Há qualquer coisa em setembro que nos convida a recomeçar. Terminam as férias, regressam os horários, as obrigações escolares e laborais, reorganizam-se agendas e, quase sem darmos conta, começamos muitas vezes a pensar no que gostaríamos de mudar. Mas será mesmo necessário entrar em setembro com uma nova versão de nós próprios? Essa necessidade de mudança não põe muita pressão no recomeço?
Embora janeiro seja tradicionalmente o mês associado aos grandes recomeços, setembro pode também representar um momento particularmente propício à mudança e à reorganização. O final do verão e o regresso às rotinas funcionam como uma espécie de marco temporal, separando aquilo que ficou “antes das férias” do período que agora começa. A investigação em Psicologia descreve precisamente este fenómeno como fresh start effect — efeito de novo começo. Determinados momentos, como o início de um ano, de um mês ou de uma semana, um aniversário ou o começo de um novo ciclo, podem aumentar temporariamente a motivação para estabelecer novos objetivos e introduzir mudanças nas nossas vidas (Dai, Milkman & Riis, 2014).

Setembro parece produzir um pouco esse efeito. Depois de algumas semanas com horários diferentes, maior flexibilidade e, para muitas pessoas, algum afastamento das exigências profissionais e escolares, regressar pode criar a sensação de que se abre uma nova página, e isso pode ser positivo. Podemos aproveitar este momento para observar a nossa vida com alguma distância e perguntar: o que quero manter? O que gostaria de fazer de forma diferente? O que deixou de fazer sentido para mim?

A dificuldade surge quando o desejo de reorganização se transforma numa exigência de transformação. De repente, setembro pode significar voltar ao exercício físico, perder peso, comer melhor, ser mais produtivo, organizar a casa, estar mais presente para os filhos, cuidar da relação, dormir melhor, reduzir o tempo no telemóvel, ler mais e trabalhar melhor, erc., e se possível, tudo ao mesmo tempo. Aquilo que poderia representar renovação transforma-se então facilmente em pressão e autocobrança.

Definir objetivos pode favorecer a motivação e orientar o comportamento, sobretudo quando as metas são claras, específicas e realistas (Locke & Latham, 2002). No entanto, querer alterar demasiadas áreas da vida simultaneamente pode produzir precisamente o contrário: uma sensação permanente de que não estamos a fazer o suficiente. Talvez seja, por isso, mais útil substituir a pergunta “O que tenho de mudar em setembro?” por outra: “Do que preciso nesta fase da minha vida?”

Para algumas pessoas, a resposta poderá ser recuperar rotinas. Para outras, descansar mais. Para outras ainda, estabelecer limites, voltar a cuidar de uma relação importante, procurar apoio, retomar uma atividade de que gostam ou simplesmente reduzir o nível de exigência com que vivem os seus dias. Não existe uma forma única ou correta de recomeçar.

Também é importante lembrar que a motivação inicial, embora importante, nem sempre é suficiente para consolidar uma mudança. Grande parte dos nossos comportamentos quotidianos está associada às rotinas e aos contextos em que vivemos. A investigação sobre os nossos hábitos mostra que estes se constroem através da repetição e da associação entre determinados comportamentos e os contextos em que ocorrem (Wood & Neal, 2007). Por isso, mudanças pequenas e sustentáveis podem ser mais eficazes do que grandes revoluções difíceis de implementar e de manter.

Caminhar vinte minutos algumas vezes por semana pode ser mais realista do que decidir fazer exercício diariamente. Deitar meia hora mais cedo pode ser mais exequível do que alterar completamente a rotina do sono. Reservar um período semanal sem trabalho pode representar uma mudança importante sem exigir uma reorganização total da vida. Pequenos passos não significam falta de ambição; muitas vezes, são precisamente aquilo que permite que uma mudança se mantenha ao longo do tempo.

E haverá dias em que não conseguiremos cumprir tudo aquilo a que nos propusemos. É precisamente nesses momentos que importa evitar transformar uma dificuldade numa avaliação negativa de nós próprios e do nosso desempenho. A autocompaixão implica reconhecer os nossos limites, erros e dificuldades sem responder imediatamente com crítica e dureza, adotando uma atitude mais compreensiva perante a própria experiência (Neff, 2003). Isto não significa desistir dos objetivos ou justificar tudo aquilo que fazemos, mas perceber que a mudança raramente acontece de forma linear.

Recomeçar não significa fazer tudo bem a partir de agora, nem apagar aquilo que aconteceu antes. Podemos entrar em setembro levando connosco aquilo que aprendemos, as dificuldades que atravessámos, aquilo que conseguimos e também aquilo que ainda não conseguimos resolver. Talvez o verdadeiro valor psicológico de setembro esteja precisamente aí: não na obrigação de nos tornarmos diferentes, mas na oportunidade de parar, observar e escolher com maior consciência a forma como queremos continuar.

Um novo começo não precisa, portanto, de ser uma revolução. Às vezes, começa apenas com uma pequena mudança suficientemente importante para tornar os nossos dias um pouco mais próximos da vida que queremos viver.
Referências Bibliográticas:
Dai, H., Milkman, K. L., & Riis, J. (2014). The fresh start effect: Temporal landmarks motivate aspirational behavior. Management Science, 60(10), 2563–2582.
Locke, E. A., & Latham, G. P. (2002). Building a practically useful theory of goal setting and task motivation: A 35-year odyssey. American Psychologist, 57(9), 705–717.
Neff, K. D. (2003). The development and validation of a scale to measure self-compassion. Self and Identity, 2(3), 223–250. Wood, W., & Neal, D. T. (2007). A new look at habits and the habit–goal interface. Psychological Review, 114(4), 843–863.