Há qualquer coisa em setembro que nos convida a recomeçar. Terminam as férias, regressam os horários, as obrigações escolares e laborais, reorganizam-se agendas e, quase sem darmos conta, começamos muitas vezes a pensar no que gostaríamos de mudar. Mas será mesmo necessário entrar em setembro com uma nova versão de nós próprios?Essa necessidade de mudança não põe muita pressão no recomeço?
Embora janeiro seja tradicionalmente o mês associado aos grandes recomeços, setembro pode também representar um momento particularmente propício à mudança e à reorganização. O final do verão e o regresso às rotinas funcionam como uma espécie de marco temporal, separando aquilo que ficou “antes das férias” do período que agora começa. A investigação em Psicologia descreve precisamente este fenómeno como fresh start effect — efeito de novo começo. Determinados momentos, como o início de um ano, de um mês ou de uma semana, um aniversário ou o começo de um novo ciclo, podem aumentar temporariamente a motivação para estabelecer novos objetivos e introduzir mudanças nas nossas vidas (Dai, Milkman & Riis, 2014).
A experiência de tristeza faz parte da vivência humana e surge naturalmente em resposta a acontecimentos difíceis, perdas ou períodos de maior vulnerabilidade emocional. Contudo, existem situações em que o humor persistentemente baixo deixa de ser apenas uma reação transitória e passa a constituir um padrão prolongado de funcionamento psicológico, influenciando de forma significativa o bem-estar, a motivação e a perceção de si próprio. É neste contexto que surge a distimia, atualmente designada no Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders — Fifth Edition, Text Revision (DSM-5-TR) como Perturbação Depressiva Persistente (American Psychiatric Association, 2022).
A distimia caracteriza-se pela presença de um humor deprimido crónico, persistente durante longos períodos de tempo — geralmente durante pelo menos dois anos nos adultos. Ao contrário daquilo que frequentemente acontece na depressão major, os sintomas podem apresentar menor intensidade, mas tendem a assumir um caráter contínuo e duradouro (Klein & Santiago, 2003). Muitas pessoas descrevem sentir-se “sempre em baixo”, desmotivadas, pessimistas ou emocionalmente cansadas, mesmo quando conseguem manter o funcionamento profissional, académico ou familiar.
A autoestima e as inseguranças influenciam de forma significativa a forma como cada pessoa se percebe e se relaciona com os outros. A psicologia integrativa permite compreendê-las como processos dinâmicos, moldados pelas experiências emocionais e relacionais ao longo da vida.
A autoestima e as inseguranças pessoais desempenham um papel central na forma como cada pessoa se percebe, se relaciona e responde aos desafios da vida quotidiana. Embora muitas vezes sejam entendidas como traços individuais relativamente estáveis, a psicologia contemporânea tem vindo a demonstrar que a autoestima é um processo dinâmico, profundamente influenciado pelas experiências emocionais, relacionais e contextuais ao longo do ciclo de vida. A partir de uma perspetiva da psicologia integrativa, compreende-se que a construção do valor pessoal resulta da interação entre fatores cognitivos, emocionais, relacionais, corporais e socioculturais, não podendo ser explicada de forma linear ou simplificada.
De forma geral, a autoestima pode ser definida como a avaliação subjetiva que a pessoa faz do seu próprio valor, integrando crenças sobre si mesma, emoções associadas a essas crenças e padrões comportamentais que delas decorrem. Uma autoestima saudável não corresponde a uma perceção idealizada ou inflacionada do self, mas sim a uma relação interna mais realista, flexível e compassiva, que reconhece tanto as competências como as limitações pessoais (Rosenberg, 1965). Na prática clínica, observa-se que a autoestima pode variar significativamente consoante os contextos, os papéis desempenhados e a qualidade das relações interpessoais, o que reforça a importância de uma abordagem compreensiva e integradora.
As inseguranças surgem frequentemente associadas a experiências precoces de vinculação, a contextos de validação emocional inconsistente, a críticas repetidas ou a vivências de rejeição. Estas experiências podem contribuir para o desenvolvimento de esquemas cognitivos centrais relacionados com sentimentos de inadequação, desvalor ou medo de abandono, influenciando a forma como a pessoa interpreta a realidade e se posiciona nas relações (Young, Klosko & Weishaar, 2003). Contudo, numa perspetiva integrativa, as inseguranças não são encaradas apenas como fragilidades ou défices individuais, mas também como estratégias adaptativas que, em determinado momento do desenvolvimento, tiveram uma função protetora. O sofrimento psicológico tende a emergir quando estas estratégias se tornam rígidas e continuam a operar em contextos onde já não são necessárias, limitando a espontaneidade, a autonomia e o bem-estar emocional.
A psicologia integrativa, ao articular contributos da Terapia Cognitivo-Comportamental, das abordagens humanistas, da teoria do apego, das terapias focadas nas emoções e de perspetivas psicodinâmicas contemporâneas, permite uma compreensão mais ampla da autoestima e das inseguranças. Esta abordagem possibilita intervir ao nível das crenças centrais sobre o self, da relação com as emoções, dos padrões de vinculação e das experiências corporais associadas à vivência emocional, sem descurar o impacto do contexto familiar, social e cultural na construção do valor pessoal (Norcross & Goldfried, 2019). Desta forma, o trabalho terapêutico não se centra apenas na modificação de pensamentos negativos, mas na integração das diferentes dimensões da experiência psicológica.
O conceito de autocompaixão tem assumido particular relevância nas abordagens integrativas à autoestima. A autocompaixão refere-se à capacidade de se relacionar consigo próprio com compreensão, gentileza e responsabilidade emocional, especialmente em momentos de falha, limitação ou sofrimento. A investigação científica indica que níveis mais elevados de autocompaixão estão associados a maior bem-estar psicológico e a uma autoestima mais estável, menos dependente da validação externa, do desempenho ou da comparação social (Neff, 2003). Neste sentido, fortalecer a autoestima não implica eliminar inseguranças, mas aprender a reconhecê-las e a integrá-las numa relação interna mais segura e menos punitiva.
A partir de uma perspetiva da psicologia integrativa, a autoestima é compreendida como um processo em constante construção, influenciado por múltiplas dimensões da experiência humana. As inseguranças, longe de definirem a identidade da pessoa, podem tornar-se oportunidades de autoconhecimento e crescimento psicológico quando abordadas num espaço terapêutico seguro, validante e integrador. Promover uma autoestima saudável implica criar condições internas e relacionais que permitam à pessoa reconhecer-se como válida, digna e suficientemente boa, no seu percurso singular.
O acompanhamento psicológico pode constituir um espaço privilegiado para explorar estas questões, promovendo uma relação mais consciente, equilibrada e compassiva consigo próprio, bem como uma maior liberdade emocional nas relações com os outros.
Referências:
Rosenberg, M. (1965). Society and the adolescent self-image. Princeton University Press. Young, J. E., Klosko, J. S., & Weishaar, M. E. (2003). Schema therapy: A practitioner’s guide. Guilford Press. Neff, K. D. (2003). Self-compassion: An alternative conceptualization of a healthy attitude toward oneself. Self and Identity, 2(2), 85-101. Norcross, J. C., & Goldfried, M. R. (2019). Handbook of Psychotherapy Integration (3rd ed.). Oxford University Press.