Falar da guerra aos mais novos

As notícias e imagens de guerra que diariamente chegam às nossas casas, podem afetar de forma muito significativa os pensamentos e sentimentos de crianças e adolescentes. Mesmo relativamente longe, assistir aos conflitos armados que acontecem neste momento, pode comprometer a necessidade dos mais novos verem o mundo como um lugar seguro e previsível.

A atual guerra entre a Rússia e a Ucrânia faz com que cheguem diariamente às nossas casas imagens e relatos do conflito, que por um lado nos mantêm informados e por outro lado nos provocam stresse e ansiedade. Sem que muitas vezes consigam compreender o que se está a passar, as crianças/adolescentes podem ser particularmente sensíveis a esta situação, que pode ser verdadeiramente aterrorizadora. As imagens dos bombardeamentos e destruição, dos feridos, das pessoas a fugirem desesperadas e os relatos emocionados quer de repórteres, quer dos refugiados podem provocar medo, sofrimento ou confusão. A nós pais e educadores, cabe-nos procurar proteger as crianças e ao mesmo tempo encoraja-las a serem curiosas em relação ao que se passa no mundo. Como podemos então desempenhar essa tarefa tão difícil?

A Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) uniu esforços no sentido de determinar algumas diretrizes, que podem contribuir para ajudar a encontrar a melhor forma de lidar com as crianças/adolescentes perante esta situação de guerra. Segundo a OPP, devemo-nos disponibilizar para as ouvir, compreender as suas dúvidas e preocupações e dar resposta às suas questões. Podemos conversar sobre a guerra, dar-lhes a informação apropriada à sua idade e capacidade de compreensão, sendo honestos mas evitando dar informação desnecessária. Assegurar-lhes que se podem sentir seguras e protegidas é muito importante para que possam ficar mais tranquilas. Se as crianças mais novas não se mostrarem interessadas em conversar sobre este assunto, não há necessidade de o fazermos. Sobretudo não devemos forçar as crianças mais pequenas a tomar consciência cia sobre a existência de uma guerra, caso entendamos possível que não acedam a essa realidade de outra forma. Por outo lado, se a criança não quiser falar sobre esse assunto, é importante não forçar mas demonstrar que estamos disponíveis para o fazer quando ela assim o desejar.

Alguns adultos poderão questionar-se se as crianças conseguem compreender a guerra, uma vez que até para a maioria dos adultos, esta questão é muito complexa e inaceitável. Há também uma extrema contradição nestas situações de conflito que se opõe às mensagens de respeito, bondade, paz e compaixão que nós os adultos lhes incutimos repetidamente. A violência é muito difícil de explicar mas as crianças compreendem o que é o sofrimento e até mesmo as crianças mais novas, sem capacidade de apreensão de ideias abstratas, muitas vezes, encontram analogias na sua própria experiência que lhes permitem compreender a ideia de uma guerra. É natural que as crianças/adolescente se sintam preocupadas, tristes, ansiosas ou confusas o que pode conduzir ao aumento da ansiedade e à perturbação dos seus padrões de sono (ex. pesadelos, insónias), de atenção ou de concentração. As crianças com ansiedade de separação poderão ficar mais instáveis e revelar alterações do comportamento, como irritabilidade, birras e maior dependência. Os adolescentes poderão, perante estas notícias de guerra ficar menos otimistas em relação ao mundo e ao futuro, revelar tendência para o isolamento ou alterações do humor.

Como falar deste assunto tão sensível e complexo com as nossas crianças e adolescentes? Devemos permitir que expressem os seus pensamentos e sentimentos. Normalizar os sentimentos de ansiedade, preocupação ou de medo, é um caminho para que entendam que não estão sozinhas nos seus receios. Validar os seus sentimentos e revelar-lhes que também nós adultos nos preocupamos, pode ser benéfico para que a criança/adolescente se sinta compreendida. Por vezes, quando a criança não se consegue expressar por palavras, podemos sugerir que desenhe ou que conte uma história relacionada com o assunto. Mais importante do que explicar ou fornecer informação sobre a guerra, é ouvir o que a criança queira dizer, espontaneamente, comentar ou questionar. A melhor abordagem é deixar as preocupações das crianças, nas suas próprias palavras, guiar a direção e a profundidade da conversa, mantendo-nos atentos não só ao que não dizem mas também às expressões faciais, aos gestos ou ao tom de voz, pois também podem ser muito reveladores do estado emocional da criança ou adolescente.

Devemos sempre que possível assegurar e repetir às crianças/adolescentes de que estão protegidos e seguros, assim como as suas famílias. Pode também ser benéfico o reforço do contacto físico (ex. abraçar e conter) bem como manter as rotinas habituais. Devemos salientar a esperança e o trabalho e esforço das muitas pessoas que se mobilizaram para ajudar (ex. políticos, médicos, polícias, bombeiros e inúmeros voluntários). Sublinhar estes atos de coragem, bondade e serviço aos outros, recorda às crianças e aos jovens que, apesar de existirem situações de grande adversidade e maldade, também existem sempre atos de humanidade e amor entre as pessoas. No caso das crianças mais novas é importante limitar o acesso à informação veiculada na comunicação social, de modo a evitar que sejam expostas a imagens violentas e a informação desnecessária que as pode perturbar. Tratando-se de crianças mais velhas e adolescentes, podemos optar por assistir às notícias em conjunto, explicando o que não entendem e encorajando-as a dar a sua opinião e a colocar questões. Contudo, estes momentos deverão ocorrer, preferencialmente apenas uma vez por dia.

Independentemente daa nossa opinião sobre a guerra ou os países envolvidos devemos evitar uma linguagem polarizada de “bons” e “maus”. Do mesmo modo, é importante não estereotipar grupos de pessoas pela sua cultura, nacionalidade ou religião. Pelo contrário, esta pode ser uma boa oportunidade para promover a tolerância e a compaixão, o respeito por todos e pela diversidade. Podemos utilizar o momento da conversa para abordar também outros temas, num sentido educativo, como por exemplo, aproveitar para falar sobre como ajudar pessoas que não conhecemos, ou como resolver situações de conflito ou bullying. A conversa poderá ainda servir para monitorizar o stresse a saúde psicológica das crianças/jovens. A guerra pode afetar mais umas crianças do que outras e é natural que umas se sintam mais confusas, perturbadas ou ansiosas do que outras. As alterações duradouras do comportamento e do sono, a preocupação constante com o assunto e o medo da morte, podem constituir sinais de alerta. Ao mesmo tempo, devemos monitorizar também o nosso estado emocional. As crianças e os jovens aprendem a lidar com a adversidade e com o que acontece à sua volta observando a forma como os adultos que os rodeiam o fazem. Devemos aprender a controlar as nossas emoções negativas de forma adaptativa, para que os mais novos possam ter como exemplo, ao modelarem os nossos comportamentos.

Se não pode controlar a situação, controle o que pode – as suas emoções e mantenha a esperança!

Fonte:

Ordem dos Psicólogos Portugueses

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