Sobredotação, criatividade e aprendizagem

Para que se considere que uma criança é sobredotada, o critério tradicional é que possua um quociente de inteligência – QI igual ou superior a 130, ou seja, elevado. Para isso, as crianças são sujeitas a testes de avaliação psicológica, onde põem à prova as suas competências nas diversas dimensões passíveis de avaliação, como por exemplo a compreensão verbal, a organização percetiva, a velocidade de processamento, entre outras.

A definição de sobredotação pode excluir crianças altamente criativas, cujas respostas pouco típicas e fora do comum fazem diminuir a sua pontuação nos referidos testes. Podem ainda ficar excluídas crianças provenientes de grupos minoritários, cujas habilidades podem não estar bem desenvolvidas, por falta de experiencias, oportunidades e de estímulos, embora possa existir potencial para tal. O mesmo se pode aplicar a crianças com aptidões específicas, que podem ser avaliadas como medianas ou mesmo revelar problemas de aprendizagem, noutras áreas distintas. Assim, foi adotada uma definição mais ampla, que inclui crianças que apresentam alta capacidade ou competência intelectual, criativa, artística ou de liderança em campos académicos específicos, e que necessitam de serviços e atividades educacionais especiais, no sentido de desenvolverem totalmente essas capacidades. O método de avaliação pode abranger critérios múltiplos que incluam resultados em testes de desempenho, desempenho em sala de aula, produção criativa, informação fornecida por pais e professores e entrevistas com os alunos. No entanto o valor do QI permanece como fator importante e muitas vezes determinante.

Parece ser evidente que altos níveis de desempenho requerem forte motivação intrínseca e anos de treino rigoroso. Porém, não é a motivação e o treino que produzem a sobredotação se a criança for dotada de uma habilidade extraordinária e fora do comum. As crianças com dotes inatos, provavelmente apresentam um desempenho excecional sem motivação e sem esforço. As crianças sobredotadas tendem a crescer em ambientes familiares enriquecidos com muita estimulação intelectual e/ou artística. Habitualmente os pais e cuidadores reconhecem as fortes competências da criança e dedicam-se com regularidade a alimentar os seus talentos. Os pais de crianças sobredotadas normalmente têm altas expectativas e são também eles esforçados e empreendedores. Contudo, embora a parentalidade possa estimular o desenvolvimento de talentos, ela não os pode criar se não houver “material de base” preparado para tal. A investigação nesta área sugere que as crianças sobredotadas nascem com cérebros excecionais que permitem uma aprendizagem rápida e extraordinária, num determinado domínio.

A criatividade é um fator muito relevante para o desenvolvimento humano. Pode ser definida como a capacidade de ver o mundo e as coisas sob uma nova e diferente perspetiva ou de produzir algo nunca visto antes, ou ainda, de identificar problemas que os outros não conseguiram identificar, e, encontrar soluções novas e fora do comum. A alta criatividade e o QI elevado não andam necessariamente de mãos dadas. Estudos efetuados na segunda metade do século XX identificaram dois tipos de pensamento: o pensamento convergente e o divergente. O primeiro, que é medido pelo QI e procura uma única resposta correta. O segundo gera uma ampla série de novas possibilidades. Existem testes de avaliação (ex. Teste do Pensamento Criativo de Torrance) que avaliam a capacidade de ver as coisas de uma maneira nova, de produzir inovações, ou de reconhecer problemas não identificados e encontrar soluções inovadoras. O pensamento convergente visa encontrar a resposta correta para um problema. O pensamento divergente produz uma variedade de possibilidades novas e diferentes.

Uma possível razão para que criatividade e desempenho académico nem sempre estejam associados, é o facto de que as características de personalidade relacionadas com a criatividade, geralmente são vistas pelos educadores de forma negativa. A criança apresenta respostas, alternativas ou soluções fora do comum, que não “encaixam” na norma e que podem ser desvalorizadas ou rejeitadas por essa mesma razão. Há que abrir os horizontes educativos e dar espaço para que a diferença possa ser mais valorizada e aceite. Guiadas pela curiosidade, as crianças podem ser incentivadas a pesquisar e a tornarem-se elas mesmas em agentes da aprendizagem. O professor não é o detentor do conhecimento mas sim um mediador. As crianças ao serem envolvidas na pesquisa e apresentação de temas importantes para si, acabam por desenvolver a imaginação, o gosto pela descoberta e a criatividade, aumentar a sua motivação e aprender mais e melhor.

Ofereça experiências ricas, permita soluções inovadoras, aceite diferentes perspetivas!

Fonte:

Papalia, D. E., Olds, S. W. & Feldman, R. D., (2013). O desenvolvimento humano. Lisboa: McGrow Hill.

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