Parentalidade: educar pela positiva

Psicólogo Infantil

Muitos pais e educadores acreditam que as suas crianças só lhes irão obedecer se gritarem, ameaçarem ou os castigarem. Perante comportamentos difíceis das suas crianças, alguns pais sentem-se frustrados, culpados e até impotentes para lidarem com elas, levando a um desajuste emocional e à deterioração das relações familiares.

Quando a criança parece ter dificuldade em ouvir os pais, obedecer, cumprir regras e respeitar limites, os pais tendem a ficar emocionalmente desorganizados, acabando por ceder aos caprichos dos filhos no sentido de reestabelecerem a tranquilidade de que necessitam, ou, por outro lado, podem ficar muito zangados, com raiva, e desse modo não conseguem por vezes dar as respostas mais adequadas à situação. A disciplina positiva visa ajudar os pais a lidarem com os seus filhos e com os seus comportamentos por vezes desadequados, de uma forma mais adaptativa e benéfica, promotora do bem-estar familiar.

Desde há muitas gerações, uma das formas mais frequentes de disciplinar os filhos eram a punição, muitas vezes física, e a recompensa, muitas vezes material. Os bons comportamentos eram habitualmente recompensados com um doce, um brinquedo, uma refeição preferida, algo que dava satisfação à criança e que estava dentro das possibilidades dos pais. Os maus comportamentos eram por norma punidos com castigos corporais, como palmadas, puxões de orelhas, bofetadas, gritos, enfim… já para não falar das valentes tareias de cinto, tão difíceis de entender nos dias de hoje. A retirada de privilégios é uma forma de disciplinar também muito comum. Ficar sem o brinquedo preferido, deixar de poder ver televisão por um período de tempo ou ficar fechado no quarto, são exemplos de castigos por vezes utilizados pelos pais com o objetivo de “corrigir” os comportamentos difíceis dos filhos.

Punição física

A psicologia humanista teoriza sobre a possibilidade de se poderem utilizar um conjunto de “ferramentas” para ajudar as famílias a melhorarem o relacionamento entre pais e filhos, no que diz respeito à disciplina. Estas “ferramentas” baseiam-se no pressuposto de que as crianças beneficiam se aprenderem a cooperar, a autodisciplinarem-se, a responsabilizarem-se e a resolverem problemas. Este tipo de competências leva a que as crianças se desenvolvam de forma mais autónoma e confiante.

A disciplina positiva assenta em 5 pressupostos claros e muito importantes para o sucesso da complexa tarefa de educar. Em primeiro lugar, disciplinar deve incluir firmeza mas também doçura, rigor mas também gentileza e regras e limites, bem definidos e coerentes. A disciplina positiva traduz-se no equilíbrio entre o autoritarismo e o permissivismo, promovendo o respeito mútuo. Em segundo lugar está a importância atribuída à criança. Respeitar e saber ouvir a criança vai ensina-la a respeitar e saber ouvir os outros. Os pais são os modelos dos filhos e estes tendem a repetir aquilo que observam.  Incluir os filhos nas decisões da família confere-lhe importância e o sentimento de pertença, fundamental para a cooperação necessária às relações familiares. Em terceiro lugar destaca-se a importância dos pais se conseguirem colocar no lugar dos filhos, ou seja, ter em conta o que estes sentem ou pensam de modo a poderem orienta-los na busca de soluções para os seus problemas e dificuldades. Em quarto lugar é de evidenciar a necessidade de oferecer às crianças a oportunidade de fomentar competências como responsabilidade, autocontrolo, empatia e respeito pelos outros, competências estas fundamentais no desenvolvimento psicossocial ao longo da vida. Por fim, mas não menos importante, está o facto de os pais poderem ensinar aos seus filhos a serem confiantes, a terem a capacidade de aprenderem com os seus erros, evitando julgamentos.

Os fundamentos da disciplina positiva podem ser vistos como uma filosofia de vida, como uma forma mais adaptativa de enfrentar o enorme desafio da parentalidade, com todos os obstáculos que esta pode apresentar. Educar com respeito, amor, firmeza, responsabilidade, cooperação, afeto, rigor, aceitação, compaixão, envolvimento e empatia é educar de forma positiva. Desenvolver na criança a capacidade de autoconsciência leva a que esta evite determinados comportamentos, não por medo da punição mas sim por conseguir ter a consciência de que aquela não é a maneira correta de agir e porque lhe foram oferecidas/ensinadas alternativas adequadas.

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