Os jogos eletrónicos fazem parte do quotidiano de muitas crianças e adolescentes, levantando dúvidas naturais nos pais sobre limites, riscos e impacto emocional. Compreender a diferença entre um uso saudável e um uso problemático é essencial para promover um desenvolvimento equilibrado.
Os jogos eletrónicos fazem hoje parte do universo das crianças e dos adolescentes, sendo uma forma comum de entretenimento, socialização e até aprendizagem. Para muitos pais, esta realidade levanta dúvidas legítimas: quanto tempo é demasiado? Quando é que o jogo deixa de ser apenas diversão e passa a ser motivo de preocupação? A psicologia ajuda-nos a compreender que o problema não está, na maioria das vezes, no jogo em si, mas na forma como este é utilizado e no papel que passa a ocupar na vida da criança ou do adolescente.

É importante distinguir um interesse intenso por jogos, de um padrão de uso problemático. Crianças e adolescentes podem passar fases em que estão particularmente envolvidos num jogo específico, sem que isso signifique uma adição. O sinal de alerta surge quando o jogo começa a interferir de forma consistente noutras áreas fundamentais do desenvolvimento, como o rendimento escolar, o sono, as relações familiares e sociais, ou o bem-estar emocional. A perda de controlo sobre o tempo de jogo, a dificuldade em cumprir limites, a irritabilidade intensa quando o acesso ao jogo é interrompido e a persistência no comportamento apesar de consequências negativas são indicadores que merecem atenção.

Os jogos eletrónicos são desenhados para serem altamente apelativos. Sistemas de recompensas rápidas, objetivos claros e sensação de progressão ativam os mecanismos cerebrais associados ao prazer e à motivação. Em crianças e adolescentes que apresentam maior vulnerabilidade emocional, como a ansiedade, a baixa autoestima, as dificuldades de socialização ou os problemas na gestão da frustração , o jogo pode tornar-se uma forma de fuga às emoções difíceis ou às exigências do dia a dia. Nestes casos, o jogo funciona menos como lazer e mais como uma estratégia de regulação emocional, o que aumenta o risco do uso excessivo.

Para os pais, é fundamental olhar para o comportamento de jogo de forma contextualizada. Mais do que contar horas, importa observar o funcionamento global da criança ou do adolescente. Continua a brincar, a conviver, a interessar-se por outras atividades? Dorme adequadamente? Consegue lidar com a frustração quando perde ou quando o jogo termina? A qualidade da relação da criança com o jogo é, muitas vezes, mais relevante do que a quantidade de tempo despendido.

Quando o jogo já está a causar sofrimento significativo ou conflitos constantes, o acompanhamento psicológico pode ser um recurso importante. A intervenção ajuda não só a criança ou o adolescente, mas também os pais, a compreender o que está por detrás do comportamento, a desenvolver estratégias de autorregulação e a restabelecer um equilíbrio saudável entre o mundo digital e a vida offline. Em muitos casos, o jogo excessivo é um sinal de algo mais profundo que precisa de ser escutado e trabalhado.
Os jogos eletrónicos não são inimigos do desenvolvimento infantil e juvenil. Podem ser uma fonte de prazer, aprendizagem e ligação social. O papel dos pais não é eliminá-los, mas ajudar os filhos a integrar esta atividade de forma equilibrada, consciente e saudável, promovendo o bem-estar emocional e o desenvolvimento global.