Ano Novo, ansiedade velha…

AnsiedadeSentir ansiedade em determinadas situações pode ser comum e normativo. A ansiedade e o medo protegem-nos e podem ser adaptativos, no entanto, se forem em excesso limitam-nos, interferem no nosso dia-a-dia, impedem-nos de cumprir as nossas rotinas, baixam a nossa qualidade de vida e podem mesmo conduzir a outras perturbações como por exemplo a depressão.

Importa diferenciar a ansiedade “normal” de perturbação de ansiedade, uma vez que ter medo ou ficar ansioso é em muitas situações muito adaptativo. Termos medo que um automóvel nos possa atropelar ajuda-nos a dar mais atenção quando atravessamos uma estrada. Ficarmos levemente ansiosos perante um exame académico leva-nos a sermos mais cuidadosos na preparação do mesmo e possivelmente a obter um melhor resultado. No entanto, medo e ansiedade em excesso podem chegar ao ponto de nos impedir de sair à rua com medo de sermos atropelados ou a deixarmos de comparecer no dia do exame por medo de não o conseguirmos fazer. Este tipo de comportamentos são típicos de uma perturbação de ansiedade e não de ansiedade normativa. Deve ser encarado como um problema de saúde psicológica, que de maior ou menor gravidade, sempre que interfere com a funcionalidade do indivíduo, deve ser tratado e não ignorado.

AnsiedadeAs perturbações de ansiedade que surgem muitas vezes ainda durante a infância, se não forem alvo de intervenção, tenderão a perpetuar-se no tempo e a agravar-se, podendo tornar-se muito incapacitantes e obrigando muitas vezes a soluções como a toma de ansiolíticos e antidepressivos. As manifestações de ansiedade exagerada e limitativa da funcionalidade do indivíduo por um período de seis meses traduzem seguramente uma situação com significado clínico, sendo estes os casos em que a intervenção fará toda a diferença.

AnsiedadePara ajudar os que sofrem de perturbações de ansiedade, à semelhança de outro tipo de problemas, é necessário avaliar cuidadosamente o caso. A ansiedade tem diversas faces e para cada uma delas, as técnicas e estratégias de intervenção podem ser distintas. Após a avaliação do caso, podemos concluir que a pessoa tem uma perturbação de ansiedade generalizada, ou seja, uma preocupação excessiva perante uma multiplicidade de situações sem que haja um fator específico que a justifique. Frequentemente a pessoa sente-se perturbada e ansiosa em situações do quotidiano que se relacionam com a família, a escola, o trabalho, a saúde ou as finanças, perspetivando sempre o pior cenário. Outra variante das perturbações de ansiedade é a ansiedade social, que se caracteriza pelo sentimento de medo e aflição perante eventos que envolvem exposição ou avaliação do indivíduo. Falar em publico, atuar para uma plateia, colocar questões ao professor numa sala de aula, reunir com a equipa de trabalho ou com as chefias, podem ser exemplos de situações que muitas pessoas sentem com extremamente ansiogéneas e perturbadoras do seu funcionamento.

AnsiedadeA perturbação de stresse pós-traumático é outra variante e pode desenvolver-se após a vivência de um acontecimento que tenha provocado grande distúrbio no indivíduo, descrito como trauma. A recordação do mesmo ou a associação desse acontecimento a outro, pode desencadear reações de extremo sofrimento. As perturbações fóbicas caracterizadas pelo medo irracional de algo que em consciência sabemos não ser perigoso, é outra das faces das perturbações de ansiedade que pode ser muito limitativa. O evitamento é a estratégia habitualmente mais utilizada pelo indivíduo, que chega a fazer grandes alterações na sua vida, muito desadaptativas, de forma a evitar o elemento fóbico. No caso das crianças (mas não só) é muito comum a perturbação de ansiedade de separação. A pessoa ansiosa sente grande desconforto e a exacerbação dos sintomas de ansiedade cada vez que pensa ou que se vê confrontada com a possibilidade de ter que se afastar, ainda que por pequenos períodos de tempo, dos seus elementos de referência, como pais, cuidadores, parceiros, etc. É de referir ainda as situações de pânico (ataques de pânico) que surgem habitualmente sem causa direta e que podem ocorrer em qualquer momento, manifestando-se com sintomas fisiológicos muitas vezes confundidos pelo próprio com um “ataque de coração” em que a pessoa pensa que vai morrer, levando muitas vezes a uma intervenção química na urgência do hospital.

AnsiedadeE afinal o que sente uma pessoa que tem uma perturbação de ansiedade? Os sintomas mais comuns numa perturbação de ansiedade são a tensão muscular, irritabilidade, tremores, sensação de falta de ar, sudação excessiva, dores de cabeça, náuseas, dores de barriga, fadiga, dificuldade de concentração, inquietação e dificuldades de sono, entre outras. Muitas pessoas têm dificuldade em identificar os sintomas e relacioná-los com a ansiedade, no entanto, se aprenderem a reconhecer os sinais do seu corpo poderão evitar uma escalada dos mesmos, que pode conduzir a situações bem mais difíceis de controlar.

AnsiedadeE porque é que algumas pessoas sofrem este tipo de perturbações? Muitas das perturbações de ansiedade não têm ainda identificada a sua causa, principalmente se nos referirmos às perturbações de ansiedade generalizada. Porém, existem alguns fatores que podem contribuir para o seu desenvolvimento como é o caso da vulnerabilidade genética. A ansiedade e os comportamentos a ela associados também se aprendem, ou seja, pais ansiosos têm comportamentos que são modelados pelos filhos, podendo estes “aprender a serem ansiosos”. A “química” do nosso cérebro parece também contribuir para a relação causa-efeito nas perturbações de ansiedade, na medida em que estas têm sido associadas a um funcionamento irregular dos circuitos neuronais e da neuro transmissão, nas áreas cerebrais envolvidas no processamento do pensamento e controlo das emoções. As substâncias que alimentam estes circuitos (neurotransmissores) parecem sofrer uma desregulação e produzir alterações em indivíduos ansiosos. Outros fatores apontados como causas para as perturbações de ansiedade prendem-se com questões do contexto de vida do indivíduo, ou seja, exposição contínua a eventos causadores de stresse ou traumas. Quer o consumo como a privação de substâncias psicoativas como o álcool, a nicotina ou outras, podem também ser incluídos como determinantes de algumas situações de perturbações de ansiedade. Porém, não são raros os casos em que este tipo de perturbação ocorre sem causa conhecida levando a crer que a vulnerabilidade individual não tem uma causa única e identificada.

CérebroSe se identifica com alguma das situações descritas neste artigo, talvez tenha a ideia de incluir nas suas resoluções de Ano Novo, a procura de ajuda.  Sabendo que as perturbações de ansiedade são um dos problemas de saúde mental mais comuns na população em geral, sabe-se também que são causadoras de um grande sofrimento humano levando ao aumento do consumo de medicamentos, com tudo o que estes têm de bom e de mau. Peça apoio à Sua Psicóloga para avaliar o seu caso, ou o do seu filho, para definir um plano de intervenção de acordo com o diagnóstico e junte-se a ela numa caminhada rumo à tranquilidade.

Ano Novo

Feliz Ano de 2020!

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