, terem disponibilidade e abertura para novas experiências e projectos de vida, bem como a não utilização de substâncias nocivas. Em termos sociais, os jovens deverão estar incluídos num ambiente escolar positivo, terem um bom sentido de pertença e boa relação com os pares, com os professores e com outros adultos significativos e que de alguma forma os influenciam. Outro factor protector para os comportamentos suicidários é não haver acesso a armas ou outros meios que possam constituir perigo. Se não houverem armas em casa, ou se havendo, elas estiverem inacessíveis, obviamente que o risco de virem a ser mal utilizadas diminui. Do mesmo modo, o armazenamento de medicamentos ou substâncias potencialmente perigosas, deverá ser feito de forma muito cuidadosa.

SuicídioA Organização Mundial de Saúde (OMS) desenvolveu um programa para a prevenção do suicídio (SUPRE) como foco em três áreas distintas: diagnóstico precoce de perturbações do foro psicológico, diminuição do acesso a meios letais e a sensibilização dos meios de comunicação social, para a forma como são noticiados os casos de suicídio, no sentido de prevenir o efeito de contágio. Alguns outros programas de prevenção já implementados e em avaliação, incluem também a identificação precoce dos jovens com factores de risco e sinais de alarme, a intervenção efectiva, a maior acessibilidade aos serviços de saúde, e a intervenção no espaço escolar, através de programas escolares de sensibilização para o suicídio, entre outros.

Auto lesão

Sugestão:

https://www.dgs.pt/documentos-e-publicacoes/plano-nacional-de-prevencao-do-suicido-20132017-pdf.aspx

http://www.elsevier.es/en-revista-revista-portuguesa-saude-publica-323-pdf-S0870902513000308

 

 

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